Capítulo 17

Aflito e angustiado, Andrev esperava por notícias, sentado num banco de veludo, encostado na parede do corredor decorado com motivos clássicos, e chão coberto por um longo tapete persa. Passou toda a noite ali, intercalando períodos de cochilos inconstantes, enquanto aguardava João examinar Orlínski. Com a sua máscara entre os dedos, pedia aos céus para que o seu amado fosse salvo daquela terrível doença.

João deixou o palacete Kinsky quando o sol começava a raiar, dando instruções para Amália de como deveria cuidar de Gabriel. Andrev a ajudou no que podia, mas, àquela hora da manhã, não tinha mais forças para continuar.

— Como ele está? – Perguntou, assim que Amália surgiu à porta.

— Está dormindo. A febre baixou um pouco – a voz dela era baixa e tranquila.

— Eu posso vê-lo?

— Daqui da porta. João disse que melhor mantê-lo isolado, pelo menos por enquanto.

Andrev esticou o pescoço para dentro do quarto. De longe, observou Gabriel dormindo tranquilamente. As densas cortinas dificultavam enxergá-lo daquela distância, mas só de poder ver sua parca silhueta, e ouvir o som pesado do seu sono, o príncipe sentiu certo alívio.

— Agora, você precisa descansar – Amália fechou a porta do quarto.

— Não posso! Félix está para chegar a qualquer momento – Andrev tinha profundas olheiras e bocejava.

— Ainda não são 7h! Você pode descansar um pouco – Amália puxou Andrev pelo braço. — Vou te acompanhar, vamos!

Amália teve que empurrá-lo até o quarto. Assim que Andrev sentou em sua cama, sua amiga separou roupas limpas e ordenou que ele se trocasse. O príncipe, no entanto, apenas jogou a cabeça contra o travesseiro.

— Não haja como uma criança, Andrev!

Ignorando-a, Andrev fechou os olhos e dormiu rapidamente. Conseguiu descansar por mais ou menos três horas, até que Charles chegou com um pequeno café da manhã, despertando-o. O mordomo não escondia a preocupação com a chegada da “hespanhola” ao palacete, temendo que todos os empregados ficassem doentes como Orlínski. O príncipe ignorava os alertas de seu serviçal, até que Charles sugeriu levar Gabriel para um hospital.

— Não há necessidade disso, Charles! – Protestou Andrev severamente. — Orlínski ficará isolado naquele quarto. Poucos terão permissão de ir vê-lo. Não há com o que se preocupar!

— Mas, e a srta. Amália? Ela está se arriscando muito!

— Ela é uma mulher adulta, Charles. Ademais, Amália se prontificou a ajudar, se voluntariou. Ninguém a obrigou!

— Mas todos estão com muito medo, alteza...

— Eu sei disso! Por esse motivo, precisamos tomar cuidado e enfrentar essa crise, com fé de que tudo vai dar certo – impaciente, Andrev saiu do quarto assim que terminou de se vestir.

Desceu as escadas, e encontrou Félix e Benjamim aguardando por ele diante da entrada do palacete. Os dois interromperam a conversa quando viram Andrev aparecer no alto dos degraus.

— Meu deus, você está péssimo! – Félix observava a cara de cansaço de Andrev.

— Não foi uma noite fácil – o príncipe esfregava o rosto com uma das mãos.

— Como está Orlínski?

— Estável... ainda está dormindo – respondeu, enquanto acendia um cigarro.

— Ele vai ficar bem – Benjamim tentou consolar Andrev.

— Tomara... – Andrev tinha um ar abatido e preocupado.

— Podemos ir? – Félix apontou para a entrada da residência.

— Tenho que tirar o carro ainda – Andrev falava num tom desmotivado.

— Nós vamos no meu – Félix caminhou para o alpendre. — Acho mais seguro, se você não se importar.

— Por mim, tudo bem... – Andrev apenas os seguiu até o veículo. — Vamos resolver isso logo!

