Capítulo 4

Oito horas da manhã no palacete Kinsky, e todos os criados estão preparados para atender o casal. O mordomo, um velho inglês chamado Charles, é o responsável por ajudar Andrev a se vestir. A governanta, a francesa Mariette, todos os dias, certifica-se de que o café da manhã estará servido no horário, enquanto a dama de companhia de Anna, a carioca Cláudia, vai ao quarto de sua patroa para ajudá-la com o espartilho e a roupa da manhã. Tudo é perfeitamente sincronizado na rotina daquela residência da nobreza, mesmo estando a quilômetros de distância dos protocolos europeus.

Quando Andrev anunciou o seu despertar, o mordomo Charles correu para o seu quarto, numa das extremidades da casa. Andrev e Anna não dormiam no mesmo ambiente. Assim que o empregado mais experiente da família chegou, abriu as cortinas, deixou os jornais numa das mesas que compunham o mobiliário do cômodo, e passou os telegramas ao príncipe. Em decorrência da Guerra, as informações via telégrafo com a Europa foram dificultadas em muitos países, e as notícias sobre sua família vinham pelas demoradas cartas ou em alguma mensagem “urgente”, que custava a chegar.

— Bom dia, senhor – disse Charles, num português carregado de sotaque. Andrev exigiu que todos os empregados aprendessem o idioma do país onde moravam desde 1914.

— Bom dia, Charles. O que temos para hoje? – Andreve bocejou, sentindo os olhos arderem com a luz da manhã, assim que o mordomo abriu as pesadas e decoradas cortinas.

— Telegramas, senhor. Os jornais já estão aqui.

— Vou ler mais tarde – Andrev se levantou e começou a sua toalete. — Algum telegrama importante?

— Seu irmão, senhor. Ele informa que está no Castelo Valtice, em Brno – o mordomo escolhia a roupa de Andrev, que esperava, enrolado num roupão de seda, sentado numa luxuosa poltrona.

— Brno? O que ele foi fazer lá?

— Foi tratar de uma gripe, senhor. Ele disse que o ar do campo vai fazer melhor para os seus pulmões.

— Cruzar o país em guerra para tratar uma gripe? Depois eu sou o filho problemático da família – Andrev permitiu que Charles limpasse o seu rosto e cuidasse de colocar a camisa e a calça. Em seguida, ergueu-se e aguardou até o mordomo terminasse de vesti-lo, com o colete para o dia e o restante das roupas exigidas para um cavalheiro. — E minha irmã?

— Não há nenhuma notícia de Londres, senhor – lamentou o senhor de rosto severo.

A família de Andrev estava espalhada por vários países da Europa, graças aos casamentos arranjados durante várias gerações. Seu irmão, Edvard, era casado com uma nobre Húngara cuja família tinha muita influência no Império Austro-húngaro; sua irmã, Adéla, era esposa de um duque inglês, vivendo com ele em Londres. Assim como as casas reais que detinham o poder na Europa, os Kinsky estavam presentes em diversos locais de riqueza, como membros de famílias nobres ou parentes de reis, rainhas, príncipes e princesas. Apenas Andrev fora lançado para longe do continente. Seu casamento não fora planejado para ter algum sucesso econômico ou nobiliárquico, sendo Anna herdeira de uma fortuna muito menor que as do duque ou da esposa do irmão mais velho. Anna era “apenas” a filha de uma nobre família da Morávia, que assistia sua fortuna minguar dia após dia. Casar-se com um Kinsky foi uma surpresa até mesmo para os pais da moça, que jamais esperavam que ela poderia contrair matrimônio com alguém de uma descendência tão influente e poderosa. Contudo, o destino do casal já estava selado antes mesmo do matrimônio: seriam jogados no Brasil, para cuidarem dos negócios que menos geravam interesse para os Kinsky.

— Enfim... mais alguma coisa importante? – Andrev admirava sua imagem refletida no espelho.

— Dos Guinle, no Rio de Janeiro...

— Guilherme ou o irmão que só pensa em gastar dinheiro com a esposa?

— Na verdade, é um convite para passar o verão em Petrópolis.

