Capítulo 3

Os espectadores deixavam o teatro após o grande espetáculo. Do lado de fora, encostado em um poste, João Augusto assistia às pessoas saindo para a rua. Fumava um cigarro enquanto aguardava Orlínski, pensativo. A vítima voltava a dominar seus pensamentos, fazendo-o revisitar seus ferimentos. Tentando identificar a sequência dos golpes, mesmo que por alto: qual teria sido feito primeiro, qual fora após a morte do pobre Rodolfo, e como ele foi levado até aquele local tenebroso. Tinha quase certeza de que o jovem já estava morto quando pregado na mangueira.

— Aí está você! – A voz do delegado, num susto, tirou João de suas divagações.

— Você gosta de me assustar! – Brincou o médico, terminando o cigarro e jogando a guimba no chão. — O que você quer agora?

— Fiquei sabendo que o senhor vai ao jantar do príncipe...

— Sim, fui convidado – tentou soar imponente. — Algum problema?

— Claro que não! Só não fique até muito tarde. Amanhã vamos passar na sua casa antes do sol nascer. Para buscar você-sabe-o-quê.

— Não se preocupe, jantar de gente rica não costuma ser muito interessante. Não vou querer ficar a noite toda – João Augusto riu.

— Gostaria de conversar um pouco sobre... – o delegado engasgou. — Você sabe...

— Posso te enviar um relatório por escrito até o fim da tarde. Melhor assim, não?

— Jamais! Nada oficial... – engasgou mais uma vez. — Isso vai pro túmulo com o rapaz.

— Mas o pai do menino tem o direito de saber o motivo da morte do próprio filho! – Protestou o médico.

— O pai do menino nem na cidade está! Fui visitá-lo hoje. Nada! – Confessou o delegado, com a sua voz saindo como um lamento.

— Que estranho...

— Muito! Ouvi algo a respeito. Parece que pai e filho se estranhavam muito. Você sabe, né, doutor? Rodolfo tinha uma certa fama – coçou a ponta do bigode com os dedos e, com uma expressão maliciosa, observou o olhar perdido de João. — Agora eu me vou, doutor, não quero ficar falando disso aqui na rua – ajeitou o casaco, dando os primeiros passos em direção ao outro lado. — Ah! – Virou-se para fitar João. — Da próxima vez que você e o seu amigo quiserem subir as escadas e ir ter com os grandões, quero que me avise antes. Não vou tolerar ser interrompido para lidar com coisas do tipo no meio do teatro!

João revirou os olhos, deixando sair uma expressão de nojo, julgando as palavras do delegado com desdém. Um forte cansaço tomou conta de todo o seu corpo, e pensou ser melhor ir embora. As informações passadas naquela conversa seriam úteis para tentar encontrar alguma explicação para a morte de Rodolfo. Orlínski, contudo, surgiu da entrada do teatro, levando ao seu lado Anna, a princesa. Conversavam alegremente e com muita intimidade, e João não poderia escapar naquela hora.

— Preparado para irmos, meu amigo? – Orlínski falou num tom pomposo. — Deixe-me apresentar a princesa Anna von Lichnowski. Estava falando de você para ela.

— Doutor... – A princesa ergueu a mão direita para que João pudesse beijá-la, num elegante cumprimento. Anna era uma belíssima senhora e, sem sombra de dúvida, a mulher mais bem vestida entre todas no teatro. João, contudo, ficou fascinado com os olhos tristes daquela nobre. Para ele, a expressão dela estava carregada de melancolia e tristeza. Podia sentir a infelicidade dela somente pela forma como ela captava tudo ao seu redor. Por trás daqueles tecidos e joias caras, uma mulher assistia a sua vida de forma depressiva, desgostosa e entediada com o que a cercava. Talvez não gostasse de viver tão longe de sua terra ou, quem sabe, mesmo na riqueza, sentia-se mergulhada num poço de desgosto.

— Vamos? – Convidou Orlínski. — O príncipe foi à frente, com Amália Sousa.

Entraram no carro. A princesa, com um sotaque bem forte, perguntava sobre a vida de João com bastante curiosidade. Queria saber de seus estudos na Europa, qual era sua especialização e onde morava atualmente. João respondia com educação, mas lhe incomodava tantas questões. Não queria ter que passar por aquele inquérito, sentindo que a princesa averiguava se ele poderia ser digno de entrar em seu palacete, como se estivesse diante de um patrão que o entrevistava para se certificar de que ele valeria ao trabalho proposto. Arrependeu-se amargamente de ter aceitado o convite. Apenas a imagem de Amália lhe trazia algum conforto para suportar uma noite frívola entre os mais ricos da cidade.

