Capítulo 2

O dia foi corrido no consultório do doutor João Augusto. Graças ao corpo levado às pressas pela polícia, teve que cancelar suas poucas consultas e se dedicar exclusivamente à autópsia do cadáver. Muito ainda precisava ser analisado, deixando-o bastante tenso. Sua casa, local de trabalho e descanso, virara da noite para o dia numa filial do necrotério. Não queria que ninguém, nem mesmo a sua tia, que cuidava da organização de tudo, soubesse o que estava guardado no porão.

O delegado apareceu nas primeiras horas da manhã, acompanhando o trabalho do médico até a hora do almoço, quando teve que sair para cuidar de uma briga de vizinhos por causa de galinhas, na região suburbana. Após a saída do oficial, João Augusto permaneceu sentado diante do corpo sobre a mesa durante toda a tarde, recusando-se a sair do porão, nem mesmo para comer, para o desespero da sua insistente tia, ansiosa para saber o que acontecia com o sobrinho. Ele ignorava todos os chamados dela. Estava intrigado e completamente mergulhado naquela terrível morte. Não tinha ideia de quem poderia ter feito aquilo, mas já poderia afirmar que todos os ferimentos, inclusive o ignominioso crucifixo, teriam sido realizados com a vítima ainda viva.

— Pobre rapaz – disse, enquanto pegava um cigarro, esticando-se sobre a cadeira e fitando o rosto desfigurado do jovem. Tentava imaginar como teriam sido as últimas horas do infeliz, o que trazia sentimentos ruins à sua cabeça, que pulsava e doía com tantas informações. — Maldito seja quem fez isso! – Socou o braço da cadeira e contorceu os lábios.

No final da tarde, ouviu, mais uma vez, os passos pesados de sua tia sobre os degraus de madeira, batendo na porta e anunciando a chegada de um amigo. Maria Eustáquia insistiu tanto para que abrisse a porta, que João resolveu atender ao chamado da governanta de sua casa. Percebeu que sua roupa estava suja de sangue, mas não teria como trocá-la e evitar as indagações dela. Teria que ser rápido para impedir que ela visse o que tanto lhe prendia naquele porão. Isso seria o mais importante. Ele era médico, sangue era algo comum nessa profissão. Só precisaria de uma boa desculpa.

— O polaco está lá em cima, menino! Venha recebê-lo e comer algo. Está aí o dia todo! – Gritou a tia.

— Ah, é ele! Diga que não posso falar com ele agora, tia – por um momento, João sentiu que seria possível ficar ali mais algum tempo, escapando dos olhos curiosos da sua única parente viva.

— Ele disse que não sai daqui sem te ver. Branquelo atrevido! Está dizendo que vocês vão ao teatro e não vai aceitar desculpas dessa vez.

— Verdade... – Lamentou João. — Meu deus! Por que fui prometer isso?

Odiava o teatro e toda a pompa que tal evento exigia. Contudo, seu amigo, Gabriel Orlínski, um médico dedicado às ciências da mente, obrigara-o a aceitar o convite para assistir a ópera, após vencê-lo num jogo de cartas. Respirou fundo, tentando não pensar muito no evento. Por um momento sentiu que era melhor ficar com o morto do que enfrentar os olhos da sociedade e toda aquela cantoria enfadonha. Um espetáculo frívolo de vestidos, fraques e gente se sentindo dona do mundo por poder exibir sua riqueza em trajes, fingindo gostar de um espetáculo que ninguém entendia o que era cantado. As convenções sociais eram mais tenebrosas que o crime não revelado que jazia junto com o cadáver no meio do porão.

Saiu correndo pela porta, trancando-a antes que sua tia curiosa pudesse ver algo. Mas os olhos espantados dela ao vê-lo sujo de sangue, e os constantes sinais da cruz com a mão, não puderam ser ignorados. Às questões que ela colocava, respondia de modo evasivo, dizendo se tratar de trabalho e ordenando que não se intrometesse. Chegou ofegante à sala de receber as visitas, vendo um rapaz loiro e de bom porte, em pé, fumando e observando o quadro pendurado num dos lados da sala.

— Meu bom deus! O que aconteceu com você? – Orlínski olhou assustado para o amigo. — Você virou um açougueiro, por acaso?

