Capítulo 13

— É por isso que eu odeio religião! – João Augusto se jogou sobre a sua cama. — Que situação terrível!

— Pelo desespero desse padre Benjamim, parece que a coisa é feia – Orlínski andava pelo quarto, pensativo.

— Mexemos num vespeiro – Andrev, sentado na cadeira, apoiava o queixo sobre as mãos. — Não esperava que nossa procura nos levasse tão longe.

— Agora, não há volta – João, deitado, fitava o estrado da cama de cima, enquanto refletia sobre a surpreendente reação de Benjamim. O que seria tão terrível a respeito de Alencar que ameaçaria suas vidas? Mais uma peça surgia no meio de tanto mistério.

Preocupados e apreensivos, passaram o restante do dia dentro do quarto, assistindo, da janela, ao sol se despedindo e à escuridão tomando conta das matas e montanhas. Os sons dos lobos-guará ecoavam, como os uivos ameaçadores de animais noturnos saindo para caçar o alimento. Ao lado, o sino tocava na torre da igreja, chamando para mais alguma atividade que os três não faziam ideia do que seria. O confinamento e a incerteza geravam uma ansiedade difícil de ser contida, além de um nervosismo e impaciência que dificultavam o pensamento.

— Preciso de um banho – reclamou Orlínski, abrindo a sua mala e separando roupas limpas para se trocar.

— Nem sabemos onde é o banheiro aqui – Andrev segurava um livro nas mãos. Tentou se distrair, mas não conseguiu se concentrar e avançar na leitura.

— Vou procurar, uai! – Gabriel pegou suas coisas para o banho, e foi até a porta.

— Não é perigoso? – Alertou Andrev.

— Prefiro correr o risco a ficar sem um banho – Orlínski riu. — Quando João acordar, avise-o que eu saí – olhou para o corpo adormecido do amigo antes de abandonar o dormitório.

Lá fora, o corredor estava vazio. Ninguém passou por ali, nem mesmo para acender as luzes. O quarto onde se hospedavam ficava numa das extremidades do prédio e, diante de Gabriel, o caminho por entre as portas se dividia em dois: de um lado, sabia que se seguisse reto chegaria à escada de onde vieram; do outro, não sabia o que poderia encontrar. Provavelmente, o banheiro deveria estar nesse lado desconhecido. A única opção era procurar naquela direção.

Não foi difícil encontrar o que queria. Algumas portas à frente, achou um pequeno banheiro, todo revestido de branco, com banheira, chuveiro, vaso e pia. Um lugar simples e apertado, mas que serviria. Depois de deixar a toalha e a roupa sobre a pia, trancou a porta, despiu-se e abriu a ducha. A água não era muito quente, mas não reclamou. Deixou que o banho relaxasse os seus músculos e a mente conturbada. Ficou ali por mais de meia hora. Masturbou-se, ansiando que, com o prazer solitário, parte da tensão fosse embora junto com o esperma que escorria pelo ralo. Assim que terminou, fechou a ducha, secou o corpo e vestiu roupas novas.

Aliviado por estar limpo, Orlínski caminhou de volta ao quarto tranquilamente, num corredor ainda escuro e deserto. Apenas um feixe de luz vindo da porta entreaberta de um quarto iluminava parcamente uma parte do caminho. Podia ouvir o agradável som de um violino, mas a imponente voz do padre Alencar vindo de dentro do aposento deixou Gabriel em alerta. Silenciosamente, andou até a entrada do dormitório e esticou um pouco o pescoço, assim que se aproximou da porta. Pelo pouco que via, julgou ser o local de descanso do professor, seu refúgio e ambiente mais íntimo.

— Você está tocando muito bem, Daniel. Você me enche de orgulho – dizia Alencar a uma criança que Gabriel não conseguia ver daquele ponto do corredor.

— Mas, e se eu errar, professor? O príncipe vai se chatear comigo – a voz tímida da criança demonstrava sua insegurança com o instrumento.

— Você não vai errar, meu filho. Pode confiar no seu dom – o padre consolava o garotinho. — Agora, vamos trocar essa sua roupa para descermos – Alencar fechou a porta, sem perceber a presença de Orlínski.

