Capítulo 8

Na manhã daquele novo dia, o doutor João Augusto examinava uma criança. A mãe do pequeno assistia a tudo, ouvindo com atenção as prescrições que o médico dava para curar o menino. Uma das paixões de João era cuidar dos miúdos, realizando o seu trabalho com ainda mais diligência quando o paciente se tratava de um menor.

— Pronto! Agora você pode ir – disse João, após terminar de analisar a criança.

— Obrigada, doutor! – A mãe, contente, agradecia ao médico com uma expressão aliviada no rosto.

— Não há de quê, dona Madalena! E não se esqueça de trazer o Zezinho na semana que vem – Acariciou a cabeça do menino.

João levou mãe e filho até a porta, enquanto conversavam sobre trivialidades do dia a dia.

— Doutor, quanto ao pagamento... – a mãe apertou a pequena bolsa que carregava. — Assim que Ilídio receber...

— Fique tranquila, dona Madalena! Pague quando puder. Vou deixar anotado aqui – João sorriu.

— Não quero que a gente seja um incômodo, doutor – disse, com uma expressão envergonhada e triste.

— Não pense nisso, por favor! O importante é que Zezinho esteja bem e saudável – João acariciou a criança mais uma vez. — E não deixe de trazê-lo aqui na semana que vem.

A mãe e a criança se despediram e se dirigiram até a rua. João acompanhava com os olhos os dois saindo pelo pequeno portão em ferro forjado que separava a sua casa do passeio. Era gratificante ver um pequeno se recuperando e prestes a poder voltar a brincar e a se divertir. Sentia-se realizado ao perceber a expressão aliviada da mãe do menino, contente com a recuperação do filho. João se deixou levar por aquela cena, contente por mais um trabalho bem feito. Com as mãos nos bolsos do jaleco, encheu-se de satisfação e orgulho. Aquele era o resultado de anos de muita luta e estudos na Europa.

Sua mente voltou à realidade após ouvir o som de um carro que virava a rua e parava diante da sua casa. Dentro do conversível, Orlínski e Amália acenavam, enquanto Andrev terminava de estacionar o veículo. A visita era inesperada, e João se surpreendeu ao ver os três descendo do automóvel e caminhando até sua porta.

— João! – Amália estava eufórica.

Os três passaram pelo portão e Amália correu para cumprimentar João, que estava estático com aquela chegada abrupta. O segundo a cumprimentá-lo foi Orlínski, sendo seguido por Andrev, que sorria alegremente, olhando com curiosidade para o pequeno jardim e para a casa que se erguia diante de si.

— Viemos te fazer uma visita – Andrev disse, exultante. — Bela casa! – Analisava a singela decoração das guarnições das janelas, tentando ser agradável.

— Não é um palacete, mas é o meu lar – João foi educado. — Entrem! – Convidou, ainda sem jeito pela surpresa.

Amália foi a primeira a entrar. Analisava com olho criterioso os móveis e a decoração, enquanto tirava as luvas e, em seguida, o chapéu. Sorria com orgulho ao ver tudo o que João havia conquistado. Os dois vieram de uma realidade em que tudo que presenciava ao seu redor seria apenas um sonho. Constatar as conquistas de João Augusto era uma felicidade indescritível para ela.

— Onde está a tia Eustáquia? – Ela perguntou em tom alto, ansiando que fosse ouvida por toda casa. — Não a vejo há tanto tempo!

— Deve estar na cozinha – João ainda tentava entender o que se passava na sala da sua casa. Olhava com ansiedade para Amália e Andrev examinando a sua casa com uma curiosidade quase infantil. Por qual motivo apareceram daquele jeito, sem avisar? Sabia que Orlínski e Andrev logo apareceriam em razão das cartas em alemão, mas e Amália? Não sabia porque ela estava ali. Num impulso, fitou Gabriel com uma expressão de dúvida. Ele, ao seu turno, ergueu as sobrancelhas e contraiu o queixo, num sinal de quem nem mesmo ele sabia do que estava se passando naquele momento.

— Tia! – Gritou João. — Temos visitas!

Eustáquia se assustou ao se deparar com Amália quase trombando com ela, na entrada da cozinha. A cantora a abraçou, cumprimentando-a entusiasticamente. A tia de João ficou sem reação por alguns instantes. Demorou para reconhecer Amália, e só a cumprimentou com carinho, após o sobrinho confirmar de que se tratava da pequena garota que crescera ao seu lado. Mas o que mais a causou espanto foi ver, vindo com Orlínski, o belo rapaz tcheco, com sua postura altiva e elegante. Quando o sobrinho disse que se tratava de um príncipe, ela gelou. Sem jeito, cumprimentou-o com olhar desconfiado e tímido.