— Trabalho, meu amigo, trabalho – João ignorava os olhos azuis fulminantes de Gabriel. — Não cuido de viúvas e histéricas como o senhor.

— Pelo menos, elas me dão um pouco de dignidade! Olha como você está. Parece que saiu do matadouro!

— Não quero falar sobre isso agora...

— Melhor! Vamos, meu amigo, o teatro nos espera – abriu os braços e a capa que usava sobre o traje de gala balançou ao vento. — Coloque a sua melhor roupa. Até o príncipe estará lá hoje!

Sem acreditar muito no que estava fazendo, João subiu as escadas até o seu quarto para se arrumar. Tomou um banho demorado na banheira, pensando ainda no corpo no porão, vendo-o como se estivesse ali, ao seu lado. Precisava investigar aquilo, mesmo não sendo um policial. Queria voltar à cena do crime, averiguar sinais e ir atrás de possíveis testemunhas. Infelizmente, teve que voltar suas atenções às preparações para o teatro quando ouviu a bengala bater forte no piso de madeira. Orlínski estava ansioso e irritado com a demora.

Saiu da banheira e secou seu corpo. Gostava de se exercitar, e seu hobby por esportes estava marcado em seus músculos. Em seguida, vestiu-se da forma como exigia o evento e se olhou no espelho: era um verdadeiro cavalheiro, belo em aparência, nos detalhes de sua roupa e na postura. Por alguns breves instantes, lembrou-se de quando morava na Europa e frequentava a agitada vida noturna de Londres. Uma lembrança distante, que a guerra arrancara de si, jogando-o de volta à sua terra. No Brasil, tudo parecia apenas um simulacro, uma pantomima que não tinha o mesmo significado. Em Minas, aquilo tudo não fazia sentido algum!

— Quanta demora! – Gritou Orlínski quando o viu descer as escadas. — Vamos perder o primeiro ato assim!

— Eu nem sei qual ópera vamos ver – disse João num tom choroso. — Não faz diferença alguma!

— La Traviata, meu amigo, Verdi! – Orlínski estava empolgado. — Você sabe que esse tipo de evento não chega aqui sempre!

— Pare de se gabar, Orlínski! São as mesmas pessoas que frequentam os cabarés, mas agora estão com as suas esposas, mostrando-as como prêmios...

— Adoro quando você fala como um revolucionário – cortou Gabriel, brincando com um assunto que sempre conversavam nas mesas dos bares, cafés e cabarés. — Mas vamos, vamos!

Lá fora, sob um céu estrelado e diante da bela fachada da casa de João Augusto, um cocheiro impaciente esperava por Gabriel. Murmurando algumas reclamações quanto à demora dos dois, o condutor rumou em direção ao centro, que não era muito distante dali. Subiram a Rua da Bahia e pararam onde foi possível. A rua emanava alegria e agitação, ornada com o gosto francês na decoração dos prédios e nos postes de luz. Diante do imponente Teatro Municipal, uma multidão se aglomerava, rindo e falando sem parar, agitados com o evento social que parou toda a região. Muitas carruagens e carros deixavam os espectadores diante das portas de ferro fundido e cuidadosamente decoradas do teatro. As senhoras e os senhores saíam dos veículos com as suas melhores vestimentas, bem como cavalheiros com cartolas, casacos e bengalas. Tudo era muito luxo e ostentação, prato cheio para os colunistas dos jornais, ansiosos para captarem tudo e publicar nos jornais da manhã.

A escadaria do Teatro Municipal era revestida de mármore e iluminada por lustres de cristal. Os espectadores mais ricos e influentes subiam pelos degraus da forma mais elegante possível e se dirigiam aos seus lugares. Os menos abastados desciam para os lugares mais baratos. No auditório, as vozes e o burburinho se misturavam com a orquestra que se preparava para o espetáculo, brilhando debaixo da luz amarela das lâmpadas de mercúrio que banhavam o recinto com uma atmosfera dramática, fazendo cintilar as joias das mulheres e os botões das vestimentas masculinas.

— Veja! O príncipe já está lá, com a princesa e o presidente do Estado – Orlínski estava empolgado, apontando para o balcão nobre do Teatro. Os dois estavam sentados entre os menos afortunados, mas cercados de pessoas bem vestidas.

