Capítulo 10

Na manhã seguinte, o jornal onde trabalhava Arthur de Azevedo estampava a notícia da sua morte na primeira página. Como previsto por João e Orlínski, o pai da vítima não se conformava com a versão da polícia da causa mortis do filho, cobrando dos oficiais mais investigações. Claro que o periódico não chegou a ver o estado do corpo; mesmo quando o defunto estava no caixão, era impossível perceber os sinais de violação no rapaz. Cobrir evidências era uma especialidade da polícia. Todavia, o próprio presidente do Estado, em entrevista, anunciou que criaria uma força-tarefa com o intuito de investigar essa morte, designando o jovem filho do Coronel Benedicto Xavier, Félix Xavier, um promissor membro da Guarda Civil, para cuidar do caso. Uma ação que, para João, era meramente formal. Apesar de o tal Coronel ser amigo do Secretário do Interior e do presidente do Estado, um jovem oficial não teria poder para enfrentar o delegado Alvim e sua influência sobre a segurança pública da cidade.

Deitado em sua cama, João lia essas notícias e refletia sobre o “caso Nazzari”. Tinha dormido o dia todo e o sol já se despedia quando ele acordou. Após ler o jornal, foi direto para a banheira, gastando quase uma hora dentro da água quente. O banho era uma excelente oportunidade para pensar em como agiria no mais importante jantar que teria nos Kinsky. Para ele, estava cristalino que Maximiliano era o responsável pelas aterradoras mortes que, desde julho, assombravam Belo Horizonte. No entanto, uma questão ainda permanecia em aberto: se ele era mesmo o culpado, por que aceitou ir ao palacete Kisnky naquela noite? Será que planejava aproveitar a oportunidade para fazer mais uma vítima? Ou queria, com o convite, se camuflar e se passar por inocente? Se essa última questão fosse uma verdade, por que ir direto à residência de um dos integrantes do grupo ao qual o filho fazia parte? Não seria melhor se manter distante? Tais indagações faziam João duvidar da sua teoria, e isso o incomodava.

— Não. Ele é o culpado! – Bateu as mãos na água, levando-as ao rosto logo em seguida. — Ele tem que ser o culpado. Não há como não ser!

Saiu do banho e se vestiu de gala, mais uma vez. João não conseguia entender como Andrev e Anna suportavam ter que jantar assim todas as noites. A repetição daquele ritual era, para ele, cansativa e insuportável. Só mesmo um casal criado na aristocracia poderia achar natural tanta pompa apenas para comer a última refeição do dia.

Enquanto se arrumava, pensava com preocupação na conversa que tivera com o delegado, na noite anterior. As ameaças do policial eram mais uma peça no quebra-cabeça que aquele mistério se mostrava ser. A possibilidade de o oficial estar protegendo Maximiliano Nazzari era alta e isso seria um grande problema. Estaria ele envolvido no comércio ilegal de pessoas? Do dia para noite, assassinatos em série revelavam que o suspeito, além de sentir prazer em torturar e matar, também mantinha viva a maior e mais vergonhosa mácula da história do Brasil. Com certeza, uma prática que precisaria de cobertura de oficiais e membros das forças de segurança.

João se sentiu tomado pela raiva. Como pessoas como Maximiliano tinham a coragem de se enriquecer com o sangue e o sofrimento de outras pessoas? Como poderia não demonstrar remorso algum pela morte do filho? O médico levantava essas questões, enquanto se olhava no espelho, refletindo a sua imagem vestida como um aristocrata. Em pouco tempo, estaria cara a cara com o suspeito de tantos crimes. Mesmo tentando ensaiar como agiria naquela situação, não conseguia manter a frieza necessária para o momento crucial. Tudo no que fora ensinado a acreditar, todos os valores que defendia, se chocava com o que estava prestes a vivenciar. Certamente, um dos instantes mais difíceis da sua vida! Mas não tinha como fugir disso. Sentia-se obrigado a fazer, pelo menos, um pouco de justiça àqueles que sofriam nas mãos desse assassino escravocrata. Para João, o Brasil era um lugar cruel, onde a morte guiava os destinos da nação em todos os seus níveis, desde o topo da pirâmide social até a base, em que os mais pobres e excluídos faziam o possível para sobreviver. Algo precisava ser feito, mesmo que, com sua ação, não fosse capaz de resolver todos os problemas que assolavam a sua terra natal.

