Capítulo 19

Novembro avançava e as notícias da Europa anunciavam o fim da Grande Guerra. Todos os povos envolvidos no terrível conflito festejavam o seu fim com um grande alívio. O Brasil não ficou de fora, mesmo que ainda chorasse as milhares mortes causadas pela “hespanhola”. O país também temia pela saúde do presidente da República, incapaz de tomar posse por ter sido infectado pela influenza. Mesmo com a boa nova vinda do Velho Continente, os brasileiros ainda não podiam cantar vitória sobre a gripe e a moléstia.

Nesse momento de festa antecipada pela guerra vencida, e com a doença que ainda matava, Belo Horizonte se mobilizava como podia para ajudar todos os doentes. Por serem mais de dez mil infectados, grupos se organizavam para auxiliar os mais pobres. A cidade se uniu em brigadas para receber os que convalesciam nas casas e nas igrejas, juntando dinheiro e alimento para contribuir com a causa. A capital, que por muitos dias viveu o caos, fazia frente para não perder a batalha. Finalmente, seus esforços começavam a dar seus resultados, trazendo esperança para todos os cidadãos aflitos.

Nesse ínterim, o palacete Kinsky viveu o seu profundo drama. As bandeiras negras tremulavam em todas as janelas, em luto pela morte de Gabriel. Além disso, o medo de perder Amália foi real durante muitos dias, impedindo que todos lamentassem a morte de Orlínski por muito tempo. Todos carregavam consigo a certeza de que ela não aguentaria, e sua ida para junto de deus era só uma questão de tempo. Por isso, foi uma grande surpresa quando, milagrosamente, o seu corpo deu os primeiros sinais de recuperação.

Após semanas de intensa agonia e de luta pela vida, Amália estava de pé, preparada para partir ao lado de Andrev e Anna. Era um fim de manhã ensolarado, quando os empregados dos Kinsky terminavam os últimos preparativos para deixarem o palacete; todos empolgados com a viagem que fariam com os patrões para a segurança da fazenda, no sul de Minas. João, Félix e Benjamim, diante do portão de entrada do palácio, acompanhavam os três, aguardando o momento da despedida.

— Tudo pronto! – Andrev estava empolgado, depois de muitos dias em luto e de choro intenso, passando noites em claro após a morte de Orlínski. Todos temiam que ele não fosse capaz de superar a perda. O príncipe, entrementes, conseguiu se reerguer surpreendentemente, tendo como meta a viagem que, agora, estava prestes a ter início.

— Achei que iriam para a Europa – disse Félix a Andrev, assim que ele se aproximou. — Afinal, sua nação declarou a independência.

— Anna e eu julgamos ser melhor esperar mais um pouco – Andrev sorria para João e os demais. — Preciso deixar tudo resolvido aqui, antes de poder voltar para a Europa e rever Praga... – seus olhos brilhavam com a esperança de rever a sua terra.

— Qual é o nome do país? – Félix acendia um cigarro, enquanto gesticulava expansivamente. — Não me lembro e sei que é um nome difícil para gente pronunciar – riu.

— Tchecoslováquia – Andrev respondeu. — Mas há ainda muito a ser feito. A Áustria-Hungria está tentando negociar uma federação.

— Acha que eles vão conseguir impedir? – Perguntou João, contente por ver o amigo alegre depois de tanto tempo em sofrimento profundo.

— Tudo vai depender dos tratados que virão após a guerra. As negociações serão em Paris, no início do ano que vem.

— Espero que tudo ocorra da melhor forma possível, e que nunca mais uma guerra como essa ocorra – Benjamim ponderou.

— Eu não acredito que aqueles urubus da política farão um tratado justo – lamentou Andrev. — Mas o presidente Wilson apoia a nossa causa e tenho certeza de que o mundo concordará com a nova república.

— República? – Félix coçou a cabeça, em dúvida. — Assim, não poderá mais ser chamado de príncipe?

— Precisamos nos adaptar aos novos tempos – Andrev sorria com timidez. — Não há nada que eu possa fazer!

— Ninguém esquece desses títulos do dia para a noite... – João, tirando um cigarro do bolso, conversava com entusiasmo. — Tomara que seja um grande país.

