Capítulo 5

A carruagem seguia em direção ao palacete Kinsky. João estava com a expressão perdida, refletindo sobre o seu atordoado dia. Só dormiu depois que o delegado foi buscar o corpo de Rodolfo, após lhe informar de tudo que julgava ser necessário reportar ao oficial. Não foi uma conversa longa, já que o chefe da polícia não demonstrava interesse completo em captar tudo o que lhe fora passado. Para João, estava claro que tudo que fizera na análise do caso seria perdido ao vento. Durou apenas uma hora na cama, não conseguindo ficar mais do que isso. Precisava pensar em algo para solucionar o mistério da morte de Rodolfo, mas nada vinha à sua mente. Teria que descobrir mais sobre o rapaz para poder começar a lançar luz sobre esse caso. A vítima, contudo, era alguém distante de seu cotidiano. Apenas um nome conhecido numa cidade de pouco mais de cinquenta mil habitantes.

Agora, estava de novo de cartola e de gala, indo jantar mais uma vez com a elite. Não fosse o convite de Amália, jamais se submeteria a isso. Contudo, desejava muito dividir com ela alguns bons momentos e falar sobre o passado que viveram juntos, aliviando a tensão de um dia tumultuado. Sentia saudade de conversar com os conhecidos de outrora, e Amália tinha um lugar especial em seu coração. Não era alguém que ele pudesse ignorar, uma vez que talvez jamais fosse revê-la, pois logo ela voltaria ao Rio de Janeiro. No passado, amou aquela mulher com todas as forças e, mesmo com as recusas dela em aceitar o seu sentimento, ela nunca deixou de ser uma pessoa querida para ele: não nutria rancor pelos “nãos” que ela lhe dera e, por isso, estar em sua presença seria um alento que tanto desejava sentir.

Desceu da carruagem e fitou o palacete sob a luz do luar, que já estava firme no céu. Podia ouvir o som dos violinos lá dentro, mas hesitou. Acendeu um cigarro, dirigindo seu olhar para o céu, na medida em que a noite imperava. A suave música vinda do interior ajudava João a pensar. Sua mente era uma mistura confusa, entre Amália, Rodolfo e o vulto da noite anterior. Tudo girava dentro dele, e queria colocar as coisas no lugar. Odiava o destino por colocar aquele cadáver na sua vida, mas sentia-se responsável por resolver o mistério e levar paz à memória do pobre rapaz. Era a sua missão e deveria abraçá-la até o fim.

— Está com medo de soar a campainha? – A voz de Orlínski quebrou o raciocínio de João.

— Você também foi convidado? – João jogou o resto do cigarro no chão, estranhando a presença de Gabriel ali.

— Eu dormi aqui – Orlínski acertou o traje de gala e olhou para o palacete de modo altivo. — Só fui até minha casa para me trocar.

— Curioso como você é tão íntimo do casal real – insinuou João. — Achava que você era apenas o médico da princesa.

— Meu trabalho me torna íntimo de muitos pacientes. Afinal, eles acabam contando os seus segredos mais profundos para mim.

— E é apropriado ficar tão próximo assim dos pacientes? – Questionou João, enquanto batia a bengala no sapato, para tirar a poeira.

— Quando a paciente é uma princesa, sim! – Gabriel riu. — Vamos? Amália deve estar ansiosa para te rever.

— Duvido! Deve ter passado o dia todo envolvida com admiradores e gracejos. Gente rica adora bajular, e ela é uma artista, vive de bajulações!

— Não tenho certeza, meu amigo. Ela foi a um chá com a esposa do presidente. Certamente, uma tarde com uma velha senhora não deve ter sido muito emocionante – brincou.

— Esposa de político mineiro recebendo artista para um chá. Os tempos estão mudando! – João terminou de se ajeitar e voltou a fitar a entrada do palacete.

— É a modernidade, doutor João! Passamos um século como caipiras, é hora de alguma mudança – Orlínski caminhou até a campainha, tocando-a. — Afinal, é um novo século!

— Minas começa onde a estrada acaba, meu amigo. Ainda não vi nada de muito diferente aqui.

— Vamos esperar. Acredito que muito já mudou.

— Para você, né? Que vive entre teatros, palacetes e gente rica...

Antes que pudessem continuar a conversa, um criado surgiu para recepcioná-los. Ele os conduziu até o alpendre, uma bela obra em ferro forjado, que protegia a entrada principal, e tinha uma porta de madeira decorada com imagens de deuses e vidro. Dentro, o som harmonioso dos violinos e do violoncelo era entrecortado por várias risadas. Andrev, sua esposa e Amália se entretinham com os comentários de Alfredo Balena sobre um assunto qualquer, cujo conteúdo João não pode captar.