Assim que terminou de se aprontar, chamou pelo veículo que o levaria até o palacete Kinsky. Entrou, cumprimentou o condutor, indicou o seu destino e os cavalos guiaram a carruagem conversível pelas ruas da cidade. Lá dentro, João abandonou as reflexões sobre o caso e passou a se focar em Amália. Apesar da inquietação pelo encontro com Maximiliano, a ideia de revê-la também o deixava ansioso. Sentia uma imensa vontade de reencontrá-la e, após tudo que ocorreu no dia em que foi à Sabará, a imagem dela era o único conforto que tinha em sua mente. Mesmo depois da revelação de Gabriel, quando estavam no cabaré assistindo à apresentação de Maria Thereza, João sabia que o sentimento nutrido por ela não mudara. Apenas, momentaneamente, duvidou da imagem que construíra dela em sua cabeça. Agora, prestes a jantar ao seu lado novamente, seu coração batia mais forte. Amália era como um conforto para sua alma, e o passado dela não importava nenhum pouco. João sentia que precisava dizer tudo isso a ela, abrir seu coração, confessar-lhe que guardara um profundo amor por ela há muito tempo. Não sabia se seria possível fazer isso num jantar tão tenso, mas era uma certeza cada vez mais forte dentro desi.

Os cascos dos cavalos ecoavam sobre o pavimento da Rua da Bahia até o imponente palacete. O condutor parou a carruagem diante da residência de Andrev, João o pagou e tocou a campainha, anunciando a sua chegada. Podia ouvir o som dos violinos vindos lá de dentro e julgou que todos já estavam presentes. No entanto, se surpreendeu ao entrar e perceber que ele era o primeiro a comparecer ao jantar. Não havia ninguém nos salões além de alguns criados e da pequena orquestra que animava, com as suas valsas, os salões vazios.

Apoiou-se numa coluna de madeira ricamente entalhada, observando o pequeno querubim que segurava um candelabro sobre o final do corrimão da escada que levava ao segundo andar. A orquestra tocava “o Danúbio Azul”, valsa composta por Johann Strauss II, em 1866. Deixou-se guiar pela melodia, apenas voltando à realidade quando ouviu o farfalhar de um vestido e o som de sapatos tocando o piso de madeira decorada. Era Amália, que descia elegantemente em direção ao salão onde os convidados eram recebidos antes de serem conduzidos à sala de jantar. Vê-la caminhar de forma tão requintada, e vestida como uma verdadeira princesa, fez João congelar, admirando aquela belíssima mulher sem poder desgrudar os olhos da imagem que tocava os degraus até se aproximar dele.

— João Idalino – sorrindo, Amália ergueu o braço para que João pudesse beijar a sua mão. — Acho que somos os primeiros a estar prontos para o jantar.

— Melhor assim – João lhe devolveu o sorriso, assim que beijou a sua mão. — Teremos tempo para conversar antes de os almofadinhas chegarem – ofereceu o braço para que Amália se apoiasse e pudesse terminar de descer os degraus da refinada escada. Amália riu, movendo os seus lábios cobertos pelo batom, enquanto seu vestido azul-marinho, coberto de pedras preciosas e sensualmente delineado pelo espartilho, brilhava com a luz do ambiente.

Amália se apoiou no braço de João e indicou o caminho até o salão decorando em vermelho e dourado.

— Como foi o seu passeio a Sabará? – Perguntou Amália, enquanto andavam até o salão.

— Muito bom. Melhor do que o esperado! – Evitou dar detalhes, com medo de Amália não saber o real motivo da ida deles até a antiga cidade do ciclo do ouro. — E com você, como foram esses últimos dias? – Perguntou João, sem conseguir parar de sorrir ao olhar para ela.

— O mesmo de sempre: “footings” enfadonhos com os cachorros e Anna – confessou Amália. — Pelo menos os cachorros são animados – riu, entrando no salão e se acomodando próximo à janela.

João Augusto observava Amália se acomodar numa ampla poltrona Luís XV, e olhar a noite pela janela. Como ela estava linda, com o braço descansando sobre o encosto do móvel e suas pernas posicionadas como se estivesse posando para um quadro. Era como uma bela garça, uma musa grega fitando o horizonte com elegância e poder. Amália tinha o porte de uma verdadeira nobre, com uma natureza requintada que deixava qualquer pessoa vislumbrada.

