Capítulo 9

O sol mal tinha dado os seus primeiros raios de luz na manhã seguinte. Em sua casa, João Augusto e Orlínski esperavam por Andrev diante da porta. Gabriel decidiu ajudar o amigo na limpeza do corpo de Arthur de Azevedo e, após analisarem a causa mortis do pobre rapaz, passaram a noite conjecturando sobre a morte da terceira vítima do assassino misterioso. No final da madrugada, a polícia buscou o cadáver. Após tomarem banho e se arrumarem, aguardavam para irem até Sabará.

— Quando esse pesadelo vai acabar? – Gabriel fumava um cigarro e observava a alvorada.

— Não sei – João, sentado nos degraus da pequena escada, fitava o chão, cabisbaixo.

— Esse assassinato a polícia não vai conseguir abafar.

— Não. Mas, provavelmente, vão dizer que foi suicídio.

— O pai de Arthur é dono do jornal mais lido na cidade. Será que ele vai aceitar essa história? – Orlínski lançou a guimba do cigarro na rua.

— Provavelmente, não!

O barulho do motor ecoou pela rua vazia, tirando Orlínski e João daquele taciturno diálogo. O carro de Andrev virou a esquina e parou diante da residência de João. Rapidamente, os dois entraram no veículo. Assim que se acomodaram, os três rumaram em direção à antiga cidade do Ciclo do Ouro, esperando que pudessem encontrar algo para evitar que mais uma vida inocente caísse nas mãos da morte.

A suspeita de que Maximiliano pudesse ser o assassino ganhou força após a morte de Arthur de Azevedo. Durante o trajeto, discutiam sobre essa possibilidade que, para João, era a mais óbvia. A peça que faltava era entender o que Sabará significava naquela história. Se encontrassem algo que ligasse a velha cidade com o afinador de pianos, estariam mais próximos da certeza e poderiam pegá-lo.

A estrada até Sabará não estava nas melhores condições, o que atrasou a viagem. A poeira subia, obrigando os três a protegerem o rosto com lenços. Algumas horas no meio daquelas condições severas, e já podiam avistar as torres das igrejas barrocas e o telhado do casario colonial. Atravessaram o Rio das Velhas e entraram pelas ruelas tortuosas e desordenadas da cidade que tinha ares de vilarejo. A impressão era de que o lugar estava congelado no passado, morta no meio do silêncio e das montanhas. Não havia uma alma viva andando pelas ruas. Era uma cidade fantasma!

O cenário desolador mudava à medida em que se aproximavam da praça central da cidade. Perto dali estavam as principais igrejas, o comércio e o teatro. Foi naquele local que os três avistaram os primeiros sinais de vida humana andando pelas ruas dos arredores, e algumas pessoas saindo de uma das igrejas que tocava seus sinos.

— Aonde vamos primeiro? – Perguntou Orlínski ao descer do carro. — Ao bar? Sempre tem gente no bar!

— Podemos parar uma dessas beatas que estão saindo da igreja. Os mais velhos sempre gostam de causos – alegremente, João foi até uma senhorinha que vinha carregando um terço nas mãos. Ao pedir informações sobre “Santa Quitéria”, ela torceu os lábios e fechou a cara, afastando-se dele sem dizer uma palavra sequer.

— Parece que não estão para conversa hoje – ironizou Gabriel.

— Vamos ao bar, então! – João ignorou o comentário jocoso.

Como Orlínski havia previsto, o pequeno bar num canto da praça estava cheio de homens, que não se importavam de estarem bebendo tão cedo. O estabelecimento era pequeno, apertado e precário. Os senhores se sentavam junto ao balcão, espremendo-se com o intuito de ter um lugar seguro para colocarem os seus copos cheios de cerveja ou cachaça. Um ventilador rangia sob o teto e, nas paredes, propagandas de bebidas exibiam belas mulheres, que sorriam, mostrando seus ombros e pernas de forma escandalosa.

— Deixa que eu falo dessa vez – Orlínski se prontificou. Os olhares fulminantes em sua direção o intimidavam, mas caminhava com desenvoltura, tentando se fazer parecer com um conhecido local. Porém, Gabriel era incapaz de convencer qualquer um ali. Todos sabiam de que se tratava de três forasteiros invadindo um espaço no qual não eram bem-vindos. A situação quando Orlínski perguntou ao atendente onde ficava Santa Quitéria piorou. O bar caiu num silêncio assustador. Todos reprovaram o pedido, e suas expressões eram de pessoas prestes a se levantarem e expulsá-los a ponta pés.