— Nós viemos almoçar com vocês, tia Eustáquia – disse Amália, que já se sentia em casa.

— Será uma honra – João, ainda confuso, sinalizou para tia de que deveria cuidar do almoço.

— Vamos ter costelinha com tutu. Não sei se o príncipe vai gostar – Eustáquia pensava no que teria de fazer para que a refeição tivesse a quantidade necessária para alimentar mais três bocas.

— Tenho certeza de será maravilhoso, dona Eustáquia – Andrev tentou ser educado.

Ao olhar para a precariedade em que vivia a maior parte dos que habitavam os arredores da zona urbana de Belo Horizonte, João estava longe de ser considerado uma pessoa pobre: sua casa era ampla, confortável e com todas as facilidades materiais para se ter uma vida digna. Para Andrev, no entanto, era um ambiente simples, distante dos excessos com os quais estava acostumado a ter no seu dia a dia. O príncipe não fora educado para enxergar o que era a pobreza, ou qual era o significado de riqueza além dos protocolos e dos luxos em que estava inserido. Assim, para ele, tudo ali era novo e surpreendente, como se adentrasse num outro mundo.

— Vamos aguardar ansiosamente. Tenho certeza de que será esplêndido – disse Orlínski, sentando-se no canapé da sala.

— Quero conhecer a sua casa, João – Amália voltou a sua atenção para os rapazes na sala.

— Acho uma ideia extraordinária – Orlínski se levantou, animado.

— Você já conhece a casa, Orlínski – disse João, com um pouco de tédio.

— Mas Amália e Andrev, não – Gabriel riu.

João começou a caminhar pela casa, subindo as escadas até o pavimento superior. Amália o seguia de perto. Andrev e Gabriel, contudo, não os seguiram.

O primeiro local onde pararam era o quarto do jovem médico. As janelas abertas davam para a rua, com as cortinas dançando ao bel prazer do vento. As paredes eram pintadas em tons aconchegantes, com singelos arabescos quebrando a monotonia da cor escolhida por João para decorar seu ambiente mais íntimo. A cama ficava encostada num canto. Além dela, havia uma pequena mesa com cadeira, com vista para o movimento lá fora. Do lado oposto ao leito, uma cômoda exibia várias fotos sobre ela, lembranças do passado que João fazia questão de manter.

— Que saudade dos seus pais! – Amália parou diante da foto de um casal, tirada por volta de 1900. Uma bela mulher usava um grande chapéu e vestia um vestido apertado na cintura pelo espartilho; ao seu lado, um homem sério, de barba densa, vestindo fraque e usando cartola.

— Muita saudade! – João assistia às delicadas e bem cuidadas mãos de Amália tocando nos porta-retratos sobre o móvel, cuidadosamente lustrado por Eustáquia. Um sorriso leve se desenhou entre os lábios dele. Lembrou-se de sua juventude, exatamente do dia em que ela, sem saber que João Augusto a amava com todas forças, confessava-lhe estar gostando de outra pessoa. Com o coração dilacerado, João decidiu manter firme o seu sentimento por ela, entregando-a, em segredo, seu coração para sempre, mesmo que aquela atitude nada mais fosse do que um devaneio adolescente, um grito de um rapaz que pouco sabia sobre a realidade do amor, mas julgava senti-lo na sua forma mais pura e sensível.

— Dona Quitéria era uma mulher excepcional! – Amália evitou mostrar que os seus olhos se enchiam de lágrimas. — E Seu Idalino era a pessoa mais bondosa que eu já conheci na minha vida. Talvez a única pessoa de coração bom nesse país! – Sem mais poder esconder, levou uma das mãos até os olhos para secá-los.

— Eles gostavam muito de você – João tentou confortá-la. Queria abraçá-la, mas não o fez. Algo dentro dele o impedia de se aproximar dela. Talvez fosse o trauma do passado, ou o receio de jogar fora aquele momento tão singelo e frágil que acontecia diante dos seus olhos. Era melhor deixar que ela desfrutasse das suas memórias do passado, do que interrompê-la e acabar estragando tudo.