— Essa cidade é muita parada, João – reclamou Amália. — Tudo aqui gira ao redor desses eventos sociais pequenos, com suas mesuras vazias e conversas sem conteúdo – acomodou-se na poltrona para poder olhar diretamente para João. — Mas isso vai mudar!

— Por que acha isso? – Perguntou, curioso e empolgado com a conversa.

— Andrev quer que eu me apresente no Teatro Municipal mais uma vez. Vai ser algo pequeno, mas vai agitar a noite desses caipiras de cartola! – Riu.

João se divertia ao ouvi-la reclamar da vida pacata da capital mineira. Aquela dama, digna de estar nos salões mais distintos das capitais europeias, estava ali, sentada como uma princesa, numa cidade que ainda engatinhava no meio do nada, num salão que também se destoava entre os espaços vazios da cidade. Todavia, mesmo se queixando, Amália se vestia e se portava como se estivesse no Rio de Janeiro ou em Paris, como se estivesse preparada para viver algo intenso e agitado. Essa contradição fascinava João. Ele era incapaz de entender qual a razão de Amália insistir em participar desse jogo social, mas vê-la brilhar daquela forma o deixava embasbacado e boquiaberto.

— Não entendo como você atura isso tudo – disse João, caminhando até a janela e pegando um cigarro.

— Isso o quê? – Curiosa, Amália o seguia com os olhos.

— Esses “footings”... esses jantares todas as noites – abriu os braços e direcionou as mãos à sua vestimenta, querendo apontar para a forma empoada de se vestir apenas para um jantar.

Amália fez uma expressão espirituosa, movendo a cabeça para cima, fitando rapidamente o lustre sob o forro do teto.

— Eu gosto dos jantares – confessou Amália, saindo de onde estava e indo até a janela, para ficar mais próxima de João. — É um momento em que posso me vestir bem e desfrutar de boa comida e música. Esquecer da vida, sabe?

— Mas todos os dias tendo que se vestir assim? – Protestou João. — Aí já é demais!

— Você se veste de jaleco todos os dias para trabalhar, João Idalino. Por que não posso me vestir assim para jantar todas as noites? – Perguntou, enquanto pegava o cigarro da mão de João, tragando-o.

— É diferente, Amália, é o meu trabalho! Você se arruma assim para comer todas as noites, quando não está com os Kinsky?

— Às vezes – confessou Amália, observando a noite estrelada. — Admito que manter essa rotina me deixa um pouco desconfortável. Afinal, eu, ao contrário de Andrev e Anna, não fui criada para achar tudo isso natural – deu mais uma tragada no cigarro, devolvendo-o para João.

— O ponto é esse! – João foi veemente.

— Mas eu gosto disso! – Amália ergueu o rosto numa postura altiva. — Lutei muito para chegar onde estou. Adoro saber que me apoderei de um hábito que apenas os nobres estão acostumados a realizar todos os dias. E, claro, ser recebida nos salões dessa gente rica como se fosse um deles é um triunfo para qualquer pessoa que nasceu na pobreza.

João a admirava com uma mistura de encanto e indignação. Por um lado, ela estava certa: ver uma mulher pobre ascender daquela maneira era um sinal de conquista maravilhoso; por outro, perceber que ela sentia prazer em estar naqueles ambientes, sem questionar seus códigos e sua conduta, o incomodava. João sabia que era exatamente essa ambiguidade que o deixava encantado por ela. Amália obrigou que os mais ricos e distintos a aceitassem nos seus salões, sabendo agir como eles e impondo a sua presença com talento e desenvoltura. Amália Sousa era uma mulher que sabia tomar as rédeas da própria vida e usar tudo o que estava a seu favor para vencer as adversidades da sociedade. Ela era uma vitoriosa!

— Não há palavras para descrever você, Amália Sousa – Repentinamente e sem pensar, João soltou aquele elogio, deslumbrado.

— Como? – Perguntou ela, pegando o cigarro de João, mais uma vez.

— Você sabe controlar as futilidades dessa sociedade e usá-las a seu favor. Você pisa nesses aristocratas hipócritas e os coloca aos seus pés. Você é maravilhosa!

— João Idalino, você está sendo galanteador! – Brincou Amália, ignorando a expressão vislumbrada de João. Na verdade, ver um amigo querido a elogiando daquela forma era agradável, mas acendeu um alerta dentro dela. Gostava de João, mas não queria perder aquela relação agradável, conduzindo-a a um estágio reservado aos amantes.

