Capítulo 14

João acordou assustado. Ao seu lado, sua tia o chamava insistentemente. Ela estava nervosa e agitada, preocupada com os policiais que esperavam pelo sobrinho no hall da casa. Por isso, cutucava o rapaz, lançando sobre ele uma série de ataques verbais.

— Eu sabia que andar com esse povo só te traria problemas, menino. Acorde!

— O que aconteceu, tia? – João esfregava os olhos para enxergar melhor.

— A polícia está atrás de você, lá embaixo! O que você fez? Espero que não tenha envergonhado o seu pai fazendo coisa errada com aqueles riquinhos – Eustáquia abria as cortinas do quarto, bufando de raiva. — Você nunca foi assim João Augusto!

— A polícia? – João, com dificuldade, erguia-se da cama. — O que eles querem aqui?

— Disseram que precisam de você com urgência – Eustáquia organizava o quarto, ruidosamente. — Você está bebendo demais, menino! – Reclamou ao ver as garrafas de cerveja pelo cômodo. — Cigarro por todos os cantos, também! O que está acontecendo com você, meu filho? Só na boemia!

— Não exagere, tia! – Protestou João, impaciente com o sermão de Eustáquia logo pela manhã. — Não é para tanto!

Contudo, as preocupações de Eustáquia tinham certo fundamento. Desde que regressara do Caraça, a cabeça de João ficou mexida. Presenciar o padre Alencar abusando de uma criança o perturbou muito mais do que imaginava. Sua mente ficou revirada, frequentemente distraída e arredia. Alguns dias se passaram após o encontro com Benjamim, e João ainda não estava totalmente recuperado do choque, preferindo se manter afastado de Gabriel, Andrev e de todo o caso. O álcool e o tabaco se tornaram companheiros das noites de João, juntamente com as notícias sobre a gripe que crescia no Rio de Janeiro e que os jornais traziam com certo alarde.

Félix Xavier foi contatado assim que chegaram do Caraça. Queriam conversar com Eufrásia o mais rápido possível. No entanto, até a presente data, o oficial ainda não aparecera com a confirmação de que poderiam interrogá-la. Assim, a ideia quase estapafúrdia proposta por Orlínski, de invadirem a casa da esposa de Maximiliano, tornava-se uma real possibilidade. Aliado a isso, os documentos tirados do colégio ainda aguardavam para serem analisados. O mês de outubro passava de uma forma inimaginável, alterando a rotina de todos. E era por essa alteração do dia a dia da cidade que a polícia aguardava por João, no andar debaixo de sua residência.

— O que será que eles querem comigo? – Perguntava João, enquanto se trocava, atrás do biombo.

— Espero que não seja problemas – Eustáquia arrumava a cama do sobrinho.

— Polícia na nossa porta sempre é problema, tia – desajeitado, João enfiava os braços no casaco e andava para fora do quarto. — Vamos acabar com isso logo!

Félix Xavier e mais dois guardas esperavam por João na sala de visitas. Só de não ser o delegado Alvim já era um alívio. Contudo, algo de muito sério estava acontecendo, para que três oficiais aparecessem em sua casa, sem aviso.

— Doutor João – Félix se apressou para cumprimentá-lo.

— Bom dia, Félix! Desculpe pela demora, mas ainda não tinha me levantado da cama – apertou as mãos dos três policiais. — Mas sentem-se, por favor.

— Infelizmente, doutor, precisamos ser rápidos – Félix não escondia a expressão preocupada no rosto.

— O que aconteceu de tão sério? – João franziu a testa.

— Estamos aqui a pedido do doutor Alfredo Balena. Ele pede para que o senhor nos acompanhe até o palácio.

— Palacete Kinsky? – João enregelou.

— Não, doutor! Ao Palácio da Liberdade. Nesse momento, ele está reunido com o presidente e o prefeito.

— Posso saber por que eu estou sendo chamado?

— A influenza, doutor. Está ocorrendo uma reunião no palácio, e o doutor Balena pediu para buscá-lo.

— Por que ele quer que eu compareça a uma reunião dessas?

— Eu não sei! Ele apenas pediu para que viéssemos à sua casa o mais rápido possível – a expressão desesperada de Félix assustava João.

