Capítulo 16

Belo Horizonte, novembro de 1918

Pânico! Belo Horizonte estava horrorizada com o aumento assustador da “hespanhola”. Prefeito e presidente acusavam a população de não respeitar as políticas sanitárias, enquanto o povo denunciava os culpados pela gripe: os alemães e aqueles que zombavam do poder de deus. Em poucas semanas, a cidade virou de ponta-cabeça, as farmácias lotadas e os alimentos começando a escassear. Todo o esforço de um mês de confinamento desabava e o Hospital de Isolamento não era capaz de atender os milhares de doentes. O som da tosse era o réquiem final da tragédia, que atingia todas as residências e não perdoava ninguém.

O tempo da natureza e o dos homens não é igual. Enquanto a raça humana deseja a rapidez, a natureza se mantém calma, impassível, parecendo tolerar tudo com resiliência. Contudo, quando age, mesmo que silenciosa, é capaz de trazer sobre a humanidade um julgamento tenebroso, que não escolhe a quem atinge, ultrapassando as classes, as fortalezas, as mansões e os casebres. Constantemente, os homens, meros grãos de areia num infinito universo, são lembrados da sua miserável condição. E 1918 seria marcado pelo acerto de contas. O ano em que a Terra lembrou aos humanos seu lugar nessa intrincada teia que é a vida e a morte, o início e o fim.

São tempos que exigem humildade, não arrogância, de união comunitária e trabalho conjunto. Não há fortes numa pandemia, os que sobrevivem carregam para sempre o peso das inúmeras mortes, aguardando por uma absolvição que nunca virá. Os sobreviventes são meros sobreviventes.

Assim, Andrev, João e Orlínski não tiveram tempo para lamentar a morte de Pedro Biancchi nem insistir para interrogar Eufrásia mais uma vez.

Como a caveira encapuzada que segura a sua foice, a “hespanhola” desceu sobre a capital, impetuosa, exigindo um esforço hercúleo dos poucos médicos da cidade, verdadeiros guerreiros despreparados para a mais difícil batalha de suas vidas. E João, claro, foi chamado à linha de frente para ajudar, no hospital improvisado na Escola de Medicina. Todas as aulas das instituições educacionais foram canceladas. Aqueles que corriam às igrejas, pedindo clemência dos céus, voltavam para as suas casas infectados, levando nada além da morte e da dor.

Nesse cenário aterrador, qualquer ajuda era válida. Amália e a princesa Anna se voluntariaram, cuidando de doentes e dando donativos às brigadas contra a gripe. Andrev entregou um dos carros aos médicos, para que pudessem usá-lo para levar os inválidos até o hospital, além de oferecer dinheiro e empréstimos aos que precisavam. Tentava, com todo esforço, trazer provimentos à cidade, ofertando-lhes na zona suburbana, onde as famílias abandonavam os corpos dos seus entes queridos, temendo serem infectados pela gripe. Nem mesmo os animais de estimação escapavam do medo do contágio, e muitos foram largados nas ruas ou aniquilados pelos donos, que acreditavam serem eles os vetores da doença.

Mas, mesmo com sua ajuda diante do caos, Andrev se tornou alvo de muitos jornais. Ele, juntamente com outros imigrantes de origem austro-húngara ou alemã, eram hostilizados nas ruas, acusados de serem os portadores da morte, espiões inimigos que desejavam a destruição da ordem. O outrora bem quisto príncipe se transformou numa figura sinistra e odiada, e sua casa passou a ser alvo de represálias da amedrontada população de Belo Horizonte.

O príncipe fingia ignorar os insultos. Todavia, naquela manhã, foi incapaz de fingir não se importar com o editorial de alguns jornais, que alegavam que, enquanto a população sofria, ele e sua esposa jantavam ao som das valsas vienenses, negligenciando o sofrimento do resto da cidade. Furioso, lia e relia as notícias em voz alta, num dos cafés da manhã mais tensos que dividia com a esposa e Amália.

— Eu não sou alemão! Quando essas pessoas vão parar de me insultar dessa forma? – Jogou o jornal sobre a mesa, sem ânimo para comer qualquer coisa.

— Eu não entendo – Anna descansou a xícara de café sobre o pires. — Estamos fazendo o máximo possível para ajudar. O que eles querem? Que eu vá ser enfermeira como Amália está fazendo?

— Talvez... – Amália ignorou a forma preconceituosa com a qual Anna se dirigia ao trabalho voluntário que realizava, ao lado de João, no hospital montado na Escola de Medicina. — Todos estão com muito medo, é normal agirem de forma irracional.