— Não é isso! – Protestou João de um modo polido. — É maravilhoso ver o tanto que você conquistou! Conseguiu tudo que você sonhava, e é respeitada pelas suas vitórias – tentou agradá-la. Sentiu-se inseguro, temendo que suas palavras elogiosas afastassem Amália dele.

Amália riu. Seu ego abriu as asas de modo empoado. Mas não podia deixar de ver as intenções de João através dos olhos dele, brilhando e sorrindo como uma criança enfeitiçada.

— Se você soubesse o que tive que passar até chegar aqui... – Amália fumava, enquanto observava as estrelas. Por alguns instantes, seu semblante ficou sério, como se rememorasse as dificuldades que teve de enfrentar no passado.

— Isso não importa! – João pegou uma das mãos de Amália e a beijou. — Seu caminho para a vitória não pode ser questionado – respirou fundo, talvez fosse aquela a única oportunidade que teria para se declarar. Precisou vencer a insegurança e criar coragem de dizer o que precisava ser dito. — Você é linda, Amália!

Amália riu, mais uma vez, retirando a mão que João segurava, encostando-a na janela.

— Sabe, João? – Ela tragou, evitando olhar diretamente para ele. — Certa vez, lá no Rio, conheci um rapaz maravilhoso, ele era intelectual, rico, cheio de ideias, defensor dos pobres, um verdadeiro filósofo! – Soltava a fumaça e falava, enquanto observava o bonde passar solitário na rua. — Éramos como unha e carne, jantávamos juntos quase todas as noites, tínhamos ideias de liberdade, de luta contra as opressões dos mais ricos e vários desses sonhos que os intelectuais têm de transformar a sociedade – tragou o cigarro mais uma vez e continuou a narrar sua história. — A inteligência dele me instigava. Eu lia todos os autores que ele me indicava, passávamos noites discutindo política, liberdade da mulher, igualdade... ele parecia o homem perfeito: compreensivo, educado, diferente dos cavalheiros que fingiam ser ilustrados, mas que, no final, se revelavam cretinos como são todos os homens desse país – Amália pausou ao perceber que Orlínski e Anna entravam no salão.

— E o que aconteceu? – João se aproximou de Amália. Não queria que ela parasse para cumprimentar Gabriel e Anna.

— Vivemos um romance ardente juntos. Rápido, mas intenso – Amália sorriu. —Eu podia perceber que, nas suas ações, ele demonstrava interesse, paixão. O rapaz estava vivendo algo inédito na vida – prosseguiu, voltando-se para a vista da janela.

— E aí? – Perguntou João, aflito e com medo de Amália confessar que amava outro. Precisava saber o desfecho daquela história. Seu coração batia mais rápido e as mãos tremiam.

— Ele me dispensou abruptamente, dizendo que não sentia nada por mim, me abandonando de uma maneira muito cruel e fria – Amália tragou o cigarro e soltou a fumaça, seus olhos se enchendo de rancor. — Poucos meses depois, os jornais anunciavam o seu casamento com uma mulher de família distinta.

— Que homem horrível! – João tentou consolar Amália.

Amália sorriu num tom debochado. — As palavras cruéis da noite em que ele me dispensou ecoam na minha mente. Foi muito difícil superar tudo isso. O elegante cavalheiro foi capaz de usar seu talento com as palavras com uma frieza que me fez perder ainda mais a fé nesse mundo cruel.

— Mas você conseguiu vencer até isso – João tentou consolá-la. — Há muitos cretinos nesse mundo, mas nem todos os homens são assim – sorriu de modo carinhoso.

Amália riu, balançando a cabeça negativamente. — Os homens fazem o máximo possível para mostrar aos outros que são melhores do que realmente são – Amália fumou mais uma vez. — Mas quando a situação fica séria, quando eles percebem que só queriam se divertir conosco, não medem esforços para nos destruir – nesse momento, Amália apontou para Orlínski, que ainda conversava com Anna à entrada do salão. — Não somente as mulheres, mas também os “maricas” que alguns adoram levar para a cama – fitou João seriamente.

A expressão de Amália ganhou contornos tristes, a melancolia dominou a sua bela e elegante face. Abria o coração de uma maneira que jamais pensaria fazer, especialmente para um homem.

— Quando esses mesmos homens querem manter o seu status para a família e a sociedade – os olhos de Amália desceram em direção ao jardim. João poderia jurar que ela choraria a qualquer instante. No entanto, ela não o fez, concentrou-se no que queria dizer e engoliu o choro. — No fim, mulheres como eu, ou homens como Andrev e Orlínski, são apenas brincadeiras para eles. Quando eles sentem que a posição deles perante os progenitores, ou os “figurões”, está ameaçada, eles nos destroem sem dó nem piedade.

