Capítulo 6

Belo Horizonte, setembro de 1918

Setembro começou com a posse do novo presidente do Estado, no dia sete de setembro. Era um sábado de céu claro e a cidade estava animada. Após a cerimônia de posse no Senado Mineiro, o partido decidiu deleitar a elite da capital com um “match” de futebol, no Prado Mineiro. Os dois times mais famosos do Estado, o Athlético e o América, fariam um clássico em honra ao novo governante das Minas Gerais.

A entrada do antigo hipódromo, que agora era o local para as partidas de futebol, estava em polvorosa, com muitas pessoas esperando para entrar e tomar seus lugares na arquibancada. O novo presidente, Arthur Bernardes, havia chegado há pouco com a sua comitiva. Mas Orlínski e João aguardavam pelos Kinsky do lado de fora; não poderiam entrar sem eles. Os três não se encontravam há algum tempo. Depois da noite em que passaram por todo aquele desespero, decidiram, pela própria segurança e recuperação de Gabriel, não retornarem ao local ou se exporem. Nenhuma novidade sobre a situação surgiu, nem sequer alguma nova ideia para achar o assassino aparecera. Os pedaços de papel que João encontrara não faziam sentido para ele a ponto de não poder conjecturar algo. Por isso, os encontros com ele foram escassos. Depois de tantos dias de silêncio, foi uma surpresa receber um convite de Andrev, solicitando sua presença no match daquela manhã, ao lado dos figurões do Estado.

— Vamos perder o jogo – Gabriel, apreensivo, fumava ao lado de João Augusto.

— Não vai começar ainda. Estamos no horário – João olhava para o público. Uma partida como aquela era um evento social marcante, centro das atenções para os ricos e para as colunas sociais dos jornais. — Acho que o América vai ganhar – puxou assunto com Orlínski. — Eles estão com um “team” muito bom!

— Eu sei! Mas Andrev apostou no Athlético. Foi uma aposta gorda, com o Coronel Camargos – disse Orlínski. — Acho que ele nem sabe como funciona o futebol direito – gracejou. — Vai ser interessante.

— Ele é uma figura excêntrica – mantinha o olhar na multidão.

— Quem? – Curioso, Orlínski se virou para João.

— O Andrev. Deve ser por isso que está morando aqui – riu. — Ele parece muito ingênuo, às vezes! Se deixa levar por essa coisa toda de protocolo...

O som da buzina chamou a atenção dos dois. Um Rolls Royce cortava caminho entre os transeuntes e eles sabiam de que se tratava dos Kinsky. Era um carro elegante, modelo 1914, que viera com Andrev da Europa. Mesmo com o teto do veículo protegendo os passageiros do sol, podiam ver os chapéus das duas senhoras em seu interior. Ao ver Amália no interior do automóvel, João sorriu, animando-se. Já não a via há alguns dias e aquela partida de futebol seria uma ótima oportunidade para aliviar sua vontade de revê-la e de conversar com ela.

O carro parou próximo à entrada do Prado Mineiro, e a primeira a sair foi Anna, auxiliada pelo empregado que acompanhava o motorista. Em seguida, Andrev desceu do veículo, oferecendo sua mão para ajudar Amália a descer. Assim que ela avistou João, acenou para ele e Orlínski. A princesa, impressionada com todo aquele movimento, assistia a tudo com bastante interesse: observava o edifício das arquibancadas e a confusão de vozes e das pessoas que faziam fila para entrar:

— Toda essa bagunça para ver homens correndo atrás de uma bola? – Disse ao marido. — Acho que eu prefiro o turfe – sorriu, enquanto apoiava a mão no braço de Andrev.

— Fui a um “match” apenas uma vez, em Viena – confessou o príncipe. Lembro que papai ficou muito aborrecido, após a derrota do Slávia para os austríacos.

— Lá está o João! – Amália cortou a conversa, ansiosa para que João Augusto se aproximasse logo, acenando sem parar.

— Orlínski! – Andrev cumprimentou Gabriel e, logo em seguida, João. — Senhores, é melhor irmos logo – liderou o grupo até a rampa de acesso à arquibancada.