— Achei que, essa noite, não haveriam convidados além de mim – João comentou com Gabriel, deixando a cartola e a bengala com o criado que os recebera.

— Sempre tem alguém diferente aqui, João – Gabriel falou de um jeito expansivo e arrogante. — Tem que se acostumar!

Amália foi a primeira a se erguer da poltrona para cumprimentar João. O salão onde estavam era decorado em vermelho e dourado, dando ao ambiente uma gostosa sensação de conforto e um toque feminino e intimista. No teto, um lustre brilhava sobre todos que se apresentavam naquele palco social com elegantes roupas, bebendo aperitivos no mais fino cristal, ouvindo a música agradável que os animava ainda mais. Estar ali era como um sonho: algo distante da realidade sofrida da maioria das pessoas que construíram e habitavam a jovem capital. Um outro mundo, protegido pela ornamentação luxuosa e pelos modos regidos por etiqueta e costumes vindos da elite europeia. Os Kinsky viviam, definitivamente, numa outra era, na qual poderiam se gabar de estarem entre os donos do mundo. Entretanto, estavam ali, no meio de uma cidade recém-construída, onde a carestia convivia lado a lado com os suntuosos prédios da administração pública e as residências construídas para os que mandavam no Estado.

— João Idalino, você veio! – Amália disse, sorridente.

— Eu não poderia me declinar de um convite seu, Amália Sousa – João se curvou e beijou a mão dela.

— É um prazer recebê-lo novamente em minha casa, doutor João – Andrev foi até o médico para cumprimentá-lo. — Certamente, o senhor deve conhecer o doutor Alfredo Balena.

— Sim, mas não pessoalmente – João apertou a mão do jovem doutor. — É um prazer conhecer outro colega de profissão.

— Igualmente – disse Alfredo, um pouco sem jeito, mas animado pela presença de João. — O príncipe Andrev falou muito bem de você.

João titubeou. O que Andrev teria para dizer sobre ele? Eles se conheceram na noite anterior, não haveria motivo para o elogiar para um importante médico da cidade. Teria feito aquilo por causa de Amália? Ela seria a responsável pelo convite de uma figura ilustre da medicina de Belo Horizonte? João não sabia o que dizer, apenas agradeceu e deixou que o médico falasse. Ignorando os demais, começaram a falar sobre o trabalho e a carreira. Alfredo narrava suas funções na Escola de Medicina, perguntando a João sobre várias questões técnicas, desejando saber a sua opinião. João Augusto logo percebeu o desejo do novo conhecido em testá-lo. Na verdade, o que ficou claro era que ele precisava provar para o médico que também era um bom conhecedor da área. Isso o deixou desconfortável, armando-se para qualquer assunto que pudessem colocar naquele círculo distinto. Não queria ter que se mostrar merecedor de estar ali, e uma sensação estranha deu um nó em suas entranhas.

— Vocês vão ficar falando sobre isso a noite toda? – Amália brincou. — Não quero ouvir sobre germes antes do jantar – riu.

— Por isso, eu prefiro estudar a mente – Orlínski se intrometeu na conversa. — Ficar falando de espirro e doença infecciosa? Minha santa mãe! – Todos riram.

— Mas é algo com que temos que nos preocupar – disse Alfredo, num tom elegante. — Tenho lido algumas notícias alarmantes, de uma gripe na Europa.

— Mas ninguém vai morrer de gripe, né? – Amália terminou de tomar o licor que segurava numa elegante taça.

— Não antes do jantar – Anna comentou, convidando-os para irem à mesa, no outro salão.

O jantar foi esplêndido e animado. Alfredo Balena estava cada vez mais interessado em João Augusto e no que ele narrava sobre seu trabalho com os mais pobres da cidade. Após comerem, a música continuou, enquanto os comensais desfrutavam de mais bebida alcóolica. A única diferença é que estavam, mais uma vez, alocados em outro cômodo da casa. Ele possuía janelas francesas que davam para o jardim, mergulhado na escuridão e nos sons da noite, com grilos a cantar e vagalumes lançando o seu brilho, disputando com a luz da lua e a que vinha de dentro do palacete. João os observava, fumando um cigarro na janela, distante da conversa que Anna, Andrev e Gabriel mantinham com Balena.

— Entediado, João Idalino? – Amália se aproximou com um cigarro na mão, solicitando, num gesto silencioso, que João o acendesse. — Não posso desfrutar desse prazer com muita frequência – confessou, após tragar e soltar a fumaça.

— Não necessariamente. Gostei de poder te rever e isso não me deixa ficar entediado – João sorriu.

