Bálsamo.


Lá vou eu novamente, voltar a escrever, vomitar aquilo que não sai de mim.


Hoje é dia 28 de janeiro de 2021 às 20h28min da noite.


É muito engraçado quando achamos que nada vai nos tirar dos trilhos, ainda mais quando se trata de um amor. Quem me viu me apaixonando não acreditou, pois conhecia como eu era. Eu só ficava, sem sentimentalismo. Só deixava as pessoas se apaixonarem por mim, mas nunca me entreguei de verdade para alguém.


Me abrir para uma pessoa é de extrema dificuldade. Falo em abrir minha alma, minha intimidade, de dentro, onde só eu conheço, as vezes nem eu mesma me conheço.


É muito fácil alguém supor coisas sobre mim quando eu me abro de uma forma, uma forma que sou eu também, mas de forma rasa, sem mostrar as minhas profundezas.


Hoje à noite me bateu aquele aperto no coração. O que está acontecendo? É uma coisa tão nova que evoluiu no meu ser, que não estou sabendo lidar. Queria que fosse fácil, vomitar e sair tudo.


Me lembro que a própria pessoa inseriu esses sentimentos em mim de uma forma que está me corroendo. Fez com que todo o seu ser se encontrasse com o meu. A sua fumaça entrando em contato com meu interior, passando a se fixar em meu ser. E como tirar algo que foi colocado com tanto sentimentalismo, amor, tirando de si o seu ser para se unir ao meu?! Tomando espaço em mim, me tomando por inteira, me levando em lugares onde nunca me arrisquei a pisar. Estava pisando em cacos sem me preocupar se me machucaria, pois quem estava segurando minha mão tinha uma energia que era envolvente, agradável. Que tomou meu ser.


E o mesmo saiu da minha vida com destreza, sem ao menos pegar o seu ser de mim, sem me desintoxicar. Deixou-me parada no tempo sem saber o que ia fazer. Não teve nem a elegância de conversar e de me dar um último abraço. Saiu sem olhar nos meus olhos, sem ser aquela pessoa que tanto me apaixonei que me encantou por gostar de se comunicar, de resolver as coisas no diálogo.


Para não falar que não houve um aviso prévio, tinha um. Um que dizia não ter uma data para acabar. Era medo, insegurança, incerteza. Mas quando a validade desse aviso chegou ele desistiu de me comunicar, deixou esse aviso por 23 dias e antes desses 23 dias... Saiu fora. Sem argumentos plausíveis, com uma simples justificativa. Justificativa que não era dele, que não englobava nada do que vivemos, que não se preocupou em me magoar, que não se preocupou com meus sentimentos. Simplesmente foi frio e maléfico por não pensar nos meus sentimentos, como eu iria reagir. Esqueceu-me de uma forma que doeu, que machucou.


E o ser que há em mim... Dói, me destrói.


Quem sou eu depois disso tudo?


Eu sou várias. Uma que tenta se encontrar, que tenta se ter novamente, que tenta tirar esse ser que me possuiu de tal maneira que deixou marcas. Uma destruição de puro amor, companheirismo, lealdade, de comunicação, que no final havia jogado tudo pela janela.


Como me juntar? Como voltar a minha essência? Será que um vaso quebrado se conserta? Até pode, mas terá todas as partes? Até um pequeno pedacinho?


Senti-me quebrada, sem ter o que fazer. Deixei-me levar pelas loucuras da vida. Deitar com outros corpos para ver se voltava a me encontrar. Beber para ver se conseguia minha essência novamente. Tentei sair de casa para ver se conseguia tirar o que doía. Nada disso adiantou. No entanto isso me fez ver quem eu sou, e quem eu posso ser. Ainda tenho o ser dentro de mim, que me leva a ter dias bons ou ruins, memórias que me alegram, mas que logo em seguida me deixam triste. Sucumbi.


O que fazer para tirar isso de dentro de mim, será que essa forma de escrever será válida? Vai trazer benefícios? Não sei, mas é um jeito de me recordar, de colocar minha angústia, abrir o que só fica na minha cabeça.