Félix conduzia o carro pela rua, parando todas as vezes que algum veículo, destinado a levar mortos e doentes, impedia a sua passagem. Para uma cidade pequena e acanhada, como era a capital, qualquer cena de pessoas ou corpos sendo levados de suas casas causava choque. Andrev evitava olhar para aquilo, com medo de que sua mente imaginasse Orlínski sendo carregado debaixo de um pano branco, ou dentro de um caixão. Mantinha um silêncio tristonho e não se manifestava, nem quando Benjamim ou Félix tentavam reanimá-lo. Sua voz só foi ouvida quando percebeu que o oficial seguia pelo caminho errado.

— Você está indo no sentido contrário! – Informou.

— Não, meu amigo. Se formos pelo caminho que vocês indicaram, vamos ter que enfrentar aquele vale. Eu não pretendo molhar os meus sapatos!

— Você encontrou outra rota? – Andrev virou para Félix, com sua expressão cansada.

— Os mapas da região estão na Chefia de Polícia. Estudei alguns ontem e acredito que poderemos chegar ao casebre de carro, tranquilamente.

O trajeto planejado por Félix era bem mais longo daquele que Andrev, João e Gabriel estavam acostumados a seguir para chegar ao terrível casebre, evitado durante muito tempo. As condições da estrada também não ajudavam, mas, em pouco mais de meia hora, já puderam ultrapassar o ribeirão Arrudas e pegar um bucólico caminho, coberto por densas árvores e iluminado pelo sol de modo poético. Uma vista tão inspiradora que fez padre Benjamim assobiar “Jesus, a alegria dos homens”, de Bach.

— Nada como estar com um padre uma hora dessas! – Brincou Félix.

O sibilo de Benjamim mergulhou Félix e Andrev numa agradável viagem pela paisagem. Por um momento, todos se imaginavam em outro lugar, ouvindo violinos e outros instrumentos tocando aquela harmonia barroca. Não pensavam que caminhavam em direção a um local tenebroso, com memórias que Andrev preferiria sepultar e nunca mais revisitar. O padre apenas interrompeu a melodia quando avistou, de longe, a pequena casinha, envolta às sombras e às grandiosas árvores, que pintavam os arredores com tonalidades sombrias.

Era a primeira vez que Félix e Benjamim estavam ali, mas já podiam sentir a estranha atmosfera do lugar, tal como Andrev, Gabriel e João experimentaram quando estiveram lá. Diante deles, o casebre descansava sob as sombras, abandonado, esquecido no meio da floresta que, aos poucos, devorava as paredes de barro e madeira e o telhado de palha.

— O lugar é realmente tenebroso, Andrev – disse Benjamim, assustado com o aspecto fantasmagórico do local.

— Você não viu nada ainda – o príncipe liderava o grupo.

Com cautela, passaram pela porta apodrecida e entraram no casebre. No primeiro ambiente daquela construção precária, as mesmas correntes que Andrev vira da primeira vez balançavam. O chão de terra batida estava completamente sujo de sangue. Até a imagem da Virgem estava manchada com gotas vermelhas. Os olhos de Benjamim e Félix não acreditavam no que estava diante deles: por todos os lados era possível ver sinais de morte e violência.

As duas janelas daquele cômodo rangiam com o vento que vinha de fora. No canto da parede entre elas, uma cadeira e uma mesinha, onde um gramofone a corda guardava um pequeno disco sob sua agulha. Félix rodou a manivela do aparelho e o som faiscado ecoou. Em inglês, a voz masculina começava uma espécie de ritual, sendo acompanhado por tambores e outros instrumentos.

— “Eu chamo o príncipe da luz, Lúcifer” – Andrev traduzia as falas do homem que saíam pela corneta do gramofone. — “Espíritos do abismo, eu os invoco”

— É um feitiço Vodu – Benjamim analisava o canto. — Ou hodu...

— O que é isso? – Questionou Andrev.

— São crenças ancestrais vindas com os africanos, que se misturaram com outras práticas nas Américas. É muito comum no sul dos Estados Unidos e no Haiti – respondeu o padre.

— Isso não estava aqui da última vez que viemos – disse Andrev. — Pelo menos não demos importância a esse detalhe – confessou.

— A irmã de Gregório mencionou que ele se interessou por esse tipo de coisa antes de desaparecer – Félix se lembrou do relato de Eufrásia.

