Capítulo 15

Cidade fechada. O mês de outubro de 1918 podia se chamar mês do confinamento. Bares, lojas, teatros, cinemas... tudo permanecia fechado. Apenas as igrejas podiam manter sua rotina, como uma forma de alento à população preocupada com a chegada da “hespanhola”. As ladainhas atraíam diversos fiéis, ansiosos por pedirem ajuda aos céus, uma cura ou proteção. A fé cega atraía muitos, em rezas e procissões.

Nesse clima de tensão e medo, o mês avançou e se aproximava do fim. A primavera imperava e, com ela, as chuvas e o desabrochar das flores. As notícias sobre a gripe minguavam, e a população começou a ficar nervosa com o fechamento da cidade. Ansiavam pelo retorno à normalidade e pressionavam os governos para o fim do confinamento. Alguns jornalistas acusavam o prefeito de conspiração. Pelas notícias, corriam rumores de que a gripe era uma estratégia alemã para vencer a guerra, que também caminhava para o seu desfecho.

A tarde estava nublada e cinza. A chuva ia e voltava ao seu bel prazer. Da janela do seu consultório, João observava a cena bucólica da rua vazia de gente, mas coberta pelas flores amarelas que caíam das árvores. O bonde passava, apenas com o seu condutor. A população que temia a doença não ousava sair num dia em que as nuvens desciam sobre tudo, como um manto frio e fantasmagórico. Ao lado do médico, Orlínski e Andrev analisavam os documentos que trouxeram do Caraça, aguardando o momento em que Félix apareceria para levá-los ao encontro de Eufrásia, agora, uma viúva que guardava o luto pela perda do marido.

Eufrásia de Miranda ganhou certa notoriedade após a perda de Maximiliano. Era a primeira viúva de certo nível social que perdia um ente querido em decorrência da doença. As colunas sociais exaltavam o trabalho do afinador de pianos, lamentando sua perda para a vida artística de Belo Horizonte, já que muitos músicos dependiam do seu ofício. O único jornal que denunciava os crimes do imigrante italiano era o de Marcelo de Azevedo, pai de Arthur, que ainda pressionava o governo, pedindo respostas para o crime que ceifara a vida do jovem jornalista. Marcelo era um homem influente e não foi difícil para ele chegar às investigações que Félix, João, Andrev e Orlínski estavam fazendo. Foi uma surpresa ler, no semanário daquela manhã, revelações sobre o passado de Maximiliano com o Barão de Santa Quitéria. No entanto, a notícia não chegou a gerar tanto impacto e o jornal teve um dos piores dias de vendas de sua história. A capital não queria saber sobre os erros do defunto, preferindo chorar a sua morte e a solidão da esposa a acreditar nas acusações de um jornalista, condenando por frieza e insensibilidade para com a perda da desamparada mulher.

— Pelo menos, nós temos um aliado na imprensa – disse Orlínski, enquanto analisava as fotos que acompanhavam os documentos.

— Será que foi o Félix que contou para ele? – João ainda observava a rua.

— Não duvidaria – Orlínski mantinha os olhos numa foto do padre Alencar com o seu grupo de alunos favoritos. — Félix quer mais destaque na polícia. Pode usar o que for necessário para desmoralizar o delegado Alvim.

— O problema é o destaque que isso dá para o caso – Andrev, sentado numa cadeira, observava o céu cinza da janela. — Isso pode ser péssimo!

— Ainda mais que o jornal do Azevedo vem criticando as políticas do prefeito – João se virou em direção aos amigos. — Não quero que o meu nome apareça num jornal que nega as medidas sanitárias por picuinha com políticos.

— Marcelo de Azevedo só está tornando público o caso de Maximiliano, porque acredita que o governo protege Eufrásia. Ele é inimigo do Barão há muito tempo – Andrev puxou uma notícia de jornal do meio dos documentos do Caraça. — Ele escreveu essa reportagem em 1908!