Quando Gabriel voltar a ser coberto pela escuridão, correu até o quarto, temendo que o padre pudesse ouvi-lo e surpreendê-lo bisbilhotando em sua porta. Ao se aproximar do seu aposento, encontrou-o trancado. João e Andrev não estavam ali. Desesperou-se, principalmente, ao ver que a luz vinda do dormitório de Alencar voltou a brilhar no corredor. O robusto padre e a criança vinham na sua direção. Gabriel tremeu ao ver aquela figura sinistra desaparecer no breu, assim que fechou a porta do seu local de repouso diário.

— Até agora não acenderam essas luzes? – Reclamou o professor. — Daniel, vá acendê-las, por favor – os passos infantis correndo tocavam o piso de madeira, produzindo pesados sons no corredor.

Orlínski prendeu a respiração assim que o padre e a criança passaram por ele. Tanto o professor quanto o aluno o ignoraram. Os dois eram como dois fantasmas assombrando o colégio e não perceberam que o doutor estava tão perto deles. Gabriel podia sentir uma aura funesta que rondava professor e aluno. Para o seu alívio, as duas criaturas sinistras seguiram pelo corredor sem se incomodarem com ele. Alencar e Daniel estavam mais focados em descer as escadas e caminhar até o refeitório.

De repente, as luzes se acenderam e Orlínski pôde acompanhar os dois com os olhos até sumirem da sua vista. Agoniado, Gabriel encostou a cabeça na porta e respirou fundo. Depois de Benjamim dizer que corriam risco de vida, deparar-se com aquele padre era uma experiência horripilante. Tudo que queria era entrar no quarto e se proteger da ameaça que pairava sobre ele. Sentiu-se completamente sozinho num lugar hostil e isso era terrível. Foi um refrigério para a sua mente quando avistou João e Andrev regressando ao quarto.

— Você não está pronto? – Andrev, vestido com trajes de gala e luvas, aproximou-se para destrancar a porta.

— Eu me arrumo rápido – Gabriel ainda estava transtornado.

— Aconteceu alguma coisa? – João, igualmente vestido com nobreza, perguntou.

— Acabo de ver aquele padre maluco.

— Não fale desse jeito aqui fora! – Andrev o censurou.

Entraram. Enquanto Orlínski se arrumava, Andrev e João contaram que, pouco depois que ele foi procurar por um banheiro, Benjamim surgiu para explicar como seria o plano para irem ao Arquivo. Enquanto o jovem padre os conduzia ao banheiro reservado para os convidados, combinaram que, após a missa em homenagem ao príncipe, eles deveriam aguardar até meia-noite, quando poderiam descer as escadas e ir ao local que o padre indicou.

— Padre Benjamim vai jantar conosco – prosseguiu Andrev. — Depois, vamos para a igreja. Vamos ter coral e missa – o príncipe não escondeu o tédio.

— Ficar acordado até a hora de irmos ao Arquivo será uma batalha – João brincou. — Missa com coral é um sonífero potente!

Orlínski estava quase pronto quando Benjamim apareceu para levá-los para o jantar. O padre revelou que ele mesmo acompanhara o cozimento dos pratos e comeria junto com eles. O diretor do colégio também estaria presente, e saber disso foi um alívio para os três, que temiam ser envenenados, após tudo o que ouviram de Benjamim.

Assim que Gabriel terminou os últimos detalhes da sua vestimenta, os quatro desceram e foram à sala especialmente preparada para o jantar. A refeição ocorreu sem contratempos e a comida estava apetitosa. Enquanto comiam, padre Guilherme tentava entreter a todos com alguns causos engraçados do colégio. Não havia música, e os convivas eram obrigados a ouvir os intermináveis assuntos do diretor. Sentiram-se aliviados quando ele anunciou que era hora de irem à igreja.

O interior neogótico do templo era muito belo. Próximo ao altar, o coral dos estudantes acompanhava a missa, realizada pelo próprio diretor. Padre Alencar era quem conduzia as canções, como um maestro, enquanto os demais professores se sentaram nos primeiros bancos da igreja, ao lado de Andrev, João e Gabriel. Orlínski, por sua vez, só tinha olhos para as crianças que seguravam os violinos. Entre elas, o garotinho que ensaiava com o sinistro professor tentava impressionar o príncipe.

