Capítulo 20




­— Finalmente acordou, doutor...

Ainda um pouco zonzo, João despertou do seu torpor alcóolico. Só então, percebeu que suas pernas e braços estavam presos por correntes, e o seu corpo estava completamente nu. Sentia o vento gélido incomodar os seus músculos expostos, acorrentados no interior de um quarto mergulhado na escuridão da noite, cujo único ponto de luz era um candelabro sobre a mesinha encostada no canto da parede de pau a pique.

— Acho que não preciso te apresentar o lugar – a voz fria e orgulhosa tremulava junto com a luz bruxuleante das velas.

— Onde eu estou? – João apertava os olhos para identificar o local. Estava pendurado de costas para o teto, e isso dificultava os seus movimentos. No entanto, quando pôde ver a Virgem pendurada na parede, sabia que estava naquele decrépito casebre que visitara com Andrev e Orlínski, meses atrás. Com menor dificuldade, conseguiu enxergar, ainda, um braseiro aceso ao lado da mesa e da cadeira. Sobre o móvel, um gramofone cantava músicas rituais Vodu, cujo idioma ele não podia identificar.

— Sua aparição no Café foi uma surpresa, sabe? Não esperava ser tão fácil chegar até você – a voz se aproximou de João, que pôde ver, pela primeira vez, a face cruel daquele que o aprisionara. — Com os anteriores foi mais fácil... era só esperar eles irem atrás de sexo...

— Não é possível! – João se mexeu e as correntes rangeram. Seu corpo balançou no ar e os pulsos e tornozelos reclamaram. As argolas prendiam com força e deixavam marcas no corpo do médico.

— O difícil foi derrubar um homem tão robusto como você – o desconhecido passava a mão sobre o dorso e as nádegas de João. — Quase achei que vocês fossem me encontrar... vocês chegaram muito perto.

— ME TIRE DAQUI! – João gritou, remexendo o seu corpo desesperadamente.

— Muito em breve você vai sair daqui – o homem passava a mão sobre o corpo de João, até pegar em seu pênis. — Todos adoram quando faço isso – riu, maliciosamente.

— Pare com isso, demônio! – João se balançava, tentando se livrar das correntes de qualquer jeito.

— Por quê? Parece que você está gostando... – o homem riu novamente. — Até está ficando duro – gargalhou.

— PARE COM ISSO! – João tentava impedir que a mão continuasse masturbando o seu pênis. — VOCÊ É LOUCO!

— Vamos deixar isso mais interessante – foi até à mesa e pegou o candelabro, trazendo-o para perto de João.

— Não é possível! – João Augusto se espantou ao ver as bochechas rosadas, o bigode bem aparado, e a pele extremamente branca do homem que esboçava um sorriso demoníaco em sua direção. — Mas, como? Você é o Gregório de Miranda?

— Maurício Vargas... Gregório de Miranda. Tive que alterar o nome, depois que deixei o corpo do Von Einem, em Sabará... mas nomes não querem dizer nada – colocou o candelabro de volta na mesa, trazendo consigo uma longa faca, que tirara do braseiro aceso ao lado da mesa. — Você chegou tão perto, doutor João Augusto – aproximou a lâmina quente ao rosto do médico, que sentiu o calor do aço quase tocar a sua pele.

— ESPERE! POR QUE ESTÁ FAZENDO ISSO? – João se mexia, fugindo do aço em brasa como uma criatura que sabia que caminhava para o abate.

— Eu esperava pegar o polonês antes de você – Gregório pôs a língua para fora, fingindo passar a ponta na lâmina da faca que ardia, quase em chamas. — Mas essa gripe o levou antes que eu pudesse tocá-lo – passeava com o instrumento quente próximo ao corpo de João, para que ele sentisse o calor da ferramenta, sem que ainda causasse algum ferimento na sua pele. — Mas a sua hora foi adiantada, João Augusto – andou até parar entres as pernas do médico, que balançava o máximo que podia, tentando se salvar daquela tenebrosa situação.

— NÃO FAÇA ISSO! EU NÃO TENHO NADA A VER COM ISSO! ME TIRE DAQUI!