Após passarem pela multidão, subiram até a tribuna, numa passagem reservada aos convidados mais importantes. Ficariam na parte superior da arquibancada, com a melhor vista para o campo e longe da poeira, uma vez que o local onde os jogadores disputariam o “match” não era gramado. Sob a estrutura de madeira que protegia os espectadores do sol, os Kinsky, Amália, João e Orlísnki se sentaram, bem próximos à balaustrada. Dali, podiam ser vistos por quem estava lá embaixo, e acompanharia o jogo de pé, com o sol sobre as suas cabeças. Lá em cima, bebidas eram servidas por empregados contratados pelo partido do presidente, todos vestidos em branco e treinados para que o evento pudesse ter o melhor requinte possível.

— Estou ansiosa! – Confessou Amália, logo após se sentar. — Não vou a um match há muito tempo!

— E já tem um “team” para torcer hoje? – Perguntou João, tirando a cigarrilha do bolso.

— Athlético, claro! – Amália tomou a pequena caixa da mão de João e lhe roubou um cigarro.

— Mas o América está bem melhor, Amália – João tentou convencê-la, impressionado ao vê-la pegar um cigarro e acendê-lo.

— Não me importo. Todo match é imprevisível! – Sorriu, soltando fumaça no rosto de João.

Na outra extremidade do grupo, Anna estava mais interessada no público presente. Analisava cada pessoa ali: suas roupas e como se comportavam. Apesar de todos ao seu redor serem ricos e poderosos, não aprovava as escolhas das vestimentas de algumas senhoras, a forma como falavam alto e o modo como se sentavam naquele local desconfortável. Considerava aquele lugar indigno à sua posição social e à riqueza dos que ali estavam. Tudo ali, para ela, era um imenso descampado empoeirado, com pessoas festejando um evento solene no meio do nada. No entanto, se continha para não demonstrar qualquer expressão de desprezo com tudo o que via. Estava ali apenas para agradar ao marido. Aceitava que sua presença servia somente para impressionar os demais espectadores com o seu porte e distinção, aumentando ainda mais a admiração do casal entre os cidadãos da cidade. Todavia, o que mais a deixava ojerizada era ver Amália e João se relacionando de modo tão íntimo. Era um absurdo presenciar aquela cena. Apesar de sua ascendência humilde, a princesa gostava dela; contudo, reprovava sua conduta em público com aquele rapaz. Além disso, não entendia o motivo do marido insistir em tê-lo ali, no local onde só deveriam estar os que possuíam uma educação aristocrática e nobre. Não era o lugar para ele estar e isso, ao seu ver, fazia do Brasil uma terra confusa e desordenada, um lugar onde qualquer um poderia frequentar locais reservados à classe superior. Dentro de sua mente, Anna ainda sonhava voltar à Europa e viver ao lado dos seus, dos aristocratas que se reconheciam pelos títulos e pela riqueza.

— Vai começar! – Andrev, ao seu lado, ergueu a cabeça para ver melhor o campo.

— Não se exalte muito, querido. Você pode cair da arquibancada – alertou a esposa de um jeito insolente. Ele a ignorou.

— Vá com calma, Andrev – sussurrou Orlínski em seu ouvido. — Eu te disse que o América tem mais chances de vencer. Ele também o ignorou.

— A sorte está lançada! – Amália disse a João, num tom altivo e animado.

— Vocês vão precisar de sorte mesmo – ele brincou, aguardando o sinal do árbitro para a partida iniciar com a mesma ansiedade de Amália.

Começou! Zero a zero. Tudo ainda é calma. Jogadores com movimentos leves e vagarosos. O jogo de verdade ainda não começou. Zero a zero. Tudo pode acontecer. As pernas dançam com a bola, brincam com ela, nenhuma ameaça ao gol. Apenas poucos dribles, nenhuma técnica impressionante. Lentidão. Dez minutos... quinze... vinte. Tudo permanece igual. O apito soa, falta para o América. A bola voa, invade o campo do Athlético. Tensão! É a primeira jogada perigosa. Mas nada além disso e a bola passa longe das traves. O equilíbrio retorna. O chute do goleiro dá chance para o Athlético, que é perdida. A torcida aplaude. Tudo permanece sem alteração, páreo a páreo.

