Capítulo 12

“Não há motivo para pânico”, anunciavam os jornais quando se confirmou a chegada da “hespanhola” a Belo Horizonte. O presidente do Estado e o prefeito deram entrevistas, defendendo que a cidade planejada não passaria pelo sufoco pelo qual passava o Rio de Janeiro, onde os mortos eram cada vez mais numerosos, e o medo e o pânico começavam a tomar conta da população. Os mineiros podiam dormir tranquilamente, pois a gripe não era uma ameaça.

— Dizem que cigarro é bom contra a espanhola – disse Andrev, enquanto conduzia o carro pela bucólica estrada que levava ao Colégio do Caraça.

— Eu ouvi que cachaça também é boa para acabar com a gripe – Orlínski, ao seu lado, comentou. — O que você acha, João?

— A cidade não está preparada para um surto como o do Rio – João observava a vasta visão das montanhas no meio da cerração. A manhã estava escura, nublada e fria.

— Mas ela não foi planejada para impedir doenças? – Questionou Andrev. — Não é por isso que as ruas são tão largas e retas?

— Na zona urbana, sim – continuou João. — Mas Belo Horizonte não é só isso. E o Hospital de Isolamento não vai conseguir abrigar todos os doentes, caso a espanhola fuja do controle.

— Espero que isso jamais ocorra! – Orlínski tentava acender seu cigarro em vão. O vento úmido abraçava o interior do carro descoberto, mergulhando-o na neblina matinal.

Rodaram pela estrada precária durante toda a manhã. Com dificuldade, avistaram a torre gótica da igreja localizada no centro do colégio, encoberta pelas nuvens e pelo cinza do céu. O Caraça parecia abandonado. O lugar tinha aspecto de mosteiro medieval, encravado no meio das montanhas, envolto a uma paisagem de tirar o fôlego. Era belo, mas com uma atmosfera estranha, isolada e esquecida pela civilização. Quando o carro parou diante da entrada, nenhuma alma surgiu para recepcioná-los.

— Você avisou que estávamos vindo? – Perguntou João a Andrev.

— Sim! O padre Guilherme me certificou de que seríamos bem-vindos – respondeu o príncipe, saindo do carro à procura de uma campainha ao lado do portão de ferro.

— Arrisco a dizer que, de todos os lugares que já visitamos por causa desse assassino maldito, esse é o que mais me dá arrepios – Orlínski também deixou o veículo, caminhando pelo terreno. Seus sapatos raspavam o cascalho sobre o chão.

— Também não me sinto bem numa escola dirigida por padres – João, igualmente fora do automóvel, se aproximou do portão e bateu palmas.

Era um cenário hostil, num silêncio medonho, como se a própria natureza quisesse expulsar os intrusos que desejassem invadir aquele recluso castelo. O Caraça era uma fortaleza, e foi do meio da densa neblina que o protegia, que a silhueta de um homem usando batina surgiu como um fantasma, caminhando calmamente até o portão. Era um jovem padre, de rosto agradável, com um volumoso cabelo cacheado e uma tez tão branca que a bochechas estavam rosadas em decorrência do clima frio. Sua face era demasiadamente infantil e angelical, sem um traço sequer de barba ou bigode. Andava com os dedos das mãos entrelaçados, numa postura rígida e austera digna de um verdadeiro monge.

— Príncipe Andrev Kinsky, eu presumo – disse, assim que chegou às grades que marcavam a entrada do Colégio. Sua voz grossa destoava da sua aparência de querubim. Era um homem feito, mesmo que sua idade pudesse ser escondida atrás dos seus traços excessivamente juvenis.

— Sim – Andrev se aproximou para cumprimentá-lo. — Disse ao diretor, padre Guilherme, que chegaríamos hoje.

— Estou ciente. Sou padre Benjamim e fui designado para guiá-los pelo nosso colégio. Sejam bem-vindos ao Caraça.

— Obrigado! Esses são os doutores Gabriel Orlínski e João Augusto... – olhou para João com uma expressão de dúvida. Não se lembrava do sobrenome do médio e procurava ajuda para resolver àquela questão.

— Silva – respondeu o médico com um sorriso forçado.