O palacete Kinsky ficava no alto da Rua da Bahia, bem próximo ao palácio do governo e aos prédios das secretarias da administração pública. Ocupava grande parte de um quarteirão da rua e era exemplo soberbo da arquitetura eclética, ricamente decorado em cada canto e amplamente iluminado, com um belo jardim ao redor de toda a construção. Era possível, lá de fora, ouvir as valsas tocadas por uma orquestra e avistar muitos convidados descendo de carros e carruagens, entrando no casarão e impressionados com o bom gosto do casal.

O luxo era opressor dentro do palacete: mármores, douramentos, lustres, estátuas... tudo digno de uma família real, mas era uma ostentação que incomodava João Augusto. O jovem doutor, acostumado a trabalhar com os mais pobres da cidade, não conseguia se sentir à vontade no meio de tanta riqueza e desaprovava todo aquele requinte. Ele, como um cavalheiro educado na Europa, sabia como se portar em situações como essa, que exigiam um protocolo rígido e muito diferente do que os brasileiros estavam habituados. No entanto, cumpria as regras a contragosto, sabendo que era preciso se portar de determinado modo em cada ambiente social que sua profissão o levaria, fosse numa casa humilde ou num lugar esplêndido como o que estava a pôr os pés. Assim, mesmo com os olhares tortos dos convidados e empregados quando o viram chegar ao lado da princesa, João empinou o rosto, ajeitou a cartola e andou entre os demais como se fosse o convidado de honra do casal.

— Finalmente chegaram! – Andrev andou até a esposa e a beijou afetuosamente no rosto. — Deixe-me apresentar Amália Sousa, a artista que encantou essa cidade hoje!

— João Idalino... – a doce voz de Amália surgiu acompanhada de um sorriso caloroso. — Não imaginava que te veria aqui. Quanto tempo! – Entreolhavam-se, enquanto os criados pegavam casacos, cartolas e bengalas de Orlínski, João e de outros que chegavam logo atrás deles.

— Não acreditei quando te vi no palco. Você continua maravilhosa! – João beijou a sua mão, curvando-se gentilmente.

— Vocês já se conhecem? – Perguntou o príncipe, maravilhado ao vê-los se falando de modo tão íntimo.

— Crescemos juntos, em Ouro Preto. Mas isso já faz muito tempo, coisas do século passado – brincou Amália.

— Mil oitocentos e quando aquela cidade maldita era capital de Minas – brincou Orlínski, acendendo um cigarro e sorrindo de modo agradável.

— É uma cidade do passado, mas tem o seu charme – respondeu Amália. — Tenho algumas lembranças boas de lá, não é mesmo, João?

— Imagino que sim – o ar extravagante de João desapareceu e um rapaz tímido surgiu diante dos demais. — Mas já faz muito tempo...

— Muito! Fico feliz de te ver aqui – Amália continuava com o belo sorriso no rosto. — Gostaria que se sentasse ao meu lado, no jantar – olhou para Andrev que consentiu com a cabeça, pedindo à esposa que ordenasse aos empregados que organizassem tudo. Com uma discreta ordem, Anna fez a vontade do marido e voltou para junto dele.

Amália se apoiou no braço de João para caminharem até a sala de jantar. No caminho, cumprimentavam os demais convidados, todos membros da elite mineira, que olhavam espantados para os dois, mas os recebiam educadamente. Ninguém ali queria desagradar o príncipe e a princesa, que acompanhavam João e Amália. Orlínski apontava para as figuras mais importantes, sendo o guia do amigo doutor no meio de tanta gente rica.

— Aquele é Vaz de Melo, prefeito da cidade – cochichou Orlínski. — Aquele é o filho dos Machado, Cristiano; está terminando seu curso de Direito, no Rio...

— Eu também leio os jornais, Orlínski – protestou João. — Sei muito bem quem é essa gente.

Chegaram à sala de jantar, decorada à Luís XV, onde a orquestra tocava alegres valsas. A chegada inesperada de João deixou o mordomo ansioso, pois deveria alocar mais um convidado na mesa já bastante ocupada. Com isso, o jantar teve que atrasar.