— Vamos, ainda tem mais coisa interessante para vocês analisarem – Andrev os levou ao segundo cômodo.

A mesa, outrora ao lado da porta não estava mais ali, e Andrev rapidamente associou que ela tinha sido levada para perto das correntes, juntamente com a cadeira. Algumas fotos ainda estavam presas à parede. No entanto, as fotografias post mortem, bem como as de João e dos demais, desapareceram. No lado oposto à parede, próximo à janela por onde o príncipe avistara o vulto sinistro na noite em que estiveram ali, a estante com os livros ainda estava lá.

— Da última vez, João encontrou cartas e fotos numa dessas obras – alertou Andrev.

Benjamim começou a fuçar pelos livros, abrindo um a um. Não havia fotos, mas encontrou alguns documentos dentro de uma obra em inglês sobre Vodu. Tratava-se de registros de trabalho, todos sem foto. Um deles chamou a atenção do padre.

— Andrev... – chamou pelo príncipe sem tirar os olhos do papel. — Você conhece um tal de “Maurício Vargas”?

— Não, por quê? – Andrev se aproximou.

— Porque esse é um registro de trabalho feito em sua fazenda.

— Como? – Félix e Andrev falaram em uníssono.

— Maurício Vargas foi aceito para trabalhar em sua fazenda, na colheita de café, em 1916.

— Foi nossa primeira colheita. Contratamos muita gente – Andrev tomou o documento para se certificar se era autêntico. — Eu não me lembro de nenhum Maurício Vargas...

— O feitiço se chama “toque de Lúcifer” – Benjamim apontou no livro. — Deve ser realizado às 00h...

— O sujeito acredita que está fazendo magia? – Questionou Félix, caminhando até o pequeno banheiro, na outra extremidade da sala.

— Parece que sim – Benjamim respondeu. — Isso explica as marcas que vocês encontraram em todos os corpos.

— O sujeito é atormentado mesmo – Félix tapou o rosto com uma das mãos para poder aguentar o cheiro forte que vinha do vaso sanitário.

— Isso explica a escolha das vítimas? – Andrev olhava pela janela a paisagem e o ponto exato onde vira o assassino.

— Aqui não diz nada sobre isso – Benjamim tentava traduzir o texto do livro. — Ele pode ter criado um mundo imaginário na cabeça...

— Ele é doido, então – continuou Andrev.

— Mas, por que Vodu? Como ele conseguiu um livro desses? – Benjamim analisava as magias e as imagens nas páginas envelhecidas.

Enquanto isso, Félix observava o estado do banheiro. Apesar de completamente sujo e fétido, não havia nada ali que lhe despertasse interesse. Impaciente, sugeriu, então, que vasculhassem os arredores da casa, em busca de alguma informação que não envolvessem crendices e o que julgava ser apenas superstições. Benjamim, após guardar o livro no mesmo lugar, seguiu o oficial. Andrev, por sua vez, colocou o registro de trabalho no bolso e também deixou o local.

Nos fundos do terreno sem cercas, um forno de barro era protegido por um telhado de palha. Não ficava muito distante do casebre, e puderam caminhar sem problemas até lá. Exceto pelas cinzas e restos de madeira queimada, também não havia, ali, pistas a encontrar.

— Será que interditar esse local não seria uma boa ideia, Félix? – Sugeriu Andrev.

— Talvez. Precisamos ver se esse lugar tem dono. Até agora, não achei muita coisa – o oficial ainda procurava por algo ao redor do forno.

— Mas, até você encontrar, não é bom ficar de olho aqui?

— Sim... – Félix acendeu um cigarro.

— Eu gostaria de conversar com Eufrásia de Miranda – disse Benjamim, sem aviso, assustando os dois com aquela intenção.

— Você não sabe o quanto é difícil chegar até essa mulher – lamentou Félix, andando em direção ao carro.

— Podemos passar lá agora, de surpresa – sugeriu, ousadamente, o padre.

— Por que o interesse? – Félix parou e encarou Benjamim.

— Ela pode dar mais informações sobre esse interesse pelo Vodu. Não podemos perder mais tempo, e acredito que ela possa saber onde Gregório está.

— Talvez seja interessante, Félix – Andrev se animou com a ideia.