— Não! Não vou passar o verão naquela tortura! Mande uma resposta educada, Charles. Você sabe fazer isso melhor que ninguém, não importa o idioma! — Andrev sorriu, enquanto verificava se estava perfeito e pronto para sair do quarto. — E Orlínski? Quero que me avise quando ele acordar.

— Já acordou, alteza. Está com a princesa e a senhorita Amália, no jardim.

— Jardim?

— Sua alteza real decidiu tomar o café no jardim.

— Se ela decidiu assim. Vamos ao jardim, Charles, ao jardim!

Pegou um dos jornais e desceu pelas escadas, lendo a coluna social enquanto andava. O artigo do jornalista Arthur de Azevedo já havia sido publicado, enchendo de elogios o espetáculo no Teatro e o jantar em homenagem à Amália Sousa. Orgulhoso, Andrev chegou ao alpendre que dava vista para o jardim, sendo recepcionado carinhosamente pelo casal de cachorros que criava. Os dois cães, de pelo brilhante e abundante, brincavam com o dono como se o vissem pela primeira vez na vida, com uma alegria genuína e animadora. Logo em seguida, desceu os degraus que ligavam a casa ao jardim e caminhou até a mesa, montada para o café da manhã especial, em homenagem à Amália Sousa.

— Bom dia, senhoras! E, bom dia, Orlínski – Andrev se sentou, colocando o jornal sobre a mesa e cruzando as pernas. — Parece que a noite de ontem causou comoção na cidade!

— Eu li, querido – disse Anna, tomando o seu café, numa fina xícara de porcelana.

— Amália fez história! – Orlínski se exaltou.

— Nem foi tão espetacular assim. Esse Arthur exagerou – Amália descansou a sua xícara e o pires sobre a mesa. — E o teatro tem muitos problemas. Não ajudou! Se não melhorarem, ele vai acabar como um cinema qualquer de um bairro fuleiro – brincou. — Não me admiraria se colocassem tudo no chão para construírem alguma loja ou um banco – completou.

— O Verdussen falou algo a respeito disso, no jantar – Andrev abriu o jornal e tentava ler alguma notícia qualquer. — Essa cidade quer virar Paris em uma década. Planejam mais do que podem ter!

— É o progresso, alteza! – Continuou Amália, ainda num tom irônico. — É por isso que você está aqui: para dar a eles o que querem.

— Haja dinheiro! – Andrev fingia estar concentrado na leitura. — O povo aqui só gosta de sonhar!

— E quando eu falo que aqui é uma grande roça iluminada, aquele prefeitozinho torce o nariz! – Orlínski se manifestou, jogando a fumaça do cigarro em direção ao céu e cruzando as pernas.

— Não quero ouvir política logo pela manhã – Anna reclamou.

— O que os rapazes farão hoje? – Amália perguntou, apertando os lábios cobertos de batom. Todos estavam muito bem vestidos para uma hora tão cedo do dia.

— Vamos ver como estão nossos cavalos – Andrev continuava com os olhos fixos no jornal. — E as senhoras?

— Vamos ao palácio para um chá, e depois passear na praça, para Amália ver como a cidade está – Anna respondeu.

— Lembre-se que, no mês que vem, o presidente é outro. Não vá causar algum constrangimento – advertiu o príncipe.

— É só um chá, querido – Anna se levantou. — Não haverá constrangimento algum. Afinal, Dona Francisca é a esposa do próximo presidente da República – começou a caminhar pelo jardim.

Amália terminou a refeição e se dirigiu ao quarto, para começar os preparos para o passeio com a princesa. Andrev e Orlínski permaneciam sentados à mesa, num profundo silêncio. Gabriel tentava ler as ações de Andrev, mas a posição quase imóvel do príncipe o deixava ansioso:

— Cavalos?

— Amália detesta cavalos. Não poderia arriscar que ela preferisse ir conosco ao chá enfadonho com dois velhos e a minha esposa – dobrou o jornal, colocou-o sobre a mesa e se levantou. — Vamos? O que temos que fazer é mais urgente!

Enquanto caminhavam para o interior do palacete, o mordomo surgiu, reportando a ausência do afinador de pianos e de seu filho. O velho criado queria se desculpar pela demora em deixar o instrumento em ordem, avisando que saraus ou reuniões do tipo ainda precisariam esperar. A notícia fez Andrev e Gabriel trocarem olhares sérios e preocupados.