— “Um Barão parado no tempo: em Sabará, a escravidão ainda não acabou” – João leu o título em voz alta. — Ele teve coragem de acusar o Barão?

— Sim, mas parece que não surtiu o efeito desejado – lamentou Andrev. — A última reportagem que Benjamim recolheu é de 1910, narrando a viagem dos Miranda à Europa.

— Ficaram muito tempo por lá? – Perguntou Orlínski.

— Um ano e dois meses, de acordo com a notícia – respondeu Andrev, mostrando o jornal a Gabriel.

Enquanto conversavam, os passos pesados de Eustáquia alcançaram a porta do consultório. A tia de João anunciava uma ligação para o sobrinho; era Félix Xavier que desejava transmitir um recado. Correndo, João foi ao telefone para ouvir do oficial que já poderiam ir à Chefia de Polícia, e que Eufrásia seria levada ao prédio às 16h.

— Estaremos aí o quanto antes, Félix! – Disse João antes de encerrar a ligação.

Rapidamente, os três juntaram os documentos e foram ao carro de Andrev. A chuva dera uma trégua, permitindo que alguns raios de sol ultrapassassem as densas nuvens. Da rua, podiam ouvir a melancólica melodia saindo de um piano, em alguma casa vizinha. O calçamento de pedras, coberto pelas pequenas flores amarelas, brilhava pelo sol da tarde, que transformava em cenário bucólico e romântico aquele pedaço da cidade.

Andrev ligou o carro e desceu a rua, caindo na Avenida Afonso Pena, bem próximo ao Mercado Municipal. Dali, queria chegar até a Praça 14 de Outubro, onde a mais importante via da cidade se encontrava com a Avenida Amazonas. No entanto, o veículo não pôde prosseguir sem ignorar a intensa movimentação diante do Cine Avenida, onde um grupo de pessoas protestava contra a ação da polícia.

Diante da elegante fachada do cinema, o seu dono, o empresário Gomes Nogueira, insistia em abrir o seu estabelecimento, alegando que a influenza não atingira Belo Horizonte da mesma forma que aconteceu no Rio, e que manter fechado um local de lazer era injusto para os sofridos cidadãos da capital. A polícia foi chamada ao local, tentando convencer o homem de negócios a desistir da ideia.

— Vocês não podem privar o meu direito de abrir meu cinema! – Protestava o empresário do alto de um palanque improvisado. — Vocês estão cerceando a minha liberdade e a do povo de Belo Horizonte!

Alguns presentes aplaudiam a atitude do empresário. No entanto, a maioria presente apenas assistia, sem emitir opinião sobre o que se desenrolava diante dos seus olhos. Gomes Nogueira gritava palavras de ordem, tentando incitar as pessoas a rechaçar a polícia e a entrarem no cinema.

— Não podemos deixar esse insulto aos nossos direitos. Vamos, cidadãos, vamos acabar com essa tirania! – Ordenou o homem.

Andrev tocou a buzina para pedir passagem no meio da multidão agitada. Assim que avistou o conversível abrindo caminho e dispersando as pessoas, Gomes Nogueira apontou o dedo para o príncipe, gritando com toda a força que tinha nos pulmões:

— Ali está, senhoras e senhores! Enquanto ficamos em casa, esses alemães passeiam de carro chique pelas ruas, como se a cidade fosse deles! – Vociferou.

Todos os olhos se voltaram para o carro. Andrev ignorou as expressões curiosas e enraivecidas, furioso ao ser chamado de alemão. Gomes Nogueira gritava contra o espião estrangeiro e em defesa da liberdade de todos voltarem ao dia a dia. Todavia, seu discurso foi interrompido assim que mais guardas chegaram para retirá-lo dali. Apesar da sua eloquência, acabou sendo convencido a desistir da ideia de reabrir o cinema, sendo conduzido de volta à sua casa pelos policiais.

— Como aquele sujeitinho ousa me chamar de alemão? – Protestou Andrev, subindo a Rua da Bahia até a Chefia de Polícia.

