Capítulo 11

Belo Horizonte, outubro de 1918

— “Aux langueurs d’Apollon, Daphne se refusa...” – Amália, diante da plateia do Teatro Municipal, realizava a sua segunda apresentação na capital mineira. Dessa vez, estava sozinha no palco, cantando árias que selecionara e sendo acompanhada pela pequena orquestra que animava os jantares nos Kinsky. O evento, anunciado ao longo das semanas de setembro, teve lugar no primeiro domingo do mês seguinte, atraindo uma multidão que desejava ver a famosa cantora mais uma vez.

Todas as figuras importantes estavam presentes, com exceção de Anna Kinsky, em decorrência de uma indisposição. A leve doença da princesa também ocasionou o cancelamento do jantar em sua residência, que deveria ocorrer após o espetáculo de Amália Sousa.

O repertório da cantora fora escolhido com muito cuidado. Apresentou árias de “Carmen”, de “A Flauta Mágica”, de “Platée” e de outras óperas que amava. Seriam quase duas horas com Amália deleitando o público com o seu talento e, claramente, João Augusto não perderia a oportunidade de poder ouvi-la cantar.

O excesso de trabalho tomou conta da rotina de João no resto de setembro. Além disso, o desaparecimento de Maximiliano ainda o incomodava. Era preciso encontrá-lo, mas mesmo com a ajuda de Félix Xavier, não havia pistas do seu paradeiro. A esposa do afinador, por sua vez, não colaborava: em todos os interrogatórios, as únicas frases que dizia se remetiam ao passado da família, defendendo o crime que o pai cometera por décadas, após a Abolição. Para Eufrásia, seu pai era um herói e seu marido o herdeiro desse legado. Muitos alegavam que ela estava louca e, por isso, o delegado Alvim conseguiu que ela ficasse em casa, sendo vigiada pela polícia. Essa decisão deixou João furioso.

Ainda engajado na busca por mais informações, há cerca de uma semana, João Augusto voltou à Sabará com Félix, acreditando que a presença de um oficial poderia facilitar a investigação sobre o passado da família Miranda. Descobriram histórias horripilantes sobre o Barão, que teria queimado em praça pública o jornal que anunciava a abolição dos escravizados, ainda em 1888. Todos na cidade o temiam, tendo sido um alívio para os habitantes de Sabará quando a notícia da morte do patriarca e de sua esposa correu pelas vielas coloniais. O casal tombou diante da tuberculose, e a jovem Eufrásia foi entregue aos cuidados de parentes, até se casar com Maximiliano. João e Félix foram atrás desses familiares, mas nenhum deles morava mais no lugar. Também foram atrás do padre que realizara o casamento de Eufrásia, mas o pároco regressara há pouco tempo ao Colégio do Caraça, onde lecionava. Para João, a biografia do Barão e de sua prole era tão assustadora que Eufrásia acabou se tornando suspeita de matar Aurélio, Rodolfo e Arthur. Ela, no entanto, negou veementemente qualquer envolvimento com “os sodomitas”, alcunha pela qual ela se referia às vítimas.

Após transmitir o que descobrira em Sabará a Orlínski e Andrev, num encontro na casa de João, os três decidiram ir ao antigo colégio encravado nas montanhas, à procura do padre. Algo combinado para a semana que começava com a apresentação de Amália. Julgavam que o padre poderia dar mais informações sobre Eufrásia, Maximiliano ou sua família. Ele poderia ser uma chave que abriria mais um caminho no meio do labirinto em que se encontravam.

Já para Andrev e Orlínski o mês passado foi de uma presença inesperada nos jantares e na rotina. Félix Xavier se tornou constante e, em diversas ocasiões, tinham certeza de que o jovem oficial estivesse perdidamente apaixonado por Amália. Julgaram dessa forma ao constatar o fascínio que ela causava no rapaz, que sempre aparecia no palacete sem hora marcada ou convites formais. Amália, por sua vez, o tratava com educação, se entretendo com os passeios que davam pelo jardim durante as tardes que Félix comparecia para o café. O oficial, dedicado ao trabalho com uma maturidade impressionante, era um moço cru em outros aspectos da vida, cortejando a famosa cantora como um trovador medieval, enviando para ela sonetos e flores constantemente. Atitude que acabou deixando Amália cansada das suas visitas aos Kinsky apenas para vê-la e elogiá-la.