A saudade bate na porta, o coração aperta, as lembranças vêm, os seus gestos, expressões faciais me vem à cabeça, o jeito de levar a vida, o compartilhamento da experiência, o calor que nos envolvia, o entrelaço das mãos, os carinhos. Nunca deixamos de nos tocar, de nos acariciar. As mãos que carregavam toda energia e transpassava o amor. Um gesto simples a outros olhos, que tinha uma grande riqueza para duas pessoas, que tinham fórmulas de falar, que amavam, que se preocupavam. Os sentimentos eram compartilhados, os choros eram vividos, emoções eram demonstradas. O coração apertava quando eram situações que envolviam o particular, o particular de cada um. Soubemos entender e respeitar.


O que é de se assustar é que tudo o que aconteceu foi em pouco tempo. Algumas pessoas podem achar que isso tudo ocorreu por anos. Mas foram só 75 dias. Não podemos comparar as coisas por tempo de relacionamento, mas sim por conexão, por sentimento, pois tudo aconteceu tão rápido. Eu fiquei com medo, achei que era loucura da minha cabeça, que em duas semanas já estávamos gostando um do outro.


Falando disso me veio a lembrança de uma sexta feira em que o encontrei. Já contava para minha amiga que estava gostando, que não sabia o que estava acontecendo comigo, pois estava tão cedo para gostar realmente de alguém, que simplesmente não conhecia direito. Mas em uma manhã em que ele se sentiu à vontade de me ver antes de ir trabalhar me deixou feliz, pois ali ele disse que estava gostando de mim, que já havia se questionado com um amigo dele, que achava que estava muito cedo em falar que gostava de uma pessoa que ele mal conhecia.


Nós dois tínhamos os mesmos anseios, e compartilhávamos do mesmo sentimento, o qual só foi possível de ser descoberto quando nos comunicamos, quando ele falou o que estava sentido. Lembro que quando ele disse, fiquei tão feliz, pois eu estava sentindo a mesma coisa, não estava sentindo sozinha. Isso me assustava às vezes, pois tínhamos uma conexão tão grande que compartilhávamos sem ao menos nos comunicar. Era uma exuberância que não sabia o que acontecia, e o porquê.


Era algo que eu nunca havia sentido e nem compartilhado com outra pessoa, eram coisas novas que me traziam um conforto, uma esperança. Coisas que nem consigo explicar direito, pois era tão forte que uma vez esses sentimentos nos fizeram chorar, nos fizeram ter medo, nos fizeram pensar em um dia nos magoar. E esse choro veio para os dois, estávamos tão conectados que as lágrimas saiam sincronizadas. Como explicar esses eventos? Como explicar que os mesmo anseios eram compartilhados sem ao menos dizer uma palavra? Chorar de soluçar, por uma perca que não existia no momento, mas que poderia existir no futuro.


Por que nós dois estávamos compartilhando desse mesmo sentimento?! São coisas que não consigo explicar, que só consigo voltar naquele momento, momento de sofrimento, momento que me marcou no qual conversávamos em prantos, mas que conseguimos por um momento tentar pensar no que estava acontecendo, no agora. Nessas horas de choro eu tentava amenizar e me controlar, para pensar no que tínhamos no momento, para desfrutar de cada momento, cada segundo. Isso às vezes era para nós. Mas quando eram choros por outros motivos, o melhor a fazer era nos abraçar, pois ficávamos sem saber o que fazer, e um abraço sempre era bom.


A gente também compartilhava várias coisas engraçadas, isso me fez rir só de lembrar, das loucuras, da inventação de moda. É aquela história, dois desajuizados não dão certo para certas coisas rsrs. Mas foi algo legal que se transformou em boas memórias, algo que não tem como se repetir, pois foi único. Nessas loucuras eu até falei que amava sem ter medo do que ia acontecer, mas havia me sentido segura para falar. Algo que queria ter falado bem antes, mas que tinha medo, pois estávamos juntos há tão pouco tempo.


Mas aprendi que não se tem um tempo certo, se tem um sentimento certo. Aquela conexão que envolve, os sorrisos, o encanto pelas coisas. Ah que saudade que deu de ficarmos deitados no sofá compartilhando uma notícia de jornal ou uma curiosidade, de conversar sobre o dia, ou até mesmo sobre o que gostávamos de comer.