— O pai de Rodolfo não está na cidade? – Questionou Andrev.

— Não, senhor – respondeu o mordomo. — Não deixaram nota de quando retornam à cidade. Como vossa alteza ordenou que utilizássemos apenas os serviços deles...

— Tudo bem, Charles! – Andrev deu as costas ao criado. — Avise-me quando regressarem! – Ordenou, ouvindo os passos do mordomo andando para outro cômodo da casa.

Gabriel e Andrev pararam diante da entrada da residência. O príncipe estava pensativo, com o olhar preocupado e passando a mão constantemente no rosto. Orlínski o observava, igualmente tenso, mas aguardando Andrev se manifestar para poder falar algo produtivo.

— É o segundo, Orlínski! O segundo! – Andrev olhava a rua enquanto falava. Um bonde elétrico anunciava a sua passagem não muito distante dali.

— Nós não sabemos se foi o Rodolfo...

— Você não disse que o doutor estava com um corpo em casa?! – Cortou Andrev.

— Pode ser qualquer um! João está se estabelecendo aqui. Não pode recusar serviço algum. É preciso manter a calma, Andrev!

— Mas o delegado o procurou...

— Óbvio! Que jornalista vai atrás de um médico preto, Andrev?

— E você confia nesse João? Ele sabe... de você?

— Não sabe nada sobre isso. Mas eu confio nele. Na Europa, ele se mostrou leal e muito diferente das pessoas daqui.

— Eu não sei... achei que ele fosse falar algo ontem – o príncipe pegou um cigarro da cigarrilha de Gabriel, assim que o viu tirá-la do bolso.

— Podemos conversar com ele. Ele não vem para o jantar? – Orlínski também acendeu um cigarro.

— Eu convidei o Balena para vir também...

— Alfredo? Por que você fez isso? – Orlínski contraiu as sobrancelhas.

— Ele é médico! Achei que seria apropriado apresentar o João a ele...

— Você quer comprar o João? – Gabriel fez uma expressão incrédula.

— Todo mundo tem sonhos, Orlínski. E ele vem ao jantar por causa de Amália, nem sabe que Balena estará presente. Ademais, se ele estiver mesmo com Rodolfo, precisaremos dele. Aquele delegado maldito não faz nada!

— Se ele fizer, meu caro príncipe, a imprensa pode ficar sabendo. É melhor assim...

— Uma polícia que não quer achar criminosos – lamentou Andrev, alongando os ombros e voltando para dentro da casa. — Vamos logo! O carro deve estar pronto. Vamos sair pelo outro lado...

Atravessaram o palacete e saíram para a rua, onde um empregado esperava com o carro do príncipe, o mesmo usado na noite anterior para irem ao sinistro local com João Augusto. Andrev dispensou o criado e entrou no carro, sendo seguido por Orlínski.

— Você sabia que Amália conhecia o médico? – Perguntou Andrev, assim que Gabriel se ajeitou dentro do veículo.

— Eu não. Nem sabia que eles eram amigos de longa data. Mas foi o momento perfeito para convidá-lo a vir para cá. Ele mudou o semblante quando a viu no palco ontem!

— Não quero envolvê-la nisso. Ela já me causou problemas demais! – Disse o príncipe, ligando o automóvel. Virou na Rua da Bahia e desceu em alta velocidade.

Toda vez que o príncipe conduzia seu carro pelas ruas causava algum frenesi nos transeuntes. Todos queriam ver o nobre passeando no veículo mais caro da cidade e, claro, sua passagem virava motivo de comentários nos cafés e nos jornais. Mesmo não querendo chamar atenção, Andrev podia ver os dedos apontados para ele naquela máquina. Tinha certeza de que a cidade inteira logo saberia que o príncipe estava na rua.

Em pouco tempo, o burburinho das ruas desapareceu e a civilização dava lugar ao mato e ao descuido das regiões mais afastadas. Mesmo durante o dia, a cidade tinha poucos sinais de movimento, que eram como pingos de óleo na água do marasmo. Sem pessoas para atrapalhar, os sons diurnos da natureza reinavam e a luz do sol brilhava majestosamente, num céu completamente azul e magnífico.

— Vai ser difícil saber onde paramos ontem – lamentou Andrev. — Mas eu acho que é por aqui.