Andrev fingia apreciar o esforço dos estudantes, vestidos como coroinhas, nervosos ao mostrarem o talento e o resultado da educação musical que recebiam. O único que mantinha a expressão orgulhosa era Alencar. O recital era a apoteose para ele, que agia como se quisesse ser a estrela da noite, cujos trejeitos evidenciavam a falsa modéstia que escondia o seu prazer de estar conduzindo um recital para um nobre. Uma cantoria cansativa e sonolenta, que obrigava Andrev, João e Orlínski a segurarem os bocejos e o desconforto. Quando tudo aquilo acabou, após cumprimentarem o coral e elogiarem o talento das crianças, os três retornaram ao quarto e aguardaram o momento de irem ao Arquivo.

— Já acho que esse é o nosso uniforme de arriscar as nossas vidas – ironizou João, ajeitando o seu traje.

— O candeeiro está pronto? – Perguntou Andrev, vendo Orlínski pegar o objeto de metal sobre a cama.

— Está com querosene e preparado para irmos – respondeu Gabriel.

— Ótimo! Agora, é só aguardar os sinos – Andrev foi até à janela para fumar.

A espera gerava tensão. Nenhum assunto que iniciavam durava por muito tempo. Os três não conseguiam se desviar do foco. A noite os desafiava e queriam descobrir logo o que havia no Arquivo de tão precioso. A obrigatoriedade de manter o silêncio para não serem pegos era o que os deixava mais ansiosos. Se falhassem, as consequências do erro cairiam não apenas sobre eles, mas também sobre Benjamim. Não podiam fracassar! Muito estava em jogo e podiam sentir a responsabilidade pesando em seus ombros.

Meia-noite. Os sinos anunciavam o início da madrugada. Apenas o som metálico ecoava, juntamente com o dos animais na mata. O colégio dormia. Benjamim, o responsável por tocar as últimas badaladas do campanário, também tinha como função averiguar se todos estavam acomodados e dormindo; uma tarefa longa, que o obrigava a visitar dormitório por dormitório e, ainda, os quartos dos padres: ninguém poderia estar fora de seus aposentos, nem mesmo os professores. E esse era o momento para que Andrev, João e Gabriel pudessem sair e ir ao Arquivo sem serem descobertos. Enquanto Benjamim estivesse fazendo a sua ronda, teriam tempo livre para investigar.

Silenciosamente, deixaram o quarto, pisando no assoalho de madeira com todo cuidado possível para que o piso não rangesse. Conforme planejado com o padre, só acenderiam o candeeiro quando estivessem no andar térreo, onde a probabilidade de serem ouvidos fosse menor. Chegar à escada foi relativamente fácil, o maior desafio foi descer os degraus sem fazer barulho. Os pregos e a estrutura centenária insistiam em emitir sons que ecoavam no vazio da escuridão. O medo de serem descobertos aumentava à medida que pisavam em cada degrau. O trajeto até o Arquivo ficou longo, demorado e perigoso. Qualquer ruído que emitiam, uma gota de suor escorria pelas têmporas e as pernas estremeciam. Constantemente, os três lançavam olhares cautelosos através do breu, temendo serem descobertos a qualquer instante.

João liderava o grupo, sendo seguido por Gabriel e, por último, Andrev, que lamentava não estar com a sua arma. Andavam tateando as paredes, deixando para acender o candeeiro quando estivessem dentro do Arquivo. João sentia sua memória sendo testada a todo instante. Lutou para manter vivo o caminho indicado por Benjamim dentro da sua mente, mas tentar encontrar a entrada no escuro era um desafio quase sobre-humano. Suas mãos tremiam, segurando o candeeiro com força para que ele não caísse. Até as batidas do coração pareciam ecoar naquele lugar horripilante.

Finalmente, chegaram ao local indicado. Com a mão ainda trêmula, João conseguiu colocar a chave e destrancar a porta. Assim que entraram, ele fechou a entrada, trancando-a e acendendo o candeeiro. Uma vez seguros no interior da ala, começou a procurar pelo nome indicado por Benjamim. A enorme sala lembrava uma grande catacumba, cheia de gaveteiros em estantes, onde se guardavam todas as informações dos alunos que passaram pelo colégio. A pequena luz que carregava iluminava de modo tremeluzente as letras iniciais dos sobrenomes de estudantes e padres, sendo insuficiente para que os três pudessem achar o que queriam com facilidade.