Sobre comida, tem uma história que me faz até rir. Um dia nós dois tivemos um desejo absurdo de comer crepe suíço. Isso mesmo, eu e ele queríamos comer crepe suíço. E onde a gente ia achar? Nem me lembro que horário era e nem o dia, mas não sabíamos onde comer esse crepe, até eu lembrar que na minha casa tinha uma misteira de crepe, mas só fui lembrar no outro dia. Essa é uma de muitas lembranças boas.


É tão bom perceber que as memórias que me levam ao encontro do amor, não são na saudade do ato sexual, no desejo da carne, que não ficam atreladas a isso, pois o que vivemos foi muito além disso.


Serei muito ingênua se eu falar que o sexo não era algo importante, que não estava presente, pois estava, e como estava presente. Pois era dele também que compartilhávamos das nossas intimidades, que realizávamos nossas fantasias, que animávamos a relação. Ele me deixou viciada no ato, quando fazíamos amor ou um sexo com amor e desejo, não tinha nada melhor que isso, e é outra marca que me dói, como era gostoso compartilhar, ver os desejos, o contato pele a pele. O nosso sexo nos conectava muito, de uma intensidade enorme, não sei nem como explicar. Parecia que quando ele me penetrava estava entrando dentro de mim, (claro que ele estava entrando dentro de mim, mas era de outras formas), estava me tomando para si, era uma sensação tão gostosa. Eu poderia ser o que eu quisesse, que quem estava comigo era ele, o sexo com amor que envolvia beijos intensos, o coração conectado, era uma coisa de outro mundo. Pausa para as lembranças.....


Não sei para que fui tocar nessa parte, estava tendo tantas lembranças que me deixavam com um sorriso no rosto, para chegar nesse momento e me machucar. Definitivamente coloquei o dedo onde mais dói, na qual o ato de se despir mostrava nossa vulnerabilidade, nos encontrávamos, eram o corpo e a alma em total conexão, eram sentimentos e energias tão fortes. É algo que ao mesmo tempo é bom de reviver, mas que machuca, pois sei que não terei nada disso, não terei esse ardor.


Fiquei presa a essa lembrança, nem consigo me pegar para pensar nos filmes que assistíamos juntos, ou no ato de dormir, posso escrever, mas a cabeça está nas intimidades, no calor, no desejo, no carinho, no toque, nos beijos, na barba passando pelo meu pescoço, no olhar tão profundo, onde tudo ao nosso redor sumia.


O que o amor é capaz de fazer com uma pessoa. Eu mesma não acredito que estou tão machucada assim. Eu que evitei amar por tanto tempo, por saber que relacionamentos na minha família machucam, são abusivos, violentos, que isso sempre me causou medo, pois não quero ter esse dedo podre que minha família tem.


Até os meus 20 anos evitei qualquer contato a mais com uma pessoa, analisava o jeito, via se teria os estereótipos que perseguem a minha família, e sempre sai a qualquer manifestação de algo que não desejava. Posso falar que meu primeiro relacionamento abriu as portas para me arriscar no amor, talvez, ainda é algo que deve ser pensado, pois na época não estava nos meus melhores momentos, ao me referir a ela, vejo como se tudo fosse um borrão preto, e essa primeira pessoa a qual me relacionei foi bom, pois havia uma companhia, havia alguém que se importava comigo, que queria me ver bem. Então foi algo que me ajudou em um momento complicado da minha vida.


Mas quando conheci a pessoa que me deixou totalmente desequilibrada, desencadeou um sentimento que só tive pela minha irmã mais nova. Foi algo que não estava esperando e que chegou rápido. Que me transformou, me mostrou o que é sentir o amor, o que são as borboletas no estômago. Que me fez ver a vida de outra forma. Todas as minhas angústias, os meus medos foram embora. Nem pensei na raiz ruim que tenho na minha família.


Só me entreguei. Só me permiti sentir. Por uma vez silenciei a voz que recusa qualquer forma de amor. Comecei a demonstrar, comecei a fazer carícias, coisas que não sou de fazer. Isso me remeteu a duas amigas que estranharam, pois nunca fui carinhosa, de demonstrar afeto. Quando fiz carinho nelas elas não entenderam nada. Mas o amor amoleceu essa parte rígida que tinha em volta de mim, essa casca dura que na verdade penso que não era nada dura.


É tão impressionante o que uma pessoa pode fazer em sua vida, mesmo que ela não tenha esse propósito, mesmo quando as duas pessoas só queriam um simples sexo e nada de envolvimento.


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