— Estão desesperados, Andrev – Orlínski tentou contornar a situação. — Muita gente não pode sair há vários dias.

— Mas o que eu tenho a ver com essa doença? – Andrev se recusava a compreender. — Estou nesse país antes de a guerra começar. Não faz sentido me ofender dessa maneira! Espião alemão?

O prédio da Chefia ficava no alto da rua, próximo à Praça da Liberdade e ao palacete Kinsky. Chegaram ao local pouco antes da hora marcada. O sol que surgira tímido no meio da tarde voltou a se esconder e o céu se cobriu de cinza mais uma vez, obrigando Andrev a procurar um local para proteger o veículo. O fim do dia se tingiu com tons macabros, preparando o cenário para o tão esperando encontro com Eufrásia de Miranda.

— Ela vai se atrasar – disse Félix Xavier assim que os recebeu em sua sala, no segundo andar do edifício.

— Algum motivo específico? – Perguntou João, temendo que a moça conseguisse um jeito de fugir do interrogatório, tal como seu marido escapara do jantar.

— Ela está se arrumando para o encontro – Félix não escondeu o sorriso debochado. — Eufrásia quer chegar aqui vestida luxuosamente.

— Ela quer fazer cena – Orlínski foi até a janela, que tinha vista para uma rua calma e deserta.

Mais de uma hora após o combinado havia se passado e nenhum sinal de Eufrásia. A espera se tornou tensa. A chance de acabar em nada era cada vez mais certa e os quatro na sala foram tomados pela apreensão. Não podiam perder aquela oportunidade e o relógio corria contra eles. Ansioso, Félix mandou mais dois policiais irem à casa de Eufrásia, temendo que o delegado Alvim tivesse criado algum empecilho e cancelado tudo sem aviso. Foi apenas quando os últimos e tímidos raios de sol clarearam o final do dia que o carro trazendo a jovem parou diante da Chefia. Do seu interior, uma mulher vestida completamente de negro saiu, olhando com altivez o prédio da polícia e andando como se fosse uma verdadeira rainha.

— Ela realmente quer um espetáculo – da janela, Orlínski acompanhava a cena que se desenrolava na entrada da Chefia.

— E o delegado está achando isso tudo uma maravilha – Andrev comentou, assistindo Alvim recebendo Eufrásia com flores e cuidados.

— Uma bruxa! – João olhava para aquela mulher com desprezo. A arrogância que ela trazia ao seu redor e a forma como entrava na Chefia lhe davam nojo. Ter que conversar com uma criatura tão desprezível seria um grande desafio para ele. Por sorte, quem conduziria tudo seria Gabriel, enquanto os demais apenas assistiriam.

A sala de Félix estava preparada para o encontro. Orlínski, sentado na poltrona do oficial, aguardava a chegada de Eufrásia. Os demais se sentaram nas cadeiras colocadas nas paredes do local e, caso fosse necessário, teriam que deixar Gabriel e Eufrásia a sós; uma sugestão que Orlínski insistiu em manter, já que seu trabalho era deixar a moça confortável para falar o máximo possível.

— Lembrem-se de não intervir de forma indelicada – Orlínski dava os últimos conselhos. — Se ela se sentir desafiada, não vai falar nada!

— Fique tranquilo, Orlínski – disse João. — A última coisa que quero é conversar com essa bruxa!

Como um cisne negro perverso, Eufrásia caminhava altivamente pelos salões até o lugar onde encontraria com Orlínski e os outros. Seus cabelos, negros como a noite, brilhavam sob a luz dos lustres já acesos, fazendo par com o vestido luxuoso da mesma cor. Seus olhos verdes e a tez extremamente branca se destacavam no meio das trevas dos tecidos finos e das joias que a enfeitavam. Seu jeito de andar e sua postura orgulhosa lhe davam ares de uma criatura caída, como um demônio apavorante prestes a dominar o mundo e trazer o apocalipse. Ao seu lado, o delegado Alvim a acompanhava, abrindo passagem para que aquela rainha da noite pudesse chegar até seus algozes. Ele, no entanto, não poderia fazer parte do encontro, tendo ficado do lado de fora, quando a porta se fechou diante do seu nariz.