— Ora, ora, ora! Parece que você está começando a gostar de frequentar ambientes como esse – brincou.

— Somente quando você está nele – riu.

A conversa seguiu num tom bem-humorado. João queria saber como Amália foi para o Rio, como conseguiu se tornar uma cantora famosa e como vivia na capital do país. Os assuntos surgiam e fluíam com a mesma facilidade que desabrocham as flores na primavera. O tempo passava sem que eles se percebessem disso e quanto mais falavam, mais queriam desfrutar daquele momento a sós. João olhava para Amália com um brilho intenso, feliz pelo reencontro. No entanto, sentia correr um medo pelas veias, um receio de que, muito em breve, ela voltaria para o Rio e ele teria que conviver com a sua falta, tal como ocorrera no passado. Queria poder manter Amália junto a ele, voltar a conviver diariamente com ela, poder contar seus segredos sem constrangimentos. Mesmo passado tanto tempo, Amália era a única mulher que valia a pena lutar e cuja ausência seria dolorosa. Entrementes, lutou por ela outrora e, naquela ocasião, perdera. Seria prudente nutrir, mais uma vez, sentimentos pela famosa cantora? Precisava ser racional para não ver seu coração em pedaços mais uma vez. Não era justo tentar convencê-la de largar todo aquele mundo para ficar com ele, fazendo-a abandonar os seus sonhos.

— João! – Orlínski surgiu atrás dos dois. — Vamos tomar um conhaque e fumar um cigarro?

— Claro! Vamos, Amália? Mais um cigarro não vai lhe fazer mal.

Ela riu.

— Não, João! Esse convite é só para os homens. E eu estou cansada. Os assuntos masculinos me dão muito sono! Não seria uma boa companhia, de todo jeito – despediu-se educadamente e subiu com Anna para os quartos. Alfredo também recusou o convite e deixou o palacete, após anunciar o desejo de manter contato com João Augusto.

— Vamos combinar um café qualquer dia desses – disse Alfredo.

— Claro! Será um prazer – João agradeceu o convite.

Andrev, Gabriel e João foram até a sala destinada ao conhaque e aos cigarros. Um ambiente cujo piso era coberto por um amplo tapete persa, as paredes decoradas com paneis de madeira marrom e com poltronas de estofado bordado em verde e dourado; o lustre era menor que os dos demais salões, mas muito elegante, feito em ferro e importado da Bélgica. No meio, uma mesinha com tampo de mármore, onde uma estátua art nouveau de uma mulher seminua, vinda de Paris, dava um toque feminino numa sala totalmente voltada para o desfrutar masculino, com tudo o que fosse necessário para a arte de fumar cachimbos, charutos etc. Enfim, tudo que os cavalheiros da elite precisavam para alimentar suas conversas, e o seu ego, após o jantar.

— Hoje não vamos partir numa aventura? – Perguntou João, ironicamente, enquanto analisava o ambiente.

— Ao contrário – disse Andrev, seriamente. — Nós vamos voltar àquele lugar hoje.

— Isso só pode ser brincadeira, né? – João ficou surpreso. — Não bastou o susto de ontem?

— João... – Orlínski andava pela sala, a expressão séria trazia certo desconforto, deixando no ar uma tensão desproporcional. — Nós sabemos que foi você o encarregado do corpo encontrado naquela estrada.

João congelou. Como eles sabiam disso? Lembrou-se de que Gabriel o encontrara coberto de sangue no dia em que foram ao teatro, mas pela reação que teve naquela ocasião, não acreditou que ele fosse dar importância ao fato. Por que o súbito interesse? E qual seria o motivo para Andrev também estar metido nessa? Agora, tinha certeza de que o príncipe escolhera o caminho para irem, na noite anterior, de propósito. Sem saber ao certo o que fazer, João se sentou numa das poltronas, tentando ao máximo se mostrar frio e calculista.

— Não sei do que vocês estão falando – mentiu.

— Rodolfo... – Andrev encarou o doutor. João olhou diretamente em seus olhos, pegando o copo de conhaque que esperava por ele sobre a mesa de centro. — O filho de Maximiliano Nazzari, o afinador de pianos.

— Nós fomos lá hoje cedo! – Orlínski cortou. — Aquele casebre é o esconderijo do maldito que fez isso com Rodolfo! – Apesar de ainda ter dúvidas se a vítima era realmente Rodolfo, Gabriel evitou colocar essa dúvida naquele momento, desejando saber se João confirmaria as suspeitas de Andrev quanto à identidade do morto.

— Vocês foram lá... – João mantinha o ar sério e frio, sua mente trabalha a todo vapor. — E o que tem lá dentro?

— Primeiro, nos confirme que o corpo passou por você – Andrev foi até a janela, observando a tranquila rua.

