Capítulo 1

Belo Horizonte, agosto de 1918

O frio castigava a noite da jovem capital mineira. Uma neblina tenebrosa ocupava as ruas desertas, iluminadas por postes de luz elétricos, criando com seu brilho uma atmosfera ainda mais estranha, assustadora para um lugar tão moderno e, ao mesmo tempo, vazio. O silêncio mortal só era quebrado por latidos de cachorro que, vez ou outra, ecoavam pelos quatro cantos da pacata cidade, que ainda engatinhava nas primeiras décadas do século XX.

A quietude era a lei, mas nem tudo ali emanava marasmo e melancolia durante o breu noturno. Em alguns cabarés e bares, mesmo fingindo estar de portas fechadas para não incomodar os mais atenciosos aos bons costumes, a vida pulsava, respirando com a fumaça dos cigarros o som de gramofones, pianos e cantoras, regada à forte bebida. Um ar de Belle Époque que, aos poucos, desaparecia, à medida que a cidade envelhecia e amadurecia. Passadas quase duas décadas do novo século e, vendo de longe o horror da guerra no Velho Continente, a crença no progresso ainda dava os seus suspiros nesses lados do Atlântico.

Foi desse ambiente divertido, que não conhecia horário para terminar, que a polícia arrancou o médico João Augusto, doutor formado na Europa e que há pouco regressara à sua terra natal para estabelecer um consultório. Bebia e cantava com alguns amigos, num cabaré próximo à estação ferroviária, quando dois policiais surgiram atrás dele. A princípio, todos os convivas estranharam a chegada dos oficiais ao recinto, acreditando que apareceram ali para fechar o estabelecimento e acabar com a balbúrdia. Motivo da fúria de sua dona, uma senhora francesa famosa por ser responsável pela diversão noturna dos rapazes da cidade. Mas, para o alívio de todos, apenas o tal médico era solicitado a acompanhar os dois homens fortes e de bigodes pomposos, chamando-o para os seguir ao cabriolé que conduziria João Augusto até o delegado.

— O que o Senhor Alvim quer dessa vez? – Protestou João, numa voz desanimada. — A essa hora da noite, só deve ser tragédia!

— E é, doutor! – Respondeu um dos policiais com cautela e medo estampado no rosto. — Mas é melhor o senhor ver por si mesmo – estremeceu o bigode só de pensar no motivo de cruzarem a cidade até o jovem e elegante médico.

João acomodou-se no assento estofado do veículo, pegou um cigarro da cigarreira de prata e o acendeu. Vestia-se como um cavalheiro arrumado para uma ocasião especial: cartola, luvas, bengala e um sobretudo que o protegia do frio congelante da cidade encravada nas montanhas. Os cascos do cavalo batiam contra o calçamento das ruas, ecoando pelo vasto deserto e ajudando a aumentar a tensão. João Augusto estava curioso para descobrir o que obrigava o delegado a chamá-lo com tanta urgência. Cruzou as pernas e, com a mão que estava livre, começou a dedilhar os dedos enluvados sobre o joelho, um tique que fazia sempre que sua mente queria se concentrar e focar no trabalho. O que poderia ter acontecido? Seu raciocínio matemático fervilhava, pensando nas mais inúmeras hipóteses.

O cabriolé cruzou a ponte sobre o córrego do Acaba mundo, passando pelo prédio do Fórum e sentindo o calçamento da rua falhar e o cascalho anunciar que deixavam o lado civilizado e organizado da cidade. Algum tempo depois, as casas também minguavam. O último sinal de construções foi a vila operária e, depois que passaram por ela, nada mais havia além da escuridão da noite e a densa neblina, parcamente entrecortada por um ou outro poste de luz distante. Mais um tempo de trajeto e o cavalo parou, no meio do nada. Já com os lampiões acesos nas mãos, os policiais convidaram o médico a descer.

— Por aqui, doutor... um deles lhe indicou o caminho na densa noite.