— Castro, Castro, Castro – João balbuciava o sobrenome que deveriam encontrar. Para continuar a busca, precisou subir num pequeno tamborete para chegar à letra C e abrir a gaveta referente ao nome.

— Esse Benjamim poderia ter dado mais um candeeiro, pelo menos – sussurrou Orlinski, sentindo-se inútil por não poder ajudar João a encontrar o arquivo de Gregório.

— Achei! – João se segurou para não gritar. — “Gregório de Castro”. Segure o candeeiro, Orlínski. O médico desceu do tamborete, abrindo a pasta e verificando se se tratava mesmo do jovem Miranda. — Benjamim disse a verdade. Encontramos o Gregório – confirmou.

— Então, não vamos perder tempo, dessa vez – Andrev tirou um barbante do bolso, pegou os documentos e os amarrou. — Devolva a pasta para a gaveta e vamos sair daqui logo!

— Você vai roubar os documentos? – João se surpreendeu com a atitude do príncipe.

— Não vamos ficar nessa escuridão procurando algo que seja útil. Se trocaram o sobrenome do rapaz, ninguém deve se preocupar com esse arquivo – sugeriu Andrev, enquanto terminava de amarrar os papeis.

— E se isso prejudicar Benjamim? – Questionou Orlínski.

— É um risco que tanto nós quanto ele teremos que correr – Andrev tomou a pasta das mãos de João e a guardou novamente.

Naquele instante, ouviram passos se aproximando da porta. Assustados, os três correram para se esconderem atrás das estantes, desesperadamente. Já podiam ouvir a chave destrancando a porta quando João apagou o candeeiro e, agachado no chão, esticou o pescoço para tentar ver quem era. Só podia ver a barra da batina e os pés longos de um padre, ao lado dos de uma criança.

— Pronto, Daniel, aqui ninguém poderá nos ver – a voz do homem era baixa, mas, de onde estavam, o trio era capaz de ouvi-la com clareza.

— Eu não sei, padre Alencar, isso parece errado – também foi possível escutar a voz do menino.

— Não há nada de errado nisso, já tivemos essa conversa – Alencar trancou a porta, conduzindo a criança ao interior do Arquivo, onde os gaveteiros serviam de proteção caso aparecesse alguém.

— Eu não sei se eu quero fazer isso, professor – Daniel tinha a voz trêmula.

— Você já fez isso antes, meu filho. Venha, apenas coloque a mão – o som dos botões da batina se abrindo foi tão forte, que Orlínski, João e Andrev foram incapazes de ignorar o que acontecia. Respiravam nervosamente, imaginando o que estava se passando perto deles. Uma mistura de nojo e ódio tomava conta dos três. Precisavam fazer algo, não podiam deixar aquela cena continuar.

— Viu como ele aumenta à medida que você passa a mão? – O padre conversava com a criança calmamente. — Veja quantos pelos... um dia o seu também vai ser assim.

De repente, o som metálico vindo do corredor assustou o padre e a criança. Daniel começou a chorar, obrigando Alencar a levá-lo embora do Arquivo o mais rápido possível, antes que alguém o ouvisse. Assim que a porta se trancou novamente, João, Orlínski e Andrev saíram de onde se esconderam, chocados com o que presenciaram.

— Meu deus! – Andrev tapou a boca com uma das mãos.

— Essa cena será difícil de ser superada – João encostou as costas na parede e se sentou no chão. As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto.

— Maldito! – Gabriel se exaltou, fazendo ecoar sua voz pelo Arquivo deserto.

— Não faça barulho Orlínski – Andrev exortou. — Precisamos sair daqui logo!

— E se esse padre voltar com o menino? – João dava socos na própria perna, furioso. — E se ele estiver lá fora?

— Se estiver lá fora – Andrev estendeu a mão para ajudar o amigo a se levantar. — A gente quebra a cara desse desgraçado!

Tomando toda precaução possível, recobraram as energias para voltarem ao quarto. João destrancou a porta vagarosamente, evitando que o som abrupto da chave pudesse alertar quem estivesse no corredor. Entretanto, não existiu alma viva durante todo o trajeto. Alencar e Daniel desapareceram como fantasmas na noite, e o autor do som que os assustou também sumiu pelos longos e frios corredores.

