Capítulo 18

O hospital estava abarrotado de pessoas, logo pela manhã. João corria de um lado para o outro, aflito. A cada dia que se passava, a “hespanhola” se aproximava de seu momento de vitória. Não havia como ajudar tantas pessoas, os leitos lotados e os corredores cheios de sofrimento. A sensação predominante era a de que, a qualquer hora, todos desistiriam e se entregariam diante daquele mal invisível e poderoso.

Por entres os doentes, Andrev caminhava, procurando João. Mesmo com máscara, as pessoas podiam reconhecê-lo, lançando insultos em sua direção quando o viam passar pelos que jaziam sobre o chão. “Alemão”, “espião”, “volte para o seu país”, eram alguns dos impropérios lançados em sua face. Ele, no entanto, ignorava a todos, tendo como único foco achar o amigo médico o mais rápido possível.

— João! – Andrev o agarrou pelo braço assim que o encontrou.

— O que houve, Andrev? – O médico olhava para o príncipe com espanto.

— Venha comigo, por favor. Gabriel está muito mal! – Os olhos de Andrev não podiam segurar as lágrimas.

— Como? Ele estava respondendo tão bem! – João também se desesperou. — Vou falar com o Balena que preciso ir com você e poderemos sair daqui...

Assim que João explicou a Alfredo o motivo da sua rápida fuga, saíram às pressas da Escola de Medicina e, ao alcançarem o carro, Andrev desabou. Nos braços de João, o príncipe chorava sem parar, sentindo a dor de perder grande parte da família e, agora, com o risco eminente de ver o amor da sua vida sucumbir pela mesma doença.

— Eu não consigo mais, João! Estou completamente destruído...

João não tinha palavras para confortar Andrev. Queria dizer que tudo ficaria bem, mas o que vivia naquele hospital tirava, pouco a pouco, toda sua esperança. Como médico, fazia o máximo possível para salvar vidas e cuidar dos doentes, mesmo assim, a cada sensação de derrota, quando assistia a uma pessoa falecendo, seu coração se despedaçava. Agora, era o seu grande amigo que lutava para sobreviver, e João temia que o pior estivesse prestes a acontecer.

Em silêncio, João abraçou Andrev e o ajudou a entrar no carro. Permaneceram parados por alguns instantes, sentados no interior do automóvel. Assim que Andrev conseguiu se recuperar do choro, ligou o veículo e, completamente calado, levou João à sua casa. Quando chegaram, os dois correram até o quarto onde Gabriel tossia insistentemente, ardendo em febre e tremendo muito.

Benjamim estava ao seu lado, dando-lhe certo conforto. Gabriel nunca ligara para a religião na qual fora educado na infância, mas, naquele momento, ouvir o padre pedindo para deus protegê-lo e curá-lo dava-lhe certa esperança. Amália também estava no quarto, tentando, em vão fazer a febre baixar com lenços umedecidos. Quando Orlínski viu Andrev e João chegando, com parte do rosto escondidos atrás das máscaras, lançou um fraco sorriso para eles, erguendo vagarosamente a mão para cumprimentá-los.

— João, que bom que você veio – Gabriel estava fraco e suas palavras eram intercaladas com a tosse forte. — Acho que não vou durar muito tempo...

— Não diga bobagens, Orlínski – João o censurou. — Você vai sobreviver! – Analisava o estado do amigo para tentar achar uma forma de ajudá-lo.

— Você precisa ser forte. Não se entregue, por favor! – Andrev tentava animar o amante.

— A febre está alta – João passava a mão pela testa suada de Gabriel. — Desde quando ele está assim?

— Ele começou a piorar durante a madrugada – Amália, com a face cansada e abatida, respondeu.