— Isso é algo horrível, Amália. Um homem de verdade não faria isso – João queria confortá-la. Desejava dizer a ela que ainda havia saída, que Andrev e Gabriel encontraram alento vivendo seu romance como lhes fosse possível. E, sobretudo, que Amália também poderia superar aquele rancor que guardava.

Amália riu, impedindo que João prosseguisse no seu discurso acalentador.

— Você é um bom amigo, João Idalino – ela se virou, denunciando sua intenção de encerrar a conversa. — Quero que saiba que não preciso da aprovação ou do conforto de homem algum. Não tente me impressionar com galanteios e elogios ou dizendo que não se importa com o meu passado! – Disse enfaticamente, caminhando vagarosamente até Orlínski e Anna. — Não seja como os outros do seu gênero, que anseiam por mostrar algo que, na verdade, vocês não são. Ninguém suporta mais ouvir homens querendo mostrar que são heróis, redentores, ou que estão à frente do seu tempo – sua voz ficou séria e João podia sentir a frieza emanando de todo o corpo dela. — Seja você mesmo, João Idalino! Continue sendo aquele menino que roubava cerveja comigo e fazia travessuras – Seu vestido farfalhava, à medida que caminhava pelo salão, dando as costas para João e indo até os demais.

João estava arrasado. Tentou abrir seu coração, mas o que ganhou foi saber que a mulher que tanto amava estava fechada para o amor, machucada demais para poder se abrir novamente. Quão triste foi esse golpe do destino! Acreditava que poderia trazer felicidade à Amália, mas, na verdade, ela encontrou a alegria sozinha. Ele seria apenas um amigo para ela, e Amália sequer daria a João uma chance de mostrar que era um homem diferente daquele que a feriu tão profundamente. Queria chorar, mas evitou se mostrar tão vulnerável na frente de todos, chamando atenção para si. Era melhor deixar para sofrer sozinho, protegido dos olhares curiosos e da necessidade de se explicar, principalmente para a mulher que o rejeitara.

Naquele instante, Andrev entrou na sala com uma expressão tensa no rosto. Olhava para o relógio, estranhando que Maximiliano e Eufrásia ainda não estivessem presentes. Algo estava errado, mas procurou manter a calma, pedindo para o mordomo trazer algumas bebidas. Um clima de apreensão se apoderou do salão, enquanto todos ouviam as valsas, bebiam e conversavam.

— Parece que nossos convidados estão atrasados – disse Andrev, indo até João, que ainda permanecia próximo à janela, petrificado pela conversa que tivera com Amália.

— Isso não me surpreende, querido – Anna tomou o pequeno cálice com licor. — É o costume daqui deixar as pessoas esperando – concluiu rispidamente.

— Será que aconteceu alguma coisa? – Orlínski olhava para João e Andrev, aflito com aquela atmosfera estranha.

— Não sei – João, recuperando-se do choque, conjecturava hipóteses em sua cabeça, a fim de descobrir a razão do atraso.

Uma hora se passou e todos no salão já não escondiam a impaciência. Anna estava chocada com a indelicadeza do casal em sequer enviar uma mensagem anunciando a desistência do convite. Contorcia os lábios, lançando olhares ao marido, para que ele chamasse para o jantar, desistindo de esperar por Maximiliano e Eufrásia.

— O que vamos fazer? – Perguntou Orlínski, em voz baixa, assim que se aproximou de João e Andrev.

— O canalha deve ter ficado com medo – Andrev fumava, impacientemente.

— Será que o delegado disse algo? – João se questionava, fitando a rua e segurando o queixo com uma das mãos.

— O delegado? – Orlínski se aproximou ainda mais dos dois, olhando de relance para Anna e Amália, que conversavam sobre o licor, numa distância de onde não seria possível bisbilhotar a conversa dos três.

Em poucas palavras, João narrou o acontecido na entrada de sua casa, na noite anterior. Para ele, era evidente que o delegado Alvim alertara Maximiliano de que algo estava errado. Mas seria um golpe de muita astúcia do oficial pressupor que estavam atrás do afinador de pianos. Será que alguém estaria espionando o que os três planejavam? Se sim, quem poderia ser o informante?