Num dos cantos mais visíveis do auditório, no andar superior, sentavam-se três casais. Delfim Moreira, presidente do Estado com sua esposa, Francisca Ribeiro, e o futuro governante de Minas, Arthur Bernardes, que tomaria posse no próximo mês. A esposa desse último, Clélia Vaz de Melo conversava alegremente com uma jovem mulher, de rosto pálido e cabelos negros; era a princesa Anna. Ao seu lado, seu belo marido, o príncipe Andrev Kinsky, estudava o libreto da ópera que estava prestes a começar, e apagava o seu cigarro num cinzeiro de cristal.

Andrev Pramslav Kinsky era o filho mais novo de um rico aristocrata tcheco. Sua família não era herdeira ao trono há muitos séculos, mas mantinha os títulos da nobreza e da época em que eram influentes no reino da Boêmia. Atualmente, agiam muito mais como burgueses expandindo negócios, abrindo bancos, cuidando de portos e comprando fazendas, do que apenas preocupados com a tão buscada “pureza” do sangue que muitos nobres seguravam com unhas e dentes. Nacionalistas, odiavam o domínio dos Habsburgo sobre o seu país e eram contrários à guerra.

Andrev cresceu num ambiente aristocrático bastante politizado. Terceiro filho da família, não se esperava muito dele, mas se destacou nas poucas áreas de que tinha interesse: principalmente as finanças e os cavalos de raça, dentre outras qualidades intelectuais. Muito bonito, seus cabelos e olhos castanhos estavam sempre nas falas das mulheres da elite tcheca. Foi um choque para a sociedade quando, logo após o casamento, o pai o mandou para o Brasil, semanas antes de a guerra estourar na Europa. A união com Anna von Lichnowsky também estava coberta por mistério, já que fora realizado às pressas e, mesmo depois de quatro anos juntos, ainda sem filhos. Na sua terra natal, acusavam-na de ser estéril ou que o marido, de traços tão delicados, não possuía desejo pela mulher. Mergulhados nesses burburinhos, o casal foi jogado dentro de um navio e lançado em alto-mar. Aqui, Andrev se destacou, abrindo bancos e tendo um olhar visionário para as necessidades da burguesia da jovem república brasileira. Moravam em Belo Horizonte desde o fim de 1917, quando vieram à Minas para abrir um banco e investir na nova capital.

Em Minas Gerais, as fofocas da elite tcheca não arranhavam a reputação dos dois e, exceto pela ausência de filhos, nada tocava na boa índole do nobre casal. Ao contrário, eram vistos como modelo, sempre com bom gosto e presentes nas colunas sociais dos jornais. Quase um ano morando nessa cidade, já eram vistos como membros da elite mineira, frequentando o Palácio da Liberdade, jantando com prefeitos, políticos e empresários abastados. Andrev e Anna desfrutavam de um prestígio inédito e gostavam disso, mesmo sentindo falta de sua terra natal.

João Augusto não deu muita atenção ao balcão chique cheio de políticos e membros da sociedade. Corria os olhos pelo auditório para tentar achar outras pessoas conhecidas, em especial aquele com relação direta com a vítima da noite anterior. Queria saber se o pai de Rodolfo apareceria no teatro. Certamente deveria estar preocupado com o sumiço do filho, mas como era um exímio afinador de pianos que trabalhava para o Teatro Municipal desde o início, sua presença era indispensável num evento como esse. No entanto, não conseguiu vê-lo em parte alguma. Apenas o delegado Abelardo estava ali, sentado a duas fileiras de onde estava. Para o desgosto de João, assim que seus olhos se cruzaram, o oficial se levantou para conversar com ele:

— Doutor! – Fumava e sorria, vestido como um verdadeiro nobre. Vê-lo daquela maneira, afastava um pouco a sua aura de funcionário público que vivia apenas para o trabalho.

— Não tenho nenhuma notícia para te dar, delegado – cortou-o rapidamente.

— Por favor, doutor! – Abelardo mudou o semblante, olhando para os lados para saber se estavam sendo observados. — Não vamos falar disso aqui! – exortou-o.

— Falar sobre o quê, senhor? – João Augusto perguntou de forma elegante e sutil, mostrando que sabia muito bem ser discreto. — Não sabia que o senhor gostava de ópera – criou um novo assunto astutamente.