João sentiu um frio ainda mais intenso que o da baixa temperatura. Era algo angustiante, desconhecido, que trazia o medo até aos mais corajosos. Tudo ali era dúvida e mistério, num cenário digno dos livros de terror mais apavorantes, lembrando a própria Transilvânia do Drácula de Bram Stoker. Sabia que estava prestes a se deparar com algo de assombrar os olhos e engoliu em seco, jogando o cigarro no chão e segurando a bengala com força, impedindo-a de tocar o solo, preparado para usá-la como arma, caso fosse necessário.

Andava com cada vez mais cuidado e apreensão. A luz dos dois lampiões dos policiais à sua frente já não era suficiente para indicar nada que lhe pudesse trazer segurança. Era como se tudo desaparecesse na neblina. João hesitava, temendo ser aquilo uma emboscada. Não seria a primeira vez que sujeitos vestidos como oficiais preparavam armadilhas para roubar e matar, já tinha lido coisas parecidas nos jornais. Julgou-se idiota por ter acatado tão facilmente o pedido daqueles sujeitos para segui-los. Temia pela própria vida e olhava para trás, preparando-se para correr o quanto antes e buscando as luzes da cidade como guia. Mas tudo que encontrava ao seu redor era a escuridão e o maldito frio que impedia até mesmo a reação dos seus músculos diante de qualquer ameaça.

— Aonde estamos indo, senhores? Perguntou, com a voz trêmula.

— Está com medo, doutor? – A voz de um dos que o acompanhavam ecoou na noite. João já não sabia quem era o dono dela. — O senhor ainda não viu nada.

Mais passos cautelosos, até que, não muito distante, pontos amarelos se destacavam na neblina branca. Eram outros focos de luz que, aos poucos, revelavam mais silhuetas de pessoas encobertas por sobretudos e chapéus. Não era possível saber quem eram e João apertou ainda mais a bengala na mão, esperando o momento exato para correr dali e lutar por sua vida. Não era possível que fora tão ingênuo e caíra num golpe daquele tipo. Era cada vez mais óbvio que não teria sido o delegado o responsável por chamá-lo até um lugar tão macabro. Deu um passo para atrás, tentando se esconder no meio da escuridão e da névoa.

— Finalmente voltaram! – A voz familiar levou embora parte da tensão, mas não foi capaz de lhe trazer total segurança. — Trouxeram o médico?

— Sim, senhor! – Os dois lampiões se voltaram para João, cuja silhueta vacilava sob a luz bruxuleante.

— Doutor!

— Abelardo! – João respirou aliviado ao ver o delegado se revelar. Ele levantava o lampião que segurava para ver melhor o médico. — O que está acontecendo aqui? – Perguntou João Augusto, ainda com a expressão temerosa no rosto.

— Preciso do senhor, doutor! Acredito que seja o único capaz de lidar com o que está prestes a ver...

O delegado o puxou pelo braço. João ainda hesitava, mas seguia os passos do seu guia até o grupo de policiais que conversavam entre si. Eram uns cinco que também seguravam lampiões, e se silenciaram quando puderam ver a nova presença entre eles. — O médico negro – cochichou um deles. Entretanto, qualquer sussurro naquele local ecoava assustadoramente. João Augusto ignorou o comentário, dando atenção apenas ao delegado que começava a falar com certa cautela e com o medo pausando suas palavras:

— Não sei que alma é capaz disso. Alguns dizem que é obra do demônio! – Era visível a tentativa do oficial de achar coragem para continuar o seu trabalho.

— Não existem demônios, senhor delegado. O que se trata de tão ruim assim? – João tentou ser racional.

— Veja com os seus próprios olhos, doutor – o delegado parou diante de uma frondosa mangueira e ergueu o lampião para que João Augusto pudesse ver.

O médico estremeceu e deu dois passos para trás, tentando não cair sobre o chão frio e úmido. Seus olhos se arregalaram e a boca caiu, incapazes de acreditar no que presenciavam. Ainda boquiaberto, fitou o delegado que o fez caminhar para ainda mais perto, para que pudesse examinar com detalhes a perversidade que se descortinava diante deles.

— Mas o que é isso? – João soltou, fazendo sua voz explodir no meio da vastidão da escuridão e do nada.

