Capítulo 7

Dias se passaram após o match em homenagem ao presidente. João estava em casa, almoçando com a tia. Eustáquia preparara o seu prato predileto: frango com quiabo e angu. Sempre comiam juntos quando João Augusto estava em casa. Realizavam as suas refeições numa sala próxima à cozinha, com paredes pintadas de verde e arabescos em vermelho; uma cristaleira ficava num dos cantos, onde eram guardados todos os utensílios utilizados nas horas em que se alimentavam. João não era uma pessoa levada às extravagâncias, mas tudo que possuía em sua casa sempre mostravam certo bom gosto e refinamento.

O gramofone tocava um chorinho. Sobre a mesa, o jornal da manhã anunciava a chegada da “hespanhola” no Rio de Janeiro. João lia com atenção, mas as informações eram poucas, apenas acusava alguns poucos casos. Terminou a refeição e acendeu o cigarro, contemplando as palavras impressas no noticiário.

— Você anda ressabiado esses dias, meu filho – Eustáquia recolhia os pratos sujos. — Faz uns dias que você tá calado feito gato assustado.

— Muito trabalho, tia – João respondeu, sem jeito. Eustáquia cuidava dele como se fosse a sua mãe e sua preocupação com ele sempre o deixava inibido. — Muito trabalho!

— Sei – Esutáquia fez uma expressão desconfiada. Continuava a recolher as louças, fingindo não dar atenção ao rapaz. — Já faz um tempinho que eu não te ouço falar do polaco. Brigou com ele? – Após uma pausa, questionou. Sua tia era capaz de pressentir muitas coisas, quando se tratava da conduta de João.

— Nada, tia! Só sem tempo para ficar saindo mesmo – João sabia que a tia não acreditava nas desculpas que ele dava.

— Aquele rapaz não é boa influência para você, menino – alertava, enquanto levava a louça suja até à cozinha.

— Ele é um bom moço, tia! – João se levantou para ajudar Eustáquia com o trabalho doméstico, mas ela protestou, impedindo-o de ajudá-la com aquela tarefa.

— Não confio nesses brancos catitas. Ele é muito espalhafatoso. Vai acabar te levando para a perdição e bebedeira!

— Claro que não, tia! – João ria da forma agastada com o que Eustáquia o alertava.

— Olha aqui – pegou-o pela mão e levantou seus olhos cansados para fitá-lo, sisudamente. — Seu pai deu duro para permitir tudo o que você conquistou. Não desperdice em festas e com essas frescuras de gente rica! – Acariciou o rosto do sobrinho, carinhosamente. — Você me dá muito orgulho, meu filho. Seus pais devem te olhar lá de cima com muita felicidade. Nunca perca o juízo!

— Eu sei, tia – João fez uma expressão infantil. Não sabia lidar com os cuidados de sua única parente viva sem se ruborizar. — Não se preocupe!

— Não gaste seu tempo com esses brancos ricos! Eles não entendem a nossa luta, não sabem o que a gente passa – alertou.

— Pode deixar!

— Não se esqueça nunca de onde a gente veio e tudo que nós passamos – advertiu Eustáquia, e regressou ao trabalho, cantando juntamente com a música que saía do gramofone.

Mais alguns minutos para terminar o cigarro e, terminando de fumar, João foi ao seu consultório. Numa sala com janelas que davam para rua, o jovem médico construiu seu local de trabalho. Além dos móveis para atender seus pacientes, colocou no ambiente uma mesa feita com madeira de lei, uma poltrona confortável e sua estante com livros sobre medicina. Era o cômodo da casa onde passava mais tempo e, sem dúvida, o que recebia mais pessoas de fora.

Trancou a porta atrás de si e se sentou, colocando o cotovelo sobre a mesa e passando as mãos no rosto. Sob os seus olhos, os pedaços de papel que pegou naquela fatídica noite, quando tiveram que fugir pela cerração fria para salvar as suas vidas. Muito do que analisava ali não fazia sentido: duas cartas escritas em alemão, uma paisagem desenhada a lápis e a foto de um rapaz de cabelo e bigode negros e olhos claros altivos, com a face numa posição muito comum em fotos que entes queridos queriam mandar para os familiares.