Em contrapartida, João fora a presença menos frequente no palacete Kinsky. Os encontros com Andrev e Amália ficaram escassos. Apenas Gabriel permanecia presente, visitando-o e o levando aos cafés e ao cabaré onde Maria Thereza se apresentava. Mas, para o infortúnio de João, Amália se tornou um pensamento constante que, quando menos esperava, surgia para incomodá-lo, principalmente depois que Orlínski revelou o interesse de Félix por ela. Sua cabeça pendulava entre suas obrigações e a mulher que o rejeitara. Algo dentro dele lutava para manter vivo o amor que sentia por ela, enquanto outra parte de si queria esquecê-la para sempre. Claro que o lado que a venerava prevaleceu na decisão de estar dentro daquele teatro numa noite de domingo.

— Tenho certeza de que Amália gosta muito de você – cochichou Gabriel, sentado ao lado de João, assistindo à cantora no palco apresentar a ária da Rainha da Noite, da ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart.

— Pare com isso, Orlínski! Não incentive algo que não pode dar certo. É cruel! – Protestou João. Seus olhos brilhavam ao vê-la cantar.

— Mas ela sempre pergunta por você – Gabriel se exaltou, sendo censurado por um espectador, incomodado com a falação.

— Cale a boca! Não vê que as pessoas querem assistir ao espetáculo? – Censurou João, aliviado com a reclamação do sujeito sentado na fileira de trás.

A apresentação prosseguiu por mais um tempo. João não gostava das palavras de incentivo que Gabriel insistia em proferir todas as vezes que o nome Amália surgia em suas conversas. A parte de seu coração que acreditava naquele encorajamento levava sua mente a sonhar com a possibilidade de que, um dia, Amália pudesse aceitar o seu amor. Portanto, a cada palavra de ânimo do amigo, João se perdia em sua imaginação, fantasiando o momento em que, finalmente, estariam juntos.

Assim que Amália terminou a sua última ária, e a multidão se ergueu para aplaudi-la, João se virou e caminhou apressadamente em direção à saída. Astuto, Orlínski o seguiu, interpelando o amigo assim que o alcançou, diante da escadaria do Teatro.

— Não seja bobo, João! – Gabriel o pegou pelo braço. — Não vai nem ficar para parabeniza-la pela apresentação?

— Me largue, Orlínski! – Em vão, João tentava se desvencilhar do amigo.

Enquanto João e Gabriel conversavam, os espectadores começaram a encher o saguão do Teatro. A grande maioria aguardava a chegada de Amália, que surgiu ao lado de Andrev, no alto da escadaria. O príncipe preparara uma surpresa para ela: uma placa de bronze seria afixada na entrada principal, em homenagem à cantora mineira. Quando ela descobriu a cortesia, abraçou Andrev com força, agradecendo-o e, em seguida, curvando-se aos aplausos, recebeu com carinho as flores que muitos davam a ela. Era o ápice de sua estadia em Belo Horizonte, e um marco em sua carreira.

— Viu, João? Você não poderia perder esse momento – Orlínski, aplaudindo, conversava com o médico, que desistira de partir. — Vamos até eles – mais uma vez, Gabriel arrastou o amigo até Andrev e Amália.

Quando se aproximaram da escada, João viu Alfredo Balena descendo os degraus, caminhando no mesmo sentido em que Orlínski o puxava. Alfredo o cumprimentou, forçando Gabriel a soltar o braço de João.

— Doutor João Augusto – Alfredo apertou a mão do médico. — Há muito não nos falamos!

— Doutor – João o cumprimentou. — Pois é! Ainda estou aguardando nosso café – disse num tom polido.

— Muito trabalho, meu amigo! – Alfredo se aproximou mais de João. — Você viu sobre a gripe no Rio de Janeiro? Acho que não demora a chegar aqui.

— Uma lástima! – João respondeu. A última coisa que queria era falar sobre o surto de gripe que preocupava os habitantes da Capital Federal.

— Temo não estarmos preparados – confessou Balena.

Impaciente, Orlínski interrompeu a conversa, mudando de assunto completamente e trazendo os dois médicos de volta ao ambiente social do teatro. Poucos passos os separavam de Andrev e Amália, que conversavam com o prefeito, o presidente do Estado, e com o médico Samuel Libânio, responsável pela Diretoria de Higiene e pelas medidas sanitárias e de saúde da cidade. Os três elogiavam a apresentação e parabenizavam Amália pela homenagem recebida.

— João! – Ao vê-lo, Amália se apressou a cumprimentá-lo. — Que bom que você veio!

— Não poderia perder sua apresentação, Amália – disse João Augusto com um sorriso tímido nos lábios.