— E eu gostava muito deles também! – Amália se recompôs, deixando o retrato no seu local de descanso. Em seguida, fitou João seriamente. — Não sei se Andrev e Gabriel já estão vindo, então, preciso ser rápida.

João estranhou aquela reação. O semblante de Amália abandonou a doçura de quando revivia as lembranças através das fotos, passando a exibir um aspecto austero e sisudo. João temia o que poderia sair da boca daquela mulher. Armou-se e aguardou que ela continuasse.

— Não sei ao certo o que vocês três estão tramando – Amália olhou para porta para ter certeza de que Orlínski ou Andrev não estavam próximos. — Mas temo pela segurança de vocês!

— Do que você está falando, Amália? – João sentiu as pernas bambearem. O que ela queria dizer daquela forma tão cuidadosa?

— Eu não sei de muita coisa ainda. Mas para Andrev me chamar até Belo Horizonte... – Amália estava perturbada. — Só pode ser algo muito sério!

— Por que você acha isso? – Após aquela confissão, João queria extrair o máximo de informações que podia de Amália.

— Eu conheço Andrev desde 1914. Para ele pagar uma apresentação minha aqui, e convencer a minha companhia de teatro a me deixar descansar na cidade durante o verão... – tensa, olhou mais uma vez em direção à porta. — Só pode ser coisa muito séria!

— Não sabia que vocês se conheciam há tanto tempo assim. Adoraria saber como se conheceram – João tentou disfarçar o tom de interrogatório que vinha da sua voz.

— É uma longa história, João! Não temos tempo para isso agora.

— Me desculpe! Não quis parecer impertinente – João sorriu.

— Você jamais é impertinente, João Idalino. Somos amigos! – Ela retribuiu o sorriso. — Mas eu gostaria de lhe fazer uma pergunta. Se me permite ser um pouco indiscreta.

— Claro, Amália! Pode me perguntar o que quiser – João se colocou na defensiva.

— Você... – Amália hesitou por alguns segundos antes de prosseguir. — Você comunga dos mesmos gostos que Andrev e Orlínski? – Fitou-o.

— Como? – João se espantou.

— Eu não sou burra, João! Você sabe do que eu estou falando – aguardava a resposta com a ansiedade estampada no rosto.

— Não! Eu “não comungo de tais gostos” – João riu da forma como Amália colocou a questão. — Mas estou envolvido num mistério sem sequer saber o motivo!

— Desculpe-me por perguntar desse jeito. Mas é sempre assim... – lamentou Amália, suspirando. — Coitado do Andrev! Ele sempre acaba se metendo em confusão.

— Por que diz isso?

— É sempre a mesma história: ele se estabelece em algum lugar, acredita que finalmente encontrou um lugar para se sentir em casa e...

— E?

— No final ele tem que ir para outro lugar. Uma pena!

— Acho que entendo esse sofrimento. Mas ele pode voltar à Europa assim que a Guerra acabar – João passou a olhar para a porta, tal como fazia Amália. Não queria que fossem interrompidos naquele momento.

— Você sabe por que Andrev veio para o Brasil, João? – Amália o questionou.

— Imagino que seja para fazer mais dinheiro. Orlínski me disse que ele tem negócios com os Guinle, que tem uma fazenda no sul de Minas e, agora, uma filial do banco aqui na cidade.

A expressão de Amália se perdeu nas memórias. João não podia deixar de perceber a semelhança daqueles olhos distantes com a forma como Gabriel rememorava o seu passado e o narrava no dia anterior. Era como se ambos estivessem revivendo traumas, momentos de dor e angústia, desejosos para que as coisas tivessem acontecido de outra forma, mas resignados com o desenrolar do destino.

— João – Amália respirou fundo. — Você não sabe o que a mãe de Andrev o fez passar. O pai dele o mandou para o Brasil para salvá-lo de um destino cruel, jogado num hospício – Amália tapou a boca com uma das mãos. Ela era a única pessoa a quem Andrev revelou parte do seu passado, e narrar os acontecimentos lhe dava calafrios.

— Coitado! – João observava Amália quase desfalecendo diante dele. Ela sentia algo muito profundo e intenso por Andrev. Seria amor? Ela, da mesma maneira que João no passado, havia entregado seu coração ao príncipe? — Você deve gostar muito dele... – supôs João, não suportando vê-la daquele jeito.