— É com grande prazer que recebemos vocês no nosso sagrado colégio. Estarei a serviço de vocês durante todo o período que estiverem conosco. Por gentileza, peço que me sigam. Vou levá-los até o quarto onde ficarão essa noite. Depois do almoço, poderão ver o padre Guilherme – Benjamim falou num tom calmo, quase gregoriano, enquanto destrancava o cadeado que prendia a corrente do portão.

Os três voltaram ao carro e, depois de conduzi-lo pelo caminho indicado pelo padre, pararam diante do longo e retangular prédio de dois andares, em estilo colonial. Os alunos, que estavam no horário de almoço, se amontoaram para ver o veículo e os recém-chegados. Ignorando os olhares curiosos, Padre Benjamim chamou dois funcionários do colégio para ajudarem a tirar as malas dos convidados. Em função da distância entre a capital e a escola, Andrev combinou previamente que, ele, Orlínski e João ficariam uma noite no Caraça.

Assim que os criados pegaram todas as malas, o padre Benjamim guiou os três pelo pátio aberto do colégio. Dali, podiam ver o edifício onde estavam localizadas as salas de aula e, ao seu lado, os fundos da igreja, com seus belos vitrais, incapazes de mostrar toda a sua beleza a luz do dia; naquela hora, entre o fim da manhã e o início da tarde, apenas o interior do templo era agraciado pelo encanto dos vidros multicoloridos, e o exterior podia apenas ter um parco sinal de toda a sua graciosidade. Seguindo os passos do jovem padre, adentraram por uma porta bem ao lado da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, centro nefrálgico do colégio. Assim que entraram, o guia indicou o caminho que passava pelo claustro até as escadas. Os três ficariam alocados no segundo andar, numa ala reservada aos professores e convidados ilustres.

— Os alunos já estão almoçando, mas preparamos uma refeição especial para vocês – disse Benjamim, assim que os três entraram pela porta do aposento indicado para passarem a noite. — Assim que estiverem prontos para fazer a refeição – continuou o jovem — basta descerem a escada. Estarei esperando por vocês lá embaixo.

— Obrigado – agradeceu Andrev.

O quarto era simples, com um beliche e uma cama de solteiro feitas rusticamente, e encostadas nas paredes do ambiente. A janela de guilhotina tinha vista para um jardim à francesa, e para o vale que descia esplendorosamente até se perder no infinito do verde das matas. Uma mesinha com cadeira completava o mobiliário, bem como um castiçal com velas novas e um tinteiro. A luz elétrica já havia chegado ao Caraça, mas ler e escrever usando a iluminação das chamas ainda era um costume entre aqueles que moravam no monástico colégio.

— Qual é mesmo o nome do padre que viemos interrogar? – Perguntou Orlínski, colocando a sua mala sobre a cama superior do beliche.

— Padre Alencar – respondeu João, enquanto observava a paisagem da janela. — Pelo que averiguei com Félix, em Sabará, ele tem ligações com a família do Barão.

— Será que ele vai falar tudo que sabe facilmente? – Indagou Gabriel, indo até João e querendo analisar a vista do vale e do jardim.

— Espero que sim. Não viemos aqui à toa – João observava alguns estudantes correndo pelo jardim.

Enquanto ajeitavam os seus pertences, os sinos da torre começaram a tocar. Dentro daquele aposento, os três eram incapazes de saber por qual motivo badalavam naquela hora do dia. Talvez fosse o início de alguma missa, ou o fim do horário do almoço. Jamais estiveram num colégio religioso antes, e a rotina do lugar era completamente estranha e medonha. Depois que o som metálico no campanário cessou, puderam ouvir as vozes cantando, vindas do interior da igreja. Era o momento de alguma atividade devocional.

— Acho que tenho que concordar com você, Orlínski – João esticou o dorso para fora da janela, podendo ver a igreja envolta em nuvens. — Esse lugar é muito tenebroso!

— Eu não teria estrutura emocional para estudar num colégio desses – confessou Gabriel.

— Vamos descer logo e ignorar isso tudo – impaciente, Andrev abriu a porta, observando o longo corredor deserto, e caminhando até a escada de onde vieram, minutos atrás.