— “Com carinho. Cinco de julho de 1906” – leu em voz alta a dedicatória que estava escrita em português. Quem era aquele homem? Seria o assassino? Alguém próximo a ele? Impossível responder a essas perguntas. Se fosse o autor dos assassinatos de Aurélio e Rodolfo, seu principal suspeito estaria descartado: Maximiliano Nazzari. Contudo, João sequer podia afirmar com certeza que os dois crimes foram cometidos pela mesma pessoa. Mais uma pergunta para esse mosaico de incertezas.

Pegou o desenho, analisando-o. Era uma fazenda, com o seu casarão imponente em estilo colonial, mangueiras na entrada, e um céu com nuvens. O que aquele lugar teria a ver com o assassino? Teria vivido ali, ou era apenas um lugar que tivesse passado em algum momento da sua história?

— Chega! – Irritado, João se recusou a continuar a estudar aqueles pedaços de papel sem nexo.

Jogou as costas contra o encosto da poltrona e levou as mãos à cabeça. Sentia seus miolos cozinhando com tudo aquilo, tendo certeza de que estava num beco sem saída. Além disso, havia também a confissão de Orlínski, que o incomodava. Algo dentro da sua mente lhe dizia que aquilo tinha conexão com os dois mortos. Contudo, era incapaz de ir além dessa suspeita.

— João! – Sua tia bateu na porta. — João!

— O que foi, tia? – Respondeu, impacientemente.

— Visita, João. Vem atender! – Disse ela, num tom mal-humorado.

João foi até a entrada da casa. Dali, podia ver Orlínski olhando diretamente para ele, numa expressão séria, imóvel. João retribuiu da mesma maneira, como se os dois estivessem congelados, incapazes de manifestar qualquer reação. Era uma surpresa vê-lo diante da sua porta; acreditava que Gabriel jamais o procuraria depois da discussão que tiveram. No entanto, ele estava ali, em carne e osso, anunciando que viera para ter uma das conversas mais sérias de sua vida.

— Posso entrar, João? – Perguntou Gabriel. — Gostaria de poder conversar com você – disse, secamente, assim que se aproximou de João.

— Claro! Vamos ao meu consultório. Conduziu-o pela sala até o cômodo indicado. A discussão que tiveram os distanciara, e João o tratava como se Gabriel fosse um paciente em sua primeira consulta.

João trancou a porta do consultório e convidou Orlínski a se sentar. Foi até sua poltrona, oferecendo um cigarro ao amigo, que aceitou a oferta. Depois disso, os dois ficaram se encarando por algum tempo, apenas o som do fogo queimando o tabaco e o papel podia ser ouvido, ecoando como um sino numa torre de igreja. A atmosfera estava pesada, tensa. O tic tac do relógio na parede contribuía para deixar o clima ainda mais aflito. Gabriel hesitava, sem saber por onde começar. Cabia a João quebrar o gelo e aliviar a angústia que dominava o amigo:

— E, então – começou. — Você viu nos jornais hoje? A gripe chegou ao Rio.

— Não li os jornais hoje – respondeu Orlínski, secamente.

— Parece que a tal espanhola chegou num navio inglês – João tragou. — As autoridades disseram que não há motivo para preocupação.

— Entendo – Gabriel permanecia com a expressão fria e tensa. — Que bom que não é nada, não é? – Completou.

— Não sei... se o governo estiver errado, não demora a chegar aqui – aos poucos, João se despia da expressão nervosa e contida. — Vamos ter que acompanhar.

— Espero que não seja nada – um sorriso no canto dos lábios mostrou que Gabriel também começava a perder a pose fria.

— Então – recomeçou João. — Você disse que precisávamos conversar.

— Sim – Orlínski apertava as mãos sobre as pernas, sua respiração estava tensa e balançava os pés sem parar. — Primeiro – respirou fundo — preciso te pedir desculpas pela minha conduta aquele dia.

— Esqueça! – João o encarava com uma expressão amigável. — Está tudo bem!

— Não está! – Os olhos sérios de Orlínski fulminaram João. — Sinto que, como amigo, eu falhei com você.

— Já disse que está tudo bem. Fique tranquilo.

— Perdão!

— Está perdoado, meu amigo. Esqueça isso!