— Ele é uma das melhores pessoas que já convivi – Amália sorriu. — Sabe, João? Há duas coisas muito importantes que aconteceram na minha vida, para que eu pudesse ter tudo o que tenho hoje – ajeitou as mangas do vestido, anunciando que estava prestes a encerrar aquela conversa. — Uma delas é o meu talento. Não teria nada se eu não tivesse talento para o que faço. A outra, foi a disposição de Andrev em me ajudar.

— Você o ama? – João foi direto e seco.

— Claro! – Amália riu de modo debochado. — Mas não como você deve estar pensando, João Idalino. Vocês homens tendem a pensar muito mais com isso que balança entre as suas pernas – a cantora apontou em direção à virilha de João. — Vocês precisam ser mais racionais. Vocês acham que nós, mulheres, só usamos a emoção... – Amália fez uma postura altiva e orgulhosa. — Mas não existe criatura mais emocional e dramática que um homem! – Gargalhou.

Enquanto terminavam a conversa, o som dos passos de Andrev e Orlínski anunciava a chegada dos dois ao quarto. Rapidamente, João lhes apresentou a casa e, assim que Eustáquia avisou que o almoço estava pronto, todos foram ao local onde seria servida a refeição.

Na sala onde sempre comiam, João se sentou à ponta da mesa. À sua esquerda, sua tia ocupava o seu tradicional lugar de fazer as refeições, dividindo com Orlínski aquela parte do móvel. Amália estava à direita de João Augusto, bem ao lado de Andrev, que assistia a tudo com curiosidade. O príncipe não sabia como lidar com a situação. Treinado a esperar ser servido, ter que se levantar para pegar a comida era uma ação que jamais fizera na vida. Tinha medo de errar, de derramar tudo sobre a mesa e passar vergonha na frente de todos ali. Assim, uma certa tensão surgiu, suas mãos suavam, aguardando a sua vez de levar o prato até os três aparelhos de porcelana que continham, respectivamente, a costelinha de porco, o tutu de feijão, e algumas folhas verdes e tomates que compunham a salada. Era um momento de inquietação para aquele jovem que desfrutava de privilégios distantes daquela realidade.

— O príncipe Andrev está tímido – Amália, rindo da situação, pegou o prato de Andrev e lhe serviu.

Todos começaram a comer. A refeição estava perfeita. Um clima feliz se apoderou da mesa. Bebiam cerveja Rhenânia para acompanhar o prato e o álcool amenizava a situação que começara confusa e tensa. Para completar, uma música tocava no gramofone alegremente. Amália ajudava a manter a atmosfera festiva, narrando casos engraçados do passado, quando João e ela pregavam peças nos mais velhos e fugiam das punições vindas dos pais. Tia Eustáquia, por sua vez, fazia-se de defensora dos mais velhos, repreendendo-os como se os dois ainda fossem crianças:

— Esses dois eram terríveis! – Disse a tia de João no meio das risadas dos demais. — Duas pestes!

Terminada a refeição, Amália se prontificou a ajudar na limpeza, mesmo com Eustáquia insistindo de que não havia necessidade. Os três rapazes foram ao consultório do médico João Augusto para fumarem e beberem um digestivo. Era o momento de conversarem sobre os papeis que o doutor pegara no casebre, longe do ar curioso de Amália.

— Por que ela veio com vocês? – Perguntou João, enquanto entregava para Andrev as cartas em alemão.

— Foi ideia dela! – Orlínski acendia o cigarro, cruzando as pernas ao se sentar na cadeira.

— Vocês contaram alguma coisa para ela sobre o assassinato? – João não queria revelar algo sobre a conversa que teve com ela pouco antes do almoço.

— Não! – Andrev respondeu, enquanto lia as cartas.

— Ela está em Belo Horizonte por algum motivo específico? – Inquiriu João.

— Gosto da companhia dela – Andrev respondeu, ainda focado no texto escrito de modo rápido e que exigia certo esforço para compreender. — Ela é a minha melhor amiga!

João sentiu um pouco de ciúme ao ouvir Andrev dizer que estimava tanto Amália. Era-lhe impossível evitar que certa rivalidade surgisse entre ele e o príncipe. Não queria imaginar que Amália Sousa tivesse outro grande amigo além dele, mesmo passados tantos anos. Não desejava competir com ninguém o posto que acreditava que somente ele tinha com ela. A amizade genuína entre um homem e uma mulher era algo raro e difícil de se encontrar. Portanto, não era fácil para ele compreender que sua querida Amália possuía outro grande amigo, e que ele era apenas mais um entre outros amigos que ela possuía.