A contragosto, João concordou, pegou o chapéu e a bengala e entrou no carro de Félix. Em silêncio, subiram pela Avenida da Liberdade até a praça de mesmo nome. Passavam pelos palacetes e casarões dos funcionários da administração pública, e pelas árvores que cresciam ao longo da via. No alto do morro, a praça surgia majestosa, extensão dos jardins do palácio, com seu coreto em estilo eclético, os elegantes prédios das secretarias de Estado, fontes e ornamentações inspiradas na capital francesa; onde crianças brincavam ao lado de suas mães e criados. Dali, era possível ter uma visão ampla da cidade que crescia timidamente ao seu redor, bem como da magnífica Serra do Curral, que mais se assemelhava a uma grande muralha, protegendo a jovem Belo Horizonte. Naquela manhã ensolarada, estar no meio daquele cenário bucólico servia como um calmante, um convite à tranquilidade.

— Não entendo o motivo de chamarem a polícia toda vez que eles precisam de mim – João quebrou o silêncio, olhando para fora do carro a silhueta do Palácio da Liberdade que se aproximava.

— Eu já estava no palácio, João. Por isso Balena me pediu para ir atrás de você – Félix apreciava o cheiro de um charuto ainda por acender.

— Mesmo assim, poderiam ter telefonado. Meu consultório tem um aparelho – reclamou João.

O carro parou diante das arcadas do palácio, onde um funcionário aguardava para abrir a porta do veículo. Foram conduzidos pelo mesmo empregado até o segundo andar, subindo pela esplêndida escadaria de ferro forjado, importada da Bélgica. Dali, João já podia ouvir o debate acalorado que tomava conta do salão usado para os jantares oficiais, mas que, naquela manhã, reunia autoridades estaduais e municipais para decidirem as políticas de proteção contra a temida “hespanhola”.

— Fechar tudo? Isso é impossível! – Arthur Bernardes, presidente do Estado, vociferava. — Não acredito que vossa excelência só esteja dando ouvidos a esses médicos, Vaz de Mello! – Gritava, socando o ar furiosamente.

— Vossa excelência precisa entender que se trata de salvar vidas! – Vaz de Mello, prefeito da cidade, tentava manter a voz calma. — O senhor está lendo o que chega do Rio de Janeiro?

— Uma tristeza, é claro! – O presidente continuava com o tom autoritário. — Mas vamos matar muito mais gente de fome se pararmos a cidade toda!

— Mortos não trabalham, excelência! – Samuel Libânio, responsável pela Diretoria de Higiene da nova capital, protestou.

O salão estava cheio com os homens mais poderosos de Minas: fazendeiros, alguns industriais, banqueiros; Andrev estava entre eles, sentado ao longo da mesa de madeira bem polida, ao lado de Alfredo Balena, que se levantou para cumprimentar João assim que o viu entrar com Félix Xavier.

— Doutor João – Alfredo estendeu a mão. — Que bom que você veio!

— Ainda não entendi o motivo, mas estou aqui – disse João, após fazer uma mesura.

— Estamos discutindo as medidas para a “espanhola”. Esses políticos são terríveis! – Desabafou Alfredo, em voz baixa.

— E quais são as medidas? – Questionou João, acompanhando Balena pelo salão.

— O prefeito quer fechar o comércio, as escolas, os bares e o teatro, mas o presidente está reticente – respondeu o doutor.

— Duvido que ele consiga conter essas hienas – disse João, incrédulo.

— Elas estão tentando devorar a carcaça dele – Alfredo riu da metáfora.

— Mas o que eu tenho a ver com tudo isso?

— Você veio nos ajudar a conter as hienas – Alfredo o puxou para perto da mesa.

João ficou petrificado, quando Alfredo Balena anunciou o seu nome diante de todos. O que ele teria a dizer aos poderosos que olhavam em sua direção com curiosidade, aguardando por alguma palavra sua? Fora pego de surpresa. Acompanhava com atenção o que acontecia no Rio de Janeiro, mas precisaria se preparar para poder se pronunciar com mais autoridade. Assustado, esperou que Balena puxasse o assunto para somente depois poder se pronunciar.

— Senhores, o doutor João Augusto trabalha com muitos pacientes na zona suburbana. Ele poderá nos dizer o que se passa por lá – Alfredo guiou a conversa. — João?

— Fale logo, médico! – O presidente estava impaciente.

— Ao contrário daqui, onde as ruas são largas e as casas planejadas... – João, com certa dificuldade, começou. — Grande parte da região suburbana vai sucumbir se a “hespanhola” chegar à Belo Horizonte com a mesma intensidade que no Rio.

— Impossível! – Protestou um senhor, ao lado de Andrev. — Nossa cidade é planejada! Aarão Reis pensou em tudo, meu jovem. Você deveria estudar mais – provocou. Alguns homens à mesa riram.

— Você já foi à zona suburbana, senhor? – João mudou o tom, sentindo-se desafiado. — Se os senhores querem continuar fingindo que está tudo bem, e que estamos preparados, não percam o tempo precioso de vocês nessa discussão vazia! – Sua voz saiu imponente.