— Uma hora tudo volta ao normal, e estarão nos paparicando como sempre fizeram – Andrev acendeu um cigarro. Tomavam o café da manhã num dos salões da casa que tinha vista para o jardim. — Só queria que essa loucura passasse logo!

— Vai passar! – Amália se levantou. — Preciso ir. João deve estar precisando de mim.

— O motorista está te aguardando – disse Andrev, tentando, com o tabaco, afastar as palavras incômodas que lera, e que martelavam a sua mente de forma dolorosa.

Amália subiu até o quarto para se aprontar. Um rápido banho e, em seguida, colocou a “chemise”, quando uma criada apareceu para ajudá-la a apertar o “corset” e terminar de se arrumar. Sua roupa era simples, mais leve e solta que as que estava acostumada a vestir, uma vez que precisava se movimentar rapidamente para ajudar os médicos e os pacientes. Sua vestimenta não possuía luxos e ela não conseguia se reconhecer nela. Sentia seu mundo desabar, ficando ele para trás como memórias ao vento.

Enquanto terminava de prender os cabelos, observava sua silhueta no espelho. O peso daqueles poucos dias ajudando os médicos já marcavam o seu rosto. Sua expressão estava cansada, abatida por ver tanta doença e morte. Muitas vezes, quis desistir ou apenas chorar, lamentando a luta contra a morte que, em muitos casos, já estava perdida quando o paciente chegava à procura de leito e cuidados. No entanto, ela tinha a convicção de que não poderia se entregar, deveria ser forte e ajudar o máximo possível. Todas as vezes que se sentia tentada a largar tudo, lembrava-se de João e da sua batalha muito maior que a dela. Era preciso fazer algo, ser útil de alguma maneira, encontrando forças a qualquer custo.

Assim que terminou os últimos detalhes, colocou o chapéu e desceu pelas escadas, deparando-se com Orlínski e um jovem padre de cabelos volumosos, olhos verdes e o tradicional hábito monástico. Amália estranhou aquela presença ali. Os Kinsky nunca foram muito religiosos, e ela não escondia a expressão espantada com o convidado vindo da Santa Sé. Um homem da igreja não lhe trazia conforto algum.

— Bom dia, Amália! – Gabriel a cumprimentou com um beijo na mão. — Esse é padre Benjamim. Ele vai com você ao hospital, hoje.

— Olá, padre – Amália foi educada. — Veio ajudar contra a “hespanhola”?

— Sim! O príncipe Andrev me pediu para vir e eu não poderia recusar um pedido para ajudar nesse momento tão delicado – a voz de Benjamim, grave e imponente, destoava da face delicada e angelical do rapaz.

— Esteja preparado para o que vai ver, padre – Amália alertou. — Os hospitais estão lotados de doentes!

— Li algumas coisas a respeito. Uma lástima! – Disse Benjamim.

— Nada que você leu é capaz de traduzir o sofrimento que aqueles doentes estão passando – Amália tinha uma expressão triste e distante. — Vamos? João deve estar precisando de ajuda.

— Claro! – Benjamim fez uma mesura.

Os dois se despediram de Orlínski e dos Kinsky e foram até o carro. Num silêncio incômodo, Amália e Benjamim seguiam rumo ao hospital improvisado. A famosa cantora não se sentia bem ao lado de religiosos e estar tão perto de um deles era uma experiência desconcertante. Ele, ao seu turno, observava a cidade passar com bastante interesse. Nunca tinha colocado os pés na capital do seu Estado, e tudo era novo e fantástico. Mesmo que deserta, Belo Horizonte lhe proporcionava lindas vistas e um cenário mundano que nunca vivera.

— É uma cidade muito bonita – disse Benjamim, obrigando Amália a sair do seu casulo introspectivo.

— Sim... – Amália concordou, desconcertada.

— Não precisa ficar sem jeito perto de mim, não sou como os outros padres – Benjamim sorriu amigavelmente.

— Não estou acostumada a conversar com padres – confessou Amália. — Mesmo sendo tão jovens...

— Pareço ser mais jovem do que realmente sou – Benjamim mantinha uma expressão dócil e infantil no rosto.

— Sempre tenho em mente homens velhos e carrancudos como padres – aos poucos, Amália se soltava.

— De fato, todos costumam ser assim – Benjamim riu.

— E por que você escolheu essa vida? Vocação? – Amália apreciava o sorriso infantil do padre.