— O que diz aí? – Gabriel perguntou.

— Parece ser uma carta de amor. Cita alguns sonetos. “Você é o raio de luz que Apolo mandou para agraciar a minha vida” – leu em voz alta uma das frases. — “Mesmo que meu pai nos impeça, lutarei contra todos para manter a chama do nosso amor viva” – proferiu mais um trecho.

— E de quem é essa carta? – Perguntou João, curioso.

— Gregório de Miranda – Andrev ergueu o papel e o posicionou diante do seu rosto. — “Santa Quitéria. Sabará. Primeiro de maio de 1906” – encerrou.

— Você conseguiu ler isso? – Indagou João. — A letra desse sujeito é horrível!

— Esse nome não quer dizer muito – lamentou Gabriel. — Quem será essa pessoa?

— Eu não conheço ninguém com esse nome – completou João.

— Eu também não! – Andrev pegava a fotografia do rapaz de bigode e cabelos negros para analisá-la. — “Jakob von Einem” – leu o nome em voz alta.

— E esse? Quem poderia ser? – João estava mergulhado no mistério, esquecendo-se de Amália e focando nas informações que lhe eram passadas.

— Não sei – respondeu Andrev. — Mas existe uma família Einem na Áustria-Hungria. Foram muito famosos até serem acusados de lesa-majestade.

— E quando foi isso? – João se ajeitou em sua poltrona, deixando que o cigarro levantasse fumaça entre seus dedos.

— Não me lembro ao certo. Só sei que foi traição contra o imperador Francisco José.

— Então, não faz tanto tempo assim – conjecturou Orlínski.

— Aquele parasita austríaco era uma múmia, parecia imortal – Andrev esbravejou. — Todos aguardavam ansiosamente pela morte daquele velho!

— Entendo suas aspirações nacionalistas, Andrev. Mas, o que faremos agora? – Questionou Gabriel.

— Só tem uma coisa a ser feita... – Andrev tragou o cigarro e se aconchegou na cadeira. — Sabará não é tão longe daqui. Podemos ir de carro até lá amanhã.

— Não acha melhor conversar com Maximiliano antes? – Sugeriu João. — Ele pode fugir novamente e uma grande oportunidade será perdida.

— É um risco que é possível correr – Andrev mantinha uma postura impassível. — Ele já foi convidado para um jantar em minha casa. O convite foi confirmado para daqui a dois dias.

— Não acha arriscado isso? – João demonstrou preocupação.

— Sim. Mas é um risco que teremos que correr. E se encontrarmos algo amanhã, já teremos como encurralá-lo.

— Não sei... – ponderou João.

Mas não havia outra saída. Ir à Sabará era a opção mais plausível no meio daquela miríade de informações ainda desconexas. As perguntas se avolumavam, enquanto as respostas permaneciam minguantes. No meio dessa confusão, João não achou graça na coincidência com o nome de sua mãe: “Santa Quitéria” poderia ser o nome de um solar, uma fazenda ou alguma região da cidade. Precisavam averiguar tudo isso. Será que um dia seria suficiente para achar tudo o que queriam encontrar?

— Agora que estamos resolvidos – Orlínski se levantou. — Que tal irmos ao cabaré hoje? – Sugeriu com a voz entusiasmada.

— Não acredito que você quer beber hoje! – Protestou João.

— Mas Maria Thereza vai cantar na Olímpia esta noite. Seria de bom tom aparecermos para evitar certos comentários – Gabriel tentava animar João.

— Ou criar novos – replicou João Augusto, lembrando-se da pergunta de Amália horas antes. Não era agradável ser questionado sobre suas inclinações sexuais, principalmente quando tal pergunta vinha da mulher que já foi o maior amor da sua vida.

— Todo homem deve ir ao cabaré, meu amigo – Gabriel insistiu. — A não ser que você queira ser chamado de beato, santarrão, fracote, ou...

— Maricas – João terminou a frase. Olhou de relance para Andrev, que evitava participar daquela conversa. Só então lhe veio à cabeça se o príncipe sabia da conversa que ele tivera com Orlínski no dia anterior. Era preciso averiguar isso com Gabriel, antes que cometesse alguma gafe.