— Eufrásia – Orlínski se levantou para cumprimentá-la.

— Doutor... – a voz fria daquela moça transmitia certa maturidade. Pela maneira com que se portava, os quatro ao seu redor julgavam que ela também desejava aquele encontro.

— Sente-se! Acredito que não precisamos nos apresentar – um pouco nervoso, Gabriel indicou a cadeira logo a sua frente, separada da sua poltrona por uma mesa decorada com patas de leão.

— Não há necessidade, de fato – Eufrásia lançou um olhar de desprezo em direção a João. — O príncipe alemão e o médico negro. E o senhor, claro, o polonês que trata mulheres histéricas e alienados – sentou-se, endireitando a coluna numa posição nobre e rígida.

— Não sou alemão, senhora! – Protestou Andrev num tom de voz baixo, mas irritado.

— Nasceu na Áustria-Hungria... – provocou Eufrásia. — A cidade toda sabe que você é o responsável por trazer essa doença terrível para as nossas montanhas – virou-se para Andrev com uma expressão malévola. — Todos suspeitam que vossa alteza seja, na verdade, um espião alemão.

— Como ousa? – Andrev se enfureceu, precisando ser contido por João, sentado ao seu lado.

— Senhora Eufrásia – Gabriel tentou quebrar a animosidade. — Gostaria que soubesse que estamos aqui para conversar. Apenas isso...

— Sim. Querem saber o que meu falecido marido fazia... – Eufrásia mantinha o ar arrogante e frio. — Querem saber se ele vendia negros ou se eu ainda pratico tal coisa – virou-se para João, mais uma vez.

— Na verdade... – Orlínski pigarreou. — Na verdade, gostaríamos de saber sobre o seu irmão, Gregório de Miranda.

— Já disse que ele está morto – Eufrásia se espantou, desfazendo, por alguns instantes, a postura petulante.

— Poderia nos contar um pouco sobre ele e como faleceu? – Gabriel acendeu um cigarro, oferecendo um para Eufrásia, que recusou.

A moça ficou perdida por alguns momentos. Não sabia o que dizer e olhava fixamente para Orlínski, sem sequer piscar. Era como se quisesse ler a mente de Gabriel, buscando entender suas intenções com o desejo de saber a respeito do irmão.

— Diga-me – Orlínski quebrou o silêncio pesado entre os dois. — Como ele era? Como foi a infância de vocês?

— Já disse que ele está morto! – Gritou Eufrásia.

— Então, não há motivo para não me contar...

— Por que você quer que eu conte algo sobre meu falecido irmão? – Ela se exaltou.

— É importante para conhecermos a sua história, e da sua família. Depois que nos contar, você poderá ir – Gabriel disse, calmamente. — Quem sabe até voltar a ter paz...

— Poderei achar paz após perder o meu marido, doutor? – Eufrásia hesitava, desconfiada. Falar do irmão não era algo agradável, e não esperava aquele interesse repentino nele. Ensaiara por dias o que diria sobre o marido diante dos quatro, e nunca imaginou que teria que contar sobre sua vida com Gregório. Sem saber o que fazer, temia perder o controle, fazendo cair aquela máscara de frieza que mantinha com todas as forças.

— Fomos à fazenda onde vocês cresceram – Gabriel buscava formas de fazê-la relaxar e se pronunciar. — Um belo lugar... sente saudades de lá?

— Deve estar em ruínas – Eufrásia respondeu. — Era um lugar grandioso, no passado. Um verdadeiro palácio!

Ao ver a reação de Eufrásia, elogiando a antiga fazenda, Gabriel se animou. Finalmente, achara um assunto que a fazia soltar as palavras. Era um primeiro passo para derrubar a muralha ao redor daquela jovem mulher.

— Gostaria de ter visto a Fazenda Santa Quitéria no seu auge – continuou Orlínski.