— Sonhamos com isso há muito tempo. Merecemos a chance de tentar construir um lugar melhor e justo para o nosso povo.

— Com toda razão! – Benjamim olhava com carinho para o príncipe, que passara por tanto sofrimento e merecia um pouco de esperança.

Enquanto conversavam, Amália e Anna, num ar altivo e empolgado, desceram os degraus que separavam o alpendre da entrada do palacete. Vestiam o negro do luto, mas se apresentavam com muito luxo e pompa, exibindo vestidos e chapéus de seda e joias. As marcas da doença ainda deixavam o rosto de Amália um pouco abatido, com olheiras que ela se esforçou para esconder atrás da maquiagem. Mas o sorriso e a disposição mostravam que não havia mais o que temer quanto ao seu estado de saúde: ela estava, de fato, curada!

— Está tudo pronto! – Disse Amália, vestindo as luvas, ao lado de João.

— Adianta eu insistir para que você não vá? – Brincou João.

— Não seja besta, João Idalino! Você sabia que eu iria embora uma hora ou outra – Amália dava risada da brincadeira.

— Mas, antes, você ficaria o verão inteiro...

— Não há mais como ficar aqui – Amália desfez o sorriso. — Um verão na fazenda fará bem para Andrev e para mim. Você pode passar alguns dias conosco! – Tentou animar João.

— Ainda há trabalho no hospital... a “hespanhola” não passou.

— Mas acredito que o pior já passou – Amália se alegrou.

— Senhorita Amália – a princesa chamou a sua atenção, lembrando-lhe de colocar a máscara de pano no rosto.

Antes de cobrir o rosto com o pedaço de pano branco, Amália ergueu os olhos para fitar João mais uma vez. Com o rosto sério, ela observava os traços do amigo, que retribuía o gesto com um olhar tenro e quase infantil. Ele cuidou dela com muita dedicação todos os dias em que estivera prestes a morrer, e sentia que devia a sua própria vida àquele médico tão competente.

— Obrigada... – acariciou a face de João carinhosamente.

— Já te disse que não precisa agradecer...

— Se não fosse você, eu não estaria aqui hoje!

— Eu fiz muito pouco. Nenhum médico sabe tratar essa doença apropriadamente. Você está viva, porque venceu a maior ameaça desse século...

— Não desejo essa gripe para ninguém! Achei que fosse morrer...

— Você venceu até nisso – João tomou a mão de Amália entre as suas.

— Mas muita gente não conseguiu, João. Não há vitória nisso. Eu tive sorte! – Amália tirou suas mãos daquele gesto tão íntimo. — Vou sentir a sua falta, João Idalino... – afastou-se.

Nesse instante, a dama de companhia da princesa Anna apareceu ao portão com o casal de cachorros de Andrev. Os quatro carros que levariam patrões, empregados e bagagens estavam prontos e com os motores roncando. O momento da despedida chegou, e João, Benjamim e Félix se preparam para dizer adeus.

— Agora, você é o responsável pelo palacete Kinsky – Andrev deu a chave para Benjamim. — Aguardamos uma visita sua, em Passa Quatro.

— Iremos para o sul assim que tudo for resolvido aqui – o padre agradeceu a confiança com uma mesura.

— Leve João e Félix quando você for – Andrev se despediu do oficial e abraçou João com força. — Obrigado por tudo, meu amigo – seus lábios quase tocaram a orelha do médico.

— Cuide-se – João mantinha o abraço, enquanto falava. — Vamos encontrar Gregório e festejar o fim disso tudo, na sua bela fazenda – riu.

— Não deixe de ir, por favor – Andrev se virou para pegar a guia dos cachorros.

— Se tudo melhorar por aqui, irei sim. Boa viagem, meu amigo!

— Prometo te enviar cartas sempre – com um gesto de despedida, e balançando a mão em seguida, Andrev entrou no carro.

Amália, por sua vez, despediu-se de Benjamim e de Félix, parando diante de João para o momento final.

— Então, é isso – a cantora evitou olhar para ele, para não chorar.

— Tem certeza de que vai aguentar uma viagem tão longa nessas estradas horríveis? – João tocou no ombro dela com a palma da mão.