Padre Benjamim aguardava por eles, enquanto observava a imagem da Virgem, que descansava sobre um aparador, numa parede. Realizava uma prece, inspirado pelo canto gregoriano que ecoava pelo corredor do andar debaixo. Assim que sentiu os três se aproximarem, interrompeu suas orações e os conduziu à salinha onde fariam a refeição. Por serem presenças ilustres, não comeriam no refeitório, tal como faziam todos os demais que habitavam o colégio.

A sala de paredes caiadas e o forro do teto geométrico mantinham consonância com a austeridade do resto do colégio. Uma mesa com três lugares fora colocada no centro do ambiente. Sobre ela, uma toalha branca, alguns talheres de prata e a porcelana onde seria servido o almoço.

— Sentem-se, por favor – padre Benjamim indicou com a mão os lugares para os três. — Eu vou servi-los.

A refeição foi trivial, mas muito deliciosa. Assim que comeram, foram até o jardim para fumar e aguardar o momento em que se encontrariam com o padre Guilherme Vallot, responsável pelo colégio. O objetivo da viagem era encontrar com o padre Alencar, responsável pelo casamento de Maximiliano e Eufrásia. No entanto, como fariam para conversar com ele sem chamar atenção permanecia um mistério.

Enquanto fumavam, podiam perceber alguns alunos os observando das janelas do colégio. De vez em quando, passavam alguns homens de batina, evitando encará-los diretamente, mas interessados em averiguar quem eram os três cavalheiros que vieram da capital. Aquela sensação de serem estranhos no ninho era muito desagradável. Sentiam-se vigiados o tempo todo, como numa prisão, onde eram os novos prisioneiros, recebidos com curiosidade pelos demais encarcerados e com suspeita pelos guardas daquela penitenciária religiosa.

— Senhores – a voz do padre Benjamim surgiu detrás da fonte, no meio do jardim francês. — O padre Guilherme irá recebê-los agora.

A passos lentos, seguiram Benjamim até a sala de Guilherme Vallot. Seu local de trabalho era o que mais se diferenciava do resto do prédio. Um ambiente amplo, decorado com tapetes, luxuosos móveis em jacarandá, quadros de santos e candelabros de prata. Tudo ali remetia ao nível hierárquico do padre que comandava o Caraça há mais de vinte anos.

Guilherme Vallot os aguardava sentado diante de sua mesa, fumando seu tradicional cachimbo, longo e bem lustrado. Era um homem de estatura mediana, cabelos grisalhos e algumas rugas entre os olhos. Mesmo assim, o tempo não levara embora parte da sua beleza da juventude, e ele poderia mentir a idade facilmente. Qualquer um diria que ainda não chegara aos cinquenta anos.

— Príncipe Andrev Kinsky – cumprimentou-o com um sorriso no rosto. — É uma honra poder recebê-los no Caraça. Sentem-se, por favor!

— Padre Guilherme – Andrev apertou a sua mão. — Estou muito interessado em conhecer seu colégio e poder contribuir de alguma forma para ajudá-lo.

— Claro! A sua mensagem revelando o interesse em ser um patrono do nosso colégio nos encheu de alegria. Agradecemos à Virgem por essa ajuda tão necessária – o padre sorriu.

Orlínski e João se entreolharam, sem entender o início daquela conversa. Andrev e Guilherme falavam de finanças, investimentos e necessidades do colégio. Aquele assunto fugia totalmente do objetivo pelo qual estavam ali. Além de negócios, o príncipe se mostrava curioso pela história do local, pelo conteúdo ensinado e pelos nomes de alunos ilustres. Andrev se portava como um mecenas cujo único propósito da visita era conhecer a instituição que ajudaria com recursos.

— Muito interessante tudo isso, padre Guilherme – disse Andrev, sentado na cadeira diante do diretor do colégio. — Se não for impertinente, gostaria de conversar com os seus professores.

— Claro, alteza. Poderei chamar os nossos melhores instrutores – Guilherme sorria de um jeito misterioso.

— Ouvi falar sobre o padre Alencar. Em Belo Horizonte, o nome dele me foi indicado como referência desse colégio – continuou Andrev.