— Está com medo do que pode acontecer? – O homem desabotoou a sua calça, para causar mais desespero em sua vítima. — Estou louco para ver como você vai reagir a isso...

— NÃÃÃO!

— Acalme-se! Estamos apenas começando – caminhando um pouco ao redor do corpo de João, jogou a lâmina quente sobre as suas costas, que queimou como se desejasse derreter a carne até chegar aos ossos. O grito de dor ecoou pelo casebre.

O homem se divertia assistindo à faca queimar a pele de João, enquanto ouvia os urros de dor e sofrimento. Em seguida, tirou a lâmina do seu lugar de tortura e andou até a cadeira, sentando-se para apreciar a agonia do médico, assim que jogou o objeto de volta ao braseiro.

— O meu pai sempre me dizia que vocês aguentam muito mais a dor que nós, brancos – Gregório se levantou, puxando a cabeça de João, numa altura em que pudesse encará-lo.

João cuspiu em seu rosto.

— MALDITO! POR QUE ESTÁ FAZENDO ISSO?

— A culpa é toda sua – Gregório falava friamente. — Você poderia ter ficado longe disso, mas resolveu fazer parte do palacete Kinsky.

— O quê? COMO ASSIM?

— Você não merece frequentar um ambiente como aquele, doutor João Augusto – disse, num tom arrogante. — AQUELE LUGAR NÃO É SEU! – Cuspiu no rosto do médico, lambendo-o em seguida.

— Não diga asneiras, demônio! Você torturou e matou várias pessoas! – João se contorcia, tentando achar um modo de se livrar das correntes. — VOCÊ É UM CANALHA ASSASSINO!

— Cada um ali tem a sua responsabilidade. Eu apenas executei a sentença – Gregório respondia com frieza, ignorando as tentativas de provocação do homem preso em suas correntes.

— Que sentença? – João podia sentir seus pulsos e tornozelos sangrando, à medida que tentava se libertar daquela prisão e da ameaça de morte que pairava sobre o seu corpo suado e nu.

Gregório deu um forte tapa na cara do médico.

— Minha função é purificar todos que acham normal que homens se deitem com outros homens. Fui criado na igreja, deus não admite esse tipo de pecado!

— Mas você é um deles! – Disse João, após cuspir sangue depois do tapa que levou no rosto.

Gregório pegou a faca e encostou a lâmina quente na pele do braço de João, que gritou de dor, mais uma vez.

— Não me interessa a sua opinião, doutor – ele apertava o metal sobre a carne, para causar o máximo de machucado possível.

— MALDITO! PARE COM ISSO!

Satisfeito com o que via, Gregório se afastou novamente, levando a faca ao braseiro. Silenciosamente, acendeu um cigarro e observou João, lutando para sair daquela situação com todas as forças. Assistia à cena sem demonstrar emoções, numa expressão imóvel e aterradora. Às vezes, um sorriso frio surgia em seus lábios, mas logo desaparecia naquela face sem sentimentos. Suas pupilas azuis apenas olhavam como se já estivessem mortas. Era o ser humano mais fantasmagórico com que João se deparara na vida. Como um jovem que parecia ser outra pessoa como atendente no bar, se transformou naquela criatura sinistra, que sentia prazer em torturar um inocente?

— Você não precisa fazer isso, Gregório! – Falava ofegante. Sabia que o seu corpo suado e dolorido não aguentaria muito naquela posição tão incômoda. — Você está doente, precisa de ajuda. Eu posso ajudá-lo!

— Cale a boca, doutorzinho de merda! – Gregório apagou o cigarro no ombro esquerdo de João, divertindo-se com a agonia resultante do seu ato. — Eu não sinto nada, Joãozinho. Absolutamente nada! – Gargalhou de forma estridente, em seguida, desferiu um forte soco na costela do médico. — Não preciso da sua ajuda!

— Eu estou lutando para salvar vidas no hospital. Você sabe o que significa a minha morte? – João não sabia o que falar e as palavras saíam sem muita reflexão naquele momento de desespero. — Não acredito que alguém é capaz de ser tão monstruoso assim!