— Os saraus eram magníficos! Meu pai recebia pessoas importantes do mundo todo: franceses, ingleses, russos... você, doutor, faria sucesso com esses olhos azuis. Um par de olhos claros é essencial para um bom casamento – Eufrásia, ainda no tom gélido, começava a se soltar.

— Saraus são sempre maravilhosos! – Gabriel tentava criar uma conexão com a moça. — E os jantares?

— Sempre pomposos! Como os do palacete do príncipe – Eufrásia parecia se alegrar ao descrever o passado de sua residência. — Meu pai seguia à risca a etiqueta europeia: todos deveriam estar bem vestidos para o jantar, com música e com um menu francês feito por um chef vindo de Paris.

Eufrásia narrava com detalhes como aconteciam os jantares em sua casa. Falava como uma idosa contando sobre os seus dias de juventude; o que chamou a atenção de Orlínski. Para ele, Eufrásia era uma jovem senhora, anacrônica nos seus modos e com um porte que mais lembrava o de sua avó. Aquela moça fora criada de uma maneira estranha, como se seus anos de juventude tivessem sidos arrancados da sua existência e tudo que podia demonstrar era seu jeito desconectado da sua idade biológica, uma criatura seca e esvaziada, que preenchia o vazio da existência com lembranças narradas com altivez, mas sem consistência. Eufrásia falaza sobre seu passado como alguém que descrevia um sonho: nada além de um devaneio da mente, algo imaginado, não real.

— Todas as noites eram uma festa! – Continuava Eufrásia. — Mamãe mandava lavar os vestidos em Paris. Tínhamos muitos e muitos trajes e eu amava passar as tardes escolhendo, com ela, o que vestiríamos para o jantar.

— Que luxo! – Orlínski tentava manter a calma e a frieza. Para Gabriel, a maneira com que Eufrásia vangloriava a fazenda e a família não se passava de uma forma caricata de elite de seu país viver em meio a tanto sofrimento: enquanto o Barão de Santa Quitéria fazia saraus e sua esposa mandava a roupa ser lavada na Europa, a riqueza da família era sustentada pela escravidão e pela dor de outros seres humanos. — Mas, e Gregório? Ele participava desse fausto? – Perguntou, enquanto oferecia um licor à jovem.

— Claro. Mas do jeito dele... – respondeu Eufrásia, aceitando a bebida e continuando a conversa. — Meu irmão nunca foi uma pessoa muito normal.

— Por que você diz isso? – Orlínski se interessou no assunto.

— Meu pai sempre foi um homem severo, doutor Orlínski. Meu irmão era o único que tinha coragem de desafiá-lo.

— Corajoso, pelo histórico do seu pai... – Gabriel acendeu mais um cigarro.

— Gregório nasceu em 1891 e eu em 1894 – Eufrásia bebericou mais um pouco do licor. — Eu era muito apegada ao meu irmão, mas eu sabia que havia algo diferente e estranho, nele. Acho que agora eu aceito um cigarro, doutor Orlínski – disse, sorrindo para ele.

— Claro... – Gabriel abriu a cigarrilha.

— Meu pai era apaixonado por touradas e Gregório, desde pequeno, demonstrava um gosto pelo mesmo esporte – Eufrásia soltou um ligeiro sorriso. — Ele matava os gatos e cachorros da casa, fingindo que eles eram touros.

— Não é uma brincadeira muito comum – Orlínski encheu as pequenas taças com mais licor.

— Meu pai ficava furioso, mas quando as touradas na praça acabaram, ele começou a incentivar o meu irmão. Queria transformar parte da fazenda numa praça de touros.

— Mesmo sabendo que era proibido? – Gabriel tomava nota, escrevendo rapidamente num pequeno caderno que carregava em seu bolso.

— Há duas máximas que o meu pai sempre nos dizia, doutor Orlínksi – os olhos de Eufrásia ganharam um brilho apavorante. — A primeira era: “jamais peça desculpas por nada, apenas os fracos pedem desculpas”.

— E a segunda?