Trinta minutos. As pernas dos jogadores estão cada vez mais tensas. Mentes igualmente concentradas. O espírito competitivo se acirra. O América pressiona. O Athlético vacila. Erra. A ameaça do adversário aterroriza. Ele vem com força. Não há trégua! A velocidade é cada vez maior. Um erro sequer, e é o fim. Mais uma falta cometida a favor do América. É a chance para o gol. A torcida prende a respiração. Mãos na cabeça. Olhos fechados. Medo e ansiedade. O árbitro apita e... É GOL!

— Não! – Amália sentou-se na arquibancada, abruptamente. João, ao seu lado, vibrava.

Bola no meio do campo. A calma está perdida. O Athlético está mais tenso. O América, mais concentrado e aliviado. As pernas dos jogadores levantam poeira, correm atrás da bola da forma como podem. Apitos! Apitos! Apitos! O América pressiona ainda mais. O próximo gol pode sair a qualquer momento. O goleiro do Athlético faz o que pode para salvar o time. Pega a bola. Lança-a ao campo adversário. O Athlético domina com a esperança do empate. Correria. Veloz. Veloz. Veloz. Pode ser agora. É a hora! O gol! O gol! O gol! E... Apita o juiz.

— O que foi isso? – Andrev, completamente alterado, protesta. — Era para ser gol!

— Impedimento, alteza! – Orlinski tentou acalmá-lo.

— O que é isso? Impedimento do quê? – Andrev jogou seu corpo na arquibancada, frustrado, cruzando os braços e assistindo ao jogo, nervosamente.

Fim do primeiro tempo. Próximo à arquibancada, uma orquestra começa a tocar valsas alegres. Os ânimos se acalmaram, e os espectadores aproveitavam o intervalo para socializarem. O burburinho e o farfalhar das saias das senhoras fluíam, andavam para os lados, buscando bebidas e conhecidos para cumprimentarem. João e Amália ignoravam o movimento de tanta gente indo para lá e para cá. Os dois permaneciam sentados, aguardando o retorno da partida, empolgados com a fase pregressa da partida.

— Ainda com esperança do seu “team” vencer, Amália? – Provocou João.

— Claro, temos muito tempo de match ainda, João Idalino! – Amália fingiu não se sentir provocada. — Você vai ver!

Enquanto conversavam, um empregado passou servindo cervejas. Num impulso, Amália pegou para ela e João. Estava ávida por algo para beber e matar a sua sede.

— Você se lembra de quando íamos pegar Rhenânia na conta do seu pai? – Perguntou para João, após molhar os seus lábios com o líquido dourado, cobrindo-os com a espuma da bebida.

— Claro, fiquei de castigo várias vezes por causa disso. Culpa sua! – Respondeu. Ambos riram.

De repente, a chegada do Coronel Camargos chamou a atenção de todos. O homem, que aparentava se aproximar dos cinquenta anos, aproximou-se para provocar Andrev. De modo vulgar, rindo alto e o tratando com intimidade, zombou do time que o príncipe apostara as suas fichas. Andrev, por sua vez, respondeu com um comentário educado e bem-humorado, procurando esconder o seu desgosto pelo resultado do jogo até aquele momento. Enquanto conversavam, a voz de Orlínski acabou por chamar a atenção, obrigando Kinsky a desviar a sua atenção:

— Vejam quem também veio prestigiar o match: Pedro Biancchi, com o doutor Alfredo Balena! – Anna, ainda sentada em seu lugar, ergueu a mão para ser cumprimentada pelas duas novas chegadas. Ela adorava os dois e vê-los foi um sinal de alívio para o seu tédio de ser obrigada a estar num lugar que não gostava.

— Quem é esse ao lado do Balena? – João sussurrou no ouvido de Amália.

— É um artista. Pintou o quadro da princesa Anna, que fica na sala de visitas – ela respondeu no mesmo tom.

— Onde?

— Na sala em que estávamos, quando você e Orlínski chegaram, no palacete Kinsky, no último jantar.

— Ah... – João revirou os olhos, reprovando a forma com que Amália apresentava a nova aparição.

Pedro Biancchi tinha um olhar sedutor, com seus olhos negros intensos e um sorriso atraente. Seu pai era um dos ricos da elite mineira, tendo feito dinheiro como vendedor de ladrilhos para as construções da nova capital. O filho estudara arte na Europa e, atualmente, fazia sucesso entre os funcionários da administração pública, decorando as suas residências com belíssimas pinturas. João, apesar de não saber o seu nome, acreditava que sua face não lhe era estranha. Tinha certeza de que não se tratava de figura presente nos cabarés, nem sequer se lembrava dele nos jantares que frequentou no palacete Kinsky; no entanto, tinha absoluta certeza de que já o vira antes, em algum lugar.