Só então, João e Gabriel entenderam as intenções dele. O príncipe sabia que os padres daquele colégio não seriam amigáveis sem receber algo em troca e o que fazia era exatamente desarmar a atmosfera de desconfiança que circundava os três. Andrev queria ter credibilidade, e só poderia tê-la com uma oferta em dinheiro para a manutenção do colégio.

Ao ouvir o nome de Alencar, o diretor ficou desconfortável, hesitando:

— Padre Alencar? – O diretor baforou o seu cachimbo. — Certamente, poderia indicar nomes mais talentosos na licenciatura – Guilherme não escondeu o desagrado com o pedido do príncipe. — Ele regressou ao Caraça há pouco.

— Sem dúvida que devem existir muitos bons mestres aqui – Andrev cruzou as pernas e se ajeitou na cadeira. — Mas minha esposa está curiosa para saber mais sobre o padre Alencar. Ela recebeu boas recomendações a respeito dele e, queremos um tutor para quando tivermos nosso primeiro filho.

João e Orlínski assistiam à Andrev realizar aquela encenação com bastante interesse. O príncipe sabia jogar nas regras da sociedade e ter o que ele desejava através daquele tipo de conversa. Assim que ouviu que conhecer Alencar era um pedido da princesa Anna, Guilherme parou de tentar convencer o príncipe dos outros nomes mais talentosos entre o corpo docente. Com isso, pediu a Benjamim, que permanecia em pé ao lado da porta todo esse tempo, que chamasse Alencar. O diretor do colégio não queria se indispor com o mais novo patrono do Caraça e sua esposa.

— Vocês poderão encontrar com o padre Alencar aqui ao lado – Guilherme indicou a porta, do outro lado de sua sala. — Infelizmente, tenho que cuidar dos preparativos para a missa da noite e não poderei estar com vocês.

Ainda falando sobre os planos que tinha para o Caraça, o padre os conduziu até o ambiente indicado. Tratava-se de uma sala de recepção, com cadeiras e canapés estofados de veludo vermelho e entalhados no gosto barroco, uma reminiscência do passado colonial. No forro do teto, querubins quebravam a monotonia do branco e, na parede, um quadro da Virgem muito parecido com aquele que viram no casebre abandonado, o que chamou a atenção de Orlínski. As duas janelas de guilhotina possuíam pesadas cortinas de veludo púrpura.

— Sintam-se à vontade, senhores. Precisando de algo, basta pedir ao padre Benjamim. A função dele é lhes servir no que for necessário – disse Guilherme, antes de se despedir e sair. — Nós nos veremos à noite, no jantar. Deus os abençoe – curvou-se e deixou o local.

— Parece que o diretor não gostou da ideia de falarmos com o tal Alencar – João escolheu uma cadeira ao lado de Andrev, que acendeu um cigarro assim que se acomodou num dos canapés.

— Isso é um sinal – Andrev tinha uma expressão aparentemente tranquila, como se tivesse total controle da situação.

— Você fez uma cena e tanto – avaliou Gabriel, aproximando-se e se sentando na cadeira oposta a João, deixando livre apenas o canapé diante de Andrev, reservado para Alencar.

— Imaginei que esses padres não nos receberiam bem, se não viéssemos com algo para oferecer a eles – Andrev expeliu fumaça pela sala.

— Foi genial! – João elogiou a astúcia de Andrev. — Espero que esse Alencar seja assim também.

— Vamos ver qual é a desse padre. Talvez seja fácil conseguir o que a gente quer – concluiu Andrev.

— Não se esqueça de que o Barão era um homem de negócios. Você pode tentar usar isso para tirar informações dele – sugeriu João.

A conversa foi interrompida assim que ouviram Benjamim regressar com o padre Alencar ao seu lado. Era um homem alto e vaidoso, pela forma como penteava o cabelo, o bigode e a barba grisalha; o corpo era esbelto e imponente. Entrara no recinto com uma expressão orgulhosa, sentindo-se honrado por ser chamado à presença de um nobre. De modo altivo, caminhou pela sala e se sentou diante de Andrev, cumprimentando apenas a ele e ignorando os demais. Padre Benjamim, então, fechou a porta e ficou aguardando ao lado dela, observando silenciosamente os quatro acomodados iniciarem a conversa com cordialidade, desaparecendo no canto mais escuro da sala.