— Eu não sei! O senhor está aqui para me ajudar a entender quem pode fazer uma coisa absurda dessas...

— Eu? C-como... E-eu...

— Acredito que sim. O primeiro médico que chamei se recusou a ficar aqui e está em choque. O senhor estudou na Europa, é mais esperto que esses caipiras...

— M-mas... – João olhou mais uma vez em direção à árvore.

— Aproxime-se mais, doutor. Veja os detalhes... Nem meus policiais tiveram coragem de ir além daqui. A covardia, ou a prudência, impedem-lhes de prosseguir...

João tomou o lampião da mão do delegado e caminhou com dificuldade até o grosso tronco da mangueira. Havia sangue por todo o chão e seus sapatos se sujaram com a terra e o líquido viscoso que brilhava sob a luz do fogo. Aproximou-se um pouco mais e pode sentir o cheiro da morte. Diante de si, um corpo jazia, crucificado como Nosso Senhor, completamente nu, com os olhos furados, a boca sangrando, o pênis mutilado e uma cruz invertida rasgada em seu peito. O médico voltou-se para o delegado, com espanto. Quis sair dali, mas Abelardo o impediu:

— Ainda não acabou... Veja o que está entre o corpo e a árvore, doutor.

Encravado entre as nádegas da vítima, um crucifixo gotejava sangue, esparramando como um rio o rubro líquido do morto. Seus pés permaneciam soltos, inertes e pendurados como o resto do corpo pelos pregos nos pulsos que o sustentavam naquela posição.

— Que horror! – João contorceu o rosto, como se quisesse segurar o vômito que logo poderia sair. Com a mão tremendo, pegou um cigarro e o acendeu. — E o que o senhor quer que eu faça? Que tire dali aquela cruz? – Gritou, ultrajado por ter sido obrigado a ver um corpo naquela situação.

— Também... – o delegado tirou um cigarro do bolso e o colocou entre os pelos do farto bigode. — Quero que me ajude a entender a razão disso e... – Tragou e hesitou, olhando em direção à escuridão que, agora, cobria a vítima.

— E?

— Isso não pode chegar à imprensa. Não quero jornais anunciando isso na nossa cidade!

— Como? O que o senhor quer? Quer que eu esconda esse corpo violado? – Gritou mais uma vez.

— Esconder? Não! Discrição, doutor... – tragou o cigarro novamente, com uma frieza tão assustadora quanto à cena ao seu redor.

— Como vocês o acharam aqui nessa escuridão? – João segurava o descontrole, mas a cena era inédita para ele e não sabia lidar com o ocorrido da forma mais racional.

— Não sabemos... – O delegado tragou mais uma vez e soltou a fumaça. — Alguém deixou uma mensagem na delegacia. Fui acordado no meio do meu sono...

— Não é possível isso! Como não viram quem deixou a mensagem? – Cortou o médico.

— Apenas não viram, doutor! – Abelardo deu as costas para a árvore e para o médico. — Vou pedir para que tirem o corpo daqui e levem para o seu consultório – sem esperar aprovação, o delegado chamou alguns policiais. Apenas dois tiveram coragem para aceitar o pedido do seu superior.

— Espere! O senhor pelo menos sabe quem é a vítima?

— Acredito que sim... – virou o rosto mais uma vez para a árvore e fumou. — Julgando pelo cabelo e pelo resto do rosto que lhe sobra... É Rodolfo, o filho do afinador de pianos.

O doutor João Augusto olhou mais uma vez para o corpo crucificado na mangueira. Aterrorizado pela cena, sentia que os olhos perfurados do pobre rapaz eram capazes de observá-lo naquela parca e sinistra iluminação. O que teria acontecido ali? Quem seria o responsável por uma atrocidade daquelas? E, pior, como a polícia conseguiria manter tal barbárie longe dos ouvidos de uma cidade tão pequena e interessada em mexericos? Fechou os olhos, passou a mão pelo rosto e lamentou. — Por que eu, Deus? Por que me colocaram nessa situação?


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