— Por que tanto interesse num assassinato? – Indagou João.

— Porque você não viu o que nós vimos lá dentro! – Andrev matinha os olhos no cenário, lá fora, através do vidro da janela. Apenas um homem de cartola, numa distância considerável, permanecia parado, em pé, ao lado de um poste. — Acho que estamos na lista desse assassino – Andrev se virou, objetivamente, para o interior da sala.

— Por que acham isso? – João já não escondia a sua curiosidade.

— Vimos nossas fotos lá, João – Orlínski se sentou na poltrona ao lado do amigo. — E a polícia não quer fazer nada!

— Mas se o príncipe pode estar ameaçado, por que a polícia não faria nada? – João não acreditava naquela conversa. Uma pessoa tão rica quanto Andrev poderia mover a polícia ao seu bel prazer.

— Você sabe o estado em que foi encontrado o corpo... – Andrev respondeu. — Você sabe muito bem o que foi feito dele! – Fitava o doutor como um inquisidor, seu semblante se modificou.

— Você o viu? – João indagou.

— Não. Mas esse é o segundo encontrado no mesmo lugar.

— O quê? – João se assustou. Não sabia se deveria confiar nos dois totalmente, mas eles davam informações que se mostravam muito úteis para ele.

— Aurélio Mota – Orlínski falou com uma expressão triste no rosto. — O filho do advogado Mota.

— O que se matou? – João tentava puxar na memória a face do rapaz. Numa cidade pequena, os jornais anunciavam constantemente as mortes das pessoas ilustres.

— Uma mentira! Criaram essa história... – Continuou Orlínski. — Você foi chamado pelo delegado, porque quem cuidava desse caso abandonou a cidade depois de ver o estado do corpo. Um segundo corpo assustou ainda mais à polícia!

— Isso tudo parece loucura para mim – João apagou o cigarro do cinzeiro. — Por que vocês estão envolvidos nisso? Como sabem de tudo isso?

— Chega, Orlínski! – Andrev cortou. — Ele não vai falar nada. Vamos ter que ir apenas nós dois.

— Vocês planejam ir lá mesmo? – João permanecia incrédulo.

— Vamos acabar com isso de uma vez. Surpreendê-lo e... – O príncipe hesitou.

— Dar um fim nele – completou João. — Loucura isso!

— Se fosse com você, meu amigo – Orlínski encarou João. — Se fosse com você, eu iria sem pensar. Julguei que fôssemos amigos! Eu preciso da sua ajuda.

João Augusto sentiu sua honra sendo testada. Gabriel fora um verdadeiro companheiro durante os estudos na Europa, um dos poucos amigos na fria e poluída Londres. Os laços de amizade que possuíam eram fortes e não poderia deixar de lhe dar assistência; não ao vê-lo diante de si com uma expressão de medo e preocupação. Além disso, era necessário averiguar com os próprios olhos todas essas informações que recebera. Eram pistas cruciais para desvendar o mistério e, ir com os dois, era uma ideia melhor do que descobrir tudo sozinho. Mas, e se o assassino estivesse realmente lá? Não queria ter que matar ninguém, nem lutar por sua vida.

— Espero que não haja a necessidade de matar alguém essa noite – sabia que a possibilidade de se arrepender daquilo era alta, no entanto, continuou. Preferiu deixar se guiar pelos seus valores para aquela decisão irracional. — Mas eu irei com vocês. Quero ver se o que vocês estão dizendo é verdade.

— Tudo bem... – disse Orlínski, percebendo a expressão de desagrado de Andrev. Ele sabia que não poderia forçar o amigo a algo além daquilo. Não era o momento de pressionar ainda mais João. Andrev não gostou da ideia, mas preferiu seguir Gabriel. Quem sabe tudo acabaria naquela noite e não fosse necessário dar mais explicações ao doutor. Mas não era, a seu ver, a melhor decisão.

— Você sabe atirar, doutor? – Perguntou Andrev.

— Orlínski me obrigou a atirar com ele, em Londres. No caso, era apenas por esporte – respondeu, olhando direto para Gabriel, que sorriu, orgulhosamente.

— Excelente! – O príncipe caminhou pela sala, abrindo a porta que dava acesso ao seu gabinete, local onde passava várias horas dos seus dias, trabalhando. Entrou no meio da escuridão e, sem acender as luzes, voltou com uma caixa de madeira. Dentro dela, algumas armas descansavam sobre o veludo verde, com as balas formalmente posicionadas numa das extremidades. — Escolham as armas que quiserem – disse Andrev. — E não se preocupe, doutor, caso haja alguma morte hoje, poderemos alegar defesa da nossa honra.