— Espero que esteja torcendo para o Athlético, senhor Pedro Biancchi – Andrev conversava com ele, num modelo solene e formal. João os observava.

— Sim. Mas acho que você vai perder essa aposta hoje, Andrev – provocou o pintor.

— Todos dizem isso – Anna também participava da conversa, aliviada por encontrar alguém que admirava e respeitava. — Ele está irredutível!

— Vocês vão se surpreender! – Andrev contestou. — É igual com os cavalos: eu sei quando eles são promissores!

— Lembre-se de que é apenas um jogo – Orlínski alertou.

O retorno à partida foi anunciado com o som de um trompete, e os espectadores retornaram aos seus lugares. João viu passar na frente deles Arthur de Azevedo, o jornalista, que apenas cumprimentou a todos educadamente, correndo para voltar até onde estava sentado, bem ao lado do presidente do Estado. A orquestra cessou a música alegre e, aos poucos, toda atenção se voltava ao campo, onde os jogadores se reuniam para reiniciar a partida.

Apito! A bola volta a rolar. Os olhos concentrados dos jogadores a fitam, ansiosos por dominá-la. Um a zero. Nada estava decido, havia esperança. Movimentos bruscos, intensos. É preciso empatar. A poeira voa. Correria. Tensão. Falta para o América! O árbitro está mais severo. Os jogadores do Athlético estão mais apressados. O América bate a falta. Só precisam segurar o resultado. O meio de campo está truncado, confuso. Dez. Quinze. Vinte. Trinta minutos. Nenhuma alteração. O jogo parece estar ganho!

Trinta e cinco minutos. O Athlético tentava elevar o fôlego. Precisam manter o moral para vencer. O América mantém a calma. Domina, chuta a bola em direção ao gol. A bola rebate. Tiro de meta. O goleiro do América lança a bola. Lance errado! Athlético retoma a posse. Correria. Velocidade. Desespero para o goleiro do América. Parece que vai ser agora! Pode ser agora! Pode ser agora! Toda a arquibancada em silêncio. Os jogadores se apressam. O goleiro treme, se prepara, pula. E É GOL!

— ISSO! – Amália se exalta e aplaude. — Não disse, João? É imprevisível!

— Acho que você vai dar sorte hoje – Riu. — Mas ainda é só um empate! Vamos ver como vai acabar – afirmou, confiante.

A bola volta a rolar. América faz pressão. Athlético segura, tenta manter a calma. Um a um. Tudo é possível. As pernas dos jogadores estão tensas. Músculos, nervos, tudo é pressão. Um erro e acabou! Está perdido. O América vacila. Teme o fracasso. Perde a bola. O Athlético avança mais. Está mais ousado, confiante. Cria coragem. Dribla. Domina a bola. Faz o adversário tremer. Desenvolve. Adianta. Cresce. A bola se aproxima do gol. Pode sair mais um! Agitação. O América se precipita. Erra. É a hora! As pernas do jogador se preparam para afundar a bola no gol. Os espectadores se levantam. Respiração cortada. Silêncio. É o momento! Mãos se erguem para festejar. Segundos viram minutos, que se transformam em horas. O segundo gol se aproxima. O jogador se prepara para chutar. O América se desespera. Avança. Corre para impedir a qualquer custo. Se abala. Perde a noção do risco. Se esgueira. Quer parar o lance de qualquer jeito. O jogador se esgueira, golpeia o adversário... E o apito sopra. É pênalti!

— É ISSO! Não acredito! Agora é o gol! – Em êxtase, Andrev levou as mãos à testa.

— É agora, João Idalino! – Provocou Amália. — É agora! – Ela aplaude com vontade, incentivando o time.

Silêncio absoluto. O jogador se prepara para bater. O “match” está prestes a acabar. Tensão. Muita tensão! O América assiste. Apreensão total. Torce para que o goleiro pegue, ou para que a bola voe longe. Os espectadores tapam o rosto com as mãos. O goleiro pede a deus para pegar a bola. O Athlético pede a deus para que a bola entre. Um apito... apenas um apito e tudo estará resolvido. O árbitro levanta o braço. Vai anunciar. Sibila. O jogador hesita. Se prepara. Corre. Chuta.