— Príncipe Andrev Lichtenburkové Vitkovci Kinsky – padre Alencar foi quem fez o primeiro cumprimento. — Quanta honra! – Curvou-se.

— Padre Alencar de...? – Andrev, surpreso ao ouvir seu nome completo saindo da boca de um pároco, fez a mesma expressão de dúvida que fizera para João, mais cedo, diante do portão.

— Alencar de Castro – Respondeu o padre de um jeito arrogante. — É uma honra conhecer um nobre do Império Austro-húngaro em pessoa, alteza – João e Orlínski olhavam para ele com espanto. Nenhum dos três acreditava que o padre poderia saber o nome completo de Andrev sem fazer parte dos círculos sociais da elite de Belo Horizonte.

— Boa tarde, professor – Andrev apresentou Orlínski e João. — Viemos de Belo Horizonte especialmente para vê-lo.

Ao ouvir que estavam ali por sua causa, o padre Alencar se empoou, estufando o peito e erguendo o nariz. Adorava tudo que se relacionava à nobreza europeia e ser reconhecido por um príncipe de verdade era um momento de intenso prazer para ele. Amante da etiqueta palaciana e dos protocolos, vivia como se tivesse nascido no seio da aristocracia, copiando os modos e a conduta que acreditava ser a mais apropriada para um duque, marquês ou conde. Portanto, estar diante de Andrev era uma imensa vitória para um padre de origem humilde e desconhecida.

A conversa seguia leve, com trocas de elogios e perguntas sobre o que ele lecionava no Caraça. Alencar de Castro era professor de música, inglês e francês; quando necessário, também dava aulas de filosofia. O padre falava das suas aptidões com orgulho, deixando evidente a vontade de impressionar Andrev, que fingia interesse no assunto, prestando atenção a tudo que Alencar dizia. João e Orlínski, por sua vez, ficavam cada vez mais impacientes com a lentidão de Andrev em ir direto ao assunto.

— O senhor parece ser um tutor ideal, padre Alencar. Será um prazer tê-lo em minha casa, quando precisar de um professor com tantas qualidades – Andrev acendeu mais um cigarro.

— Será um prazer servir à Casa Kinsky, alteza – o padre tentava controlar a euforia, mas sua expressão evidenciava a vaidade por ter recebido aquela proposta.

— Não queremos tomar muito o seu tempo – Andrev retomou a palavra. — Mas fiquei sabendo que o senhor foi pároco em Sabará recentemente.

— Ainda sou – Alencar se ajeitou no canapé. — Sabará é a minha terra de coração, mas minha maior paixão é lecionar. Não podia ficar longe dos meus amados alunos por muito tempo.

— Entendo – cuidadosamente, Andrev se aproximava do assunto central daquela conversa. Seguindo a sugestão de João, planejava chegar à família Miranda como se seu interesse fosse apenas no lucro. O padre já dera todos os sinais de que amava títulos de nobreza e riqueza, logo, poderia aceitar lhes dar informações sem levantar suspeitas de que queriam, na verdade, descobrir mais dos negócios sujos do Barão de Miranda.

— Quero investir em alguns negócios naquela cidade, mas não conheço nada sobre os que habitam nela. Acredito que um pároco do seu nível poderia me ajudar – o príncipe tragou a fumaça, soltando-a logo em seguida. — Tentei falar com alguns políticos, mas eles foram decepcionantes – mantinha seus olhos focados no próprio cigarro e uma voz tranquila, mas firme.

— Será um prazer ajudá-lo, alteza – Alencar gaguejou. Não esperava que o nobre fosse se interessar pela pequena e isolada Sabará, mas não queria decepcioná-lo. — Conheço quase todos os devotos de Nossa Senhora do Carmo. Posso ajudar no que for possível aos meus conhecimentos – disse, amigavelmente.

— Ótimo. A única informação que tive de útil foi sobre um tal de Barão de Santa Quitéria. Creio que seja o homem mais rico da região – Andrev fitou o padre.

Repentinamente, Alencar mudou o semblante e ficou sério. Entendia o desejo do príncipe em saber sobre os ricos de Sabará, mas sobre aquele nome? A pergunta fez com que ficasse temeroso e desconfiado.