— Imaginaria estar num lugar como esse? – Perguntou Amália, assim que percebeu que os dois não poderiam ser ouvidos. — Vamos até a janela? Quero saber como você está!

— Imaginar-me num salão com a parte da cidade que eu mais desprezo? Não! – Brincou, caminhando com Amália até uma das janelas que tinha vista para o jardim e parte da rua, já vazia e mergulhada num profundo silêncio.

— Você continua muito bonito, João Idalino – Amália sorriu.

— E você sempre me surpreendendo. Soprano? – João procurava afastar sua timidez. Ver o primeiro amor da sua vida, vestida como uma dama e sendo o centro das atenções era a última coisa que imaginava ver. — E-e, claro, você continua belíssima! – Disse de um jeito acanhado que tirou risos de Amália.

— Muita coisa aconteceu depois que você foi embora do Brasil – ela apoiou o cotovelo na balaustrada e fitou a rua. — Sentimos muito a sua falta!

— Eu também senti muito a sua! E... – João pausou por alguns instantes. — Nunca pude te agradecer pelo que fez pelo meu pai. Não estar aqui quando ele faleceu foi muito difícil para mim.

— Seu Idalino era um amor de pessoa – Amália ainda fitava a rua. — Ele era um pai para mim, e me ajudou muito depois que você deixou o país. Foi ele quem descobriu que eu tinha talento para música, sabia?

— Não! Ele nunca me disse isso – João tinha uma expressão triste.

— Sim! Mas não vamos falar disso agora – Amália se virou e percebeu que Andrev se aproximava. — Vamos nos divertir hoje, e comemorar nosso reencontro, meu amigo – empinou o corpo e sorriu de modo esnobe. — Hoje, os excluídos estarão no meio dos reis – ironizou.

Com a mesa reorganizada, todos puderam se sentar. João ficou entre Amália e Orlínski, cujo olhar de admiração escancarava o quanto adorava toda aquela pompa. Em voz baixa, disse ao amigo que todas as noites o jantar dos Kinsky era assim: cheio de protocolo e vestidos à caráter. Ao som de Danúbio Azul tocado pela Orquestra, João observava os convivas conversando, falando sobre política e acontecimentos entre os mais abastados. Falavam sobre cavalos puro sangue, negócios com café e investimentos, bem como o que acontecia na capital federal. Assuntos enfadonhos que só não causavam sono por causa da agradável música e graças ao som dos empregados oferecendo bebidas e comidas.

— A senhorita Amália fez história hoje – disse Cristiano Machado, num dos cantos da mesa. — Essa cidade nunca viu nada igual!

— E nunca mais verá! – Orlínski entrou no assunto. — Essa roça iluminada não sabe o privilégio de tê-la conosco hoje, madame.

— Obrigada, monsieur – Amália sorriu.

— Estou sabendo que ficará conosco por um tempo, madame – o prefeito Vaz de Melo, com uma expressão de desagrado ao ouvir Orlínski, manifestou-se.

— Sim! Estou hospedada aqui, na residência dos Kinsky, e ficarei por um tempo. O Rio no verão é um horror! – Brincou. — O clima daqui me agrada mais – disse, num tom diplomático, sabendo agradar e massagear o ego do prefeito. Amália aprendera a lidar com aquelas pessoas, que valorizavam o dinheiro e as glórias pessoas mais do que a própria vida.

— Com certeza vai causar furor em toda cidade! – Disse o jovem jornalista, Arthur de Azevedo, responsável pela coluna social de um dos jornais da cidade.

O jantar transcorria muito bem. A conversa fluía entre os políticos, juízes, empresários e industriais com suas esposas, e todos ignoravam João, que apenas assistia aos poderosos da cidade conversarem. Reparou, então, no jovem jornalista do outro lado da mesa, o tal Arthur de Azevedo. Era um bonito rapaz. João o conhecia por alto, lembrando-se que se encontrara com ele num cabaré, próximo à Avenida do Comércio. Algo nele lembrava Rodolfo, e o doutor novamente se lembrou do morto em seu porão. Repentinamente, todas as vozes ao seu redor sumiram e ele apenas focava na morte misteriosa, no sumiço do pai da vítima e no modo como o delegado queria lidar com o caso. A polícia não faria nada e, com isso, se sentia responsável por achar, pelo menos, um nome suspeito para aquela atrocidade. A morte de Rodolfo não poderia passar em vão.