— Acho melhor a gente sair daqui logo – Andrev cochichou para João.

— Vamos olhar em outro lugar, Orlínski – aflito, João o puxou pelo braço.

A passos largos, os três voltaram para o carro. João arrastava Gabriel com certa fúria, temendo que fossem seguidos por algum cliente daquele bar sujo e malcuidado.

— Vamos ao bar... – debochou João. — Agora, a cidade toda sabe que a gente está procurando esse lugar!

Encostaram-se no carro. Uma frustração surgia em todos. Como poderiam saber mais sobre Santa Quitéria, se todos evitavam o assunto? Pela reação no bar, sabiam que era um local odiado. Onde encontrariam alguém capaz de lhes contar algo a respeito dele? Não podiam perder aquela viagem. Voltar para Belo Horizonte de mãos vazias era impensável.

Com o objetivo de achar alguma pessoa disposta a ajudar, João andou pela praça, analisando com atenção o rosto de cada um que cruzava o seu caminho. Torcia para que um, apenas um sujeito pudesse ajudá-lo naquele momento!

Chegando a outro ponto da praça, parou para fumar e colocar as ideias no lugar. Enquanto tragava e expelia a fumaça, percebeu um jovem preto varrendo a entrada de uma farmácia. O rapaz aparentava ter vinte e poucos anos e se vestia de modo simples. Seu rosto era bonito, e seus olhos e boca evidenciavam que executava o trabalho a contragosto. Num ímpeto, João foi até ele, acreditando que poderia ajudá-lo de alguma forma.

— Bom dia – João Augusto disse em voz baixa. Apresentou-se, dizendo que era médico e que precisava de ajuda.

— Me chamo Miguel, senhor - o jovem foi solícito, olhando para o doutor com curiosidade.

— Preciso de informações – João se aproximou ainda mais do rapaz, que hesitou, suspeitando da forma como era interpelado pelo médico. — Preciso saber sobre um tal lugar chamado Santa Quitéria.

Miguel olhou ressabiado, apertando o cabo da vassoura com força. Assustado, olhava para os lados com medo de que os transeuntes pudessem ouvir João. Sua expressão se alterou, como se estivesse cometendo um crime e pudesse ser punido a qualquer momento por estar conversando com alguém que queria saber sobre Santa Quitéria.

— Não se fala sobre isso aqui na rua, senhor – alertou Miguel, tentando se desviar do assunto.

— Só me diga o que é esse lugar e onde posso encontrá-lo – João se empolgou e insistiu. Tomando os devidos cuidados para não ser ouvido ou visto, tirou do bolso algumas notas e ofereceu ao rapaz. — Qualquer ajuda serve!

Miguel vacilou por alguns instantes até tomar a sua decisão. Sem anunciar, empurrou João para dentro da farmácia, completamente vazia naquela hora da manhã. Ainda tenso, certificou-se de que não poderiam ser encontrados ali. Em seguida, respirou fundo e fitou o médico seriamente:

— Fazenda Santa Quitéria! – O menino falava ofegante. — Siga essa rua direto até a antiga estrada para Caeté – Miguel apontou o caminho que João deveria seguir. — Você vai encontrar um vaso de mármore num cruzamento – o rapaz respirava nervosamente, o que deixava a sua fala entrecortada. — Vire nesse ponto e siga toda vida. É um pouco longe, mas não tem como errar!

— Obrigado! – João entregou as notas ao rapaz. — Você sabe quem vivia lá?

— O Barão de Santa Quitéria, uai! Todos o conheciam aqui. Todo mundo tinha medo dele aqui!

— E qual era o nome dele? – Como se estivesse contaminado pelo nervosismo do rapaz, João ficou mais tenso e incisivo nas perguntas. Gotas de suor escorriam das suas têmporas.

— Eu não sei! Todo mundo só chamava de Barão – Miguel ficou assustado com a reação de João. — Isso é tudo que eu sei. Todo mundo tem muito medo de ir até a antiga fazenda!

— Por que todo esse medo?

— Dizem que é assombrada – Miguel estremeceu.

Naquele momento, o som dos passos do farmacêutico interrompeu a conversa abruptamente. Miguel correu para fora, retomando o seu trabalho de varrer a calçada. João apenas cumprimentou o dono do estabelecimento e saiu quase correndo. Queria chegar o mais rápido possível até Andrev e Gabriel.

— Consegui! – João entrava no carro. — Rápido!