— Infelizmente, o Barão já não mais está vivo – respondeu num tom desconfortável.

— Que pena! – Andrev fingiu lamentar. — Ninguém me disse sobre isso quando tentei falar com o Barão.

— A tuberculose os ceifou – fez o sinal da cruz.

— Você pode nos contar o que sabe sobre a família do Barão? – Orlínski entrou na conversa.

— Fui tutor de um dos seus filhos, Gregório – ainda mais desconfiado, Alencar respondeu, examinando Orlínski com cuidado e certo nervosismo, esfregando os dedos das mãos constantemente. — Era uma família rica, mas sofreu muitos reveses na vida. Principalmente com os filhos.

— O que aconteceu com os filhos? – João começou a se interessar pela conversa. Alencar não escondeu o desagrado com a intromissão do médico na conversa.

— Gregório não era uma criança normal. Agia contra a natureza e a lei de deus – torceu o nariz, evitando olhar para João. — Da mesma forma que muita gente nesse país que acha que agora tem que ser tratado como os seus antigos senhores – provocou. Padre Alencar não conseguia aceitar a presença de João Augusto ao lado do príncipe. Para ele, era um insulto ter um negro vestido de modo tão elegante, sentando-se ao lado dos mais ricos. Ainda vivia num mundo onde deus amaldiçoara a geração de Cã, o filho de Noé que, supostamente, era a origem dos povos africanos. João se enfureceu, mas conseguia controlar a sua raiva com frieza digna de um interrogador profissional.

— Ele é o herdeiro? – Perguntou Andrev. — Talvez ele possa me ajudar...

— Infelizmente não, alteza! Gregório morreu há muito tempo, antes mesmo dos seus pais – respondeu o padre.

— Que lástima! – Lamentou Andrev, ainda mantendo o tom falso. — Não restou ninguém mais para me ajudar? – O príncipe fez uma expressão decepcionada e frustrada, como se tivesse perdido toda a viagem ao receber aquela informação.

— A filha dele ainda é viva – Alencar não suportou ver o semblante de Andrev naquele estado. — Realizei o casamento dela há alguns meses. O marido cuida do que restou da fortuna da família. Não é muita, mas ainda pode lhe ser útil, alteza – o padre analisava a reação dos três.

— Quem é? – João estava desesperado por mais informações.

— Maximiliano Nazzari. Ele vive em Belo Horizonte e, agora que se casou com Eufrásia, vai cuidar do resto da fortuna que restou dos Miranda – Alencar olhava friamente para o trio. — Eu cuidei de Eufrásia após a morte dos pais. Foi um prazer vê-la se casar com ele, mesmo que Maximiliano não fosse alguém de muitas riquezas.

— Você cuidou dela? – Orlínski questionou. — Ela não tinha familiares?

— Uma tia – respondeu Alencar. — Mas a pobre senhora faleceu, no ano passado.

As informações que o padre dava não estavam em conformidade com as que João recebera, quando retornou à Sabará, ao lado de Félix Xavier. De acordo com os boatos que corriam pela cidade, Eufrásia vivia com parentes, não apenas uma tia, e estes deixaram a cidade assim que a moça contraiu matrimônio com Maximiliano. João julgou que algo estava errado ali.

— Ela ficou sozinha até se casar? – Interrogou João.

— Claro que não! Eu cuidei dela pessoalmente. Por isso saí daqui – Alencar estava prestes a perder a paciência com aquele interrogatório. — Acredito, alteza, que para os seus negócios, essas são as únicas informações que podem ajudar.

— Certamente, o senhor está sendo de grande utilidade, padre Alencar – Andrev o agradeceu.

— O Barão era um homem muito bom. Tenho certeza de que Maximiliano poderá lhe dar tudo o que deseja – assim que terminou de falar, Alencar se levantou. — E, agora, senhores, eu preciso ir. Tenho que voltar ao meu trabalho – Visivelmente incomodado, despediu-se e, olhando de soslaio, caminhou até a saída que dava para a sala do diretor.

— Algo está errado – disse João, assim que o padre os deixou. — O que ouvi em Sabará não foi bem isso.