Orlínski parecia estar prestes a chorar. Visivelmente nervoso, contorcia-se na cadeira. Estava prestes a enfrentar um dos momentos mais difíceis da sua vida e não sabia como iniciar o assunto. Sentia-se pequeno, indefeso, sem saída. Mas era preciso ser forte. Já estava ali, vencera a primeira etapa que era sair de sua casa e ir até o amigo. Não podia voltar atrás agora.

— É tão mais fácil estar sentado aí, onde você está – confessou Orlínski. — Ser paciente é muito difícil!

— Você está doente? – Era como se João tivesse se transformado em psicanalista, analisava as expressões de Gabriel e estava atento a qualquer palavra que ele emitisse, e que pudesse revelar algo do que queria dizer.

— O mundo diz que sim – respondeu, num tom irônico.

— Você diz sobre amar Andrev? – João pegou outro cigarro e acendeu.

— Claro! Se fosse uma gripezinha seria até mais fácil – Orlínski tragou fervorosamente. — Não sei nem por onde começar – Jogou a guimba no cinzeiro e pegou outro cigarro da cigarrilha de João, acendendo-o.

— Comece pelo início – João falava calmamente.

— Qual início? Quando eu descobri que... – titubeou. — Que eu descobri que gostava de... você sabe – a mão que segurava o cigarro tremia.

— De homens – completou João.

— Isso!

— Não precisa ir tão longe, se não quiser. Mas se quiser iniciar de quando começou esse amor pelo príncipe – João se ajeitou na poltrona.

— Foi no Rio de Janeiro, três anos atrás... – os olhos de Orlínski estavam distantes, como se revivessem cada palavra que pronunciava. — Eu conheci os Kinsky numa festa, na casa de Eduardo Guinle. Era carnaval... ah, João! Se você acha a casa dos Kinsky uma ostentação, você tinha que ver a dos Guinle!

Orlínski começou a narrar a história. Referia-se à residência de Eduardo Guinle, no bairro do Botafogo, na capital do país. Eduardo era neto do grande Eduardo Palassin Guinle, patriarca da família responsável pelas docas do Porto de Santos, em São Paulo. Era uma das famílias mais ricas do país e os Kinsky, claro, eram investidores de várias ideias empreendedoras dessa casta da alta burguesia carioca. Gabriel aparecera ali quase de penetra, convidado de última hora por um conhecido.

— Eu estava muito bêbado – continuou Orlínski. — E ele estava lá, olhando para mim, se divertindo com a minha falta de critério no meio de tanta gente rica.

— Carnaval pode tudo – brincou João.

— Conversamos pouco naquela noite – Orlínski mantinha o foco nas suas lembranças. — Ele nem falava bem o português ainda – riu.

— E? – João estava curioso.

— Fomos para um dos banheiros da casa e... – Orlínski tragou o segundo cigarro que acabara de acender. — Eu tive o melhor sexo da minha vida! Era maravilhoso ver a cara de Andrev, adorando me sentir dentro dele.

— Me poupe dos detalhes, Orlínski – João se ajeitou na poltrona mais uma vez. — Mas o que aconteceu depois?

— Alguns dias depois, eu fui chamado ao palacete Kinsky. Sim, há outro palacete Kinsky, no Rio de Janeiro.

— E foi chamado para terem outra noite de prazer?

— Não! A princesa Anna precisava de um médico como eu.

— E você aceitou ter a esposa do homem que você possuiu como cliente? – João se indignou.

— Você não entenderia. Ninguém é capaz de entender aqueles dois. Ela, uma mulher violentada desde criança; ele, um maricas como eu – riu mais uma vez. — Eles criaram um mundo só deles. De certa forma, um se transformou na liberdade do outro. Difícil explicar...

— E o que aconteceu depois?

— Eu me tornei parte da família.

Orlínski prosseguia na sua exposição. Falava sobre as festas que frequentavam, as viagens que faziam à fazenda de café que Andrev comprara, no sul de Minas, e em como ele a transformava numa residência digna da antiga nobreza rural europeia. Construíam um mundo de sonho, onde poderiam viver como na Europa, mas distantes do peso de conviver no meio de tantas pessoas vis.

— E o aconteceu depois? – João perguntou.

— Como todo sonho, meu amigo. Ele desmoronou – Orlínski respirou fundo. — A fazenda se transformou num esplêndido lugar, mas não seria possível que a gente vivesse naquele lugar.

— Por quê?