— Não entendo muita coisa, mas gosto muito desse teatro. — Empinou o nariz, usando o cigarro para apontar o forro que decorava o teto. Abelardo amava as pompas e as formalidades sociais. Essa sua paixão estava escancarada no seu modo de se vestir em qualquer situação: sempre com muito garbo, e asseio pessoal impecável. Somente no seu jeito de falar, no entanto, destoava-se do bom tom no visual e João odiava o tocar insistente do delegado, enquanto narrava qualquer coisa sobre a decoração do auditório, de modo pedante e enfadonho.

Foi um alívio para o médico quando as luzes se apagaram, anunciando o início do espetáculo. A orquestra começou a tocar e as cortinas se abriram ao som de inúmeras palmas. No palco, a casa da cortesã Violetta Valéry se apresentava tão rica quanto o teatro ao redor. No centro, uma bela mulher interpretando o papel da transviada francesa descrita por Verdi: olhar intenso, com movimentos graciosos e os fios do pomposo e brilhante cabelo presos segundo a moda de meados do século XIX. João Augusto já conhecia a sinopse, nada o surpreendia muito quanto ao enredo e desfecho, mas a moça que representava Violetta o deixou surpreso. Seu rosto de porcelana não lhe era estranho e tinha certeza de já tê-lo visto antes. Mas, onde? A estranha sensação de déjà vu produzia fisgadas em seu coração. Não tinha recordações de ter o encontro acontecido na Europa; era uma memória mais distante, de sua infância, de muito antes de se tornar o cavalheiro de bons modos que era agora. Confuso e agitado com o gracioso vulto que cantava, tentou procurar no libreto o seu nome, mas era difícil enxergar apenas com a luz vinda do palco. Teve que recorrer ao amigo Orlínski para saber de quem se tratava:

— Não a conhece? É Amália Sousa! – Cochichou Gabriel. — Está vindo do Rio de Janeiro, mas nasceu aqui em Minas.

Amália? Seria possível que fosse a pequena Amália da sua juventude? Seu primeiro amor na vida, e a quem dedicou versos e poemas? Agradáveis lembranças surgiam diante dele, abraçando aquela mulher feita e talentosa brilhando no palco. Não tinha notícias dela desde sua partida para a Europa e sua vida lhe trouxera outras experiências que apagaram o sentimento que cultivava pelo amor do passado. Entrementes, recordar um período tão distante lhe fez se interessar mais pela ópera. Queria se certificar de que se tratava mesmo da Amélia, fixando suas pupilas nela o máximo que conseguia. Quando o primeiro ato acabou, estava tão empolgado que queria sugar de Orlínski tudo que ele sabia sobre a tal Amália Sousa.

— Eu não sei muito. Sei que é amiga e bem próxima dos Kinsky. Alguns dizem que é amante do príncipe e está aqui por causa dele – falou, enquanto caminhavam em direção ao saguão e escadaria do teatro.

— Amante?

— Sim, mas eu não acredito nisso! – Orlínski levou João até o local onde se vendia bebidas. — Vou querer whisky, e você?

— Conhaque... – pegou um cigarro e encarava o amigo como um verdadeiro inquisidor. As respostas que recebia não eram suficientes para apaziguar a sua curiosidade. — Por que não acredita nisso?

— Ora, sou o médico do casal – bebericou o copo de cristal e observou o líquido dourado, estudando-o com atenção. — Ficou interessado na moça?

— Acho que eu a conheço. Ela me lembra alguém... da infância... – falava pausadamente e com os olhos perdidos no nada, como se estivessem mergulhados na vida que vivia quando ainda era criança.

— Se quiser ter certeza disso, venha comigo ao jantar que os Kinsky vão dar em sua homenagem. Será logo após o espetáculo! Sou amigo deles e tenho certeza de que será recebido sem problemas.

— Eu? No palacete Kinsky? – João riu, descrente com o convite do amigo. — Não é de bom tom aparecer sem convite num jantar tão refinado. Você sabe muito bem como funcionam esses caipiras.