— João? João Augusto! – A voz de Amália levou para longe suas divagações quanto ao morto.

— S-sim? Estava pensando no trabalho e me perdi – sorriu.

— Há coisas que nunca mudam – riu. — Vamos para o salão... Andrev anunciou que é hora da valsa. Todos estão indo, veja! – Ergueu a taça com vinho e bebericou.

— Está me convidando para uma dança? – Disse num tom baixo para que os demais não pudessem ouvi-lo.

— Não é apropriado que uma senhorita convide o cavalheiro para algo desse tipo – brincou Amália. — Mas seria uma honra dançar com você!

João ficou tempo considerável fora das conversas à mesa e sequer havia ouvido quando Andrev convidou a todos para terminarem a noite em outro salão, onde a pequena orquestra estava se preparando para mais valsas. Alguns convivas já se despediam, não querendo avançar ainda mais para retornarem aos seus lares. João teria seguido esses que iam cedo, não fosse o convite de Amália. Em pouco tempo, dançava com ela no meio do salão, tão luxuoso quanto o de jantar. Os dois dançaram por horas. A famosa Amália Sousa ignorava os olhares de outros cavalheiros, desejosos por ter o privilégio de dançar com ela; tudo o que queria era aproveitar o reencontro com o velho amigo. Os demais poderiam esperar alguma outra oportunidade de valsar com a famosa cantora de óperas e operetas. Já se aproximava da meia-noite quando ela, cansada, decidiu se retirar, num salão já praticamente deserto.

— Preciso achar o Orlínski para irmos – disse João, ofegante. — Obrigado pela noite. Foi muito bom te rever!

— Igualmente, doutor João Idalino – Amália sorria. — Por que não vem jantar conosco amanhã? Tenho certeza de que Andrev e Anna te receberão com muito prazer.

— Toda essa pompa mais uma noite? – Brincou.

— Sim! Mas seremos só nós. O código é esse: veste de gala – Amália estendeu a mão para que João pudesse beijá-la.

— Vou pensar se quero passar por essa tortura mais uma vez – sorriu e se curvou.

— Venha! Poderemos conversar com mais calma – despediu-se e caminhou em direção ao seu quarto, não deixando de olhar para trás para se certificar de que João a assistia andar como um esplêndido cisne para a outra extremidade do salão.

João acendeu um cigarro, enquanto seus olhos seguiam Amália até a saída do salão. A última dança tocava e eram poucos os ainda presentes. Apenas dois casais de jovens valsavam e nem mesmo os anfitriões estavam entre eles. Era preciso achar Olínski que desaparecera como que por encanto. João Augusto tentou perguntar para algum empregado, mas, com desdém, recebeu uma resposta negativa de um serviçal de cabelos brancos e pele muito clara. Resolveu sair atrás do amigo pela casa, percorrendo salões vazios, mas amplamente iluminados. Andava por cada cômodo com calma, observando as pinturas nas paredes e as peças de porcelana sobre os móveis. Na sala de música, um piano bem lustrado descansava e João parou diante dele, passando os dedos enluvados pelas teclas, imaginando quem teria sido o último a afiná-lo. Teria sido o pai de Rodolfo? Ou o próprio jovem fizera seu último trabalho antes de caminhar para a morte? Caminhou ao redor do instrumento e quando se aproximou de mais uma porta, ouviu vozes vindas do outro cômodo. Tinha certeza de que uma delas era a de Gabriel e, numa batida brusca na porta dourada, anunciou sua presença, abrindo-a em seguida.

— J-João! – Um Orlínski assustado se virou para o amigo. Ao seu lado, Andrev andava em direção ao seu reflexo num espelho.

— Vamos? A festa já acabou e passa da meia-noite! Precisamos ver como vamos embora – João ignorou a expressão de espanto na cara do amigo.

— Por que a pressa? – Andrev, retomando à postura de príncipe, caminhou até os dois. — Está muito cedo ainda... podemos aproveitar a noite um pouco mais!

— Está tarde, alteza. Amanhã acordo cedo – João tentou declinar.

— Bobagem, João! – A animação de Orlínski retornou instantaneamente.