Sendo auxiliado pela cantora, João passou parte da tarde cuidando de Orlínski. Por volta das 15h, anunciou que precisaria retornar ao hospital, dando instruções a todos e pedindo para ser avisado se a situação piorasse. O restante do dia foi de muitas incertezas e medo. As tosses de Gabriel eram ouvidas pelos corredores e pelos cômodos do palacete, o que gerava grande apreensão. Andrev era o mais inquieto, cobrando informações todas as vezes que Amália saía do quarto. Ela, por sua vez, estava visivelmente pálida e cada vez mais indisposta. Precisava descansar e, assim, passou o resto do dia no seu quarto.

A noite chegou e o jantar ocorreu rapidamente, num silêncio sepulcral. Andrev, Anna e Benjamim fizeram a refeição à mesa, sem a presença de Amália, que alegou estar sem apetite e muito cansada para se arrumar e descer. Sem condições de muitas delongas, e antes mesmo das 22h, a rotina da casa terminou e todos já estavam acomodados em seus quartos, após a refeição. Ninguém tinha ânimo para socializar nem passar o resto do dia em conjunto. A “hespanhola” matara até mesmo o vigor dos que ainda não tinham sido infectados por ela.

Foi por volta das 2h da madrugada que a correria de alguns criados, com candelabros nas mãos, acordou os senhores da casa. Orlínski pedia para se encontrar com o padre Benjamim urgentemente. Seu estado de saúde piorou num nível assustador e um motorista correu para buscar João. O desespero tomou conta de Andrev, que temia pelo pior, impaciente com a demora de João e atormentado pelo pedido de Gabriel para ver o padre. Seu amado poderia estar se preparando para se despedir de todos, mas ele não estava preparado para vê-lo partir.

— Padre... – a voz de Orlínski estava fraca e vacilante. Ofegante e com a pele muito vermelha, o doente assistia ao religioso acender a luz e se aproximar dele.

— Estou aqui, Gabriel – Benjamim puxou a cadeira ao lado da cama.

— Estou com medo, padre...

— Medo de quê? – Benjamim ajeitava o travesseiro de Gabriel, úmido e sujo de catarro. O cheiro da doença emanava dos lençóis brancos e enchia todo o quarto.

— Medo do que vou encontrar do outro lado – Orlínski tossia forte. Falar e respirar se tornaram atividades muito difíceis de ser executadas. O que jazia diante do padre já não era um homem, mas sim uma sinistra criatura, desfigurada pela doença mortal.

— Deus estará te aguardando de braços abertos, meu amigo – Benjamim segurava o choro. — Não precisa ter medo...

— Mas não sei se deus vai querer a minha alma – Orlínski esboçou um sorriso. — A luz elétrica está machucando os meus olhos... – reclamou.

Benjamim pegou a vela no móvel de cabeceira e a acendeu, apagando o lustre logo em seguida. Após retornar a sua cadeira, tirou um frasco que trazia consigo. Acariciando os cabelos de Orlínski, iniciou o ritual, passando sobre sua cabeça e mãos o óleo do sacramento aos enfermos.

— Deus jamais faria uma recusa dessas – Benjamim, após terminar a oração litúrgica, voltou a conversar com Orlínski. — Deus é apenas amor e misericórdia. Enxerga o coração de todos e acolhe aqueles que sofrem.

— Mas eu vivi de forma condenável, padre – Gabriel tossiu forte, mais uma vez. — Preciso fazer a minha confissão... – respirou com dificuldade e hesitou. — Eu amo Andrev mais do que tudo! Deus não gosta de pessoas como eu...

— Como poderia deus te condenar por amar alguém? Quem disse isso não conhece o amor de deus – falando suavemente, Benjamim voltou a acariciar os cabelos do doente. — Deus não é um ser cruel.

— E se ele for? – Os olhos de Orlínski exaltavam o medo e a incerteza que passavam por sua mente naquele momento de intensa dor.

— Então, não vale a pena ir para o céu – Benjamim sorriu.

Os passos de João e Andrev podiam ser ouvidos do corredor, juntamente com as suas vozes que não escondiam a aflição. Os dois se aproximavam do quarto, ao lado de Anna, que também se levantou e os acompanhava. A casa se enchia de sons e de um movimento preocupado e apreensivo, esperando pelo pior a qualquer momento.