— Eu acho que posso tirar essa informação dela. Vocês precisam confiar em mim! – Benjamim estava confiante.

Com alguma hesitação, o oficial concordou, imaginando como fariam para passar pelos guardas que faziam a ronda na casa de Eufrásia. Assim que o delegado soubesse que ele estivera com a moça, ele certamente tentaria tirá-lo do cargo que ocupava. Era um movimento muito arriscado para um jovem policial. No entanto, o cenário de doença generalizada não deixava outra alternativa. Eufrásia poderia pegar a terrível gripe e falecer. Tinham que ir até ela mais uma vez e fazer o possível para que Benjamim conseguisse extrair alguma coisa daquela mulher arrogante.

Decididos a passar pela casa de Eufrásia, entraram no carro e deixaram o casebre para trás.

Chegaram a Belo Horizonte no fim da tarde. Uma rápida tempestade os atrasou no caminho, de modo que demoraram mais que o dobro do tempo necessário para regressar à cidade. As luzes dos postes já estavam acesas e o céu tingido de rosa e alaranjado quando se aproximaram da casa de Eufrásia, que estava estranhamente deserta. Não havia um policial sequer vigiando o local.

— Estranho... – alertou Félix ao estacionar o carro do outro lado da rua.

— A porta principal está aberta – em alerta, Andrev tirou a arma do bolso do casaco.

— Segure esse lampião para nós, padre – Félix tirou o objeto do veículo e o acendeu. — Já está escuro.

Cuidadosamente, passaram pelo portão e, subindo a pequena escada que levava ao alpendre, alcançaram a porta entreaberta indicada por Andrev. A sala estava completamente revirada, com móveis destruídos e estilhaços espalhados pelo tapete. Logo adiante, no início do corredor, o corpo nu de Eufrásia estava pregado na parede, completamente ensanguentado, formando uma densa poça sob os seus pés. Sobre o seu ventre, uma fotografia post mortem pregada, de um casal ao lado dos filhos. Pai e mãe foram fotografados fingindo estar vivos ao lado dos jovens, com os olhos pintados como se estivessem abertos, e postura rígida, sustentada por um cavalete de madeira que podia ser visto logo atrás dos corpos. Na parede, o sangue da moça fora usado para deixar um aviso.

— “A hora está chegando” – Benjamim leu em voz alta, precisando se afastar um pouco para conseguir enxergar toda a mensagem.

— Santo deus! – Félix analisava os hematomas e cortes no corpo de Eufrásia. — Como ele conseguiu fazer isso? A casa era vigiada o tempo todo!

— Ele está brincando conosco – Andrev evitava olhar para a mulher crucificada. — Está nos provocando!

— Pelo menos, não resta dúvidas de que seja Gregório – Benjamim reconhecia os pais do rapaz na fotografia post mortem.

— Vou à Chefia de Polícia procurar algo sobre esse tal Maurício Vargas, e pedir para que levem o corpo daqui – disse Félix após revistar a casa e constatar que estava deserta.

— Os jornais vão se exaltar quando souberem que Eufrásia morreu – Andrev andava sobre os cacos de vidro em direção à porta.

— Vamos dizer que foi a “hespanhola” – Félix o seguia, enquanto acendia mais um cigarro.

— Melhor assim – Benjamim concordou.

— Quero ir embora – Andrev estava impaciente. — Não aguento mais ver esses corpos, e estou preocupado com Orlínski.

— Precisarei voltar aqui o mais rápido possível – disse o oficial, já na rua e ao lado do seu carro.

Félix os levou até o palacete Kinsky, despedindo-se dos dois assim que saíram do veículo. Prometendo investigar sobre o que encontraram naquela tarde, o oficial rumou em direção à Chefia de Polícia, não muito distante da residência de Andrev. Aliviado por estar em casa, o príncipe passou pelo portão e subiu pelos degraus que iam até o elegante alpendre de ferro forjado.

Assim que o príncipe e o padre entraram na casa, sentiram algo estranho no ar; uma atmosfera pesada que indicava que algo ruim estava prestes a acontecer. Ninguém surgira para recebê-los e, por isso, Andrev corria pelos cômodos até achar a princesa Anna, ao lado de sua dama de companhia e do mordomo.