— E daí? A morte chega para todo mundo. Você perde o seu tempo naquele hospital... – Deu as costas para João, indo até o outro cômodo, completamente coberto pela escuridão. — Fazer o quê, doutor? É inevitável! – Gargalhou mais uma vez.

— VOLTE AQUI, SEU MALDITO! DEMÔNIO!

Enquanto se contorcia, a música continuava, com falas em inglês proferidas de um jeito que fazia João tremer de medo. Gregório estava realizando uma espécie de ritual, enquanto o disco tocava a canção da morte; tudo perfeitamente preparado para aquela cena macabra. Quando o assassino retornou do cômodo, estava vestido como um padre do Caraça, com o hábito negro cheio de botões no peito, bem justo e colado ao corpo do rapaz, dando à sua silhueta uma imponência assustadora. Em suas mãos, carregava uma cruz de madeira, que João sabia qual seria o destino dela em seu corpo.

— Espere, Gregório, por favor! Não faça isso! – Desesperou-se.

— Não precisa ter medo dela, doutor – Gregório passava a cruz pelo rosto de João, molhado pelo suor. — O segredo é já ir se relaxando para doer menos – gargalhou mais uma vez.

— Pare com isso. Me mate de uma vez se é o que você quer! – João evitava olhar para o instrumento de madeira, não querendo imaginar onde ele seria introduzido, muito em breve.

— Homens como você, que não agem “contra a natureza”, preferem perder um olho à virgindade de certas partes do corpo – se divertindo com a apreensão da vítima, Gregório, guardou a cruz num dos bolsos do hábito. Depois, tirou um frasco e, dando voltas ao redor de João, aspergia um líquido sobre o corpo nu do médico. — Eu deveria trazer homens como você mais vezes. Até agora, só purifiquei maricas. O medo de vocês é divertido – riu.

— Purificar? PARE COM ISSO!

— Fique tranquilo, Joãozinho. Você vai passar por todo o ritual – corria com os dedos sobre as costas do médico. — Já disse para ir se acostumando com a ideia de ser violado. Homens da sua natureza fazem isso com as mulheres há tanto tempo, não é mesmo? – Balbuciava algo que parecia ser uma oração, mas João não conseguia identificar o significado das palavras.

— NÃO FAÇA ISSO!

Gregório caminhava tranquilamente até as pernas de João. — Podemos começar, doutor?

— NÃO, POR FAVOR! TENHA PIEDADE!

— Já disse que eu não sinto nada... só os fracos imploram e pedem desculpas, doutor. Aguente firme, como um homem! – A gargalhada sinistra ecoou pelo cômodo, iluminado parcamente, dando à cena um ar ainda mais demoníaco.

Gregório estava pronto para iniciar o infame ritual, quando o ronco de motor de carro surgiu lá fora, tirando a sua concentração. Espantado com aquela intromissão, olhou furtivamente pela janela entreaberta. Assustado e furioso, correu para o quarto ao lado, desaparecendo no escuro e ignorando João, que ainda tentava escapar das correntes.

— Ele pulou a janela! – A voz de Félix correu para os fundos do terreno.

— João! – Benjamim abriu a porta abruptamente. — Santo deus!

— Me tire daqui rápido! RÁPIDO, PADRE!

Benjamim, com as mãos trêmulas, procurava um jeito de livrar João das argolas. — P-preciso das chaves! – O jovem padre estava desesperado. Lá fora, sons de tiros ecoavam e deixavam aquele momento ainda mais tenso. — E se estiver com ele? Eu não sei o que posso fazer!

— Ele se trocou há pouco. Olhe na mesinha, ao lado dessa música maldita! – João ainda se remexia nas correntes, deixando Benjamim ainda mais ansioso.

O padre vasculhava tudo desajeitadamente, quando esbarrou no gramofone, que se espatifou no chão. Sobre a mesa, um molho de chaves descansava ao lado do lugar onde o aparelho tocava a trilha sonora do ritual. Com medo, e muita dificuldade, pois as mãos trêmulas o traíam constantemente, Benjamim, enfim, conseguiu livrar João.