Naquele instante, Amália bateu à porta, anunciando que já era hora de irem embora. Educadamente, João insistiu para que ficassem mais. Mas, na verdade, preferia passar o resto do dia sozinho. Acabou concordando com a ideia de Gabriel de irem ao cabaré mais tarde, combinando de encontrar com eles, em sua casa, após o jantar. Sabia que Andrev e Orlínski demorariam a retornar, já que a refeição no palacete Kinsky era sempre um evento. Assim, teria tempo suficiente para terminar os sus afazeres e pensar melhor no que Andrev traduzira das cartas.

— Vamos! Ainda quero aproveitar o “footing” na praça do palácio – disse Amália. — E o senhor vai comigo, Gabriel Orlínski. Você marcou comigo ontem e não compareceu!

— É verdade! – Orlínski riu. — Deixei a famosa Amália Sousa esperando por mim. Não é qualquer homem que consegue essa façanha! – Brincou.

Despediram-se. João passou o resto do dia em seu consultório. Atendeu alguns pacientes e, quando finalmente terminou o seu trabalho naquela tarde, tentou procurar algo no meio dos seus livros que lhe desse alguma pista sobre a tal “Santa Quitéria”, em Sabará. Infelizmente, os poucos livros de história que possuía não davam nenhum sinal que pudesse iluminar suas ideias. O jeito era se resignar e aguardar pelo dia seguinte.

Andrev Kinsky e Gabriel Orlínski chegaram por volta das 22h. Já estavam alegres em decorrência das bebidas que tomaram no jantar, falando alto e apressando João Augusto a entrar no carro. Em poucos minutos, já rumavam até o centro da cidade, mais precisamente até à Avenida do Comércio, onde estava localizado o Cabaré de Madame Olímpia.

O local era um verdadeiro palacete! Madame Olímpia mandou trazer da Europa lustres de cristal da Boêmia, mármore de Carrara e diversas decorações belgas e francesas. O art nouveau estava por todos os lados: nos lustres, nos vitrais, nos móveis que preenchiam o salão principal, onde os homens da sociedade mineira se sentavam para beber e buscar o prazer das prostitutas, muitas também importadas da Europa para comporem a arquitetura do local. Um pavão em ferro forjado coroava o local, repousado sobre o espelho atrás do balcão de onde vinham as bebidas.

Mas a estrela mais brilhante do cabaré de Olímpia era nascida em terras brasileiras. Neta de ex-escravizados, Maria Thereza de Lima era o farol que conduzia os homens até o estabelecimento daquela francesa erradicada em Belo Horizonte. Seus dotes musicais, seu modo de se vestir como as parisienses, e sua beleza faziam dela a mulher mais cara da noite belo-horizontina. Os mais ricos disputavam acirradamente para poder ter a sua atenção ao final da noite. Poucos eram os que tinham esse privilégio.

Assim que chegaram, o ambiente esfumaçado e barulhento recebeu João, Andrev e Gabriel de braços abertos. Era ali o local onde a cidade vivia seu sonho parisiense com toda a sua força. Aquele era o universo em que os homens da elite se misturavam com pessoas mais comuns, mesmo que todos os que frequentassem o estabelecimento estivessem entre os que poderiam pagar pelos seus divertimentos. Dentro daquele palacete, uma nova Belo Horizonte se descortinava: mais viva, mais cosmopolita; um mundo de fantasia no meio das monótonas montanhas mineiras. Um espaço onde era possível se sentir parte do mundo europeu, com os seus vícios burgueses e uma “joie de vivre” que a Guerra já tinha sepultado no Velho Continente.

— Acho que chegamos a tempo – Orlínski estava animado.

Ao saber da presença do príncipe Kinsky, o cabaré colocou os três na melhor mesa do local. Eram atendidos com muito esmero e cuidado. Andrev se tornou o auge daquela noite, o convidado de honra. Era a primeira vez que ele ia até o estabelecimento, e aqueles afagos inflavam seu ego. Sentaram-se no ponto indicado por Madame Olímpia e pediram bebidas. Dali, João podia ver o mesmo empregado que o confundira com um garçom, no almoço após o “match” de futebol. O rapaz de pele rosada estava lá, trabalhando num balcão muito mais esplêndido do que o daquele dia. Mas, dessa vez, João Augusto não fez questão alguma de ir até ele, nem mesmo trocar uma palavra sequer com o rapaz.