— Isso é demais para mim, amigos – confessou João, assim que retornaram ao quarto. — Cuidar de crianças é o meu trabalho. O que esse padre faz é abominável!

— Sim! Mas é mais um motivo para não desistirmos – Gabriel acendeu a luz e, em seguida, tirou um cigarro do bolso.

— Vamos ver o que tem nesses documentos – ansioso, Andrev desamarrou o barbante e começou a fuçar os vários papeis.

Eram documentos de diversas naturezas: fotos de crianças com o padre Alencar, algumas com datas, textos datilografados, notícias de jornal e cartas. Andrev sabia que levaria horas para ler tudo que trouxeram do Arquivo, mas, desejando encontrar alguma pista, correu os olhos atrás de algo que já pudesse lhes ser útil. Depois de passar por todos os papeis, dedicou-se a analisar o que parecia ser a transcrição de um depoimento, com data de 12 de dezembro de 1901.

— O padre foi acusado de abusar de Gregório – Andrev resumia em voz alta.

— Como? – João e Orlínski se assustaram.

— Isso é um depoimento... – continuou Andrev. — Alencar acusa Gregório de agir “contra a natureza” e defende a sua expulsão do Caraça.

— Que padre canalha! – Exclamou Orlínski.

— Mas, quem acusou o padre de abuso? – Questionou João. — Gregório devia ser uma criança, em 1901 – lembrou-se da foto que encontraram na Fazenda Santa Quitéria, onde o menino aparecia ao lado da família e do tal Jakob von Einem.

— “Aurélio Mota” – Andrev leu em voz alta.

— Aurélio estudou aqui? – Gabriel não acreditava no nome que acabara de ouvir. — Isso não faz sentido!

Entrementes, não puderam continuar a conversa. De repente, o som de batidas na porta os interrompeu. Sem pensar, João pegou os documentos e os jogou debaixo da sua cama. As batidas continuavam, insistentes, quebrando o silêncio tenso dentro do quarto. Alguém queria entrar. Andrev pegou a sua arma na mala e se preparou. Orlínski, com a mão tremendo, foi à maçaneta.

— Vocês estão loucos? – A face delicada de Benjamim foi iluminada pela luz do quarto. — Luz acessa a essa hora?

O padre entrou, pedindo pelo candeeiro. Assim que o acendeu, apagou a luz do quarto. Benjamim observava a noite através do vidro da janela. Lá fora, os lobos-guará continuavam a emitir seus sons e o céu estrelado intenso brilhava sobre todo o Caraça.

— Não sei se vocês tiveram tempo – Benjamim começou a falar. Seu rosto era iluminado de forma horripilante pela chama alimentada pelo querosene do candeeiro. — Quando eu vi o padre Alencar entrando no Arquivo...

— Foi você quem fez aquele barulho – afirmou João.

— A minha vida tem sido essa, desde que me tornei responsável pela vigília da noite.

— O que está acontecendo aqui, Benjamim? – Questionou Orlínski.

— O que você acha que um padre vai fazer com uma criança dentro de um Arquivo escuro, doutor? – Benjamim se virou para fitar Gabriel. — Daniel não é o único, nem mesmo Gregório foi o primeiro a sofrer esse tipo de abuso nas mãos do padre Alencar.

— Pode nos contar o que aconteceu com Gregório de Miranda? – Andrev, guardando a sua arma, sentou-se sobre a sua cama.

— Eu tinha treze anos quando Gregório chegou ao Caraça, no início de 1900 – Benjamim puxou a cadeira e se acomodou. — Não éramos da mesma sala, mas fazíamos parte de um grupo, selecionado a dedo pelo padre Alencar.

— Um grupo? – João acompanhava o relato com atenção.

— Padre Alencar escolhia alguns alunos para o seu grupo seleto. Reuníamos com frequência nas cachoeiras aqui do colégio. Íamos para ouvir música, declamar sonetos em latim ou grego e, principalmente... – Benjamim hesitou por alguns instantes. — Principalmente, para nadar. O padre insistia para que todos nós nadássemos nus, alegando que a atividade fazia bem para a saúde e para o intelecto.

— E ele nadava com vocês? – Gabriel, encostado no beliche, fumava o segundo cigarro.