— Preciso achar minhas roupas! – Os pulsos e tornozelos de João doíam no local onde as argolas os prendiam.

— Aqui! – Benjamim tirou o manto que cobria o seu hábito, tampando a nudez do médico, cujo corpo tremia de dor.

Lá fora, mais tiros. Félix soltou um grito assustador, de modo esganiçado e, logo em seguida, só silêncio. Benjamim ajudava João a andar, quando, da porta do casebre, Gregório surgiu, segurando um machado e a cabeça de Félix.

— Padre Benjamim... – disse, jogando a cabeça do pobre oficial na direção dos dois. — Há quanto tempo!

— Como você pôde fazer isso? – Benjamim tremia e chorava ao ver a cabeça de Félix ensanguentada no chão.

— Quem mandou aparecerem sem convite? – Gregório riu como um palhaço de circo. — Como está o padre Alencar, Benjamim, ainda violando estudantes? – Gargalhou.

— Cale a boca! – Benjamim evitava olhar para Gregório.

— Sabe, doutor? – O assassino voltou a sua atenção ao médico, que tentava se reerguer. — Esse homem de deus ao seu lado, é um dos que não demonstrariam medo, como o senhor fez, assim que soube que seria feito de mulherzinha – Gregório raspava a lâmina do machado, suja de sangue, no chão. Ofegava e, mesmo com a luz bruxuleante, era possível ver que um dos tiros de Félix o acertara. No entanto, não se podia localizar a ferida com tão pouca iluminação.

— Chega, Gregório! – Benjamim o repreendeu.

— Não quer contar o que acontecia naquele colégio macabro, padre? O que você fazia com Aurélio? Como você era chamado: o anjinho maricas que, para todos, tinha cara de menina...

— PARE! – Benjamim gritou.

— Você tinha que ver a cara do seu amado Aurélio quando descobriu, nesse mesmo local, que o jovem Maurício que ele ia levar para cama era aquela criança que vocês deixaram o padre Alencar abusar. O pequeno Gregório, largado à própria sorte, diante daquele homem horroroso!

— Isso é passado, Gregório! – João recobrava as forças. — VOCÊ É UM MONSTRO!

— Eu? Sou uma vítima nas mãos de vocês. OS VERDADEIROS MONSTROS AQUI SÃO VOCÊS!

— Ele é louco – Benjamim o fitou furiosamente.

— Pare, Benjamim! Essa carinha de menino mal não combina com você, padreco de merda – Gregório sorria malevolamente. — A expressão de puta no cio é mais condizente com a sua natureza, e suas preferências – gargalhou.

— Vamos embora daqui logo, João – Benjamim tentava ignorar as provocações e ajudar João.

— Você acha que vai tirar o doutor de mim? Deveria ter ficado no Caraça, lá continuaria protegido até definhar... – Gregório ergueu o machado. — Agora, vai ter o mesmo destino desse sujeito que olha assustado para você – apontou para a cabeça de Félix, no chão, com a expressão de terror gravada nos músculos rígidos de um pedaço de corpo sem vida.

— Por que quer tanto o João? Ele não tem as mesmas “inclinações” que você, ou eu – disse Benjamim, com certa dificuldade em fazer aquela confissão.

— Porque ele ousou ajudar Andrev e Orlínski – Gregório olhava com ódio para os dois. — A gripezinha levou aquele polonês maldito. Mas não poderei ter Andrev por culpa dele!

— Tudo isso por causa de Andrev? – João conseguiu se erguer sobre o seu corpo ferido. — Você é desprezível! – Sentia, aos poucos, a sua força voltar, mesmo que não fosse completamente capaz de enfrentar Gregório numa briga.

— Você não sabe o que é ser enxotado como lixo por esses maricas ricos! – Gregório demonstrou fúria e instabilidade, pela primeira vez. — Não entende o que é ser escolhido como gado, para ser usado apenas para aliviar o desejo proibido desses donos do poder! – Gritou.

— Como? – João, ofegante, mantinha o olhar ameaçador, apesar dos ferimentos que o enfraqueciam.