— Só há uma alternativa – João se virou para encarar Andrev e Gabriel. — Vamos ter que ir à casa desse afinador.

— Agora? – Orlínski ficou tenso. — Mas, e o jantar? – Suas pupilas apontaram para Amália e Anna, indicando que não poderiam sair sem dar uma explicação às duas senhoras que conversavam não muito longe deles.

— Não temos tempo! – Continuou João. — Ele pode ter fugido a uma hora dessas. Precisamos averiguar isso o mais rápido possível!

— Você está certo – Andrev jogou o cigarro pela janela. — Vou pegar o carro e...

— Não! – João o cortou. — Você será mais útil aqui, Andrev.

— Irmos nós três seria melhor, não? – Orlínski sugeriu.

— Andrev vai precisar usar sua influência para levar a polícia até lá – João voltou a olhar a rua.

— Mas o delegado já não demonstrou não ser de confiança? – Perguntou o príncipe.

— Você conhece o Coronel Benedicto Xavier? – A mente de João pensava a todo vapor.

— Claro! – Respondeu Andrev. — Li no jornal que o filho dele vai investigar a morte de Arthur.

— Exato! Você precisa falar com esse tal Félix. Orlínski e eu vamos até a casa de Maximiliano.

— Mas como vamos? Eu não sei dirigir! – Gabriel indagou.

— Você sabe, João? – Andrev, aceitando a ideia do médico, ofereceu o carro a João, que confirmou saber conduzir um veículo motorizado. — Tudo certo! Deixem que eu cuido de dar uma explicação à Anna e Amália. Encontro com vocês assim que possível. Ah! E não se esqueçam de pegar as armas.

João e Gabriel saíram sem se despedir, deixando as damas assustadas com a ida rependina dos dois. Andrev explicou que os dois iriam averiguar se o casal ausente já estava a caminho. Depois, o príncipe chamou o mordomo e pediu para entrar em contato com o presidente do Estado. O palacete Kinsky era uma das poucas residências com telefone, assim como algumas das casas das autoridades da cidade. Precisava correr contra o tempo, para ajudar João e Orlínski, caso Maximiliano estivesse preparado para atirar ou realizar as atrocidades que fizera no corpo das suas vítimas anteriores.

— Não sabia que você sabia dirigir – disse Gabriel assim que entraram no carro, enquanto aguardavam o criado abrir os portões.

— Fiz isso uma vez só, mas deve ser igual a andar de bicicleta – confessou João.

— Você está consciente de que não temos dinheiro para pagar danos nesse carro, não é? – Alertou Orlínski.

— Fique tranquilo que vai dar tudo certo! – João deu a partida e o motor roncou. Com certo descontrole, conseguiu arrancar o carro e saíram para a rua. A toda velocidade, o veículo ziguezagueava pelas ruas, indo em direção à casa do afinador de pianos.

— Vai com calma aí, João! – Orlínski, segurando a cartola para que ela não voasse, alertava o amigo. Pela primeira vez, agradeceu a deus pelas ruas da cidade estarem tão vazias.

Ao se aproximarem do local desejado, João sugeriu que parassem o carro não muito próximo à casa, temendo que o motor do veículo anunciasse a chegada deles. A rua em questão possuía casas baixas com muretas que as circundavam, completamente calçada e bem cuidada. Eram casinhas elegantes, com paredes decoradas e alpendres nas laterais ou diante das entradas principais. Na esquina oposta do ponto onde se encontravam, um prédio de um pavimento era o único comércio da via, localização do negócio do afinador de pianos. As portas em arco da loja de Maximiliano dividiam o edifício com um bar, ambos fechados àquela hora da noite. Finalmente, a última construção da rua era a residência do suspeito, a habitação mais rica entre todas ao seu redor. As luzes dos postes iluminavam parcamente a região completamente deserta, com os latidos de um cachorro ecoando na noite, dando ao local um espectro fantasmagórico.

Não havia postes próximos à casa de Maximiliano. Isso fazia com que o local tivesse uma aparência abandonada. João e Orlínski pararam diante da entrada, observando o pequeno muro com grades circundava a fachada. O portão de ferro decorado era protegido por dois anjos, que seguravam luminárias que estariam acesas caso houvesse algum morador dentro da residência; no jardim, uma dama-da-noite exalava o seu cheiro adocicado e forte. Ao seu lado, um curto caminho de pedras levava a uma pequena escada que guiava ao alpendre, o acesso principal à residência. Vasos de pedra decoravam as beiradas do telhado, escondido por balaustradas neoclássicas. Os janelões com guarnições revelavam a profunda escuridão que dominava o interior, abraçado num silêncio medonho.