— Não! Ele apenas ficava olhando. Ele gostava de ficar nos desenhando, enquanto brincávamos na água. Éramos crianças, não entendíamos o motivo de ele querer ver a gente sem roupa, ou nos bajular constantemente.

— Bajular? – Andrev perguntou.

— Sim. Ele nos dava presentes, nos chamava pelos nomes dos deuses gregos, nos selecionava para as principais apresentações. Quem não fazia parte do grupo invejava dos privilégios que tínhamos. Vocês precisavam ver o dia que ele chegou na sala com um violino magnífico para o Aurélio. Os demais alunos torceram a cara com aquele agrado.

— Aurélio? – Gabriel e Andrev perguntaram em uníssono.

— Aurélio Mota. Era o melhor violinista da nossa época, e o mais rico aluno do Caraça. Todos sabiam que ele teria um futuro promissor, no Rio de Janeiro ou em qualquer lugar do país – Benjamim prosseguiu. — Até que...

— O que aconteceu? – Orlínski estava ansioso.

— Até que padre Alencar foi cobrar o violino de Aurélio.

— Cobrar? – Gabriel não suportava o tom misterioso e cauteloso de Benjamim.

— Sim. Mas ele não queria dinheiro ou algo do tipo. Ele queria o corpo de Aurélio, sua inocência.

— Aurélio cedeu? – Indagou João.

— Não! Ele fugiu do padre e me contou tudo. Ele era o meu melhor amigo nesse colégio. Eu não tinha muitos amigos aqui. Todos zombavam de mim, e Aurélio foi meu único colega durante muito tempo.

— Entendo – João mantinha o olhar fixo em Benjamim. — E qual foi o desfecho dessa situação?

— A vida de Aurélio se tornou um inferno, enquanto Gregório se transformava no novo preferido do professor Alencar. Foi quase que da noite para o dia: Aurélio passou a ser humilhado em sala de aula, recebendo as piores notas, enquanto padre Alencar andava com Gregório para cima e para baixo.

— Que cretino! – Orlínski se revoltou.

— Aurélio perdeu a cabeça – continuou o padre, ignorando a reação de Gabriel. — Ele começou a ter medo de repetir o ano e de apanhar do pai por causa disso – enquanto relatava, as mãos de Benjamim permaneciam tensas sobre as suas pernas, denunciando o seu nervosismo por estar revelando aquela história aos três quase desconhecidos. — Foi então que, numa noite estudando na biblioteca para não perder o ano, Aurélio presenciou uma cena grotesca: padre Alencar convencendo Gregório a colocar a boca no seu... – o rapaz parou abruptamente, incapaz de descrever com mais detalhes a cena.

— E Aurélio o denunciou... – Andrev comentou.

— Sim. Foi um escândalo! O pai de Gregório veio ao Caraça... o Barão era um homem cruel. Bateu no próprio filho na frente de todos, acusando a criança de ser possuída pelo demônio. Gregório tinha dez anos! Padre Guilherme teve que intervir para que o pai não desfigurasse o filho no meio do pátio.

— E o padre? – A mente de João fervilhava com aquele relato.

— Padre Guilherme o afastou. No entanto, ele voltou no outro ano, com uma carta assinada pelo Arcebispo. Alencar tem muitos amigos influentes que o protegem. O Barão era um desses que sempre o defendiam.

— O Barão não fez nada contra o padre? – Orlínski se surpreendeu.

— Não! Como eu disse, o Barão acreditava que a culpa era do filho desviado.

— Meu deus! – Gabriel andava de um lado para o outro, indo para o terceiro cigarro.

— E como isso tudo terminou? – Andrev também pegou um cigarro, enquanto aguardava a resposta de Benjamim.

— Aurélio foi para o Rio e o padre Alencar foi encaminhado para Sabará, onde continuou a visitar a família Miranda.

— E Gregório? – Perguntou João.

— Padre Alencar encontrou um tutor para ele. Um austríaco chamado Jakob von Einem.

Tudo passou a fazer sentido após o relato de Benjamim. À medida que o jovem padre mencionava aqueles nomes, os lugares e os abusos cometidos pelo padre Alencar, ficava claro que ele poderia estar envolvido na morte de Aurélio. O trio se animou com todas as informações recebidas. Agora, sabiam que se aproximavam do fim daquele mistério.