— Isso o quê? – Orlínski foi até à janela.

— Ninguém disse que esse padre cuidou de Eufrásia, ou que a tia dela faleceu há tanto tempo – ponderou João.

— Eu também acho que esse padre esconde algo – Gabriel acendeu um cigarro. — Ele parecia tenso quando mencionou Gregório, esfregando os dedos com força. Vocês viram isso?

— Não – João também se levantou. — Mas temos até amanhã para tirar mais informações desse padre.

— Acredito que será muito difícil – Andrev comentou.

— Talvez se você oferecer algo para ele – sugeriu Gabriel. — Algo que ele possa guardar de lembrança do príncipe em pessoa.

Naquele instante, um barulho veio do outro lado da sala, onde Benjamim assistia a tudo silenciosamente. O padre se moveu, lembrando aos três de que não estavam sozinhos, obrigando-os a parar imediatamente as reflexões que trocavam. Assustado, o trio precisava voltar ao quarto e continuar a conversar lá, antes que o jovem religioso ouvisse mais do que falavam e pudesse se transformar num empecilho.

No entanto, os três sabiam que vacilaram ao ignorar a presença de Benjamim no recinto. A conversa após a saída de Alencar revelou parte das reais intenções dos três e isso significava um risco. Por esse motivo, o caminho de volta ao quarto foi tenso e pesado. Seguiam o jovem padre pelos corredores do colégio, sem saber o que ele faria com o que ouvira. Será que contaria tudo ao diretor, ou Alencar? Será que seria preciso comprar o seu silêncio de alguma maneira?

— Pronto – disse Benjamim assim que chegaram à porta do quarto onde estavam alocados. — Poderão descansar até a hora do jantar, às sete horas.

Agradeceram e entraram. Orlínski se sentou na cadeira da mesinha, enquanto João e Andrev foram para as suas camas, fingindo mexer nas suas coisas até que o padre deixasse o local. Ele, contudo, não abandonou o quarto. Após esticar o pescoço para fora, certificando-se de que ninguém estava no corredor, fechou a porta rapidamente e, um pouco tenso, virou-se para conversar com os três:

— Não acreditem naquele padre! – O semblante calmo e neutro de Benjamim se desmanchou. — Ele está mentindo!

— O quê? – Inquiriu João. Os três se aproximaram do padre com os olhos espantados e esbugalhados.

— Padre Alencar não está dizendo a verdade – a pele branca do rapaz ganhou tons rubros intensos. — Gregório não morreu antes dos pais e... – Respirou fundo e hesitou.

— Continue, por favor! – Ordenou João, tenso com aquela confissão surpresa.

— Há muitas coisas horríveis ao redor do padre Alencar – Benjamim tentava organizar as ideias na sua cabeça.

— Acalme-se – Orlínski se aproximou do padre. — Você pode nos dizer o que sabe sobre Alencar e a relação que ele tem com Gregório?

Benjamim respirou fundo mais uma vez. Dentro de si, sentia que uma bomba explodira com toda a intensidade. Era como se soubesse o que os três estavam procurando, e tinha a convicção de que deveria falar. Só não sabia ao certo por onde começar.

— Conheci Gregório de Miranda em 1900, quando eu tinha treze anos – começou a narrar sobre as suas memórias. — Não éramos da mesma sala, mas fazíamos parte de um grupo – hesitou, fitando os três com uma mistura de medo e ansiedade. — Éramos o grupo do padre Alencar.

— Grupo? – Perguntou Orlínski.

— Sim. Padre Alencar reunia os estudantes que ele mais estimava. Fazíamos passeios pela mata, íamos a cachoeiras...

— E? – João já não conseguia segurar a ansiedade. Era impossível, para ele, ignorar que aquele relato se aproximava muito do que Gabriel fizera, quando se encontraram no seu consultório dias após o “match” de futebol.

— Não é fácil dizer o que estou dizendo agora – Benjamim estava muito nervoso e tremia. — Eu não tenho para onde ir, e isso pode me comprometer!

— E por que está fazendo isso? – Gabriel foi incisivo.

— Porque alguém tem que parar esse monstro! – Respondeu Benjamim com os olhos cheios d’água.