— Infelizmente, não. Perdi meus pais muito cedo e tive que escolher essa vida para não passar fome – Benjamim mantinha a expressão agradável.

— Entendo – Amália olhou para ele com pena. — A vida nem sempre é como sonhamos...

— Acho que nunca tive tempo para sonhar com algo nessa vida – lamentou Benjamim.

A conversa cessou quando o motorista estacionou o carro diante da Escola de Medicina. Amália e Benjamim vestiram as suas máscaras de pano e encararam a intensa movimentação logo na entrada do prédio. Os olhos do padre se espantaram ao ver tamanho sofrimento: uma fila interminável de doentes esperava por algum auxílio dos poucos médicos e enfermeiros que atendiam como podiam às demandas de tantas pessoas. Não havia camas suficientes e muitos permaneciam deitados no chão frio, vestindo roupas sujas e impróprias, implorando por assistência. As tosses eram constantes e ecoavam pelos corredores, alertando para o perigo mortal que era lançado ao ar por tantas criaturas desamparadas. Constantemente, corpos cobertos por lençóis brancos passavam, empurrados pelos funcionários encarregados de levá-los ao Cemitério do Bonfim, onde uma ala fora separada para enterrar os que sucumbiam diante da “hespanhola”. No meio dessa confusão, encontraram João Augusto discutindo com Alfredo Balena sobre a forma como estavam conduzindo os trabalhos de combate à gripe.

— João, precisamos de todo espaço possível para abrigar os doentes – dizia Alfredo, impaciente, andando apressadamente por entre os pacientes.

— Mas os mortos estão saindo sem um registro sequer! – Protestava João.

— Não há tempo para isso. Temos que liberar as camas o mais rápido possível! – Alfredo ignorava os apelos de João. — Precisamos salvar vidas. Os registros ficam para depois!

— Isso não está certo! – João insistiu.

— Doutor João – Balena o encarou com uma expressão nervosa e carrancuda. — Estamos no limite. Tente se preocupar com os vivos e deixe os mortos aos cuidados dos responsáveis para levá-los ao Bonfim! – Deu as costas e saiu apressadamente. — Não vamos perder tempo com esses detalhes! – Gritou com raiva.

Bufando e desolado, João se sentou numa cadeira e esfregou o rosto. Aquele desespero ao seu redor era muito para a sua mente, que se sentia cansada e derrotada. Não sabia como encontrara forças para tratar os doentes que não paravam de chegar e cada perda era como uma faca entrando em sua carne. A sensação de impotência o consumia com cada vez mais força e não tinha tempo nem mesmo para lamentar os que perdiam a batalha contra a doença.

— João! – Amália correu até ele. — Você está bem?

— Amália! Faz horas que não durmo e não param de chegar pacientes – João começou a chorar. — Não aguento mais isso!

— Precisamos ser fortes! – Amália se agachou para encará-lo. — Essas pessoas precisam de você!

— Mas eu não consigo fazer nada por eles. Tudo o que sei parece inútil! – João desabou. — Nem temos como dar um fim digno aos que padecem!

— Mesmo assim, não podemos desistir! – Amália apertou as mãos de João. — Veja. Padre Benjamim está aqui para tentar dar algum alento aos doentes.

João estranhou ao ver o jovem padre ali. No entanto, não teve tempo para conversar muito com os dois. Logo, uma enfermeira surgiu demandando os serviços do médico e de Amália. Rapidamente, os dois correram para cuidar de um homem de meia idade que tossia sem parar, tremendo por causa da febre alta. Amália dava assistência, entregando medicamentos e chás, e limpando os outros doentes que jaziam nas camas do mesmo quarto. João analisava os demais, dando instruções aos enfermeiros e recebendo os novos acometidos pela gripe. Tudo era corrido e no improviso e, logo que alguém morria, outro já era colocado em seu lugar, exigindo novos cuidados. O que antes era uma sala para os alunos de medicina se transformou num poço de dor, incertezas e sofrimento.

Padre Benjamim fazia a sua parte. A chegada de um religioso dava algum alívio aos que sofriam. Ele os abençoava, rezava ao lado dos que pediam consolo divino. Mas, o jovem religioso não estava preparado para encarar aquele número infindável de pessoas que passavam por tantas provações: eram muitos os que agonizavam em leitos improvisados ou pelo chão dos corredores. As tosses, os gemidos e os lamentos ecoavam pelo hospital, trazendo aos que tratavam da doença ainda mais temor e a sensação de impotência. Mesmo as orações que confortavam os que padeciam não eram capazes de afastar o poder da morte que reinava em todas as alas daquele malfadado local.