— Não vamos direto para lá. Andrev vai parar em duas ou três fazendas de uns conhecidos.

— Não deixe de mandar notícias. Escreva sempre, por favor!

— Você também – ela sorriu. — Até breve, João Idalino! – Acenou para ele, enquanto subia no conversível, conduzido por Andrev.

Com todos prontos e de máscaras no rosto, os veículos deram a partida e começaram a andar. Do banco de trás do automóvel, Amália acenava para João, que retribuía da mesma maneira, até que ela sumisse de sua vista, quando os carros viraram a esquina. Os Kinsky e Amália Sousa deixavam Belo Horizonte, e João sabia que um capítulo de sua vida chegava ao fim. Se a veria de novo, era difícil saber. Para ele, a cidade ao seu redor, de repente, ficou pequena e sem vida. Nada naquelas ruas seriam da mesma forma sem Amália e Andrev. Olhando para o palacete vazio, já sentia falta dos jantares que alegraram suas noites por tantos meses, mesmo que reclamasse tanto de ser obrigado a se vestir de nobre todas as vezes. Agora, sempre que passasse por ali, se lembraria de tantos momentos que compartilhou com Orlínski, Andrev e Amália, e que jamais retornariam.

— Anime-se, João – Félix o tirou dos pensamentos melancólicos. — Você tem sorte! – Ofereceu um cigarro ao médico.

— Sorte? – Perguntou, aceitando o presente e o acendendo.

— Ser amigo de uma mulher tão doce e inteligente. Uma mulher que merece o nosso respeito...

— Com todo respeito, Félix. Guarde as suas opiniões masculinas para você – João riu.

— Vai voltar para o hospital agora? – O oficial mudou de assunto. — Posso te levar até lá.

— Não. Vou para casa... me deram folga hoje – jogou o cigarro na rua e colocou as mãos nos bolsos da calça.

— Não quer uma carona?

— Prefiro ir andando.

— Tome cuidado – Benjamim entrou na conversa.

— Não se preocupem – João dava passos vagarosos em direção à rua.

— Vou mandar ficarem de olho em você – Félix alertou. — Não fique perambulando até tarde da noite!

Mas João ignorou o aviso. Descendo pela Rua da Bahia, passou por entre as frondosas árvores, cujo verde brilhava sob a luz do sol primaveril. Os bondes subiam e desciam na sua própria candência, ao lado das pessoas que, aos poucos, deixavam as suas casas, tentando voltar à rotina. Aproveitando do cenário bucólico e poético que era Belo Horizonte naquela estação do ano.

Passou pelo Grande Hotel, na esquina da Avenida Paraopeba, com suas árvores fícus que davam ao local um ar de bulevar parisiense. Parou ali e se sentou no meio fio, esquecendo-se da vida e se concentrando na cena da cidade que passava diante dos seus olhos. Ficou horas ali, fumando e pensando em Amália, e nos duros dias que ela sofreu com os sintomas da “hespanhola”. Foi realmente uma sorte ela ter sobrevivido. Seu estado chegou próximo ao de Orlínski, com a pele azulada pela falta de ar, a febre alta, as tosses constantes e a fraqueza que anunciava o fim da vida. Padre Benjamim tinha absoluta certeza de que fora um milagre divino a cura, e João não podia negar que, sem a ajuda do destino, Amália jamais passaria por essa situação.

No meio de tantos pensamentos, a tarde avançou e João sentiu fome. Um bonde que passaria perto de sua casa desceu a Rua da Bahia, mas ele decidiu continuar caminhando rua abaixo, esperando encontrar algo para comer pela rua. Passou pelo Hotel Globo, no cruzamento com a Avenida Afonso Pena. Observou o grande parque, com poucas crianças brincando ao redor do belo coreto, suas árvores e canteiros bem cuidados, as esculturas e o ar de oásis que davam a Belo Horizonte um ar de cidade-jardim. Continuou seu caminho, antes que se ficasse mais tentado a se sentar diante de um dos lagos do grande bosque da cidade e perdesse mais tempo nas ideias nostálgicas e melancólicas.