— GOOOOL! – Andrev se debruçou na balaustrada, aplaudindo e gritando. Sentiu-se feliz numa intensidade incompreensível.

— ISSOOO! – Amália pulou e aplaudiu o jogador com força. Olhou para a expressão incrédula de João, que não sabia como reagir à virada do jogo. Pouco depois, o juiz, com o um sopro no apito, anunciou o fim do “match”.

Terminado o jogo, os convidados mais ilustres se dirigiram ao prédio anexo, onde ocorreria o almoço em homenagem à posse do novo presidente. A construção, em estilo eclético, já estava ali desde os tempos em que o Prado Mineiro era um hipódromo. Contudo, em decorrência das festividades daquele sete de setembro, um anexo de madeira fora construído para abrigar todas as mesas onde os convivas comeriam e passariam o resto da tarde. Numa extremidade da grande tenda, um palco foi improvisado, onde a orquestra retomava sua função de entreter com música, enquanto diversos garçons cuidavam de servir as bebidas e as refeições aos que já se acomodavam em seus lugares. Na outra extremidade, um café em estilo parisiense, de onde saíam as taças, copos e xícaras com os líquidos solicitados pelos que se alocavam no recinto, bem como os pratos que logo encheriam as mesas com comida.

A mesa do novo presidente era, sem dúvida, a maior. Como um Rei Arthur na sua távola redonda, ele se sentou no local mais visível, sendo circundado pelos políticos do partido e suas esposas, além de juízes, comerciantes, industriais e, claro, os Kinsky, financistas de grande parte das riquezas ali presentes. Entre todos, apenas João, Amália e Orlínski não eram filhos de grandes famílias. Os três estavam reunidos com a nata da elite, a pedido de Andrev, cujas solicitações não costumavam ser questionadas pelos políticos, já que tinham grande interesse que o banco da nobre família tcheca continuasse a financiar mais obras na capital. Os demais presentes ignoravam a presença de João, que se destacava no meio de tantos rostos padronizados, herdeiros dos colonizadores europeus. Orlínski, apesar da origem humilde, atraía certa curiosidade de alguns, desejosos em saber quem ele era, e o que fazia. Amália, claro, devido à sua fama, era a mais requisitada entre os três. Muitos queriam ter a atenção dela, tentando entretê-la com algum assunto:

— Quem sabe, a senhorita não poderia cantar para nós hoje – sugeriu Pedro Biancchi, sentado ao lado do jornalista, Arthur de Azevedo.

— Seria uma honra cantar para tão ilustres convidados – respondeu Amália, lisonjeada com a atenção que lhe davam.

No pórtico da grande tenda, ainda chegavam convidados, que eram direcionados pelos empregados até seus lugares. O delegado era um deles, juntamente com a sua família; o pároco da Igreja São José também surgiu à entrada, bem como os holandeses responsáveis pela construção do templo religioso de mesmo nome, localizado no centro da cidade. Todavia, o mais impactante foi a chegada de Maximiliano Nazzari, o afinador de pianos, ao lado de uma jovem mulher, provavelmente, a sua nova esposa.

— Orlínski – João cutucou o amigo com o cotovelo. — Olha quem acabou de chegar.

— Não é possível! – Orlínski quase se engasgou com o champanhe que estava tomando. — Quem é aquela mulher ao lado dele?

Maximiliano Nazzari era filho de imigrantes vindos do Trento, região disputada entre o Império Austro-húngaro e a Itália. Sua primeira esposa, mãe de Rodolfo, falecera no parto, e ele se tornou um viúvo cobiçado na jovem cidade. Muito bonito e distinto, dono de um negócio promissor, Maximiliano só tinha um desgosto na vida: o filho, que possuía certos trejeitos odiados pelo pai. Enquanto o progenitor da família era modelo de virilidade para a sociedade, o rapaz era alvo de zombarias, um motivo de vergonha para o pai. Uma relação terrivelmente conturbada, que envolvia agressões físicas e privações. Contudo, naquele almoço solene, Maximiliano regressava ao lado de uma bela moça, cujo nome era Eufrásia. O afinador de pianos exibia com orgulho a nova mulher para toda a elite da cidade.