— Mais um espetáculo perfeito – Gabriel a elogiou.

— Obrigada, Orlínski! Fico feliz que tenha gostado.

O grupo continuou conversando ao lado da placa de bronze que homenageava Amália. Champanhe era oferecido a todos, uma cortesia do príncipe aos presentes. No entanto, à medida que a hora passava, o hall do Teatro Municipal se esvaziava. Por fim, apenas ficaram Andrev, João, Amália e Gabriel no local.

— Não quero ir para casa agora! – Protestou Amália, observando a rua ao passar pelo portão de ferro do teatro.

— Hoje é domingo. Não sei se temos algo para fazer além disso – Andrev fumava diante da entrada do imponente teatro. — Uma pena!

— Claro que temos! – Orlínski se animou. — Podemos ir ao Virote.

— Você está louco? – João, chocado, não acreditava na proposta do amigo. — Levar Andrev e Amália até aquele lugar?

— Por que não? A gente já foi lá várias vezes! – Orlínski estava resoluto.

— Mas é diferente! – João tentava contra-argumentar.

— O que é Virote? – Perguntou Andrev.

— É um bar – respondeu João.

— Ótimo! – Amália se empolgou. — Vocês nunca me levaram para algum lugar animado à noite.

— Mas o Virote, não! – Protestou João.

— Por que não? – Andrev estava curioso com a reação de João Augusto.

— Porque é um bar... – O médico tropeçou nas palavras.

— Simples! – Completou Orlínski.

— Mas ele vai estar aberto a essa hora, num domingo? – Andrev continuou a indagar.

— O Virote nunca fecha! – Orlínski jogou no chão o cigarro que fumava, e incentivou Amália e Andrev a comprarem a ideia.

— Então, vamos! – A cantora fez coro com Gabriel.

— Eu não sei... – João ainda tinha dúvidas. Sua vontade de ir embora para casa passara, mas não queria levar Amália ao tal Bar do Virote. Ainda mais da forma como estava ricamente vestida.

— João – Amália o fitou. — Cadê a aventura?

— Estou vendo que você é idêntica a esses dois: inconsequente! – João sabia que acabaria aceitando o convite, mas temia que aquela ideia desse em algo errado. — Amanhã é segunda.

— E você nunca bebeu até tarde no domingo – Orlínski se pronunciou. — Vamos logo e pare de colocar empecilhos!

João aceitou com certa hesitação. Um pouco mais de uma hora atrás, estava disposto a ir embora sem sequer falar com Amália. Agora, estava ao seu lado, dentro do carro, indo em direção ao Bar do Virote, num reduto pobre e esquecido da cidade. Não conseguia acreditar que concordara com aquela ideia, e se preocupava com a reação de Amália e Andrev ao verem o lugar.

— Onde fica esse Virote? – Perguntou Andrev, conduzindo o veículo Rua da Bahia abaixo.

— No Isolado, fundos da Floresta. Perto do Arrudas – respondeu Orlínski, guiando Andrev no caminho que deveria seguir.

— O que é Arrudas? – Questionou Amália, animada.

— É o nome do ribeirão. O Virote fica à beira do rio – respondeu João.

O carro passou pela Estação Ferroviária e seguiu a direção indicada por Gabriel, passando a ponte sobre o Ribeirão Arrudas e se aproximando do local. De onde estavam, já podiam ouvir a música e as risadas. Era uma região precária, com ruas sem calçamento e algumas poucas casas simples. A luz elétrica era uma novidade e, com a sua iluminação intensa, tornava-se um incentivo a mais para os frequentadores do bar continuarem a beber noite adentro.

Pararam numa confluência de ruas de terra batida. Um poste iluminava o que poderia se tornar, um dia, uma praça. Algumas lojas dedicadas à pescaria circundavam a luz, com o rio e o verde das suas margens diante delas. Um segundo poste, não muito distante dali, era mais um ponto de luz que afastava a escuridão sem conseguir clarear todo o lugar. Bem debaixo dele, o tal Bar do Virote tocava sambas alegremente, com pessoas bebendo ao ar livre, rindo e ignorando que o domingo caminhava para o seu fim.

Aproximaram-se do prédio de apenas um pavimento. Apesar da simplicidade, era possível ver algum sinal de decoração nas paredes ao redor da porta, mas nada além disso. O interior era pequeno e apertado e, por isso, a maioria das pessoas se acomodava na rua, diante da entrada do bar. Uma roda de samba e choro animava a noite, encostados ao lado da entrada. Não havia garçons. Quem quisesse beber, deveria ir até o balcão e fazer o seu pedido.