E o dia todo decorreu dessa forma: não havia tempo para comer, descansar ou se limpar. Sempre surgiam novos doentes, novas demandas e mais mortos. A “hespanhola” derramava sobre todos a sua fúria. Quando a noite chegou, Amália, Benjamim e João estavam destruídos pelo cansaço, desejando avidamente por um bom banho, comida e sono.

— Deus misericordioso – Benjamim, encostado na parede que dava para rua, exclamou. — Tenha piedade de nós!

— Se continuar assim, não vai sobrar um vivo – disse Amália, fumando sem parar.

— Eu preciso dormir! – João, com as mãos na parede, paderia apagar a qualquer momento, totalmente vencido pela fadiga.

— Você não vai jantar conosco essa noite? – Perguntou Amália, assim que viu o carro que os buscaria surgir na esquina.

— Não tenho condições para isso... eu só quero chegar em casa e cair na cama! – Disse, impaciente.

— A gente te deixa em casa, então – Amália ofereceu carona a João, com um sorriso amigável no rosto.

Os três entraram no carro e, assim que se acomodou, João caiu sobre o colo de Amália, dormindo quase que instantaneamente. O retorno foi num silêncio ainda mais pesado e perturbador do que fora na vinda. As cenas de angústia não traziam apenas cansaço ao corpo, a alma também estava abatida e prestes a desmoronar. E a incerteza de quando seria o fim daquilo gerava ainda mais aflições. Todos estavam perdidos, temendo a hora que a “hespanhola” chegaria até eles e os derrubaria, como fazia com o resto da cidade.

— João, acorde! Chegamos – Amália tocou o rosto do amigo. Sonolento, João Augusto se despediu de todos e entrou em sua casa.

Após algumas frases de conforto ao médico, o retorno ao palacete Kinsky foi rápido. Assim que chegaram, perceberam que a residência estava escura e melancólica. Apenas o som de um gramofone, tocando uma triste ária de uma ópera qualquer, ecoava pelos cômodos. Do salão de onde vinha a melodia, Andrev permanecia sentado, lendo sob a luz de um belo abajur. Fora isso, tudo era breu e silêncio mortal.

— Achei que já estariam prontos – disse Amália, assim que tirou a máscara que cobria seu nariz e boca. — Não podemos nos sentar antes de trocar essas roupas de hospital e tomarmos um banho.

— Anna está terminando de se arrumar – Andrev, vestido de gala, descansou o livro ao lado do abajur art nouveau, ao seu lado.

— E Orlínski? – Amália observava a escuridão triste do resto do ambiente.

— Ficou no quarto o dia todo. Acho que deve estar se arrumando também. Disse que estava cansado e precisava dormir...

— Bom. Assim, teremos tempo de nos arrumar com calma – Amália caminhava para a escadaria. — Foi um dia difícil!

— O cansaço está estampado no rosto de vocês – Andrev completou.

— Não imaginava tanta dor e sofrimento – Benjamim, com os olhos caídos, revivia as cenas que teve de passar no hospital.

— Erramos ao não levar a sério tudo isso, há um mês – lamentou Andrev.

Enquanto conversavam em tom baixo e tristonho, tosses ecoaram pelo palacete, vindas do andar de cima. Os passos desajustados e vagarosos de Gabriel cambaleavam pelos degraus, em direção ao hall, sob a luz do lustre recém aceso. Assustados com o som seco e doente que acompanhava Orlínski, os três correram para encontrá-lo. Do alto da escadaria, um homem pálido, trêmulo e com olheiras profundas andava com dificuldades, como um zumbi zonzo e abatido. Ele lançou sobre eles um olhar insalubre e enfermiço.

— Gabriel, você está péssimo! – Amália se espantou ao vê-lo naquele estado. Pela manhã, quando se despediu dele, Orlínski não estava naquele estado tão destruído.

— E-estou bem... só um pouco indisposto – as palavras de Gabriel saíam moles e com dificuldade. Apoiando o seu corpo pelo corrimão, descia vagarosamente, como se em seus pés houvesse pesadas pedras que o impediam de andar. Assim que se aproximou do último degrau, não foi capaz de se manter em pé, desmaiando nos braços de Amália.

— Orlínski! – Andrev se desesperou.

— Gabriel! Gabriel! Fale conosco, por favor – Amália tentava reanimá-lo. — Alguém precisa chamar o João aqui, imediatamente! – Gritava pelo palácio vazio.


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