Depois de mais alguns quarteirões, já estava se aproximando dos leões de mármore da praça, localizada diante da Estação Ferroviária. Foi quando ouviu o som alegre de um gramofone, vindo de dentro de uma elegante construção de apenas um pavimento, quase na esquina da Rua da Bahia com a Avenida Amazonas. Vozes e risadas também podiam ser escutadas da rua, e João julgou se tratar de algum bar ou restaurante funcionando de modo clandestino no meio daquela pandemia. Irritou-se, no início, pela atitude irresponsável daquelas pessoas, mas decidiu entrar para achar algo que pudesse comer. Já passara da hora do almoço e não queria incomodar a sua tia, obrigando-a a cozinhar para ele. Enfrentou tanto da doença, que se arriscar num bar não fazia mais diferença alguma.

A entrada era protegida por uma estrutura de madeira e vidro, que cortava o vento e separava o pequeno átrio de entrada da rua deserta. Uma mulher em art nouveau, desenhada no vitral, era circundada por flores e plantas, entrelaçadas nos seus longos cabelos; uma imagem que se parecia muito com Amália. João parou diante daquela bela imagem, virando-se à esquerda para abrir a estreita porta que conduzia até o som que ficava mais intenso e festivo. Descendo por alguns poucos degraus, pôde ver o bar praticamente vazio, exceto por Maria Thereza, a famosa cantora dos cabarés, com alguns homens trajados com terno, e outros vestidos como damas. No balcão, à direita, um jovem limpava a bebida que escorria sobre o tampo de mármore, deixada pelas pessoas que riam e cantavam.

Maria Thereza gargalhava no centro daquele grupo que João julgou exótico e excêntrico. Tentou reconhecer algum rosto entre os homens, mas nenhum deles lhe era conhecido. Mesmo os que estavam de terno possuíam um ar angelical, andrógino, afeminado. Aquele bar tinha um aspecto estranho, quase hostil: uma mistura de bordel com cabaré, escondido num dos cantos da cidade, onde poucos davam atenção. No entanto, mesmo desgostando do ambiente, João caminhou até o balcão, esperando que aquele lugar tivesse algo para comer. Depois, com sorte, sairia sem ser notado.

— Doutor? – O jovem no balcão, de bochechas muito rosadas e pele extremamente branca, cumprimentou João, com espanto. — Não esperava o senhor nesse tipo de lugar – passou a mão direita pelos cabelos negros muito bem penteados.

— Estava passando e ouvi música – João enrugava a testa para identificar quem era aquele sujeito de bigode fino que o reconheceu tão facilmente. — Eu te conheço?

— Somente de vista. Trabalho no cabaré que o senhor costuma frequentar...

João, então, lembrou-se do jovem que também estava servindo as bebidas e os pratos durante o “match” de futebol, em setembro, e que o confundiu com um garçom, naquela ocasião.

— Não é correto um bar estar funcionando nessa época tão perigosa – exortou João.

— As pessoas precisam se divertir – o rapaz fez um sorriso travesso. — Veio atrás de algo específico, doutor?

— Só algo para comer e uma cerveja, talvez.

— Há muitas coisas para comer aqui, doutor – o rapaz foi malicioso, lançando um olhar devasso para o grupo de Maria Thereza.

— Não! Nada desse tipo – João fingiu não se importar com o comentário desagradável. — Algo para encher a minha barriga, não o cu de ninguém – fez um sorriso debochado.

— Posso lhe preparar alguns pastéis de carne...

— Serve!

O rapaz foi à cozinha, depois que serviu cerveja a João. A música no gramofone tocava um ritmo desconhecido para o médico. Sabia que a canção era em inglês, mas não conhecia quem era o cantor. Era uma canção alegre, que animava Maria Thereza e os que a acompanhavam. João Augusto acendeu um cigarro e torceu para que o grupo não percebesse a sua presença. Algo que constatou ser impossível, assim que ouviu a artists gritar e apontar em sua direção.

— O médico está aqui! – Ela gargalhava alvo, denunciando que já estava entorpecida pela bebida. — Que surpresa! – Caminhou até ele, enquanto os demais apenas assistiam com sorrisos no rosto.

— Só estou aqui para comer uns pasteis... já estou de saída – João evitava olhar para ela.