— Sou eu ali? –Perguntou Amália, assim que entrou. Uma foto sua, tirada de alguma revista, dividia espaço com outras fotos de figuras femininas. Completando a “decoração” do bar, fileiras de garrafas sobre estantes circundavam todo o interior do estabelecimento.

— Isso é novidade! – Respondeu Orlínski. — Não me lembro disso aqui na última vez que viemos.

Com exceção do grupo que tocava, o resto do bar fez silêncio ao ver Amália passando pela soleira da porta. Assim que percebeu a reação ao seu redor, João fez uma expressão de que já sabia que algo ruim estava prestes a acontecer. Amália, no entanto, virou-se para os três e perguntou o que queriam beber, ignorando os olhares em sua direção.

— Acho que podíamos beber algo forte, tipo cachaça – sugeriu.

— Você quem manda – Andrev concordou.

Animado, Orlínski se aproximou do balcão e pediu pelas cachaças, servidas em copos de vidro numa grande quantidade.

— O costume é beber tudo de uma só vez – explicou Gabriel.

— O quê? – Andrev se assustou.

— Aceitou vir, tem que seguir o costume – provocou João, mais aliviado depois que os olhares na direção deles se minguaram.

A bebida desceu forte. Assim que tomaram, Amália procurou quebrar o clima que surgiu com a sua chegada, cumprimentando todos que se aproximavam dela para se certificarem de que se tratava da mesma mulher cuja imagem estava estampada na parede. Orlínski contribuía para afastar a situação desconfortável, cantando os sambas que conhecia e puxando os demais para perto da música. Todavia, era impossível não perceber a desigualdade existente entre o grupo e os demais: enquanto todos se vestiam de forma humilde e informal, os quatro estavam trajados numa elegância destoante, destacando-se na multidão e gerando um certo desconforto em alguns presentes.

— Doutor João Augusto! – De repente, uma voz masculina se aproximou do grupo.

— Olá, Dorival – Ao ver quem era, João o cumprimentou num tom desanimado.

— Está andando com gente de estirpe – Dorival, um pescador robusto, olhava para Andrev e Orlínski com uma expressão zombeteira. — Cuidado! Estão matando gente “delicada” nessa cidade – provocou num tom jocoso.

— Que sorte que você ainda está vivo, Dorival – João foi irônico, tirando risadas dos que ainda observavam o estranho grupo. Um clima de animosidade surgiu entre os dois.

— Rapazes! – Amália se intrometeu no diálogo que se acirrava. — Vocês estão falando alto demais e não consigo ouvir a música – sua fala tirou mais gargalhadas de alguns ao redor.

A pedido dela, o grupo se afastou daquele homem rude, aproximando-se dos que tocavam. Animada, Amália restabeleceu o clima agradável entre todos. Sentido o efeito da cachaça e das taças de champanhe no teatro, arriscava alguns passos, o que chamava a atenção dos homens bêbados que queriam dançar e cantar com ela.

— Corta-jaca, João! – Amália dançava a música de Chiquinha Gonzaga, alegremente. Ele, por sua vez, tentava protegê-la dos olhares cobiçosos dos presentes na roda de samba e chorinho.

— Você ouviu o que aquele sujeito disse? – Num canto, Gabriel cochichou com Andrev.

— Sim – respondeu Andrev, olhando para Dorival, que bebia num grupo do outro lado da rua. — Acha que ele pode ser um suspeito?

— Não sei. Mas fofocas estão se espalhando – Orlínski fitou Andrev seriamente. Só então percebeu a expressão estranha do príncipe, balançando a cabeça e passando a mão no rosto constantemente. — Você está bêbado? – Perguntou ao vê-lo apertar os olhos, tentando manter o foco.

— Acho que um pouco – riu. — Essa bebida é forte!

O condutor da banda começou outra canção. Orlínski aplaudiu, reconhecendo a música que se iniciava. Amália dançava ao lado de João, tentando convencê-lo a acompanhar os seus movimentos.

— Eu não sei dançar, Amália – envergonhado, João se mexia de um lado para o outro como uma vassoura.

— “O inverno é rigoroso, bem dizia a minha vó. Quem dorme junto tem frio, que fará quem dorme só” – o líder do grupo musical puxava os versos, sendo seguidos por vários presentes no bar.

— “Isso é bom, isso é bom, isso é bom que dói” – Orlínski, em voz alta, cantava junto.