— “O Barão é a lei”! – Eufrásia sorriu malvadamente. — Dentro de Santa Quitéria, ele fazia o que queria e todos deveriam obedecê-lo. Nem o Estado poderia invadir a santidade do nosso lar e mudar as nossas regras.

— São máximas muito fortes – Gabriel titubeou.

— Sim. E meu irmão parecia ser o que levava esses ensinamentos mais a sério – Eufrásia desfez a posição quase macabra e sua face ganhou contornos menos agressivos. — Por isso, a noite em que ele desceu para o sarau vestido como uma mulher foi um escândalo. Meu pai bateu nele como fazia com os escravos – os olhos de Eufrásia passearam nas órbitas, como se observassem de soslaio Andrev, João e Félix ao seu redor.

— E por qual motivo você acha que Gregório desafiou o pai dessa forma? Por que ir de vestido ao sarau?

— Ele não foi de vestido – contestou Eufrásia. — Ele foi apenas com o espartilho. “Apenas”. O resto do corpo estava completamente nu. “Sou como as prostitutas que o meu pai come na cidade”, ele gritava, imitando gemidos na frente de todos os convidados.

— De fato, um escândalo! – Gabriel tentava esconder o espanto. — E o que aconteceu depois disso?

— Meu pai o levou ao tronco, na frente de todos. Chicoteou até arrancar pedaço! Mas Gregório continuava gemendo como as tais prostitutas, rindo da fúria do meu pai.

— E quantos anos ele tinha quando fez isso? – Orlínski escrevia freneticamente.

— Eu não me lembro, mas meus pais diziam que ele fazia isso porque estava deixando de ser criança. Foi quando meu pai comprou a cinta para ele...

Orlínski se lembrou da cinta contra onanismo, encontrada sob o assoalho da fazenda. As informações que Eufrásia passava deixavam Gabriel em certo estado de estase, empolgado com a imagem que construía de Gregório e de seus traumas.

— Gregório só deixava a fazenda para ir aos bordéis com o meu pai. O Barão também o forçava a ver os castigos nos escravos. Dizia que isso o deixaria forte e o transformaria num homem. Nessa época, meu irmão começou a mostrar seus sinais de sodomia, e papai queria curá-lo de qualquer maneira.

— Quando foi isso exatamente, você se lembra? – Gabriel a fitou, parando de escrever momentaneamente.

— Foi depois que ele voltou do Caraça. Ninguém nunca me contou o que aconteceu no Colégio para ele ter sido expulso, mas sei que papai ficou furioso. Teve que contratar um tutor particular para Gregório.

— Jakob von Einem? – Questionou Orlínski.

— Isso! Mas papai não sabia que o austríaco também tinha as mesmas inclinações que Gregório – Eufrásia pediu outro cigarro. — Eu vi os dois fornicando uma vez – ela riu. — Meu irmão pediu para que eu não contasse para ninguém, e assim eu o fiz.

— Sábio. Há coisas que precisam ficar em segredo – Gabriel estava completamente imerso no relato de Eufrásia.

— Claro, doutor Orlínski! Ainda mais que o von Einem era indicação do padre Alencar. Meus pais consideravam aquele religioso um santo.

— Por quê?

— Porque ele era o único que acalmava Gregório e o mantinha longe de escândalos.

— E o que aconteceu com von Einem?

— Continuou conosco por muitos anos. Até que anunciou que nos deixaria para se casar. Acho que foi no fim de 1906. Gregório ficou arrasado. Ele só se recuperou quando Maximiliano apareceu com o filho, Rodolfo Nazzari.

— Então, os dois tiveram um enlace?

— Acho que Gregório tentou. Contudo, nessa época, meu pai queria que eu me casasse com o filho de Maximiliano – Eufrásia retomou o tom frio e malévolo. — Mas eu queria o pai, não aquele menino delicado – sorriu.

— E? – Gabriel parou de escrever para observá-la, mais uma vez.