— O que faremos? Tocamos a campainha? – Sugeriu Orlínski, ironicamente.

— Claro! Quem sabe a Moça Fantasma não nos receba de braços abertos? – João se aproximou do portão, que estava destrancado.

Com as armas nas mãos, subiram os degraus e se aproximaram do alpendre. Indo até a porta, João colocou o ouvido nela, tentando escutar algum som vindo do interior. Nada! A casa dava sinais de estar completamente entregue ao breu e à ausência. O médico balançou a maçaneta, mas estava trancada.

— Eles não iam facilitar assim – Gabriel tirou do bolso uma fina peça de ferro, enfiou-a na fechadura e, com alguns movimentos, destrancou-a. — Meu pai teve que fazer muitas coisas escusas até conseguir dinheiro para vir ao Brasil – explicou Orlínski, ao perceber que João estava impressionado com a capacidade de Gabriel de abrir a porta daquela forma.

— E ele te ensinou isso? – Questionou de um jeito jocoso.

— Ele tinha receio de que, um dia, isso pudesse voltar a ser necessário – respondeu.

O humor daquele diálogo desapareceu quando a porta se abriu e puderam observar o interior da residência. Com muito cuidado, ultrapassaram a porta e chegaram à sala de visitas. Com dificuldade, podiam ver a sombra do piano e os canapés ao redor da pequena mesa de centro. Mesmo bem cuidada, naquela escuridão, tudo ganhava tons horripilantes e de suspense. Rapidamente, João direcionou seu olhar para o longo corredor que, ao fundo, era possível ver uma luz bruxuleante de velas iluminando um dos cômodos. Tocou em Orlínski para atentá-lo ao sinal da presença de alguém e, preparando-se para atirar a qualquer momento, caminharam vagarosamente em direção à claridade, pisando bem devagar na madeira do piso, para que não alertassem a quem pudesse estar ali.

Um passo de cada vez. A respiração era controlada com precaução. Todos os movimentos exigiam zelo. Podiam ouvir as próprias batidas do coração ecoando no silêncio da residência. Qualquer vacilo e seriam descobertos. A cada instante, se aproximavam mais do ponto de luz e precisavam ser astutos. João ia à frente, tateando a parede, que possuía quadros de pessoas cujos olhos pareciam acompanhar os seus movimentos. A possibilidade de Maximiliano estar no final daquele corredor era cada vez mais real, e sentiam que estavam prestes a pegá-lo de surpresa. Os segundos eram cruciais para realizar aquela ação com perfeição. Fracassar não era uma escolha.

Assim que se aproximou da porta de onde vinha a luz, João ergueu a mão que segurava a arma, preparando-se para atirar. Vagarosamente, esticou seu pescoço, para que pudesse enxergar quem estava ali dentro. Dali, conseguia ver a jovem Eufrásia, sentada diante de uma escrivaninha, vestida luxuosamente, escrevendo algo e ignorando a presença dos dois logo atrás dela. Cuidadosamente, João se aproximou dela, com o revólver apontado diretamente para a cabeça daquela mulher.

— Eufrásia de Miranda – João sussurrou o seu nome. A jovem, espantada, largou a caneta e ergueu a cabeça em direção à janela bem à sua frente. — Diga onde está o seu marido – ordenou João no mesmo tom baixo, mas ameaçador.

— Ele não está aqui – a jovem respondeu friamente, evitando olhar para a ameaça atrás dela.

— Onde ele está? – Insistiu João.

— Eu não sei.

Orlínski caminhou pelo gabinete. Ao seu redor, estantes com livros se erguiam. Observou a bela escrivaninha, com o candelabro de velas iluminando os papeis sobre a mesa. Num movimento rápido, tomou a carta que Eufrásia escrevia e a leu.

— É uma carta ao Rio de Janeiro – disse. — Pede ajuda a Ricardo de Almeida Coelho, Visconde de Almeida – continuou a leitura.

— Ajuda? – Indagou João.

— Para o marido. Pede dinheiro e proteção, porque o marido corre perigo aqui em Minas.

— É melhor contar tudo o que sabe, Eufrásia – João aproximou o cano do revólver até a nuca da jovem, que sentiu o frio do ferro entre os seus cabelos presos num elaborado penteado.