— Não queria que ele me visse assim... – Orlínski confessou ao padre. — Não queria que ele sofresse por minha causa...

— Andrev está preocupado com você. Ele te ama muito!

Após ouvir a voz do padre lhe dizer que Andrev o amava, Orlínski sorriu e fechou os olhos. Ao longo da conversa, sua pele ganhou tons azulados, decorrência da falta de ar cada vez mais forte. Expirou vagarosamente e sua respiração falhou. Aos poucos, todo o seu corpo parou de responder. Era o fim. Gabriel Orlínski, com uma expressão serena, deixava esse mundo rumo ao reino desconhecido da morte.

— Vá em paz, meu amigo – Benjamim começou a chorar. — Que deus te receba com todo o amor que você merece. E que você possa olhar por nós, lá do céu...

Quando João e Andrev chegaram, já não havia mais o que ser feito. O príncipe, chorando com todas as forças, jogou-se sobre Orlínski, tomando o seu corpo sem vida nos braços. Olhando para os céus, pedia para que Gabriel voltasse para ele, que reagisse. Mas até mesmo Andrev sabia que era um pedido em vão. Só podia lamentar e deixar sair, mais uma vez, a dor de perder outra pessoa querida.

— Não – João caiu de joelhos no chão, as lágrimas também escorriam pelo rosto. — Não, meu deus, não! Meu amigo, meu irmão se foi!

Um horror potente tomou conta de todo o palacete, que se prostrava em luto diante do poder da morte. Todos choravam, assistindo ao desespero de Andrev sobre aquela cama. A dor do príncipe impregnava os cômodos vazios e ecoava pelo silêncio e pela escuridão do local, tingindo-o com tons ainda mais sofríveis e pesarosos.

— O que eu vou fazer sem você? – Andrev se derramava sobre o corpo de Orlínski. — Me desculpe! Me desculpe! Eu não fiz o suficiente para te salvar...

Foi Anna quem conseguiu tirar Andrev de sobre a cama. Com uma expressão pesada e triste, João iniciou os procedimentos necessários para levar o corpo até o Cemitério do Bonfim. Infelizmente, não seria possível velar o amigo, que precisava ser levado o mais rápido possível ao seu túmulo. Os procedimentos para os mortos da influenza eram claros: deveriam enterrar logo, com o intuito de evitar um possível contágio.

Foram obrigados a sair do quarto e todos que estiveram ali precisaram se trocar e se lavar para não carregarem consigo a doença. Ignorando essa precaução, João e Andrev desceram as escadas e foram para a sala de fumar. Andrev não tinha forças para nada, mantenho uma expressão derrotada e distante. Ver o rosto tão acabado do amigo deixava João ainda mais triste. Não trocavam palavras, apenas sofriam e lamentavam a cruel e injusta perda de Orlínski. João andava de um lado para o outro da sala, culpando-se por não poder ajudar seu melhor amigo num momento de tamanha aflição.

— E eu sonhando em viajar com ele para a Europa... – Andrev lamentou. — Da noite para o dia, meu mundo se desfez completamente!

— Tudo isso é muito triste, meu amigo – João evitava mostrar as lágrimas que escorriam pelo rosto.

— Perdi meus pais, meu irmão... agora, o amor da minha vida. Isso não é justo! – Andrev desfigurou o rosto com o choro amargo, os soluços e o catarro que escorria pelas narinas. — Não quero continuar aqui, João!

— Não é o melhor momento para tomar decisões, Andrev – João se sentou ao lado do príncipe e o abraçou.

— Não quero mais ficar aqui, João! Quero ir embora, para longe disso tudo – voltou a soluçar. — Eu não pude me despedir da minha família, nem de Orlínski!

— Você desistiu de achar o Gregório? – João não sabia se deveria falar sobre esse assunto, nesse momento de dor, mas foi a única coisa que lhe veio à cabeça. — Devemos isso pela memória de Orlínski – João voltou a chorar. — Você precisa ser forte por ele!