Andrev e Orlínski se acomodaram no veículo e seguiram o caminho indicado por João. Assim que as casas terminaram, dando lugar à estrada de terra batida, as árvores ao redor tampavam parcialmente o céu, lançando sobre o chão um jogo de luz e sombra que criava uma cena misteriosa. Os três, ansiosos, observavam o caminho com atenção, temendo perder o marco indicado pelo jovem Miguel. O ar ali era húmido e frio, sem a poeira que se ergueu durante a vinda de Belo Horizonte. Passou mais de uma hora para encontrarem o tal vaso indicado: um jarro em estilo greco-romano, sobre um pedestal, ambos esculpidos em mármore, cobertos por ervas daninhas e musgo.

— É aqui o lugar! – Apontou João. — Vire! Vire!

— Calma, João – Andrev tentava dominar o carro.

A via ficou mais estreita e escura. Acima de suas cabeças, os galhos de diferentes árvores se torciam uns sobre os outros. Um ar pesado e denso os abraçava, numa atmosfera muito semelhante à do casebre próximo à capital. O silêncio era praticamente total, apenas quebrado pelo motor do automóvel. Era como se não houvesse vida ali, além da floresta volumosa e amedrontadora.

Depois de muito rodar, chegaram às ruínas da entrada da antiga fazenda. Um portão de ferro completamente destruído, sustentado por elegantes estruturas de pedra, agora, cheias de rachaduras e cobertas pela vegetação. Era possível ver algo como um brasão esculpido nelas, mas a imagem do convalescente casarão chamava mais atenção e não pararam para averiguar os detalhes entalhados naquela obra envelhecida.

Ao redor do caminho que conduzia à antiga residência senhorial, mangueiras anunciavam a chegada da primavera. João sabia que se tratava da mesma casa retratada no desenho que estava entre os papéis que encontrou no casebre, a mais de um mês atrás. A cada metro que avançavam João ficava mais ansioso, ávido para investigar aquele local tão sinistro e abandonado.

— Fazenda Santa Quitéria – disse Andrev, parando o carro diante da entrada.

Era um casarão de dois andares, em estilo colonial. As janelas estavam quebradas e o telhado ameaçava desabar, o mato se erguia sobre as paredes e o silêncio era de enregelar. Parecia mesmo ser assombrado! Os sinais dos seus tempos de glória apareciam nos detalhes da decoração externa, bem ao gosto dos tempos do Império, mas o abandono já tinha tomado o seu lugar, consumindo tudo que não fosse capaz de resistir às intempéries e ao tempo. Um local esquecido por tudo e por todos.

— Que lugar tenebroso! – Disse Orlínski, observando o terreno ao redor. Do lado oposto à antiga mansão, próximo à entrada, havia uma longa construção que se assemelhava a um grande galpão. No meio do que deveria ser o jardim, via-se uma coluna de pedra elegantemente esculpida, com imagens de homens musculosos que, com as mãos levantadas, seguravam argolas de ferro.

— Aquilo era o pelourinho, onde os senhores castigavam os escravos – apontou João, aproximando-se da entrada principal do casarão, cujas portas estavam quebradas e podres.

— Que horror! – Exclamou Orlínski.

— Vamos logo. Não podemos perder tempo! – João liderou o trio para dentro da mansão.

O interior ainda tinha sinais de luxo e opulência nas paredes e no teto. O hall de recepção era amplo, coberto por teias de aranha e com ratos correndo de um lado para o outro. Um lustre com velas derretidas se erguia, pendurado sob um forro pintado com cenas da mitologia grega. Dali, podiam ver a escada em madeira esculpida numa extremidade e, de cada lado, portas que conduziam ao salão mais nobre da casa e à sala de jantar. Muitos móveis ainda estavam ali, como o relógio de pêndulo que não mais tocava, a longa mesa onde os senhores faziam as refeições e um piano, no ambiente onde se realizavam os saraus. Numa das paredes do hall estava o brasão do Barão de Santa Quitéria pintado, lutando para sobreviver ao desgaste do tempo e do clima.

— Que mau gosto! – Exclamou Andrev ao ver os símbolos daquele baronato. Dentro de um escudo, grilhões e correntes eram exibidas como o símbolo do nobre título. — Isso é o brasão de um carrasco!