— “Os padres gostam de moças, e os doutores também” – continuou o homem da banda com voz forte, obrigando todo o bar a se animar com eles. — “E eu como rapaz solteiro, gosto mais do que ninguém”.

— “Isso é bom que dói” – Gabriel trocava olhares com Andrev, enquanto acompanhava a algazarra, incentivando com gritos os muitos homens que levavam mulheres para o meio da roda, dançando com elas e cantando os versos da música do famoso Xisto Bahia.

— “Isso é melhor que arroz com casca, fique sabendo seu Araras” – finalizou o cantor. Todos aplaudiram assim que a música terminou. O homem que conduzia a banda, que aparentava ter por volta de quarenta anos, percebendo a presença de Amália, convidou-a a cantar com eles, pedindo que ela escolhesse a próxima canção.

— “A chinelinha do meu amor” – Amália sugeriu, após beber mais uma cachaça que trouxeram para ela. Mesmo sem garçons, a famosa cantora era servida pelo dono do bar em pessoa.

O bar aprovou a escolha de Amália, que se posicionou no centro da roda para cantar.

— “A chinelinha do meu amor, é tão cheirosa, só cheira a rosa, só cheira a flor” – começou a cantar, para o deleite dos presentes.

Amália sabia ser uma estrela em qualquer situação. Cantando no meio daquela gente simples, demonstrava o seu talento da mesma forma com que arrebatou os ricos no Teatro Municipal. Todos a aplaudiam, enquanto ela incentivava muitos a dançar e a se divertir. Mas dedicava atenção especial a João que, mesmo sem saber dançar, tentava acompanhá-la numa felicidade que denunciava todo o seu apreço por ela.

— “Se ela sacode os cabelos de cetim, fica a noite mais cheirosa que o jardim” – Amália continuava alegremente.

Bêbado, Andrev assistia Amália dançar com João. Era bonito ver como os dois interagiam. Formavam um belo casal. Tudo fluía naturalmente entre eles: ela cantava e dançava, ele tentava seguir os passos dela, sorrindo feito um bobo para as expressões que a cantora lançava em sua direção. Tomado por esses pensamentos românticos, virou-se para Orlínski, observando suas reações. Gabriel cantava, empolgado com Amália e João naquela situação tão íntima. Discretamente, Andrev pegou uma das mãos dele, que se espantou com o gesto tão tenro no meio de tanta gente.

— O que foi? – Assustado, Orlínski perguntou assim que tirou a sua mão, com medo de serem vistos trocando carícias.

— Venha – se desviando de todos que dançavam e bebiam, Andrev caminhou pelo bar em direção ao seu carro.

— O que está acontecendo? – Gabriel ficou preocupado e sério.

— Apenas entre no carro e confie em mim – Andrev insistiu, ligando o veículo e observando a via por onde teria que manobrar.

— Mas, e quanto a João e Amália? – Orlínski obedecia ao comando, olhando para Andrev com uma expressão confusa e alarmada.

— Vamos voltar para buscá-los! – Andrev deu a partida no carro e seguiram por uma rua deserta.

— O que está acontecendo, Andrev?

Seguiu pela rua até um ponto onde podiam ver todo o centro da cidade. Dali, podiam avistar a silhueta da Serra do Curral, que fazia um belo contorno entre a terra e o céu, emoldurando a zona urbana como se ela fosse o centro de um quadro. Também era possível ver as costas da estação ferroviária, com a torre gótica que lhe dava ares de castelo ou de uma igreja, bem como as luzes dos postes iluminando as ruas desertas e silenciosas. Belo Horizonte dormia, mas não escondia as belezas construídas entre as montanhas, que ganhavam uma aura mágica durante a noite estrelada. Uma paisagem de fazer as retinas brilharem de alegria.

— O que foi tudo isso? – Gabriel estava assustado.

— Só queria um lugar onde pudéssemos ficar a sós. Puxou a cabeça de Orlínski para perto da sua e o beijou.

— Você está louco! – Sorrindo, Gabriel fitava o amante. — Tem noção do perigo disso? – Olhava para os lados, preocupado. Estavam num carro aberto e não seria possível se esconder caso alguém aparecesse.

— Eu sei! – Andrev o beijou mais uma vez. — Mas precisava fazer isso de qualquer jeito. Acho que foi essa bebida que Amália escolheu para a gente beber que me deixou assim – riu, abraçando-o e, em seguida, deitando a cabeça no colo de Orlínski, dirigindo o olhar para o tapete de estrelas no firmamento.