As prostitutas estavam animadas com a chegada do príncipe, mas Madame Olímpia já dedicara a joia da noite ao nobre estrangeiro, nenhuma além dela poderia se aproximar dele: Maria Thereza brilharia apenas para ele. Mas a cafetina deu permissão para que as demais moças se aproximassem da mesa, apenas com o intuito de tentarem chamar a atenção dos dois que acompanhavam Andrev. Desse modo, João e Gabriel recebiam atenções excessivas das jovens, o que causava certo ressentimento entre alguns cavalheiros no recinto.

— Vai começar! – Orlínski se animou, ignorando as moças que tentavam adulá-lo.

O piano iniciou a canção. No pequeno palco, a mais augardada do cabaré surgiu entre plumas brancas, vestida como uma rainha do Antigo Egito, com tanta opulência que faria a famosa Mata Hari tremer de inveja. Para excitar ainda mais os homens, ela lançava olhares sensuais em direção à plateia, que a aplaudia com vigor e empolgação. Ela, no entanto, cantava com atenção especial ao príncipe Andrev Kinsky.

“Sou morena bonita e galante”. Começou a cantar uma música composta por Chiquinha Gonzaga. “Tenho raios e setas no olhar”. Com uma das plumas brancas na mão, provocava Andrev, dançando por entre as mesas até se aproximar dele. “E nem pode uma lira de Dante, os encantos que tenho cantar”. Maria Thereza se aproximou do príncipe e brincava com ele, passando a pluma em seu rosto, tirando altas risadas dos homens que a assistiam ao redor, ao mesmo tempo em que Andrev tentava interagir com a bela mulher.

— Parece que o seu príncipe vai levar a estrela da noite – João cochichou no ouvido de Orlínski.

Gabriel assistia a tudo com muito interesse. Observava as reações de Andrev, divertindo-se com as tentativas dele em participar do espetáculo. Maria Thereza o provocava ainda mais, brincava com ele e com as suas expressões, percebendo nas suas reações que o jovem príncipe estava sem jeito e acanhado. Isso a incentivava a continuar na sua busca em estimulá-lo com mais veemência.

— Vou dizer algo que pode te chatear – Orlínski cochichou com João. — Pelo que sei, foi desse jeito que Andrev se tornou amigo de Amália.

Aquilo foi um choque para João. Para ele, Amália jamais precisou estar num local como aquele cabaré. Num instante, Maria Thereza se transformou em Amália Sousa, dançando no colo de Andrev, ansiosa por conseguir levá-lo para um quarto. Num piscar de olhos, a imagem que tinha da sua amada do passado se desmanchara completamente. Enquanto João passava seus anos de Europa, a Amália dos seus sonhos se vendia para homens ricos, até achar um que a tirou daquela vida noturna de entreter clientes e dar lucro à cafetinas e cafetões.

“Eu machuco deveras a todos. Até fico contente por isso”. Maria Thereza continuava a cantar. Para João, a noite adquiriu um gosto amargo. Ouvir Gabriel revelar aquilo destruíra o seu humor, não conseguiria mais se divertir. Passou a beber com mais afinco, ansioso por levar para longe aquele desgosto. Sua mente, por sua vez, criava uma cena de reencontro com Amália. Como ela reagiria ao saber que ele descobrira como vivera a sua vida na capital do país?

“Mas a culpa não é, não é minha”. Maria Thereza voltou ao palco. “É dos homens que vêm com ardor”. De onde ela estava, dramatizava a letra da música, como se declamasse a história da sua vida, jogando piscadelas para os espectadores, que a aplaudiam e gritavam elogios para a cantora. “Me julgando dos céus a rainha. Me dizendo abrasados de amor”.

A plateia estava agitada. Palmas, gritos, várias palavras lisonjeiras, outras vulgares, eram jogadas em direção ao palco. Ao final do espetáculo, vários cavalheiros se levantavam dos seus lugares para ovacionar a bela cantora, todos vestidos no maior requinte e sonhando poder, um dia, levar Maria Thereza com eles até um quarto.

— Perfeito! – Orlínski também aplaudia.

— Sim – João disse, secamente.

O clima se acalmou. As luzes voltaram a bilhar com intensidade e os garçons trabalhavam na correria. Madame Olímpia surgiu à mesa de Andrev, João e Gabriel, oferecendo Maria Thereza num preço exorbitante ao nobre. O príncipe fugiu à investida da cafetina, dando uma resposta evasiva, sem dizer se, de fato, a queria ou não. Orlínski analisava o ambiente, apontando para João Augusto quem dos presentes fazia parte do secreto grupo de rapazes, revelado por ele no dia anterior.