— Eu entreguei minha pureza a Maximiliano, no mesmo lugar onde vi meu irmão entregar a dele ao seu tutor – Eufrásia gargalhou. — Mas, dessa vez, quem nos viu foi Rodolfo. O infeliz fez um escândalo!

— Seu pai deve ter ficado uma fera – Gabriel já não conseguia conter a empolgação. A noite já imperava e a Chefia de Polícia ficava cada vez mais vazia e silenciosa. Lá fora, densas nuvens jogavam chuva pela cidade, enquanto a neblina cobria praticamente tudo.

— Não! Rodolfo não disse nada ao meu pai. Ao invés disso, foi até Marcelo de Azevedo e denunciou o comércio de escravos do Barão e do pai. O sodomita odiava Maximiliano.

— Mais um escândalo público para o Barão.

— Foi o que pensávamos, mas Maximiliano era mais esperto que o filho. Meu pai e ele já tinha contatos aqui, na capital. Foi fácil abafar o caso e Marcelo acabou fechando o jornal em Sabará, vindo para Belo Horizonte logo depois.

— Imagino que essa influência na capital seja o delegado... – arriscou Gabriel. Eufrásia se recusou a concordar ou discordar.

— Depois disso, fomos à Europa – continuou a moça. — Quando regressamos, a tuberculose ceifou a vida de papai e de mamãe.

— E o que aconteceu com você e o seu irmão?

— Meu irmão ficou na fazenda, assistindo tudo se desfazer. Eu fui viver com uns tios, que tiraram tudo do meu irmão. Toda riqueza que possuíamos desapareceu nas mãos do resto da família. Como ninguém quis ficar com aquela fazenda amaldiçoada, ela foi entregue ao descaso.

— Mas seu irmão ficou lá, sozinho?

— Sim. A única coisa que sabia dele era que estava praticando o ocultismo lá. Isso alimentou o medo das pessoas.

— E como ele faleceu?

— Uma noite, durante uma forte tempestade, o telhado do casarão ruiu. Julgamos que seu corpo estivesse nos escombros. Mas ninguém foi lá para saber...

Socos na porta cortaram a conversa abruptamente. O delegado Alvim exigia o fim do interrogatório. Já estava tarde e Eufrásia precisava voltar para casa. A Chefia de Polícia estava deserta e Alvim estava furioso, entrando na sala e demandando que a jovem fosse escoltada até sua residência.

— Chega! Vocês disseram que seria rápido. Estamos aqui há horas – cuspiu o delegado.

Uma acirrada discussão entre Félix e Alvim se iniciou. O delegado erguia a voz, lembrando ao jovem do seu lugar na hierarquia; Félix, por sua vez, insinuava que seu superior queria esconder algo e, por isso, mantinha Eufrásia numa prisão domiciliar. Enquanto brigavam, João ouviu o sino da campainha tocar, no andar inferior.

— Alguém está chamando! – João tentou apaziguar os ânimos.

— Não consigo ver daqui – Andrev olhava da janela a rua completamente vazia. A chuva dera uma trégua, mas as nuvens ainda eram as donas da cidade. — Deve ter sido o vento, João.

O sino soou mais uma vez, com muito mais força que outrora. Um frio medonho passou por todos naquela sala. O silêncio se fez e trocaram olhares atentos e temerosos. Mais um som metálico correu pelos corredores vazios do prédio. Não havia uma alma para ir à porta. Então, João e Andrev decidiram descer as escadas e ver quem chamava insistentemente. Quando estavam próximos à entrada principal, o sino tocou pela última vez.

Abruptamente, João abriu a porta e foi para a noite úmida. A neblina cobria parte da rua, impedindo uma visão nítida ao redor. No chão, um pedaço mutilado de um corpo sangrava pela escada que ligava a Chefia ao passeio. Desesperado, João Augusto correu para a rua, olhando para todas as direções, a fim de achar quem havia deixado aquela coisa grotesca diante da porta.

— Gregório! – Gritou.