— Isso não me importa mais. Tudo perdeu o sentido para mim! – Enterrou o rosto sobre o peito de João, apertando os braços do médico com força. — Por que ele morreu? Por que tinha que ser ele?!

Andrev estava deitado sobre o colo de João quando o mordomo Charles chegou ao salão às escuras. Sem jeito e constrangido por interromper um momento de dor, o fiel empregado informou que o corpo de Orlínski estava sendo levado e que Amália solicitava a presença de João em seu quarto imediatamente.

— Eu vou subir até lá. Você quer ir comigo? – João perguntou a Andrev.

— Vou ficar aqui. Não quero passar pelo quarto onde Gabriel estava – Andrev fungou e deitou sobre o belo e estreito canapé.

— Você precisa descansar, meu senhor – Charles se apiedou da figura deformada que chorava, encolhida naquele móvel apertado.

— Acho que você deveria ouvi-lo, Andrev – João insistiu. O príncipe ignorou os dois.

— Vou levá-lo ao quarto – o mordomo estendeu o braço para que Andrev pudesse se levantar.

— EU NÃO VOU SAIR DAQUI! – Andrev gritou, furiosamente.

— Se precisar de ajuda, o senhor pode me chamar, alteza – com uma mesura, e assustado, o mordomo se despediu.

Cabisbaixo, João se despediu de Andrev e subiu a imponente escadaria, em direção ao quarto de Amália. Tudo estava às escuras. Apenas as velas dos candelabros dos criados iluminavam parcamente alguns corredores e cômodos. Anna ordenou que longos tecidos da cor negra fossem colocados nas janelas, em sinal de luto pela morte de Orlínski, enquanto outros empregados terminavam de limpar o quarto onde Gabriel passou seus últimos dias. Até as esculturas que decoravam o palacete choravam a perda do polonês, o amado do príncipe e a presença mais frequente durante tanto tempo. Era como se tudo ali tivesse perdido um pedaço de si após a perda de um verdadeiro membro da família.

João chegou ao quarto de Amália, bateu na porta e entrou. A cantora estava deitada, cinco velas iluminavam o móvel de cabeceira e parte do quarto. Ao vê-la em sua cama, João estranhou. Ela cuidou de Orlínski durante todos aqueles dias e não ter a presença dela nos últimos momentos dele trouxe certa preocupação.

— Você pediu para me ver – João se aproximou da cama.

— Muito triste tudo isso – ela tinha sinais no rosto de que também chorara a morte de Gabriel.

— Perdi um irmão – lamentou João. — É como se parte da minha vida tivesse indo embora com ele.

— Queria ter estado com ele, mas não estou me sentindo bem – a voz tristonha de Amália assustou João.

— Você está com febre – João passou a mão sobre a testa e o rosto dela, para verificar a temperatura.

— Achou que estou com a “hespanhola”, João – os olhos de Amália voltaram a verter lágrimas. — Eu não quero morrer!

— Acalme-se, pode ser uma febre comum... – João se desesperou, mas tentava manter uma expressão calma para não assustar Amália.

— Todo esse tempo cuidando de doentes... era um risco, e pode ter chegado a minha vez – Amália enxugou o seu rosto. — Não quero trazer mais sofrimentos a Andrev e Anna...

— Não diga isso! Você só está indisposta. Amanhã estará bem. Eu tenho certeza!

Mas, infelizmente, João estava errado. No dia seguinte, Amália já não tinha forças para se levantar e, assim como Gabriel, a tosse virou uma constante. Dividido entre seu trabalho e o palacete Kinsky, João temia que a terrível doença levasse também o amor da sua vida, impiedosamente, tal como fizera com Andrev. Sua esperança vacilava à medida que o estado da cantora piorava. Tudo levava a crer que o pior para ela ainda estaria por vir, e mais uma vida querida e importante estava por um fio.


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