— Porque eu fui descoberto! – Orslínki ficou sério. — Eu estava no Rio muito antes de o príncipe chegar. Você se lembra que vivemos um tempo lá.

— Sim. Mas você foi atrás desses riquinhos. Nem sabia muito da sua vida –João já estava indo para o terceiro cigarro. — Não sei se você gosta de cachaça – levantou-se e tirou a garrafa da prateleira que ficava ao lado da porta. — Minha tia não gosta que eu beba. Ela diz que é bebida de vagabundo! – Riu.

— Vou aceitar uma dose, sim – Gabriel já estava muito mais à vontade, contente por ver João o tratar sem se sentir enojado pelo que contava. — Forte! – Sentiu a sua garganta queimar, após beber a dose.

— Sempre tomo, quando preciso aliviar a tensão – revelou João. — Mas, continue. O que aconteceu depois que foi descoberto?

— Eram apenas rumores. Mas como você disse aquele dia: eu não sou ninguém. Não tenho como me proteger de fofocas – Orlínski se acomodou na cadeira. — Os clientes desapareceram, as dívidas se acumulavam, e eu decidir voltar para Minas. Recomeçar.

— E o que Andrev achou disso?

— Ele nunca soube. Só peguei as minhas coisas e vim. Se eu voltar ao Rio, tenho certeza de que terei vários credores ávidos pela minha pele – riu.

Orlínski descrevia o seu retorno à Minas. Com o pouco de dinheiro que ainda lhe restava, abriu um consultório em sua própria casa. Aos poucos, seu jeito sociável abria portas, possibilitando acesso às residências dos mais abastados. Ninguém em Belo Horizonte sabia do seu passado e, em pouco tempo, frequentava os círculos da elite, retomando a vida sofisticada que sempre buscou ter.

— E foi, então, que eu conheci “eles” – disse, assim que acendeu mais um cigarro.

— “Eles” quem? – João serviu mais uma dose de cachaça.

— O “clube” – Gabriel virou a bebida alcóolica num gole, exalando álcool pela boca.

— Clube? – João estava completamente intrigado e envolvido pelo assunto. A fumaça dos cigarros em excesso tomava o ambiente como se estivessem num bar ou num cabaré.

— Meu amigo – Orlínski cruzou as pernas. — Esta cidade está cheia de homens como eu – tragou mais uma vez e soltou a fumaça. — Para alguém “do meio”, é fácil identificar. O difícil é encontrar uma maneira de se aproximar, de ir além dos olhares. Enfim...

— Acho que entendi! – João servia a terceira dose.

— Foi Aurélio quem me apresentou “o clube” – Orlínski voltou a ter a expressão distante. — Nos conhecemos no cabaré da Olímpia. Fizemos “aquilo” e, depois, ele me revelou que existia um grupo que se reunia frequentemente. Como um clube de homens que...

— Compreendi – João Augusto estava surpreso. Por debaixo daquela pacata cidade, ocorriam coisas muito além do que podia imaginar. Sabia que cabarés, bares e prostíbulos existiam escondidos da moralidade provinciana da nova capital. No entanto, aquilo estava muito além do que poderia conceber. Nunca passaria por sua cabeça que homens que desejam outros homens pudessem formar um clube às escondidas, e ninguém na cidade soubesse disse, ou que fofocas não corressem sobre o assunto. — E Rodolfo também fazia parte disso? – Perguntou.

— Não somente ele! – Gabriel hesitou, temia dizer os nomes dos membros do tal clube.

— Você veio aqui para me revelar essas coisas, Orlínski. Acho que não é momento para duvidar da minha lealdade e da nossa amizade – João disse, ao perceber o receio do amigo em citar nomes.

Gabriel respirou fundo.

— Juramos jamais dizer que fazemos parte do grupo. Se descobrirem que eu falei isso com você... – Orlínski bebeu a terceira dose, que ainda esperava por ele sobre a mesa.

— Pode confiar em mim, meu amigo! Acho que já tenho ideia de quem são os outros – mesmo sem saber os nomes, João tentava lembrar dos rostos pregados na parede do casebre.

— Arthur de Azevedo, Pedro Biancchi... – Orlínski citava os nomes. — Por que você acha que Andrev só recebe elogios nas colunas sociais dos jornais? – Riu.

— E como Andrev apareceu nisso tudo?