O primeiro pavimento da casa era reservado aos ambientes sociais e à cozinha. Nada nesses cômodos dava alguma pista nem tinha algo que pudessem encontrar de útil. Apenas eram um emaranhado de móveis abandonados e desgastados. Decidiram, então, subir a escada, cujos degraus de madeira falhavam e alertavam para o perigo de que a estrutura poderia desabar a qualquer momento. No meio da subida, podiam ver os restos de um vitral que trazia luz à escadaria. A imagem do antigo imperador, Dom Pedro II, circundado pela bandeira do império e as riquezas do Brasil: o café, o ouro, a locomotiva a vapor e o trabalho dos negros escravizados. Para completar a decoração, um esplêndido lustre rangia vagarosamente, conduzindo os três até o segundo andar da casa grande.

O último pavimento da residência estava numa condição ainda mais deteriorada: o piso apresentava buracos e falhas, o forro que cobria o teto estava acabado e buracos no telhado traziam luz ao interior. Todavia, era possível ver pinturas e sinais de decoração por todos os lados, tudo comido por insetos e pelo mofo.

Todos os cômodos eram quartos, alguns ainda com as camas, outros apenas com os guarda-roupas; havia também as salas de banho, exibindo banheiras infestadas pela sujeira e o descaso, com penicos e escarradeiras de porcelana quebradas.

Andrev, João e Gabriel empurravam camas, abriam armários, batiam nas paredes, procurando por algo escondido. Contudo, nada encontraram. A residência não parecia esconder algo. Tudo que fora deixado não revelava muita coisa: era apenas um casarão abandonado pelos donos há muitos anos.

Mais uma vez, a frustração começou a dar sinais. Tanto esforço para chegarem àquele lugar para nada! Faltava apenas mais um quarto a ser investigado, mas o ânimo já não era o mesmo do início. Tudo indicava que aquelas ruínas não seriam de utilidade alguma. Adiantando-se, Andrev foi averiguar o último ambiente daquele andar, enquanto João e Orlínski vasculhavam o resto com fúria.

— Nada! Nenhum livro, carta ou sinal – João estava frustrado.

Foi quando a voz de Andrev ecoou pelo casarão abandonado, chamando-os até o cômodo onde estava. Era o quarto de um menino, a julgar por alguns brinquedos abandonados pelos cantos: um cavalinho de madeira para montar, alguns animais e soldadinhos de chumbo; um espelho, um armário, e uma escrivaninha completavam o mobiliário, bem como a cama que Andrev tirou do lugar. Debaixo dela, o símbolo da cruz pintado sobre o assoalho de madeira.

— Ouçam! – Disse o príncipe, assim que João e Orlínski apareceram à porta. Andrev batia um dos pés, fazendo ecoar o som, anunciando que havia algo ali embaixo.

Com dificuldade, puxaram a madeira do piso até revelarem o que estava escondido debaixo dela. Ali, viram surgir uma caixa. Orlínski a pegou e abriu. Dentro dela, um cinto de ferro em formato de pênis pairava sobre o fundo de madeira tosca. O nome “Gregório” estava inscrito na peça.

— Um cinto contra onanismo – Gabriel tirou o objeto da caixa. — Parece que os pais desse tal Gregório não queriam que ele gastasse o seu tempo com o auto-prazer.

— Mas isso não quer dizer nada! – João estava impaciente. Olhou seu reflexo no espelho, aflito por não conseguir encontrar algo que fizesse sentido naquela casa. Nervoso, foi até à escrivaninha e começou a arrancar as gavetas, jogando no chão as partes do móvel. Foi então que percebeu um pedaço de papel cair sobre a poeira do piso de madeira, junto com uma pasta de couro.

Pegou o papel para analisá-lo. Era uma fotografia. Na imagem, o casarão exibia seu melhor momento e glória; diante dele, uma família posava com orgulho. Num estalo, João percebeu uma presença conhecida entre as pessoas que posavam rígidas para foto: era o rapaz cuja face estava impressa num dos papeis que pegara no casebre.

— “20 de janeiro de 1902” – leu em voz alta.

— Jakob von Einem – disse Andrev, aproximou-se, fitando a única pessoa que podiam identificar na foto.

— Provavelmente, Gregório é esse menino – João analisava a expressão do jovem ao lado de Jakob. A foto exibia uma família enfileirada diante do casarão: de um lado, um casal cuja mãe carregava uma menininha, do outro, o tal Jakob apoiava uma das mãos sobre o ombro do rapaz que poderia ser o tal Gregório de Miranda.