— O que você sabe sobre o padre Alencar? – Orlínski insistiu. — E qual a relação dele com Gregório de Miranda?

— Não temos tempo. Aqui não! – Benjamim se exaltou. — Agora que ele sabe que vocês procuram informações sobre o Barão de Santa Quitéria, a vida de vocês corre perigo!

— Como? – Andrev ficou tenso.

Trêmulo, Benjamim tirou do bolso da batina um molho de chaves. Nervosamente, tirou uma chave do meio daquelas peças de ferro, entregando-a para João, que estava mais próximo dele.

— Essa é a única cópia que tenho da porta do Arquivo. Guardarei a outra que tenho comigo...

— O que significa tudo isso? – João pegou a chave e questionou o padre, completamente tomado pelo nervosismo e ansiedade. — Por que corremos perigo?

— Vocês vão encontrar o que precisam lá – Benjamim estava completamente acelerado, contaminando os demais com aquela energia terrivelmente desesperadora. — No Arquivo, procurem pelo aluno “Gregório de Castro”. Vocês não encontrarão nada se forem atrás do sobrenome Miranda. Ele foi apagado desse colégio!

— Por que... – João tentou se pronunciar.

— NÃO HÁ TEMPO PARA ISSO! – Benjamim ofegava. — Vocês precisam confiar em mim – olhava para os três com a desespero deformando a sua face.

— Confiamos em você – Orlínski buscava um tom ameno para acalmar o rapaz. — O que temos que fazer?

— Primeiro: não comam nada que lhes for oferecido a partir de agora – Benjamim tentava se acalmar e desfazer o semblante desfigurado. — Só aceitem algo para comer e beber depois que eu indicar que é seguro. Levem isso muito a sério! As mortes aqui são sutis e silenciosas...

— Isso é loucura! – Exclamou Andrev.

— É questão de vida ou morte! Agora que ele sabe que vocês estão aqui por causa do Barão... – Benjamim prosseguiu. — Vocês entenderam? Não aceitem nada!

— Está certo, Benjamim. Não vamos aceitar – Orlínski tentava controlar a situação. — Confiamos em você. Mais alguma coisa que temos que tomar cuidado?

Aos poucos, Benjamim recobrava a calma. Com a respiração mais tranquila, continuou a conversar com os três:

— Vou assegurar que padre Alencar não tenha tempo de ir ao Arquivo, nem que mande algum dos meninos até lá. Após o jantar, encontro com vocês para dizer como vocês irão ao Arquivo, durante a madrugada.

— Você não pode ir lá e buscar esse documento? – João questionou.

— Eu gostaria – Benjamim ajeitou a batina. — Mas, a partir de agora, impedir que Alencar atrapalhe é mais importante. Vocês não sabem o poder que ele tem aqui dentro. Nem o diretor é capaz de detê-lo!

— Tudo bem – Gabriel ponderou. — Vamos aguardar o seu retorno, então.

— Tomem muito cuidado – alertou Benjamim. — Não confiem em ninguém. Todos nós corremos grande risco. Principalmente, vocês três!

O padre se despediu e João, Andrev e Gabriel o acompanharam até a porta. Assim que padre Benjamim a abriu, a figura fantasmagórica de um dos estudantes esperava por eles, no corredor, assustando-os. O menino os fitava ameaçadoramente, como um demônio que vigiava aqueles que deveria amedrontar. A criança concentrava seu olhar de ódio principalmente para Benjamim, que estremeceu ao se deparar com o aluno.

— Padre Benjamim – a criança disse num tom agressivo.

— D-diga, Daniel – o jovem pároco se segurava para não demonstrar qualquer reação que o delatasse.

— Padre Alencar está te esperando – a criança, como uma alma penada, virou-se para o corredor.

Sem pronunciar uma palavra sequer, Benjamim acompanhou o menino. De longe, os três assistiam à bizarra cena de um homem adulto temer uma criança. As revelações do jovem padre latejavam em suas cabeças. Corriam risco e sabiam que estavam mais próximos do que nunca da resolução daquele intrigante caso. Agora, precisavam tomar cuidado para que o Caraça não se tornasse o fim da linha para todos eles.


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