— Não acho sábio deixar o carro aqui. Você viu o frenesi que você causou ao passar pelas ruas. Qualquer um sabe de quem é esse carro. Vai que damos o azar de passar alguém por aqui!

— O que sugere, então?

— Continua para frente, uai!

— Não sei por que estamos fazendo isso – disse o príncipe.

— Você que insistiu para virmos aqui hoje! – Protestou Orlínski num grito.

— Porque você disse que viu um vulto! – Andrev estava confuso ao volante. — Se alguém viu a gente ontem...

— A gente não fez nada aqui ontem. Você está paranoico!

Andrev parou o carro abruptamente. A poeira subiu em direção ao céu, obrigando os dois a se protegerem. Gabriel questionou o motivo da parada, e o príncipe apenas respondeu com um apontar do dedo indicador: estavam o mais próximo permitido do foco de luz da noite anterior. O casebre era a única construção visível da estrada e, a julgar pela lógica de Andrev, o possível ponto luminoso visto ontem. O resto do caminho, teriam que fazer a pé, no meio do mato e da sujeira da terra.

Caminhavam com cuidado, descendo o vale com medo de escorregarem até o córrego que corria lá embaixo. Com atenção redobrada, pularam as águas e subiram vagarosamente o morro, voltando à proteção das árvores e à densidade da mata, cujo verde cobria tudo, escondendo o casebre e protegendo-o de qualquer curioso que passasse pela região. Apesar de ser dia, o ambiente emanava suspense e terror, como se o sol não fosse capaz de levar embora a malignidade do local.

— Que lugar tenebroso! – Reclamou Orlínski, tentando não rasgar a calça nos arbustos que cobriam o solo.

— Temos que ficar atentos – Andrev mostrou a arma que carregava próximo ao seu ventre.

Com dificuldade, subiram até a parca estradinha que ia até a casa. No meio da mata, a passagem picada seguia, de um lado, até o local aonde queriam ir e, para o outro, até um destino desconhecido, encoberto pelas sombras. Poucos raios de luz conseguiam cortar as folhas, lançando ao chão fracas linhas iluminadas. Assim que chegou em terreno plano, Andrev ajudou Orlínski a terminar a subida e o puxou até o destino: o pequeno casebre que, de longe, estava entregue ao esquecimento e ao abandono.

— Como alguém pode viver nessa pocilga! – Gabriel limpava as barras das calças. Andrev, por sua vez, tirou a arma da cintura e se preparou para atirar em qualquer perigo que se aproximasse.

A pequena casa era feita de pau a pique e coberta por um telhado de palha. Sua aparência era deplorável e definhava pelas quinas e tocos de árvore à mostra por todas as paredes. Não era possível que algum ser humano vivesse naquelas condições. Tudo ali era caquético, decadente e morto. Apenas um louco, ou um bandido, escolheria aquele local tão ermo como esconderijo e abrigo. Andrev e Orlínski sabiam que se aproximavam de um covil pavoroso, lugar que só um maluco alienado sentiria prazer em estar.

— Tome cuidado! – Alertou Andrev. — Ele pode estar aqui!

No entanto, não havia sinal de presença humana. Tudo estava imerso num silêncio aterrador e até mesmo o vento ao redor parecia conspirar contra os intrusos, ajudando a transformar o local no mais aterrador lugar que uma pessoa em perfeita sanidade gostaria de estar. Apreensivo, Orlínski se protegia atrás de Andrev, que andava com cautela, medindo os seus passos e fazendo o possível para não anunciar sua presença com algum ruído. O casebre em ruínas estava envolto numa luminosidade cinzenta e estranha.

Sem dificuldade, Andrev empurrou a porta, cuja madeira estava podre e carcomida. Um ar umedecido bateu em suas faces, com um cheiro insuportável de mofo, fezes e urina. Na pequena sala que surgia, ganchos balançavam do telhado sem forro, e havia uma cadeira desgastada encostada num dos cantos. As correntes que vinham do teto apresentavam tons rubros, que brilhavam com a parca luz que vinha das falhas entre as palhas do telhado, rangendo à medida que o ar as movimentava de um lado para o outro. Na parede oposta à entrada, a imagem pendurada da Virgem, tão maltratada quanto o ambiente ao seu redor, parecendo observar tudo com uma certa maldade, como se já tivesse presenciado atrocidades naquele ambiente.