— Há leis contra esse tipo de coisa, alteza – João pegou uma das armas sem escolher muito.

— A única lei que impera nesse país é a da conveniência, doutor – disse o príncipe. — Não precisa se preocupar. E se você me ajudar, poderá contar comigo no que precisar – concluiu.

— O Balena... – João entendeu rapidamente o motivo da presença do médico no jantar. — Você o trouxe aqui para isso! – João estava indignado. — Se é conveniente, por que não compra a polícia para isso?

— Pelo amor de deus! – Cortou Orlínski bruscamente. — Não é hora disso! – Olhou para Andrev com reprovação. — Vamos logo!

Gabriel conseguiu apaziguar os ânimos, e os três foram até o carro. Desceram a Rua da Bahia, no meio de um centro completamente deserto. Já passava da meia-noite e, à medida que se reaproximavam do fatídico local, João sentia novamente a tensão, misturada com o cheiro da morte impregnado na estrada de terra batida, cercada por densas árvores. A neblina retornara poderosamente. O local estava muito frio e apavorante, com noites inóspitas para os descuidados que subestimam o clima das montanhas. João Augusto olhou para os lampiões no chão do carro e respirou fundo. Em pouco tempo, estaria diante do desconhecido e do maior perigo de sua vida.

Andrev parou o carro no mesmo local da manhã anterior. Orlinski e ele alertaram João do pequeno vale e do córrego que cortava a terra logo abaixo. João apenas consentiu com a cabeça, lembrando que tinha ouvido o som da água na última vez que foram juntos lá. Acenderam os lampiões e olharam para o casebre, cuja luz bruxuleante da vela era o único ponto brilhante, quando a neblina dava trégua e permitia avistar algo por entre o nevoeiro. Pela iluminação, alguém deveria estar dentro daquela casa acabada e decadente.

— A neblina poderá ser uma aliada – cochichou Andrev. — Tomem cuidado na descida – seguia à frente, indicando aos demais onde deveriam pisar.

— Espero que seja a última vez que tenhamos que vir a esse lugar tenebroso – disse Orlínski.

— Rua da Maldade – João seguia Gabriel e Andrev. — Não é esse o nome do lugar? Não poderia ser menos assustador.

Lentamente, e com muito cuidado, superaram o vale e subiram até a estradinha tosca que dava no casebre. Os ventos da noite sopravam brumas sobre o local, dando-lhe um aspecto apavorante, como se o próprio diabo fizesse daquele lugar a sua morada. Dali, não podiam avistar muita coisa ao redor. Para piorar, podiam sentir que algo maligno atuava sobre toda a região, envolvendo-a numa atmosfera de terror e medo.

— Preparem as suas armas – Andrev cochichou mais uma vez.

Avançaram um pouco mais. O coração de cada um batia com muita tensão, as pernas vacilavam e andar era um comando que demandava demasiado trabalho. O instinto de sobrevivência alertava que deveriam correr dali e necessitavam lutar com todas as forças para que o medo não os transformasse em covardes. Gotas de suor corriam pelas têmporas e o estresse fazia suas cabeças pulsarem debaixo das cartolas; as mãos tremiam e a respiração forte lançava sons nervosos no ar. Será que poderiam estar numa emboscada? O que estaria esperando por eles dentro daquela casa?

Não podia vacilar e denunciar que estavam ali. O fator surpresa era essencial para o sucesso da empreitada. Por isso, num chute, Andrev abriu a porta bruscamente. Era melhor pegar quem estivesse ali de espanto. Todavia, o casebre estava vazio, mais uma vez. O primeiro cômodo, entregue à escuridão, conservava os seus ganchos pendurados no teto, rangendo com maior força, em razão do vento que entrava pela janela. Tal som aterrador ganhou ainda mais potência após o movimento brusco do príncipe. A luz da vela vinha do segundo quarto, enfraquecendo-se cada vez mais, sobre a mesa junto à porta. Andrev acelerou o passo, temendo que o seu golpe pudesse alertar quem estivesse no interior da casa. Porém, mesmo no próximo ambiente, não havia viva alma.

— Não há ninguém – constatou Andrev, abaixando a sua arma.

— Tomem cuidado! – Alertou João. — Ele pode estar esperando a oportunidade para nos pegar de surpresa.

A primeira coisa que João avistou foi a estante de livros. Foi até ela, observando os títulos das obras em inglês e em francês. Colocou seu lampião sobre uma das prateleiras e tirou uma das obras para analisá-la. Era “Frankenstein”, em inglês. Abriu a capa e folheou algumas páginas. Para a sua surpresa, não era a famosa obra de Mary Shelley, mas sim uma coleção de imagens pornográficas, espalhadas em vários contos de sexo e tortura. — Parece que o nosso suspeito gosta de um tipo bastante peculiar de se relacionar com homens e mulheres – mostrou algumas páginas para Orlínski, que estava mais próximo dele.