— Você está, realmente, muito bêbado. E tomou só uma dose! – Orlínski acariciava os cabelos de Andrev, que mantinha os olhos no céu. — Imagina se tivesse tomado mais.

O príncipe sonhava acordado, admirando a vastidão do breu. O manto da noite era como uma colcha cheia de furos, por onde os pontos de luz escapavam e brilhavam numa intensidade maravilhosa. O céu de Belo Horizonte era incomparável! Nunca em sua vida, em lugar algum, Andrev presenciou um firmamento tão potente, tão pleno; era como se a terra e o céu tivessem escolhido aquele para ser o seu local de encontro, da mesma forma que dois amantes combinam onde se encontrar para se amarem.

— Sabe, Gabriel? – Andrev, ainda no colo de Orlínski, tinha uma expressão de criança vislumbrada no rosto.

— Fale, seu bêbado! – Brincou, mantendo as carícias nos cabelos de Andrev.

— Quando a Guerra acabar... podíamos viajar pela Europa, conhecer lugares...

— Você está louco? – Orlínski fingia levar a sério as divagações de um bêbado.

— Sim! Anna pode ficar com Amália e João e, depois que voltarmos...

— Vamos para a fazenda – completou Gabriel, conhecendo aquele discurso de Andrev, que sempre sonhara em manter aquele refúgio no sul de Minas.

— Sim! Por que não seria possível? – Andrev se ergueu e fitou Orlínski. — Quero tentar viver uma vida normal com você – se entreolharam por alguns instantes, deixando se entregar pelo desejo, logo em seguida.

— Isso é loucura! – Gabriel acariciava os lábios de Andrev com os dedos.

— Shhh! – O príncipe levou o indicador até a boca de Orlínski, impedindo que continuasse a falar. Jogou-o contra o banco e se sentou sobre ele. Andrev desabotoava o colete da vestimenta de Gabriel, enquanto ele, por sua vez, buscava avidamente liberar o príncipe dos botões que prendiam a calça ao corpo. Estavam prestes a cometer uma loucura, mas estavam excitados demais para parar sem um motivo forte para isso.

Foi o apito do trem ao longe que interrompeu o intenso momento de amor.

— É o trem noturno! – Exclamou Orlínski, impedindo que Andrev continuasse a beijar o seu pescoço, levantando-se abruptamente.

— Droga! – Sentado sobre Gabriel, Andrev ergueu o tronco para ver a locomotiva se aproximar da estação, não muito distante dali.

— Precisamos ir! – Orlínski respirou fundo, abotoando a camisa e o colete. — Temos que buscar João e Amália.

Sem esconder a sua frustração, Andrev se recompôs e deu partida no carro, rapidamente rumando de volta ao bar para buscar os amigos. Enquanto controlava o automóvel, estava ofegante, lutando para afastar a vontade de sexo que dominava o seu corpo. Entrementes, a preocupação de Orlínski era real: se ficassem ali, poderiam ser pegos de surpresa pelos viajantes que, em breve, desceriam dos vagões e deixariam a estação, ocupando a rua onde, há pouco, admiravam a cidade e se entregavam ao amor.

No meio da escuridão da madrugada, as luzes emanando do interior do trem iluminavam os trilhos, lançando das janelas dos vagões feixes que caminhavam em direção à cidade conforme o desejo da locomotiva. Em menos de uma dezena de minutos, a longa lagarta de ferro se preparava para interromper o tique constante das engrenagens e, finalmente, estacionar na estação.

Para o alívio dos que cruzaram o vasto território mineiro, o som longo do apito anunciou a parada do maquinário. O vapor, que a chaminé da locomotiva lançava furiosamente, cobria tudo, deixando turva a iluminação da plataforma; fazendo com que a estação se parecesse mesmo com um castelo medieval, recebendo o trem de modo hostil e frio. Tudo era barulho, cinza, confusão e estranhamento para os que estavam ali pela primeira vez. Em terra, um funcionário da ferrovia segurava um lampião e dava as boas-vindas aos recém-chegados, que desciam dos vagões apressadamente, ansiosos por encontrarem suas casas, hotéis ou outro local de descanso, após a longa viagem do Rio de Janeiro até Belo Horizonte. Mal sabiam que, juntamente com os passageiros, desembarcava uma ameaça silenciosa, que mudaria a vida da cidade para sempre.


1 visualização

©2020 por A Contrapelo Podcast. 

O podcast de Ciências Humanas.