— Aquele ali é Guilherme Horta, filho do Coronel Horta – Gabriel apontou para um belo jovem, sentado numa mesa com outros homens, todos membros do grupo.

— Você está me dizendo que boa parte dos que estão aqui preferem a companhia de um homem à de uma mulher? – João tentava afastar o seu mau-humor, focando-se nos rapazes indicados por Orlínski.

— Sim! E, provavelmente, a “festa” vai começar depois que saírem daqui – Gabriel fez uma expressão maliciosa.

João ria de tudo aquilo. O cabaré era, para alguns presentes, apenas um ponto de encontro, um local onde poderiam se ver e, saindo dali, viveriam seus prazeres sem que ninguém suspeitasse deles. O médico se sentia idiota no meio daquilo tudo: de um lado, jamais poderia imaginar que Amália pudesse trabalhar num ambiente como aquele, do outro, era incrível saber que muitos homens distintos da cidade estavam ali apenas para achar parceiros e o prazer masculino.

Todavia, a sua perplexidade teve de ser abandonada ao perceber a presença de um policial, caminhando na direção de sua mesa. A última coisa que queria era ter que conversar com policiais, principalmente porque podia imaginar que algum infeliz tivesse chamado a polícia com o intuito de tirá-lo dali. João respirou fundo, aguardando a aproximação do oficial. De fato, o sujeito uniformizado estava à sua procura. O que o doutor não esperava, por sua vez, era receber a notícia de que o delegado o chamara mais uma vez para se dirigir até o local onde encontraram uma terrível cena.

— O quê? Outro? – A reação de João chamou a atenção de Andrev e Gabriel.

— O que houve? – Perguntou Orlínski. João respondeu com uma reação que indicava exatamente o que havia acontecido.

— Nós vamos com você – Andrev, lançando uma grande quantidade de dinheiro sobre a mesa, levantou-se. O policial, a seu turno, torceu o rosto contra aquela decisão.

No entanto, o agente pouco pôde fazer para impedi-los. Estava sozinho e acabou concordando com a ideia de Orlínski e Andrev acompanharem o médico. Rapidamente, os três rapazes deixaram o cabaré e entraram no carro, seguindo a carruagem da polícia até o local indicado. Pelo caminho que percorriam, sabiam aonde estavam indo. Uma mistura de medo e ansiedade tomou conta do interior do automóvel guiado por Andrev. Em pouco tempo, a cidade desaparecia e estavam de volta à sinistra estrada, palco das terríveis experiências que viveram nos últimos tempos.

Dessa vez, o delegado não estava presente. Mais dois policiais aguardavam a chegada de João e se espantaram ao ver o carro parar ao lado da carruagem guiada pelo policial. A noite já não estava tão fria quanto outrora, mas pairava sobre ela um clima tenebroso. João podia sentir o cheiro da morte mais uma vez. Sabia que estava prestes a presenciar uma cena tão grotesca como a que vira há mais de um mês. A tensão por estar ali aumentava, as pernas vacilavam, e o silêncio piorava a sensação de impotência diante do desconhecido.

Os três desceram do veículo e receberam um lampião do policial, cuja expressão denunciava o receio por ter permitido que Andrev e Gabriel seguissem João. O médico foi à frente, acompanhando os passos cuidadosos do oficial até o terrível local. A respiração vacilava, o pavor tomava lugar, e a memória relembrava os momentos de angústia que passaram da última vez em que estiveram ali. O horror ganhava ainda mais força à medida que andavam por entre as árvores e os sons da noite estrelada. Sabiam o que esperava por eles, mas temiam saber quem teria sido a vítima que encontrariam.

— Aí está – disse o policial, erguendo o seu lampião para que pudessem ver o assassinado.

Como da outra vez, pregado numa mangueira, o corpo nu de um jovem jazia, derramando sangue sobre o solo; os olhos foram arrancados, o pênis mutilado, o peito rasgado com a cruz invertida e, entre as suas nádegas, a cruz enterrada, encravada com violência na carne do pobre homem.

João, Andrev e Orlínski estavam congelados diante daquela imagem. Mais uma vítima fora ceifada naquela noite e eram incapazes de compreender como alguém poderia fazer aquilo com um ser humano. Respirando fundo e com bastante cuidado, João Augusto foi com o lampião até o rosto do rapaz. Atônito, voltou-se para Andrev e Gabriel e gritou:

— É Arthur de Azevedo, o jornalista!


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