João, Andrev e Gabriel trocaram olhares preocupados. Nada podiam fazer naquele momento, mas saber que o pai de Rodolfo estava de volta poderia ser uma pista para chegarem ao assassino e isso os agitou, principalmente João e Gabriel. Sabiam que precisavam conversar com ele o quanto antes, visitá-lo em sua loja ou chamá-lo para um jantar com os Kinsky. Não seria fácil falar com um homem que, diante da sociedade, exibia-se como se não tivesse perdido o filho há tão pouco tempo. Os três se sentiam enojados, assistindo-o cumprimentar pessoas com um sorriso brilhante ao apresentar Eufrásia a todos. Tudo aquilo era um escândalo!

— Veja como ele conversa com o delegado como se nada tivesse acontecido – João cochichou para Gabriel. — Não estou acreditando nisso! – Exaltou-se.

— Acreditando no quê? – Perguntou Amália, virando-se para João.

— Em nada! – Mentiu João. — Acho que nunca acreditei que estaria numa mesa dessas – continuou. Queria disfarçar sua exaltação para não dar explicações à Amália.

— Sei... – Amália fez uma expressão de quem sabia que ele estava mentindo. Quis prosseguir, mas foi chamada por outra pessoa da mesa, ignorando João e virando-se para voltar a se integrar ao grupo.

Enquanto Amália era bajulada por muitos presentes à mesa, os pratos eram servidos pelos garçons. As conversas prosseguiam animadas entre as pessoas sentadas ao redor do presidente. O único que estava em completo silêncio era João. Ninguém queria saber da sua vida, perguntar sua opinião sobre algum tema, nem ouvir o que tinha achado do jogo mais cedo. Estava invisível no meio daqueles sujeitos vestidos como reis. Até Amália e Orlínski se esqueceram de que ele estava sentado entre os dois. Mesmo quando tentava falar algo com os dois, recebia apenas respostas bruscas, monossilábicas e educadas. Tanto Amália quanto Orlínski estavam voltados para o restante dos convivas, ávidos para se exibirem e exaltarem o melhor que tinham, com o intuito de impressionar os demais. Para João, os assuntos eram vazios, as conversas sem conteúdo. Ele era capaz de perceber o esforço que os dois faziam para fazer parte daquele “clube” seleto. João Augusto, por sua vez, sentia o gosto amargo da exclusão, de não existir para os que estavam ao seu lado, que riam e se divertiam sem se aperceberem da sua presença ali. Alguns olhares raivosos de certas esposas de poderosos em sua direção era a única atenção que recebia. Ele era capaz de ler as intenções daquelas expressões de julgamento: queriam averiguar se João podia lidar com todo aquele requinte, de que era capaz de lidar com as regras que a etiqueta exigia, que podia estar com os ricos naquela situação. Todavia, não eram expressões apenas com o intuito de averiguar a possibilidade de seu “pertencimento” ao clube. Eram julgamentos perversos, venenosos, que acreditavam que a sua presença ali era inadequada.

O mau humor tomou conta do interior de João Augusto. Não era capaz de esconder a sua expressão de tédio. Seu corpo emitia sinais de alerta, ansioso para fugir dali o mais rápido possível. Qualquer risada que ouvia, seja qual fosse o assunto, era chata, difícil de suportar. Nem mesmo fugir para os próprios pensamentos e se esquecer do resto, era possível no meio daquela gente. Sem alternativa para aliviar o desconforto, resolveu, então, levantar-se e buscar uma bebida, fumar um cigarro e se afastar de todos para recobrar o ânimo.

— Mas por que você tem que ir buscar bebida? – Amália perguntou, assim que ele anunciou que estava se levantando. — É só pedir para algum garçom.

— Vou aproveitar para tomar um pouco de ar – João foi educado.

— Tudo bem. Quando você voltar, poderemos conversar mais, João Idalino – disse, regressando a sua atenção ao grupo. Ele nem se deu ao trabalho de concordar com ela.