— O que houve? Como está Gabriel? – Perguntou Andrev, desesperado. Sua esposa, vestida totalmente para o luto, aguardava pelo marido, com o rosto coberto de lágrimas e sendo consolada pelos empregados. — Orlínski está bem? – O príncipe tremia.

— Sim... ele comeu e, agora, está dormindo de novo – nesse momento, Amália surgiu apressadamente atrás do grupo, olhando para Andrev sem poder conter o choro.

— O que está acontecendo aqui? – Andrev gritou. — Digam logo! – Sua pele ficou vermelha e as veias pulavam com intensidade. — Pelo amor de deus, falem! – Jamais viram o príncipe tão alterado e nervoso.

— Seu pai... sua mãe... seu irmão... sua cunhada... e... o seu sobrinho... – Anna falava com dificuldade.

— O que aconteceu com eles?

— Todos... se foram desse mundo... – Anna voltou a chorar.

— Eu não entendo! Foi a Guerra? – Andrev não conseguia se mover. — Isso chegou hoje?

— Foi a influenza – Anna soluçava.

— Não, impossível! - Andrev não podia acreditar no que ouvia. Em voz alta, negava repetidamente aquela informação. Mas, quando Anna lhe mostrou a carta escrita pela irmã dele trazendo a notícia, suas pernas bambearam, o queixo tremeu e os olhos se encheram de água.

— Andrev, meu amigo – Benjamim tentou acolhê-lo, mas o príncipe se afastou, jogando a máscara que usava no chão e, cambaleando pelo salão, foi em direção ao seu gabinete particular.

Andava apoiando as mãos nas paredes decoradas com douramentos e iluminada pelos lustres de cristal. Quando chegou ao seu escritório, trancou-se lá dentro para não ser incomodado. Sem acender a luz, foi até uma das estantes de madeira nobre e, abrindo a porta de vidro que protegia as prateleiras, tirou o álbum de fotos que guardava ali. Ainda cambaleando, sentou-se na poltrona e, só então, acendeu a luminária que ficava sobre a sua mesa de trabalho e estudos.

Abriu o álbum, agora iluminado com tons melancólicos, sentindo um vazio intenso dentro de si, e impossível de ser explicado. Nada seria capaz de descrever a dor de perder toda a sua família de uma só vez. À medida que passava as fotografias, seus olhos liberavam lágrimas livremente. Olhava para aqueles momentos registrados para a eternidade com dor: a primeira viagem que fizeram à Paris, a temporada que passaram na Grécia, os verões no castelo, no interior da Boêmia... seu querido irmão, seu amado pai e, mesmo com todos os atritos com a mãe, ver o doce rosto da mulher que lhe dera a vida, estático naquelas imagens em preto e branco, causava-lhe profunda tristeza. Ninguém está preparado para receber a notícia da morte de uma pessoa querida. O único a ser feito era chorar, deixar sair todo o sofrimento, sem saber como lidaria com o futuro depois dessa terrível notícia.

— Por que, meu deus? Por quê? – A dor rasgava o seu peito como uma foice em brasa.

Chorando sem parar, Andrev tirou de outra parte das estantes uma garrafa com cachaça, presente dado por Orlínski, quando se reencontraram em Belo Horizonte, e que nunca tinha sido aberta. Pegou também um pequeno cálice de cristal e começou a beber sem parar, desejando que o torpor alcóolico pudesse tirá-lo daquele vazio e da mágoa que ardia e não permitia que parasse de chorar. De volta à poltrona, ele pensou em Gabriel, temendo que aquele fosse o mesmo destino do homem que amava profundamente e que lutava contra a mesma doença que levou os seus pais, no andar de cima.

Queria tê-lo ali para chorar em seus braços a perda de sua família. Apenas sua irmã sobrevivera àquela tragédia e se sentia completamente perdido e sozinho, abandonado à sorte no pior momento de sua vida. O que seria dele agora? Como poderia manter viva o que restara de sua linhagem? Seu mundo se aproximava do fim e só o que restava fazer era chorar e beber até cair, prostrado, num sono profundo.


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