De longe, no meio da neblina, avistou a silhueta macabra de um homem. A luz dos postes iluminava parcamente a longa capa que usava como sobretudo e a cartola alta em sua cabeça. Numa das mãos, uma longa adaga brilhava. João não podia ver o seu rosto, apenas a faixa branca da máscara de pano que cobria a boca e o nariz daquele ser funesto. Ele encarava João Augusto, que podia sentir a risada maligna por detrás daquela proteção contra a gripe espanhola. A sinistra figura ficou ali, parada por alguns segundos, até que a cerração o cobrisse completamente e facilitasse a sua saída repentina.

— Gregório de Miranda, nós sabemos que é você, maldito! – João gritava o máximo que podia.

— Ele sumiu – Andrev, surgindo atrás do médico, apontava a sua arma às cegas, na direção onde outrora vira a silhueta masculina. — Vamos voltar para o prédio, João. É perigoso ficarmos aqui – puxou o amigo pelo braço.

Diante da Chefia de Polícia, o pedaço mutilado de um homem ainda sangrava. Era um pênis cujo rubro líquido manchava a escada de mármore branco. Orlínski e Félix correram até o local, assustando-se ao se depararem com a cena grotesca.

— Santo deus! – Félix exclamou.

— Ele sabia que estávamos com Eufrásia – afirmou João. — E não teve medo de se mostrar!

— Vou mandar um comboio vasculhar a área. Temos que tirar isso do chão! – Félix correu para dentro da Chefia.

— E nós? – Perguntou Andrev. — O que faremos?

— Vamos atrás do dono disso – João olhou em direção ao mármore manchado de sangue.

Correram até o carro. De certa forma, João, Orlínski e Andrev sabiam aonde deveriam ir. Era certo de que, naquele mesmo trecho abandonado da estrada, encontrariam mais uma vítima morta. Armados, temiam encontrar o assassino cara a cara e não podiam ser pegos de surpresa. Enquanto o veículo cortava a neblina e deixava a cidade, planejavam como reagiriam caso fossem surpreendidos pelo criminoso. No entanto, tudo estava como de costume: vazio, deserto e assustadoramente silencioso.

Assim que chegaram ao local, abandonaram o automóvel com os faróis acesos. A chuva deixara a estrada lamacenta e com difícil locomoção. Sem se preocupar com as roupas se sujando, com lampiões nas mãos, procuravam por algum sinal do corpo. Mas não havia sinal de sangue nem de cadáver algum. Decidiram se separar. Com as armas preparadas, tremiam, ansiosos por alguma pista. Entrementes, não havia nada nas redondezas de onde, antes, acharam as três vítimas anteriores.

A busca ficava mais perigosa e tensa. Foi só depois de muito procurar que a voz de Andrev cortou o silêncio, anunciando ter, finalmente, descoberto onde o assassino deixara a sua nova presa. Não muito distante do início do vale que, ao fundo, um córrego cheio e furioso corria, o príncipe encontrou o corpo crucificado numa mangueira, sem os olhos, com a cruz rasgada no peito e o crucifixo enterrado entre as nádegas.

— Quem é? – João, correndo, alcançou Andrev.

— Acredito que seja Pedro Biancchi... – respondeu o príncipe.

— Meu deus! – Orlínski caiu de joelhos sobre a lama, com lágrimas nos olhos. — Quando isso vai acabar?

A chuva já havia recomeçado, quando viram o carro de Félix se aproximar com ajuda. Três policiais o acompanhavam. Enquanto a polícia fazia o trabalho de remoção do corpo, Andrev, João e Gabriel retornaram ao veículo, tristes e desanimados por presenciarem mais uma perda. Naquele momento, todo o esforço que dedicaram para interrogar Eufrásia parecia em vão. O assassino ainda continuava passos à frente deles, e encontrá-lo no meio da noite chuvosa seria impossível. O jeito era se resignar e recobrar as energias para encontrarem alguma outra pista capaz de levá-los até ele.


0 visualização

©2020 por A Contrapelo Podcast. 

O podcast de Ciências Humanas.