— Parece que não tem ninguém – cochichou Orlínski, incapaz de esconder o medo de adentrar tão terrível local. Andrev preparou sua arma, caminhando para o outro cômodo da casa.

O próximo cômodo tinha uma estante de livros, uma mesa com cadeira e a janela estava aberta, rangendo ao bel prazer do vento. Uma vela gasta e apagada descansava sobre o móvel rústico, ao lado de um livro velho. Na parede, algumas fotos pregadas. No final da sala existia outra passagem, sem porta, de onde exalava um cheiro terrível, imerso pela escuridão, já que não havia uma passagem de luz sequer no pequenino cômodo. Era um banheiro, mas apenas com a privada, com moscas que zumbiam fervorosamente, fonte de todo o mal cheiro que subia pelo ar como um miasma maléfico.

— Não. Não tem ninguém mesmo – Andrev descansou a arma e começou a vasculhar o ambiente. Passou pelos livros na estante. Alguns eram de terror, outros de anatomia, obras que não possuíam versões em português. — A pessoa que vive aqui, sabe ler em outros idiomas – disse o príncipe, parando ao lado do fogão à lenha, construído encostado num dos cantos da sala. — Ou usa esse lugar para ler coisas inapropriadas – passou os olhos pelos títulos de algumas obras, famosas pela indecência ou indiscrição.

— É um pervertido! – Orlínski abriu o livro sobre a mesa rústica. Cenas de sexo explícito surgiam das páginas, eram desenhos grotescos, com pessoas sendo expostas à tortura, enquanto o ato sexual acontecia. Os praticantes exibiam faces deformadas, malignas e demoníacas; em várias páginas, desenhos de enormes pênis a lápis, provavelmente feitos por algum leitor. Ao lado do livro, uma bíblia permanecia fechada, junto de uma imagem da Virgem e uma cruz com o Cristo crucificado.

— Andrev! – Orlínski chamou o príncipe para ver o livro. — Com quantos do clube você foi para a cama? – Perguntou, enquanto analisava os desenhos feitos pelo leitor desconhecido.

— Por favor, Orlínski, não é hora disso! – Andrev estava chocado com a pergunta.

— Não é ciúme, Andrev. É que algo me veio à mente...

— E o que isso tem a ver?

— Não sei... terei que reler algumas coisas que o Doutor Freud escreveu. É só uma ideia! – Percorreu os olhos para fora das páginas, procurando por mais pistas sobre a psique do morador daquela cabana.

Gabriel se espantou ao ver as fotos e esboços na parede. Afixadas sobre o barro da estrutura de pau à pique, imagens de homens, em sua maioria tiradas de jornais, revistas e livros, misturavam-se com fotografias post-mortem de rapazes jovens, algumas riscadas com um X, outras com mensagens ou desenhos de pênis sobre a boca ou outros membros dos rapazes. Alguns estavam completamente nus, outros em posições sexuais com outros homens. Orlínski se espantou ao ver a sua face a de Andrev entre as fotos na parede. Sua boca emitiu um ruído pavoroso, incapaz de controlar o medo, o nojo e a repulsão pelo que acabara de descobrir.

— Santo deus! – Num pulo, puxou o braço de Andrev, obrigando o príncipe a ver aquela parede sinistra. Sobre a face de Gabriel, a letra cursiva a lápis dizia “sodomita maldito”; já na de Andrev, nada estava escrito, era uma foto recortada do jornal, de quando o príncipe acabara de chegar à cidade. Próximo delas, a fotografia de Rodolfo, riscada com fúria por uma caneta que rasgava o papel como a faca corta a carne.

— Que coisa doentia! – Andrev analisava as imagens. — Ele também está aqui! – Apontou para outra face riscada na parede. — Vamos queimar isso tudo!

— Você disse que o delegado encontrou o corpo de Aurélio na estrada... – Orlínski divagou.

— Acho que perto de onde você viu o vulto ontem... – Andrev andava de um lado para o outro, cada vez mais nervoso. — Vamos colocar fogo nesse lugar logo!

— Se fizermos isso, ele saberá que estivemos aqui – Gabriel mantinha um tom calmo, como se estivesse a analisar um de seus pacientes.