— Uma pergunta – Andrev retomou a conversa. — Mais cedo, você disse que o padre mentia quanto à morte de Gregório...

— Sim! – Benjamim o interrompeu. — O Barão e a esposa morreram em 1912. Os jornais de Sabará relatam isso. Contudo, eu vi Gregório aqui no Caraça, três anos depois da morte dos pais.

— O quê? – João não escondeu a surpresa.

— Eu já era responsável pelas vigílias. Numa noite chuvosa, eu vi Gregório conversando com o padre Alencar. Ele estava molhado, sujo e muito nervoso. Eu não o teria reconhecido, se o próprio Alencar não o tivesse chamado pelo nome.

— E o que ele queria aqui? – Gabriel caminhava para o quarto cigarro.

— Dinheiro. Pedia ajuda para deixar Minas...

— O que você acha que aconteceu? – Perguntou Orlínski, após acender o cigarro.

— Não sei. Tudo que relato para vocês depois da saída de Aurélio daqui foi resultado das pesquisas que realizei, e que estão no Arquivo. Tive que interrompê-la por ordens do padre Guilherme. Como eu disse, nem mesmo o diretor consegue se opor a Alencar. Todos têm muito medo dele aqui.

— Você nos ajudou muito, Benjamim – João se levantou.

Padre Benjamim anunciou que precisava ir. Em seguida, alertou que era melhor que os três deixassem o Colégio bem cedo, mas não deu detalhes sobre o motivo do horário da saída. Assim que alcançou a porta, virou-se para observá-los pela última vez.

— Mais alguma coisa a dizer, Benjamim? – Perguntou João, percebendo a expressão apreensiva do rapaz.

— No último dia que Aurélio esteve aqui, ele me revelou que estivera com padre Alencar e Gregório, na noite anterior à sua despedida do colégio – a voz de Benjamim voltou a ficar trêmula e entrecortada. — Eu não sei como dizer isso. Mas, o que Aurélio me contou foi que o padre, nessa noite, tomou à força aquilo que queria dele quando lhe deu o violino.

— Na frente de Gregório? – Orlínski fez uma expressão espantada.

— Sim – os olhos de Benjamim se encheram de lágrimas. — Por favor, vocês precisam parar esse monstro!

Sem mais o que dizer, o padre deixou o quarto. Os três permaneceram em silêncio por alguns minutos, tentando digerir tudo o que ouviram. Foram tomados por um profundo pesar, abatidos por tomarem conhecimento de tanta violência e tristeza que circundava aquele Colégio, bem como as vidas envolvidas naquela tragédia. Queriam fazer justiça, mas sempre que cogitavam chamar a polícia e levar Alencar preso dali, lembravam-se da fala de Benjamim de que o monstruoso padre tinha muita influência e era protegido por pessoas importantes. Uma sensação de impotência os dominou. Quanta crueldade! Quanta maldade!

— João – pensativo, Orlínski quebrou o pesado silêncio. — Algo me veio à mente: uma pessoa abusada por um padre, que cresceu assistindo ao pai torturar seres humanos, humilhado por ele na frente de todos e que, ainda, presenciou um estupro...

— Você sugere que Gregório esteja vivo? – João se animou com as ideias do amigo, sabendo o que ele queria dizer com aquelas conjecturas.

— Está claro, agora, que o que o Barão e Maximiliano fizeram é a ponta de algo muito mais profundo. Para mim, ou o padre é responsável por todas essas mortes que estamos investigando, ou Gregório está vivo e ele, por alguma razão, é o verdadeiro assassino – concluiu Gabriel.

— E como vamos averiguar isso? – Perguntou Andrev, impressionado com as ideias de Orlínski.

— Você quer que interroguemos o padre? – João sugeriu num tom irônico.

— Não. Acho que devemos conversar com outra pessoa.

— Pare de mistério, homem! – João se revoltou.

— Eufrásia de Miranda! – Gabriel quase gritou o nome da moça. — Nós precisamos falar com ela.

— E como faremos isso, se aquele delegado infeliz a protege? – Questionou João.

Orlínski caminhou pelo quarto e foi até a janela, desejando manter a calma e a postura investigativa. — Ou o Félix nos ajuda, ou invadimos a casa dela – Gabriel estava confiante.

0 visualização

©2020 por A Contrapelo Podcast. 

O podcast de Ciências Humanas.