— Vamos pegar o carro e posso deixar vocês em casa depois – sugeriu o príncipe.

— Mas aonde iremos a essa hora? – João mantinha o ar desconfiado.

— Não precisamos ir à lugar algum! – Andrev riu. — Vamos! Vamos! As senhoras já foram dormir e é a nossa chance de aproveitar a noite!

Andrev os levou à adega, onde pegaram garrafas de vinho e champanhe. Em seguida, foram até o carro, maravilha da engenharia europeia e de finíssimo design. O príncipe ligou o conversível e em pouco tempo estavam na rua, sentindo o ar frio bater nos seus rostos, bem como o silêncio da noite que fazia de Belo Horizonte uma cidade fantasma e um pouco assustadora.

— Vocês ainda não disseram aonde vamos – disse João, tentando segurar sua cartola e a taça cheia de champanhe.

— Sei lá! Qualquer lugar. Vamos sair da cidade e parar em algum lugar para beber tudo isso aqui – Andrev parecia outra pessoa. Estava alegre e abandonara a formalidade. Olhava para as várias garrafas pelo chão do carro, somente pensando em aproveitar a bebida e o clima agradável da noite fria. Um jovem mimado inconsequente roubou o lugar e a pose de nobre do rapaz, que recebia velhos poderosos em sua casa como se já tivesse a idade deles. Agora, Andrev estava mais solto e livre.

— Vocês são loucos! – João bebeu, tentando se equilibrar no carro que ia a toda velocidade.

— Aproveite a vida, doutor João! – Orlínski estava visivelmente bêbado. Gritava do carro, querendo acordar e chocar a pacata Belo Horizonte.

João via as ruas passarem, lembrando-se da noite anterior. O caminho que Andrev traçava evidenciava para onde o carro se dirigia. Estava regressando ao tenebroso lugar que, na noite anterior, o médico se encontrou com o delegado e se deparou com o corpo de Rodolfo crucificado na mangueira. João enregelou, tentando convencer o príncipe e o amigo de irem para outro local. Eles, no entanto, zombaram do seu excesso de cuidado.

— Não seja medroso, João! – Provocou Orlínski.

— Não é medo! –Protestou.

— “João, o medroso. Cantado e acompanhado ao violão por Eduardo das Neves, para Casa Edison, Rio de Janeiro” – zombou Orlínski, lembrando a introdução do famoso cantor, Eduardo das Neves, nos discos destinados ao gramofone. Os três riram da brincadeira. — Isso é bom que dói! – Cantou Gabriel.

Andrev cruzou a Avenida Afonso Pena e João reviveu o trajeto do cabriolé, ao lado dos dois policiais. Um surto de curiosidade e ansiedade tomou conta de si. Por que será que o príncipe escolhia aquela direção entre tantas outras? Qual a razão de ir exatamente ao local do horrendo crime?

Quando o carro entrou pela rua de terra batida e cascalho, a escuridão tomou conta de tudo. João podia sentir o cheiro e a presença da morte, como se o próprio Rodolfo estivesse vagando ali, esperando para reencontrar o culpado ou levar a maldição àqueles que passassem pelo local onde seu corpo estivera pendurado. João se lembrou das palavras do delegado, dizendo como o encontraram ali. Será que Andrev poderia ter visto o corpo antes e avisado à polícia? Faria sentido se ele quisesse retornar ali para ver o desfecho de tudo?

— Essa é a Rua da Maldade – disse Orlínski, enquanto terminava mais uma taça de champanhe.

— Rua da Maldade? – João ficou curioso.

— Dona Carolina Dias foi quem me disse isso. A viúva do Seu Alfredo – continuou a sua fala, enchendo mais um copo e deixando derramar champanhe sobre sua roupa. — Ela disse que o povo vem para cá fazer sem-vergonhice.

— Vamos parar, então, e ver se tem gente fazendo sem-vergonhice – Andrev se animou ainda mais. Abandonou o carro com os faróis acesos e caminhou pela escuridão. Orlínski o seguia, com uma garrafa na mão, cantando. Logo, apenas o vulto encartolado do amigo podia ser visto. O príncipe desapareceu no breu da noite estrelada.