— Não diga besteiras! Os Kinsky não são como esses provincianos! Eu sempre falei muito bem de você para os dois. Mas... – bebeu o resto do whisky e fez o copo dançar em sua mão. — ...se você prefere seguir as convenções, venha! – Sem deixar que o médico pensasse muito, Orlínski puxou João pelo braço, fazendo-o sorver todo o conhaque de uma só vez e andar sem jeito, tentando acompanhar o amigo de forma confusa, quase espalhafatosa.

— Aonde você está me levando?

Orlínski o puxava de volta à imponente escadaria, subindo os degraus rapidamente. O andar superior era destinado apenas aos espectadores mais ricos, sendo vetado o acesso aos demais. Mas Gabriel fora ligeiro e nenhum funcionário do teatro percebeu que corriam para a ala dos mais abastados e influentes. Desviaram, às pressas, das demais pessoas que conversavam nos arredores. Gabriel apenas parou diante da entrada do foyer, o salão onde muitos conversavam, bebiam e aguardavam o retorno ao auditório. Ele procurava pelos rostos conhecidos do casal que o empregava como médico pessoal. João não aprovava o comportamento do amigo, e já podia sentir os olhos julgadores dos presentes, a hostilidade estampada nas faces de cada um que, certamente, reprovaria a sua presença ali e logo chamaria por alguém para os expulsar.

— Orlínski, você enlouqueceu!

— Achei! Venha logo – puxava João pelo braço, que hesitava, mas acabou por se deixar guiar pelo amigo. Estavam no meio do salão e sua presença já havia sido notada por muitos, cujas expressões de reprovação incomodavam o jovem médico. Tinha certeza de que a brincadeira do polaco resultaria em confusão com a patrulha dos costumes.

— Com licença, alteza – Gabriel se aproximou do rapaz que conversava com o presidente do Estado e o prefeito da cidade.

— Orlínski! Achei que não viria hoje – a voz suave do rapaz, com um leve sotaque, era acompanhada de um belo e empolgado sorriso. — Que bom que está aqui! Você viu Amália? Estava linda nesse primeiro ato!

Claro que eu viria, alteza – respondeu Orlínski, em francês. — Gostaria muto de te apresentar o doutor João Augusto Idalino da Silva... falei dele algumas vezes em nossas recepções. Lembra-se? – Continuou, ainda na língua de Molière.

Claro! – O príncipe também respondeu em francês. — Que bela surpresa! É um prazer conhecê-lo, doutor.

O prazer é todo meu, vossa alteza – João respondeu, num francês formal e impecável, para o espanto dos que acompanhavam o príncipe e passaram a observar a conversa com estranheza.

O doutor estudou na Inglaterra, nos conhecemos na Europa – Orlínski enchia de elogios a apresentação do amigo para Andrev.

Inglaterra? Uma ótima escolha para se formar doutor – disse o príncipe, agora em inglês.

Claro! A ciência médica na Europa é muito avançada. Espero poder aplicá-la aqui e ajudar as pessoas que tanto precisam de assistência – João respondeu, igualmente em inglês.

Que ótimo! É sempre bom ter as pessoas certas quando precisamos de ajuda – continuou Andrev, mantendo a língua inglesa para se expressar, e surpreso com as habilidades do novo conhecido. Poucos, ali, eram capazes dessa proeza e isso o fascinou. — Orlínski te falou do jantar que teremos hoje para a senhorita Amélia Sousa? Seria uma honra ter sua presença conosco – o príncipe voltou à língua francesa para lhe fazer o convite.

Sim! Ele mencionou algo a respeito... – João, um pouco sem jeito, agradeceu ao convite, sentindo-se estranho por estar ali e por aceitar ir à casa dos Kinsky com tanta facilidade. Depois de mais algum assunto trivial sobre carros e cavalos, os dois se despediram de Andrev com uma mesura. Ao seu lado, um Orlínski orgulhoso de si, caminhava pelo salão como se fosse o dono do teatro. Logo à entrada do foyer, um funcionário esperava por eles, avisando que a presença dos dois ali não era apropriada e que deveriam deixar o local o mais rápido possível. Gabriel, contudo, o ignorava, descendo pela escadaria principal com elegância e em passos lentos, com a face erguida e se sentindo membro de uma realeza qualquer.

— Vamos voltar ao auditório, meu amigo, o segundo ato vai começar! – Disse, num dom pomposo e arrogante.


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