— Não estamos fingindo, doutor – o mesmo senhor que interrompeu João se manifestou. — Estamos tentando chegar a um consenso, para que ninguém saia prejudicado dessa “possível catástrofe”.

— Mentira! – João cortou o senhor. Todo o nervosismo de outrora desaparecera. — Os senhores estão aqui para discutir como vão manter os lucros dos seus negócios.

— Isso também é importante, rapaz – outro senhor se pronunciou. — Sem ele não há desenvolvimento...

— Se o senhor pensa assim – João continuou. — Aproveite a oportunidade e invista em funerárias. Os caixões logo darão muito lucro para o senhor. Vocês poderão construir sua nova capital com os ossos dos mortos que querem negligenciar.

O clima pesou, e muitos ali, envergonhados, abaixaram as suas cabeças, pensativos. Outros discordavam veementemente. O prefeito se animou, levantando-se para concordar com João e fazer coro com os médicos presentes.

— Senhores – Vaz de Mello estava pronto para anunciar a sua decisão. — Acredito que a fala do jovem doutor João Augusto conclui a nossa discussão. Eu não vou ser o prefeito que assistiu à nova capital sucumbir por não ter feito nada. Eu vou fechar essa cidade pelo tempo que for necessário!

Mesmo resoluto e ignorando as reclamações dos empresários, a discussão ainda permaneceu por mais de uma hora. Todos queriam opinar e contestar a equipe de médicos. Menos Andrev, que apenas assistia a tudo sem se pronunciar. No final, o prefeito Vaz de Mello e seus apoiadores acabaram vencendo. A cidade tomaria medidas drásticas para contar a proliferação da gripe. A reunião se encerrou e todos deixavam o salão, ainda contagiados pelo clima intenso daquele encontro político.

— Vitória, hein? – Andrev se aproximou de João, que fumava no jardim do palácio.

— Esses sujeitos são uns monstros! – João fumava nervosamente.

— Isso foi só uma amostra, meu amigo. Esses cavalheiros não abrem mão de nada! São difíceis de lidar – Andrev acendeu o seu cigarro.

— Não se pode esperar muito desses homens! Eles são os filhos dos escravocratas do Império: foram criados para explorar a qualquer custo. A única vida que vale é a dos que eles consideram da mesma classe.

— Não é muito diferente na Europa – Andrev soltou a fumaça, enquanto observava o bonde passar diante do palácio. — A única diferença é que sabemos usar todos os garfos, na hora do jantar – riu.

— Vamos mudar de assunto, não aguento mais falar sobre esses idiotas – João estava impaciente. — Você conseguiu ler os documentos que pegamos no Caraça?

— Sim! – Andrev fitou João.

— E? – João focou no cigarro que fumava.

— Melhor não falarmos sobre isso aqui. Podemos almoçar em algum lugar e conversar.

— Por mim, tudo bem. Quanto mais rápido sairmos desse lugar, melhor!

Estavam se preparando para deixar o palácio quando Félix surgiu ofegante, interpelando-os antes que pudessem entrar no carro de Andrev. A expressão do oficial era atônita, espantada por algo que estava prestes a revelar a João e a Andrev. Vê-lo naquele estado os deixou apreensivos, aguardando pelo pior a cada segundo que Félix os fitava, esperando se acalmar para poder falar.

— Achamos o Maximiliano! – Félix soltou como uma bomba.

— Onde? – João arregalou os olhos.

— Hospital de Isolamento – respondeu Félix, entrando no carro de Andrev sem ser ao menos convidado. — Precisamos ir para lá rápido!

Andrev ligou o veículo e foram em direção ao Hospital de Isolamento, onde as primeiras vítimas da gripe estavam sendo tratadas. No interior do automóvel, Félix Xavier contava o que sabia sobre aquela descoberta. Maximiliano fora encontrado numa casa, no bairro Floresta, vizinha ao primeiro caso de “hespanhola” encontrado na cidade. Uma equipe médica foi enviada ao local e encontraram o afinador agonizando, com forte dor na cabeça e uma tosse apavorante.

— Ele está morrendo – Félix, sentado ao lado de Andrev, completou. — Deu entrada no hospital ontem.

— Não se preocupou em esconder o nome? – Perguntou João, ainda organizando as ideias depois das informações de Félix.

— A equipe médica encontrou o nome num documento. Ele caiu inconsciente assim que arrombaram a casa dele.

— Vamos lá apenas para identificar o corpo, então – lamentou Andrev, conduzindo o carro em alta velocidade pelas ruas da capital.