— Você sugere deixar nossos rostos no meio desse inferno? – Andrev gritou. Orlísnki, no entanto, ignorou o descontrole do príncipe.

— E o delegado disse algo sobre esse lugar horroroso? – Perguntou Orlínski, tentando analisar a letra sobre a sua foto, questionando como o sujeito tinha conseguido roubá-la. Poderia ter sido algum paciente dele? Alguma pessoa que frequentava a sua casa? Sua cabeça fervilhava com as perguntas, mas seu olhar ainda permanecia frio e calculista.

— Não! Disse apenas que o corpo dele foi achado com uma arma na mão. Provavelmente, suicídio...

— E você acreditou nisso? – Orlínski voltou a analisar os desenhos feitos em várias imagens.

— Claro que não. Eu vi o corpo! – Andrev olhava para um Orlínski completamente mergulhado no que estava sobre a mesa e na parede. — Totalmente rasgado, sem olhos e com uma cruz... – cobriu a boca, sem ser capaz de prosseguir, espantado, vendo as fotos na parede. — O médico que entregou o corpo desapareceu! Mudou-se da cidade no dia seguinte... não precisei nem dar muito dinheiro. Ele mesmo sumiu!

— Qual era o nome do médico?

— Não me lembro, mas posso averiguar... isso conta? Era só um médico!

— Talvez...

— O que vamos fazer? Temos que achar esse infeliz!

— Eu não sei... – Orlínski analisava a foto do tal Aurélio, a primeira vítima do assassino.

— Nós estamos na lista dele! – Gritou Andrev. — Eu não quero morrer nas mãos de um maluco. Nem eu, nem você!

— Acalme-se! Vamos descobrir quem fez isso com Aurélio e levá-lo à polícia.

— À polícia? – Andrev se exaltou. — E o que vamos dizer?

— Que ele é um assassino – Orlínslki buscava, com todas as forças, manter a calma. — O ideal é vasculharmos mais para achar pistas, mas tenho receio de demorar aqui e sermos descobertos...

— Preste atenção em mim, Orlínski! Me responda: quem ele matou? Olha quem ele está perseguindo? – Andrev chutou a cadeira. — Nós vamos ser expostos, Orlínski! Passei um ano construindo uma vida aqui para ver tudo se perder por causa de um alienado! Não posso ficar pulando de um lugar para outro a vida toda: tenho esposa, meu pai me expulsou de casa e não dá para lidar com a sociedade como se nada tivesse acontecido!

— Fique tranquilo – Orlínski se aproximou de Andrev e acariciou o seu rosto ternamente. — Nós vamos dar um jeito nisso!

— Não vim para o meio do nada para ser perseguido por um assassino!

— Eu sei – Orlínski o beijou. — Vamos resolver isso! Vamos voltar para a cidade, nos preparar para o jantar e conversar com o João. Tenho certeza de que ele poderá nos ajudar!

— Não sei... – Andrev se afastou. — Não fico confortável sabendo que esse lugar vai ficar aqui, intacto! – Começou a chorar, apertando o rosto entre os braços de Orlínski.

— Podemos vir aqui à noite, depois do jantar – Orlínski olhava para o teto, enquanto tentava ajudar Andrev, protegendo-o com o seu abraço.

— À noite?

— Podemos surpreendê-lo aqui e acabar logo com tudo isso...

— Vai ser perigoso – Andrev voltava a si, calculando se valeria a pena correr o risco.

— Sim! Por isso precisaremos do João. Você tem que confiar nele.

— Vamos ver... – Recobrou-se e, depois de secar as lágrimas e recompor suas vestimentas, Andrev e Orlínski se certificaram de que tudo estava como encontraram.

Abandonaram a casa num silêncio cadavérico. Com certa dificuldade, voltaram ao carro e rumaram para casa. Muito em breve, o dia daria seus últimos raios de vida e a noite chegaria, com um jantar que prometia ser tenso. Andrev pensava se deveria mesmo confiar no jovem médico, e se perguntava como ele poderia ajudá-los a se livrarem dessa possível ameaça? Tudo permanecia incerto e cada vez mais obscuro. Sentia que seguiam para um caminho sem volta, e a morte seria uma companheira constante.


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