— O que você quer saber? – Eufrásia mantinha a frieza, ignorando a arma pronta para disparar contra ela.

— Seu marido... – Orlínski olhou diretamente para ela. A luz tremeluzente dava ao seu rosto um ar sombrio. — Sabemos que ele é responsável por um crime abominável.

— Qual crime? – Eufrásia analisava Gabriel com uma dureza assustadora. — Meu marido não cometeu crime algum.

— Não minta! – Orlínski tentava intimidá-la com a sua expressão espectral. — Vender seres humanos e matar o próprio filho não são crimes? – Gabriel estava prestes a explodir.

— Vender negros não é um crime, é uma necessidade para esse país prosperar – Eufrásia mantinha uma aura de crueldade de fazer enregelar os ossos. — Quanto ao filho, eu não sei do que está falando. Aquele sodomita fugiu há muito tempo. Se morreu, foi castigo de deus pelos pecados que cometeu – conservava o olhar fixo em direção a Orlínski, sem estremecer. Aquela jovem emanava um ar diabólico e não temia a própria morte. Era como se não possuísse alma ou apreço pela própria vida.

João sentia nojo da cena que presenciava. Não conseguia acreditar que uma mulher tão nova pudesse expelir tanta maldade. A mão que segurava a arma tremia e sua respiração denunciava a fúria diante de uma pessoa tão abominável.

— Uma fruta não cai muito longe da sua árvore. Está executando bem o trabalho do seu pai, o Barão de Santa Quitéria – João pronunciou as palavras pesadamente. — Onde ele está?

— Meu pai foi um grande homem. O último herói desta terra – Eufrásia direcionou o seu olhar para a janela. — Ele está ao lado do nosso senhor deus, zelando pela nossa pátria – respondeu orgulhosamente.

— Essa mulher é louca! – Protestou Orlínski.

— E Gregório? Onde ele está? – João aumentou o tom de voz. — ONDE ELE ESTÁ? – Gritou.

— Morto, assim como a minha mãe – respondeu Eufrásia, demonstrando grande desprezo à menção do nome do irmão.

Naquele instante, o som de motor e de cavalos rompeu o silêncio. Uma voz masculina ordenava a invasão da casa e, em pouco tempo, três guardas chegavam ao quarto. Atrás deles, Andrev e Félix Xavier, um belo oficial de bigode e topete bem arrumado, vestido com o seu uniforme e ordenando que os seus subordinados vasculhassem a casa. Foi só nesse momento que Eufrásia se virou para encarar João pela primeira vez, que se recusou a desviar o olhar dela, desafiando-a e recebendo, em troca, uma expressão provocativa e audaciosa.

— Doutor João Augusto? – Félix se aproximou do médico e de Orlínski, apresentando-se. — Pode deixar que cuidarei do resto.

— Essa mulher acaba de confessar que seu marido e sua família comercializam pessoas! – João não se conteve e liberou toda sua revolta. — E Maximiliano Nazzari ainda matou o próprio filho! – Acusou numa voz impetuosa.

— Eu entendo, doutor – disse Félix num tom calmo. — Vamos investigar a casa e levá-la à Chefia de Polícia.

— O marido dela fugiu – Andrev falou. — Precisamos encontrá-lo!

— Provavelmente, ele foi para o Rio – Orlínski mostrou a carta de Eufrásia ao oficial.

— Vou informar à capital do acontecido. Se ele estiver lá, faremos o possível para pegá-lo – Félix concluiu.

Em seguida, o jovem policial ordenou que a moça fosse levada. Eufrásia era escoltada por um policial, sendo seguida por João, Orlínski, Andrev e Félix. Ela exibia uma expressão arrogante que ofendia a todos ao seu redor. Não era possível acreditar que aquela mulher pudesse manter aquela postura condenável. Uma figura abominável e desprezível que merecia apodrecer na cadeia, bem como seu marido.

Parte do mistério parecia estar resolvido. O afinador de pianos fazia parte de uma rede de tráfico de seres humanos e as provas se erguiam incontestes diante de todos. Entretanto, era imperativo encontrar o paradeiro de Maximiliano Nazzari. Só assim, poderiam provar que ele estava diretamente envolvido na morte do próprio filho. Para João e os demais, não havia dúvidas quanto a isso. A questão, agora, era chegar até ele e capturá-lo.


1 visualização

©2020 por A Contrapelo Podcast. 

O podcast de Ciências Humanas.