Era impossível saber o local exato onde o corpo fora encontrado naquela imensa noite. Mesmo assim, João se arriscou, saindo da estrada e adentrando o mato molhado pelo sereno. O frio ali era mais intenso e cortante, dividindo espaço com as árvores que cresciam livremente e os sons noturnos que ecoavam dos galhos e copas das frondosas mangueiras. Tentou fazer luz com o fogo que acendia seus cigarros, mas foi em vão. Não daria para ir muito longe sem um lampião.

Então, sentiu passar pelo seu corpo uma estranha sensação, uma espécie de apreensão quando se nota que alguém desconhecido está presente e observa silenciosamente, como um animal espreitando a presa que está prestes a atacar. Em algum lugar entre as árvores, algo se camuflava e assistia ao doutor se aproximar cada vez mais do perigo. O frio correu por sua espinha. Era como se pudesse pressentir que algo de muito ruim aconteceria em poucos instantes. Podia sentir os olhos malignos desse desconhecido brilhando no escuro, sedentos por mais sangue e para realizar as mesmas atrocidades que fizera com Rodolfo. A cada respiração que João realizava, tinha certeza de que não estava sozinho, e que aquele que o acompanhava não era um de seus amigos.

— Parece que o João encontrou algo ou foi se aliviar – a voz de Orlínski se aproximou, intercalada com as risadas de Andrev. Isso fez a apreensão de João se enfraquecer.

Nesse exato momento, viu o vulto encapuzado correr para mais fundo na mata. João estremeceu, seus músculos se enrijeceram e ele sentiu seu coração gelar. Seria aquilo uma brincadeira dos seus olhos no meio da escuridão? Não podia acreditar que acabara de ver o que deveria ser um homem alto, robusto, coberto como um religioso. O susto fora tão grande que pulou para trás, trombando com Andrev, que se aproximava, deixando sua cartola ir ao chão.

— O que houve, doutor? Achou algo? – Perguntou o príncipe, apertando os olhos para tentar enxergar na noite, e caminhando um pouco mais adiante, exatamente na direção em que avistara o sinistro vulto.

— Nada! Acho que deve ter sido algum animal passando – João, apreensivo com o andar impertinente do príncipe, tentou mudar o foco. — À noite, todo galho vira cobra – tentou ser irônico.

— Deve ser onça! – Orlínski mantinha o tom jocoso na sua voz bêbada.

— Tem luz ali! – Gritou Andrev. João correu em sua direção.

A luz era distante e bastante fraca. Parecia vir de uma casinha. A chama bruxuleante poderia ser de um lampião que tremulava. Certamente, deveria vir de um casebre pertencente a uma pessoa muito pobre. Era o único sinal de vida no meio de tantas trevas, algo surpreendente. Como alguém poderia viver tão dentro do mato, assim? Infelizmente, a construção estava distante demais para irem até ela naquela tenebrosidade; o som de água correndo sinalizava que estavam se aproximando de algum córrego, impossível de ser perfeitamente visto antes que pudessem molhar os pés na água.

— Não dá pra seguir mais – lamentou Andrev.

— Melhor irmos embora! – Alertou João. — Não quero correr de tiro, se estivermos entrando na terra de alguém.

— Isso aqui é terra de ninguém, João! – Gabriel Orlínski se afastou dos dois, abriu os botões da calça e começou a urinar. Cantarolava algo enquanto se aliviava, observando os lados para se certificar de que os amigos ainda estavam ali e não o abandonaram. Foi num desses lançar de olhos que se deparou com a sinistra figura que andava pela escuridão, cercando-os e assistindo aos três com interesse. — Santo deus! – Gritou. — Que susto!

— O que foi? – Andrev e João correram em sua direção.

— Acho que vi algo ali na frente – apontou para o breu.

— Eu disse que é melhor sairmos daqui! – João foi mais severo. Andrev e Orlínski começaram a correr.

Foram o mais rápido possível até o carro, perguntando alto o que Gabriel tinha visto. Andrev ligou o veículo e foram em direção à cidade. Orlínski narrava o que julgou ser um homem coberto da cabeça aos pés com um hábito que parecia ser de um monge. João tentava fazer o desenho em sua cabeça. Seria o mesmo vulto que vira mais cedo? Ou estavam sendo vigiados por mais de um sujeito? O que uma pessoa estaria fazendo no meio do mato vestido assim? Apenas uma certeza ele possuía: deveria voltar ao local assim que a luz do dia pudesse iluminar mais pistas desse mistério, e fosse seguro estar ali mais uma vez.


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