— Havia um assim sobre a mesa ontem – Gabriel olhou em direção ao móvel. Dessa vez, apenas a vela e o crucifixo estavam sobre ela.

— “Nobreza do Império Austro-húngaro” – João traduziu o título de mais um livro que pegou na estante. — Esse parece não esconder nada.

— O maldito é erudito – Orlínski se locomoveu em direção às imagens presas na parede.

— Alguns tratados eclesiásticos... – João passava os dedos pela estante, lendo em voz alta os demais trabalhos impressos, alguns velhos e raros. — Anatomia... – pegou, curioso, o livro para verificar o seu interior. Ao abri-lo, diversos desenhos e fotos caíram no chão. Alguns vinham com escritos no verso, mas seria difícil analisá-los ali. Sem pensar, João os colocou no bolso, antes que os demais pudessem vê-lo fazendo isso.

— João – Orlínski o chamou. — Acho que você deveria ver isso – apontou o lampião para as imagens. A luz da vela vacilava e perdia ainda mais a sua força para iluminar a sala. As mãos de Gabriel tremiam.

João devolveu os livros para o lugar e se moveu até o amigo. Aproximou-se, investigando as fotos presas ali. Viu a de Orlínski, de Andrev e a de Rodolfo; não conseguia lembrar o rosto de Aurélio para poder identificá-lo. Todas as imagens lhe davam arrepios. As fotografias post mortem eram ainda mais apavorantes. Todas aquelas pessoas em caixões era uma visão aterradora. Contudo, o mais apavorante foi ver um desenho do seu próprio rosto pendurado ali, numa das extremidades. Constatar a sua face quase o fez cair para trás. O pânico tirou o movimento das suas pernas e, por um momento, não conseguiu pronunciar as palavras. Apenas olhava fixamente para sua imagem, petrificado.

— Q-que porcaria é essa? – Perguntou, depois de ter recobrado as forças.

— Agora, você sabe o que a gente sentiu quando vimos as nossas fotos coladas aí – disse Orlínski.

— Mas não faz sentido! – Protestou. — O que eu estou fazendo aqui? Como fui parar no meio disso?

No mesmo momento em que os dois médicos examinavam as fotografias, Andrev caminhava até o banheiro sem janelas do casebre. Temia que o assassino pudesse estar ali, espreitando, e se julgou idiota por não ter pensado nessa hipótese assim que chegaram. Por sorte, o pequeno e fedorento cômodo não tinha ninguém. Entretanto, ao observar com um pouco mais de cuidado, pôde ver pedaços de algum animal jogados dentro do vaso e espalhados pelo chão. Quando aproximou o lampião para averiguar melhor, seu estômago se revirou. Golfou, querendo vomitar, soltando um grito que chamou a atenção de Orlínski e João, que se lançaram em sua direção. Dentro do vaso de porcelana jaziam partes esquartejadas de um porco, jogadas de qualquer jeito e com muitos pedaços pendurando das bordas do sanitário sujo e velho. Sobre todas as peças cortadas de forma bruta, repousava a grotesca cabeça do pobre animal, que não apresentava os olhos; no lugar deles, apenas os profundos buracos de onde escorriam sangue. Da boca do suíno, o mesmo líquido rubro jorrava em direção ao solo.

— Vocês viram aquilo ali? – Andrev aproximou ainda mais a luz do bicho, apontando para o local que queria indicar. — Vejam onde a cruz está colocada! – Seu rosto se desfigurou numa expressão aterradora.

João chegou mais perto, agachando-se para analisar aquela cena grotesca. Muitas marcas na carne do animal lembravam as que estavam no corpo de Rodolfo. — Isso não estava aqui hoje cedo, não é? – Perguntou.

— Óbvio que não! – Andrev respondeu, percorrendo, com dificuldade, o trecho até à janela, para poder respirar e se recompor.

— O que você acha disso, João? – Perguntou Orlínski, num tom de voz menos desesperador. Gabriel queria analisar a cena cientificamente, mas era impossível não se impressionar com a forma maléfica que os pedaços do suíno estavam espalhados e violentados.

— Ainda não posso afirmar com certeza. Esse sujeito parece ter prazer na tortura...

— Ou pode estar treinando para fazer isso conosco – pontuou Gabriel com uma frieza macabra.