— No início do ano passado, o banco da família dele abriu uma filial em Belo Horizonte... – Orlínski pegou outro cigarro e pediu por mais uma dose. — Mas eu jamais pensei que ele viria parar aqui!

— Acha que ele veio por sua causa? – Perguntou João, após servir a dose.

— Não sei. Eu nunca disse para onde estava indo. Não tinha como ele vir para cá por isso. Ele veio por dinheiro!

Gabriel estava parcialmente certo. Após sua fuga do Rio de Janeiro, Andrev, arrasado, só pensava em escapar de tudo e se refugiar na fazenda do sul de Minas. Anna e ele foram para lá no inverno de 1916. A primeira colheita de café se aproximava e o príncipe estava ansioso. Os lucros eram promissores e a elite local, vislumbrada com a presença de um nobre europeu na região, incentivava-o a criar mais uma filial do banco da família em Minas Gerais. Andrev comprou a ideia, dedicando um ano inteiro nessa empreitada. Finalmente, em outubro de 1917, conseguira estabelecer o seu projeto na nova capital. Em dezembro do mesmo ano, chegava a Belo Horizonte com honrarias.

— E como vocês se reencontraram? – Indagou João.

— Foi coisa do Aurélio! Eu não sei como aconteceu ao certo. Só sei que, de repente, Rodolfo frequentava o novo palacete Kinsky, Arthur de Azevedo escrevia sobre o príncipe e a princesa nos jornais, Pedro Biancchi pintava quadros dos dois. Eu o revi num dos encontros do grupo.

Era o verão de 1918. Os membros do secreto grupo combinaram de se encontrar numa cachoeira, afastados da cidade e de qualquer chance de fofocas ou comentários. Um local paradisíaco, onde poderiam se divertir e se expor sem medo de julgamentos. Orlínski chegou com o último grupo no local indicado. Estava no carro conduzido por Matheus Silva, filho de um importante juiz; Rafael Rossi, o caçula do dono de uma serralheria, e Leonardo Ferrari, cujo pai era um senador da república. Todos membros das famílias mais distintas de Minas.

— Ele estava lá – Gabriel prosseguia. — Nadando com os demais... – O olhar de Orlínski se perdeu em suas memórias. — Vê-lo saindo das águas, o traje de banho colado em seu corpo, cobrindo o seu peito, mas incapaz de esconder...

— Já entendi a imagem, Orlínski! – João o cortou. — E o que aconteceu depois?

— A gente voltou a se encontrar. Você chegou no início do outono. E o Aurélio desapareceu em julho.

— E Anna? O que ela faz nesse tempo todo?

— Ela vive no mundo de princesa dela – respondeu Orlínski.

— E Amália?

Orlínski riu.

— Andrev e Amália são amigos muito antes de eu conhecê-lo.

— Ela sabe disso tudo?

— Sim!

João quis perguntar como Amália entrou nessa história, mas a sua cabeça já não aguentava continuar. Muitas informações foram dadas por Orlínski, e o médico tentava ligar tudo com as mortes de Aurélio e Rodolfo. Após refletir por alguns minutos, pegou a foto que estava entre os papeis que levara consigo do casebre e perguntou a Gabriel se aquele homem fazia parte desse clube secreto.

— Eu nunca o vi! – Respondeu Orlínski.

Um pouco frustrado, João mostrou as cartas em alemão e o desenho, ansiando ouvir do amigo que aquele local retratado poderia ser algum local de encontro do clube. Negativo. João Augusto, então, confessou suas suspeitas. Acreditava que Maximiliano Nazzari, pai de Rodolfo, era o único suspeito que vinha à sua cabeça.

— Os pais de Aurélio foram para Lisboa – disse João. — Se for um deles, impossível descobrir. Mas tudo me leva até Maximiliano!

— Só tem um jeito de saber – Orlínski se levantou e andou ao redor da sala. — Temos que traduzir essas cartas.

— Quem poderia fazer isso com discrição? – Perguntou João.

— Meu caro João – Gabriel tragou a fumaça e a soltou. — Andrev nasceu na Áustria-Hungria. Foi educado em alemão!

João tentava colocar as ideias no lugar. Estavam muito perto de desvendar mais uma pista desse mistério. Almejava mais do que tudo descobrir o que estava escrito naquelas cartas. Elas poderiam os levar para mais perto do autor das mortes de Aurélio e Rodolfo.


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