Irritado, andou por entre as mesas até o balcão, não muito distante. Era uma estrutura longa de madeira decorada com entalhes, com uma armação de ferro e vitrais art nouveau colocada atrás, para que ficasse o mais parecido possível com um restaurante francês. Ali, havia um homem cujo rosto era familiar a João. Tratava-se de um jovem que trabalhava no cabaré que ele costumava frequentar. Provavelmente estaria ali para ganhar um pouco mais de dinheiro. O rapaz possuía bochechas rosadas, cabelos negros e um pequeno bigode, numa clara tentativa de se aparentar mais velho do que realmente era. João Augusto não se lembrava de seu nome, mas o rosto familiar lhe trouxe certo alívio. O moço, vestindo o mesmo uniforme branco que os outros empregados, estava totalmente atarefado, exibindo um rosto vermelho e muito tenso. Entregava os pedidos dos garçons para as mesas e ainda atendia aos pedidos de convidados que chegavam ao balcão. João se divertia com a tentativa do rapaz de não perder o controle. Com uma expressão mais aliviada, aproximou-se dele e aguardou para que pudesse lhe transmitir o que desejava beber.

Era preciso esperar numa fila. Os que estavam à sua frente pegavam os seus pedidos, e João aguardava a sua vez, pacientemente. Entretanto, após todos já terem ido, o rapazinho o ignorava. Mesmo que tentasse chamar a sua atenção, o jovem simplesmente dava preferência aos demais pedidos que lhe vinham, ou aos demais convidados que demandavam bebidas no balcão. João perdeu a postura calma, colocando-se, num pulo, diante do rapaz, para chamar a sua atenção. Ele continuou seu trabalho, dirigindo-lhe ordens como se fosse outro garçom a demandar pedidos:

— Pedido de qual mesa? – Perguntou o rapaz sem olhar para João. — Aproveite e leve as bebidas para a mesa do delegado. Vocês estão muito moles!

João não acreditava no que estava acontecendo. Não estava vestido como um garçom, nem mesmo podia crer que aquele empregado de cabaré não tivesse reconhecido quem ele era, depois de tantas noites de bebedeira em seu local de trabalho. Com raiva, decidiu não emitir som algum, apenas fitou o jovem com uma expressão séria no rosto.

— Vai ficar parado aí? Temos serviço! – O jovem parou diante dele e, só depois perceber de que não era um empregado, recuou. — Você é o doutor... João! – Fez uma expressão de escusa, enquanto limpava as mãos no pano que estava pendurado na sua cintura. — Desculpe! É que não reparei que era você.

— Claro! – Começou João de modo frio. — Vi que você cometeu o mesmo erro com os que estavam na minha frente – saiu, sem esperar as explicações do rapaz. Ele apenas o assistiu sair, voltando ao trabalho imediatamente.

Era a gota d’água! Não ficaria naquele recinto mais um minuto sequer. A sensação de ter sido humilhado enchia seu rosto de raiva. Odiava aquela gente, sentia-se sujo por estar ali e por ter se sentado ao lado de pessoas tão vis. Não merecia passar por aquilo e nem sequer valia a pena ser educado e se despedir dos demais comensais na mesa. Eles nem sentiam a sua falta enquanto estava lá, não haveria motivo para se importarem se ele estivesse indo sem dizer adeus.

Saiu para a rua. Respirou fundo e procurou por alguma carruagem que pudesse lhe levar de volta ao centro da cidade. Nenhuma à vista, todos os veículos estacionados pertenciam aos convidados do evento. Precisava chegar a algum lugar onde pudesse conseguir um jeito de ir para casa. Foi então que, como um fantasma, Orlínski surgiu atrás dele, ofegante:

— Ei, João! O que houve? – Gabriel tinha uma expressão que misturava preocupação e espanto. — Por que está indo?

— Não fico nesse lugar nem um segundo a mais! – João estava furioso.

— Mas o que houve?

— Não suporto mais isso, Orlínski. Não aguento mais essa gente! – João fitava o local com o ódio estampado em seu rosto. Contudo, evitava olhar para Gabriel.

— Alguém te fez alguma coisa?

— Não interessa. Estou indo embora! Diga aos demais que tive uma emergência – deu as costas ao amigo e começou a caminhar. Gabriel o seguiu.

— Por favor, me diga o que aconteceu! – Orlínski insistia em alta voz.