João se ergueu, analisando aquele porco destruído e o seu sangue espalhado pelo pequeno banheiro. Havia desenhos de cruzes, feitas com o fluido vermelho do animal. Enquanto isso, Andrev, já diante da janela, observava a cerração mexer conforme a vontade do vento. Dali, podia ver parte da mata, nos pontos onde a neblina era menos densa. Para aumentar ainda mais o seu pavor com toda aquela cena, o vulto encapuzado os observava, não tendo receio algum de se deixar mostrar parcamente pela luz da lua, que falhava à medida em que a névoa voltava a abraçar o casebre.

— Ele está aqui! – Tremendo, Andrev alertou os amigos e correu para perto deles. Pegou a sua arma novamente, pretendendo se aproximar o máximo possível da janela para poder rever o vulto. Infelizmente, era impossível. Ele desaparecera no meio da bruma e da mata.

— Precisamos sair daqui! – Orlínski, que suava e tremia, abandonando sua pose reflexiva e fria. O medo o transformou num sujeito desesperado e ansioso. Queria sair dali de qualquer forma.

Nesse ínterim, o vento levou a luz da vela embora. Os três lampiões brilhavam, mas eles não podiam segurá-los numa posição capaz de iluminar melhor o ambiente. Temiam denunciar a posição onde estavam e arriscar serem alvejados por tiros. Ficar dentro do casebre parecia, a princípio, ser a melhor opção. Mas, e se a ameaça lá fora resolvesse atear fogo em tudo, queimando os três vivos lá dentro? Nenhuma opção era segura o suficiente para acalmar os três e, logo, abandonar o local começava a surgir como uma ideia mais interessante.

— E se a gente sair correndo até o vale? – Sugeriu Andrev.

— Nessa escuridão? – Perguntou João.

— A lua pode nos ajudar. Não dá para irmos com os lampiões acesos, mas a névoa parece se dissipar. Acho que podemos ver algo até o vale! – Continuou.

— Loucura! – João protestou.

— Aguardamos a neblina abaixar mais e corremos. Tudo bem? – Perguntou Andrev. — Não temos outra saída!

— Eu só quero deixar esse lugar o quanto antes! – Gabriel era, sem dúvida, o mais tenso entre os três, incapaz de raciocinar sob tanta pressão.

Acabaram por concordar com Andrev. Decidiram esperar até que a névoa se dissipasse mais. Tudo estava quieto lá fora. Aos poucos, o nevoeiro era varrido pelo vento e a luz prateada da lua permitia avistar a mata, mais uma vez. Assim que julgou poder avistar algo, Andrev ergueu o corpo para olhar a janela. Cuidadosamente, espiou o exterior. No local onde o vulto fora visto pela última vez, nada havia. Será que ele estaria na porta, esperando por eles? Com mais atenção ainda, caminhou até o primeiro cômodo, dando passos lentos, emitindo o mínimo de barulho possível. Apenas as correntes balançavam nervosamente, lançando um som apavorante no ambiente. A porta estava aberta, sendo possível ver que nada estava diante dela. Se aquela coisa assustadora estivesse esperando por eles, deveriam ser mais ágeis e tentar agarrá-la assim que possível. Mas, como fariam isso continuava a ser uma incógnita.

— Ele pode estar espreitando ao lado da porta – cochichou Andrev, apagando o seu lampião logo em seguida. — Eu vou correr na frente. Se ele me pegar primeiro, vocês podem surpreendê-lo.

— Isso é loucura! – Até Gabriel já duvidava daquele plano maluco. João apenas observava, segurando a sua arma com força numa mão e, na outra, seu lampião já apagado.

— Apague essa luz, Gabriel! – Ordenou João. — Agora já não dá para desistir!

— Vou contar até três e corremos – Andrev respirou fundo. Sua vida estava em risco, mas tinham que sair dali o quanto antes. Tentava não pensar em nada além de correr em direção à mata, mas sua mente trazia a imagem do porco destroçado no banheiro. Não queria ter o mesmo destino que aquele animal! Para que isso não virasse realidade, era preciso lutar até o fim, arriscar-se ao máximo para salvar a si mesmo e os amigos que estavam com ele. Olhou para a sombra de Gabriel e se encheu de coragem; tinha que fazer aquilo por ele, para tirá-lo do estado de medo que o consumia. Assim, com a arma na mão, iniciou a contagem:

— Um... Dois... TRÊS! – Disparou para fora o mais veloz que suas pernas permitiam. Num relance rápido, olhou para os lados e, nada. Alívio! Não estavam indo direto para uma emboscada. Apertou o passo, esperando que Orlínski e João fossem capazes de vê-lo e segui-lo. Como uma bala de revólver, sumiu em direção ao vale.