— Que pena, doutor! Acho que você vai gostar desse lugar – Maria Thereza gargalhou, mais uma vez, apoiando as costas e os cotovelos no balcão. — Esse é o Café Flore! Um lugar que o senhor deveria frequentar mais vezes – apontou a mão coberta por luvas para o grupo, que riu maliciosamente, observando a conversa entre os dois à distância.

— Por que diz isso?

— Se tratando de que com quem o senhor anda – Maria Thereza, num vestido azul com espartilho muito apertado, fitou-o com uma expressão de “femme fatale”.

— Não sei do que você está falando...

— Aquele príncipe gracinha e o médico maricas não colocariam os pés aqui, mesmo que adorem a fruta que aqui se vende. Já o senhor...

— O que você insinua, mulher? – João largou o copo e olhou ameaçadoramente para ela.

— Não precisa ficar nervoso, doutor! – Maria Thereza se afastou, mantendo a expressão provocativa. — Aqui, ninguém vai te julgar – gargalhou, mais uma vez.

Enquanto João encarava Maria Thereza seriamente, o som de uma porta abrindo, numa das extremidades do bar, atraiu a atenção do médico. Dela, Dorival saía com um ar tenso, arrumando a calça rapidamente, e olhando para os lados, como se estivesse com medo de ser pego cometendo algum crime; atrás dele, um jovem branco, com traços andróginos como os que compunham o grupo da cantora, arrumava os cabelos castanhos e cacheados. Assim que viu João ali, Dorival se assustou.

— D-doutor João! – Ele tentava disfarçar o nervosismo. — Achei que estivesse com os riquinhos maricas – recompondo-se, estufou o peito e foi até o médico, num ar arrogante. — O que te traz aqui? – Sua voz saía trêmula e confusa.

— Não é da sua conta, Dorival – João o ignorava.

— Veio atrás de alguma puta?

— Eu, não. Mas parece que você, sim – o comentário irônico tirou risadas dos demais.

— O que você está dizendo? – Dorival o encarou, pronto para brigar. — Eu vim aqui para beber!

— Então, vamos beber – João, querendo evitar a briga, chamou pelo rapaz, assim que ele apareceu com os pastéis. — Aceita pastel? – Perguntou num tom jocoso.

— Não! Mas aceito a bebida – Dorival pediu por doses de cachaça.

João brindou, virou a bebida, e deu atenção aos deliciosos pastéis. Fazia tempo que não via Dorival, sendo a última vez no Virote, bar onde foi com Amélia, Orlínski e Andrev. O desagradável homem sugeriu outra dose assim que o médico terminou de comer. João Augusto aceitou e, após mais uma rodada de cachaça, desarmou a expressão belicosa, pedindo para Maria Thereza cantar alguma coisa e ignorando João.

— Claro! Vamos juntar todos – Maria Thereza voltou a se reunir com o grupo, enquanto um dos rapazes pegava um violino.

Ela começou a cantar. João permaneceu no seu canto, sentado com os cotovelos sobre o balcão. Dorival, completamente bêbado, deu as costas para o médico, indo em direção ao grupo que bebia muito. João, distante, assistia à festa, aceitando as doses de cachaça que lhe eram servidas. Seu corpo já dava sinais de estar alcoolizado e sabia que precisava sair dali antes que ficasse ainda mais embriagado; sua visão começava a ficar turva e os membros bambos, de modo que temia cair naquele lugar desconhecido e ser furtado por alguma daquelas figuras estranhas. Ainda tinha Dorival, que o ignorava, dançando com aqueles homens e os chamando de putas e vagabundas, dando tapas nas bundas dos que estavam vestidos com roupas femininas.

— Precisamos beber mais – gritou Maria Thereza, assim que terminou uma música francesa de cancã.

— Onde está o Maurício? – A voz de um dos rapazes ecoou pelo bar vazio.

— M-Maurício? – João, completamente tonto, estranhou aquele nome, antes que a sua cabeça caísse sobre o balcão.

— É o dia do julgamento, doutor – uma voz baixa e maligna se aproximou dele, juntamente com uma silhueta que João já não podia identificar de quem era. O médico apagou, prostrado sobre o balcão. Já não podia ouvir e ver mais nada. Estava, agora, nas mãos do destino e da sorte.


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