A área do hospital estava movimentada. Algumas pessoas vestidas de branco recebiam os doentes que chegavam. O som de tosse era constante, juntamente com o das carroças e carros com gente sendo retirada sobre macas e outras sendo auxiliadas a caminhar até o prédio. A gripe espanhola já mexia com a rotina das poucas instalações de saúde da cidade, que tentavam se preparar para conter o surto e ajudar os pacientes.

— Tomem isso – Félix entregou faixas de pano branco para Andrev e João. — Precisamos cobrir o rosto para entrar.

— Isso é seguro? – Andrev assistia aos doentes que chegavam, assustado.

— Não vamos demorar – o oficial conduzia o trio até a entrada do hospital.

— É esse o lugar que querem tratar da “hespanhola”? – O olhar clínico de João se atentava aos erros e faltas do hospital. Os poucos profissionais tentavam atender o máximo de pessoas que conseguiam, e o barulho era constante. O local não estava preparado para um surto de grandes proporções. Por sorte, o número de vítimas da gripe ainda não era alto, mas, caso a situação piorasse, não haveria leitos para todos os necessitados.

Após uma rápida conversa com o médico responsável, Félix, Andrev e João foram levados até um dos quartos, um cômodo pequeno, onde cinco camas se apertavam uma ao lado da outra. Maximiliano estava próximo à janela, era o caso mais grave da gripe entre os acamados no recinto. Respirava com dificuldade, e a pele roxeada dava sinais de que logo não conseguiria mais se manter vivo. A roupa suja, molhada pelo suor da febre alta, tinha rastros de catarro e sangue. A garganta do afinador de pianos estava completamente destruída, arranhada e ferida pelas tosses constantes. Os calafrios e espasmos assustavam os pacientes ao redor, que temiam chegar naquele estágio da doença a qualquer momento.

— Ele não deve aguentar muito – disse o médico que os conduziu até o quarto.

— Vocês estão dando algum remédio? – Perguntou João, analisando os efeitos severos da gripe no corpo de Maximiliano.

— Tentamos algumas inalações com vaselina mentolada e gargarejos, mas ele já não está respondendo mais.

João pegou o braço do doente para sentir seus fracos sinais vitais. Ao lado da cama, uma vasilha de porcelana guardava as secreções expelidas pelos pulmões de Maximiliano. Era visível a sua dificuldade para respirar. Os últimos momentos daquele ser humano se aproximavam.

— Há outros doentes nesse estado? – Questionou João Augusto, aflito com aquele caso clínico tão grave.

— Alguns poucos. Estamos separando uma ala para os que chegam nessa condição – respondeu o médico.

— Santo deus! – Andrev observava, atônito, o estado de Maximiliano.

Fortes tosses e um longo e assustador chiado foram os últimos sons que Maximiliano emitiu antes de falecer. Diante de Félix, João e Andrev, um dos suspeitos dos assassinatos jazia sem vida, com os olhos esbugalhados e a pele azulada. Também morria com ele informações importantes para solucionar o mistério que se arrastava desde agosto. Mas, quanto a isso, nada mais poderiam fazer.

— Que morte dolorosa! – Andrev acendia um cigarro, enquanto saíam do hospital, caminhando em direção ao carro.

— Precisamos falar com Eufrásia o mais rápido possível, Félix. Você tem que conseguir permissão para podermos visitá-la! – Insistiu João. — Ela pode ser o nosso único elo para resolvermos isso de uma vez por todas.

— O delegado está fazendo tudo que pode para impedir esse encontro, doutor – lamentou Félix. — Mas vou tentar alguma forma de passar por cima dele.

— Tente falar com o presidente, o prefeito... qualquer um que tenha poder sobre o delegado – João não escondia a preocupação. Ver de perto as condições de um grave caso da “hespanhola” o assustou muito.

— Ele deixou algum documento ou algo do tipo? – Andrev questionou o oficial.

— Tudo que encontramos está na Chefia de Polícia. Vou analisar assim que voltar do almoço – Félix também acendeu um cigarro.

Enquanto seguiam até o carro, João mantinha um olhar distante e bastante consternado. Estava preocupado com o desenrolar do caso que investigavam, mas sua mente também se atormentava com a cena presenciada naquele hospital. A gripe espanhola chegara e tinha certeza de que muito em breve estaria ao lado dos médicos, tratando pessoas no mesmo estado de Maximiliano. A insegurança de não estar preparado para aquela situação o dominava. Era preciso conter a doença antes que ela se alastrasse por toda cidade e trouxesse com ela o caos. Era necessário agir, antes que fosse tarde demais.


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