Orlínski e João saíram do casebre quase ao mesmo tempo. João Augusto podia ver o amigo logo à sua frente, guiando-se por sua sombra para seguir até o destino. Porém, a luz lunar não ajudava muito a enxergar e logo, a sombra de Orlínski desapareceu no meio do breu. A escuridão o fazia temer, tendo certeza de que, ao chegar ao vale, a descida seria ainda mais complicada. Ainda havia resquícios de névoa ao redor de tudo, o que dificultava um pouco mais a visão. Sem se conter, João virou-se para o casebre. Ao lado dele, assim que o vento levou embora um pouco mais de neblina, pôde avistar o vulto, que os assistia fugindo para longe.

— ELE ESTÁ AQUI! – Gritou, desesperado, lançando-se com mais determinação até o vale.

Corria o máximo que seu corpo permitia. Ofegante, tentava achar Gabriel, mas a silhueta dele desaparecera por completo. De repente, sentiu o chão plano se tornar um declive e, sem pensar, pulou para o vale, torcendo para que não caísse e se machucasse seriamente a ponto de não poder fugir. Por sorte, seu corpo se equilibrou e já podia ouvir o córrego, mantendo o passo ligeiro, sem poder parar. Para o seu desespero, no meio dessa fuga intensa, ouviu o grito de Orlísnki cortar o silêncio da mata.

— ORLÍNSKI! – João berrou. — Onde você está?! – Com dificuldade, deteve-se diante do córrego, voltando alguns passos atrás do amigo. Será que ele tinha sido pego? João se desesperou. — ORLÍSNKY!!! – Tremia dos pés à cabeça, gritando como um louco, sem se importar com mais anda além de achar o amigo salvo e com vida. Já podia imaginar Gabriel pendurado numa árvore, como Rodolfo, e seu coração queria pular para fora. Não podia deixar algo tão tenebroso acontecer com alguém tão querido. Precisava salvá-lo. Mas o que fazer? A única coisa a fazer era gritar:

— ORLÍNSKY!!!

Pensou em atirar para assustar seu possível perseguidor ou, pelo menos, chamar a sua atenção para tentar salvar Orlínski. Mas e se acertasse Gabriel nessa tentativa? Não podia pensar nisso. Era preciso arriscar. Não havia outra alternativa! Desse modo, sem pensar demais nas consequências, direcionou a arma para o alto e disparou dois tiros, que ecoaram, espantando alguns pássaros que dormiam sobre as árvores. — ORLÍNSKI!!! – Gritou mais uma vez, já com lágrimas nos olhos.

— JOÃO! – Para o seu alívio, o grito de Gabriel surgiu não muito longe dele. — JOÃO! AQUIIIIII!!!!

João Augusto correu para perto da água. Próximo à corrente, Gabriel tentava se erguer com dificuldade, após escorregar e cortar a perna. Podia sentir o seu sangue escorrer pela pele, molhando a calça rasgada e os pelos da panturrilha. Assim que conseguiu avistá-lo sob a parca luz da lua, João se aproximou, ajudando-o a pular o córrego e a subir o aclive. Lá em cima, as luzes do farol do carro de Andrev, que já podiam ser vistas do local onde estavam, guiavam os dois, trazendo-lhes certo alívio. Estavam próximos da salvação!

— Rápido! Rápido! – Gritou Andrev, de dentro do carro. — O que houve? Ouvi tiros?

— Tive que ajudar Orlínski. Ele está ferido!

— O quê? – Andrev ficou desesperado e fora de si, anunciando que sairia do carro para ajudá-lo. Mas João o impediu. Ele tinha que tirar todos dali o quanto antes. Não podiam mais perder tempo!

— Eu o ajudo, Andrev. Você trate de nos tirar daqui! – João tentava estancar o sangramento.

Assim que colocaram Gabriel no veículo, puderam voltar a toda velocidade para a cidade. João verificou o ferimento na perna do amigo: estava bem feio, mas não parecia ser muito grave. Andrev os levou de volta ao palacete, onde João Augusto pôde tratar do ferimento de Orlínski, enfaixando-o depois de limpá-lo. Foi um alívio poder voltar à segurança e à tranquilidade.

Apesar do desafogo, não conseguiriam dormir naquela noite. Os três, reunidos na sala de fumar, ficaram até o amanhecer tentando entender o que tinha se passado com eles, e a sorte de terem saído com vida. Não podiam raciocinar para pensar em algo coeso sobre o caso. A imagem daquele vulto os observando era como um prego sendo martelado em suas cabeças. Apenas a bebida e os cigarros atenuavam o medo que ainda corria por seus corpos. A única certeza que tinham era de que estavam em grande perigo.


1 visualização

©2020 por A Contrapelo Podcast. 

O podcast de Ciências Humanas.