— ELE ME USOU! SEQUER PERGUNTOU O MEU NOME! SEQUER QUIS SABER QUEM EU ERA! SÓ QUERIA SE SATISFAZER COMIGO! – Gregório estava prestes a chorar. — ELE É UM MONSTRO, NÃO EU!

— Já chega... – João ignorava aquela cena, que julgava patética.

— Sim! – Gregório retomava a calma assustadora de outrora. — Vocês morrem aqui – tomou o machado com as duas mãos e avançou.

Nesse instante, Benjamim se jogou sobre ele, impedindo que ele desferisse o seu golpe, tentando segurá-lo com as mãos presas no machado, que desejava abrir caminho e cortar tudo que estivesse à sua frente. João quis ajudar o padre, mas ele o impediu.

— Saia daqui, João! Fuja logo para se salvar! – Benjamim gritava, enquanto lutava contra Gregório.

Sem nada dizer, João correu pela porta. Gregório tentou ir atrás dele, mas o padre o empurrou em direção à parede de pau a pique, que estremeceu ao impacto do corpo do assassino. Benjamim, a passos rápidos, foi até a porta, mas a lâmina do machado rasgou a sua coxa, fazendo-o cair no chão, num grito de dor apavorante.

— Doutor covarde – Gregório se levantou, erguendo o machado para cortar a cabeça de Benjamim e pôr fim àquela luta inesperada. — Pensando bem, acho que você poderia ficar no lugar dele, padre – riu. — Não vai ser difícil colocar um homem delicado como você nessas correntes...

Enquanto se preparava para prender o padre, o som dos tiros cortou a escuridão e as balas perfuraram o peito de Gregório, que caiu de costas no chão. Na porta, João ressurgia com a arma de Félix nas mãos. Assim que desferiu o restante dos tiros no assassino já morto, jogou sobre ele o revólver e ajudou Benjamim a se levantar.

— C-consegue andar, padre? – Perguntou secamente.

— A-acho que sim – Benjamim olhou para a ferida aberta em sua perna. — M-mas vou precisar de ajuda.

Antes de sair dali com Benjamim, João olhou para o braseiro e, sem pensar, foi até o cômodo, onde os livros de Gregório eram guardados e, derrubando-os, jogou sobre eles o fogo que ardia sobre o ferro fundido de modo tosco e simples.

— O que você está fazendo? – Benjamim, apoiando-se na parede, observava João, jogando tudo que podia ser queimado no chão.

— Acabando com essa desgraça! – João lançava em direção às brasas a cadeira, a mesa, e os restos do gramofone.

As chamas cresciam e, finalmente, abandonaram o casebre. O corpo decapitado de Félix, que jazia bem ao lado da construção, também acabou envolto às chamas. Silenciosamente, João caminhou em direção à estrada, ignorando o carro que esperava por eles não muito longe da casa, que era completamente consumida pelo fogo.

— Podemos ir de carro, João! – Mancando, Benjamim tentava seguir o cambaleante João.

— Deixe-o aí! Não quero ter que explicar à polícia tudo que aconteceu essa noite...

Sem questionar, Benjamim caminhava, com dificuldade, ao lado do médico, que não emitia som algum. Depois que se afastaram do fogo, que se erguia imponente em direção aos céus e tocava as árvores, João colocou o braço do padre sobre os seus ombros, ajudando-o a andar mais rapidamente.

O fogo lambia as folhas das árvores mais altas, ameaçando se alastrar pela mata. Só seria controlado com a tempestade que cairia sobre a região, horas mais tarde. Até mesmo o carro de Félix seria tocado pelas chamas, ficando completamente destruído, juntamente com todo o local da luta.

João e Benjamim só parariam para descansar longe dali. Protegidos pela mata molhada e pela escuridão, tentavam raciocinar depois dos apavorantes momentos que quase levaram consigo as suas vidas. Finalmente, estavam a salvo da ameaça de Gregório e podiam respirar tranquilamente. O barulho da chuva sobre as folhas e os sons dos animais, agora, eram sinal de que tudo estava em paz e que era o fim de tanto sofrimento.

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