— Esse não é o meu lugar, Gabriel. Não aguento mais ter que suportar essa gente! – Continuava a andar, ignorando o amigo que apertava o passo atrás dele.

— Espere! Se alguém te fez algo, podemos falar com Andrev e...

— Pare com isso! – João parou abruptamente, virando-se para encarar Orlínski. — Não preciso de nenhum branco para me salvar ou ajudar! Você pode bajular esse príncipe, mas eu não preciso de favor algum dele!

— Do que você está falando, João? Por que está indo embora? Você viu que algo importante aconteceu hoje. O pai de Rodolfo apareceu. Você sabe que precisamos de você. Não há motivo para ir assim!

— Claro! – João respondeu com fúria. — Vocês precisam de mim... – possuía uma expressão sarcástica no rosto. — E assim que acharem o assassino, o preto volta para a senzala e vocês comemoram o feito com um jantar, festejando o retorno à normalidade. Ao lado dessa gente maldita! – Apertou as mãos com fúria, contorcendo o rosto.

— Não entendo, meu amigo. Claro que Andrev não faria isso...

— Pare de defender esse nobre! – Protestou João. — Não entendo porque você o bajula tanto! Você só está entre eles porque é branco. Você veio do nada, Orlínski! Não tem indústrias, bancos, fazendas, títulos de nobreza... Pare de fingir que é um deles. Você nunca foi! Eles só te ouvem pelos seus olhos azuis. Você é um ninguém! – Gritou.

Silêncio. Os dois se encaravam. Gabriel tremia, o sangue corria pelas veias com alta velocidade, tingindo a sua pele de vermelho intenso. A última vez que sentiu isso foi naquela cabana medonha.

— Não entendo porque você o defende! – Insistiu João. — Você é tão miserável quanto eu! Ele vai te jogar na latrina assim que não ver mais utilidade em você!

— PARE COM ISSO! – Gabriel interrompeu João, bruscamente. — Eu o defendo, porque eu o amo! – Orlínslki confessou num grito seco. — Eu o amo muito, João!

— O-o quê? – João se desarmou, incrédulo. Sua expressão era de espanto.

— Julgue como quiser julgar – virou-se e começou a andar de volta. — Vá embora se é isso que quer. Você não sabe o que está acontecendo! – Apressou o passo, desejando sumir o mais rápido possível.

João o observava. Era surpreendente ouvir aquela confissão em tão alto som, bem no meio da rua. Seus pés ensaiavam um retorno ao local, ansiosos para irem até Gabriel e ouvi-lo dizer mais sobre aquilo, esclarecer o que realmente estava acontecendo. João sentia a angústia do grito do amigo, ecoando seu amor por Andrev. Sabia o tabu ao redor daquela declaração. Mas não correu atrás dele. Por mais que quisesse, não podia ir até o amigo naquela hora. Fazê-lo seria esvaziar completamente o que João sentia naquele momento. De que adiantaria ir até ele agora? Qual valia haveria em se anular completamente para se colocar aos pés de Orlínski, no meio daquelas pessoas, ignorando que elas eram responsáveis tanto pelo próprio sofrimento, quanto de Gabriel? Nutria muita estima por ele, seu amigo, seu melhor amigo. Contudo, destruir sua dignidade naquela ocasião, mesmo que por uma causa nobre, seria como cravar uma adaga em tudo o que ele era, em toda a sua história, em tudo o que viveu e superou. Não poderia permitir se destruir para correr até alguém que amava, sentando-se ao redor dos que o odiavam por ser quem ele era, por conseguir chegar a ser quem se tornou. Não havia alternativa para esse altruísmo. Questionou-se, até, se tal atitude poderia ser chamada de verdadeiro altruísmo: colocar-se diante de seus algozes, com a melhor das intenções, enquanto eram eles os grandes responsáveis. Jamais! Era melhor que aquele lugar fosse abaixo, levando consigo toda aquela gente. A melhor ajuda que poderia dar a Orlínski era tirá-lo dali. Mas o amigo escolhera se sentar ao lado deles.

Respirou fundo. O passo vacilava. Temia estar cometendo um erro, mas não podia voltar atrás. Não havia, no mundo, permissão para que fizesse isso sem manchar a sua própria luta. E foi com muito pesar no coração que caminhou até encontrar um local onde pudesse pegar um bonde para ir para casa.


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