— Ótimo! Encontramos mais uma foto desse tal Jakob, achamos quem poderia ser o Gregório de Miranda... mas nenhum desses nomes nos levam ao Maximiliano! – Protestou Orlínski. — Melhor sairmos daqui e confessar que não encontramos nada de realmente útil!

— Não há nada aqui que possamos usar contra Maximiliano – concordou Andrev.

João pegou a fotografia e a guardou. Abriu a pasta e encontrou uma série de papeis com tabelas, nomes e datas. Eram registros. Como eram muitos, pediu para que Orlínski e Andrev o ajudassem a ler do que se tratavam tais documentos.

— São registros de compra e venda de escravos – disse Gabriel.

— Sim, mas as datas não me parecem certas – João observava os anos escritos a bico de pena nas folhas: 1890, 1895, 1900. — Essa fazenda comercializava escravos mesmo após a abolição!

— Vejam isso aqui – Andrev mostrava uma das tabelas. Nela, o registro de venda de dois homens, Tiago e Joaquim. O ano era 1905 e o comprador era Maximiliano Nazzari.

— O infeliz fazia negócios com essa família! – Exclamou Orlínski.

— Negócios ilegais! Acho que já temos uma excelente pista – João se ergueu e sua face se iluminou.

Contentes com aquele achado, desceram, abandonando o casarão e caminhando em direção ao carro. João Augusto observava a coluna que servira como pelourinho, com as argolas de ferro rangendo de acordo com a vontade do vento. Algo em sua mente lhe dizia que ainda precisavam vasculhar mais o local.

— Esperem! – Gritou. — Ainda há um lugar para investigarmos – apontou para a comprida construção do outro lado do terreno.

João correu até o local. Era uma estrutura de paredes sólidas, com telhado em estilo colonial, sem janelas ou portas de madeira. Andrev e Orlínski o seguiram apressadamente. Assim que entrou, o príncipe congelou, assustado com o que via diante dos seus olhos, incapaz de continuar a adentrar aquele recinto tão tenebroso sem se sentir espantado com todas aquelas ferramentas de ferro enferrujadas, espalhadas por todos os cantos.

— Que lugar é esse? – Perguntou, espantado.

— É a senzala – Respondeu João, evitando olhar os objetos jogados pelo recinto.

Apesar de ser uma longa estrutura, a construção possuía apenas um cômodo, sem divisórias. Pelo chão, bolas de ferro com correntes, máscaras de flandres, algemas e uma extensa obra em madeira, cheia de buracos; no teto, correntes com ganchos balançavam e rangiam. Andrev se sentiu dentro de uma masmorra medieval, e não tinha a mínima noção do que eram todos aqueles objetos de tortura.

— Mas o que significa isso tudo? – Andrev não acreditava no que via.

— Era aqui que os escravos ficavam – Gabriel respondeu. — Esses objetos eram para “mantê-los na linha”.

— Como um ser humano é capaz de cometer tamanha atrocidade? – Protestou.

Orlínski caminhava pelo local, seguindo João, que passou a analisar tudo cuidadosamente atrás de outra pista. Gabriel observava as correntes penduradas no teto e todos aqueles instrumentos criados unicamente para causar dor e sofrimento. Era impossível não fazer ligação com os ferimentos causados no corpo de Arthur de Azevedo, a vítima que pôde examinar ao lado de João Augusto, na noite anterior.

— Não acha que o assassino possa ter se inspirado nisso? – Orlínski perguntou, ao se aproximar de João. — Uma vida circundada por tortura... isso pode nos indicar algo.

— Sim! – Concordou João, ainda vasculhando o ambiente.

— Mas será que o Nazzari, ou esse menino Gregório, ou até mesmo o tal Jakob poderiam sentir prazer nisso tudo?

— Talvez! – Ponderou João Augusto. — Agora sabemos que o maldito Maximiliano esteve envolvido nesse lugar perverso. Precisamos conversar com ele urgentemente!

— Sim! – Orlínski estava pensativo. — Temos que encurralar esse desgraçado!

Saíram. João ainda procurava por entre as mangueiras por mais alguma informação importante, enquanto ouvia Orlínski e Andrev chamando-o para voltar ao carro. Tinha certeza de que algo ali ainda poderia dar mais vestígios do que se passava naquela fazenda, alguma indicação de que estavam realmente no caminho certo. Vasculhou pelo local, procurando por entre os troncos das árvores e pelo chão. Por fim, sua busca o levou até algo que prendeu a sua atenção e o espantou: numa das mangueiras, dois pregos grandes e enferrujados permaneciam fincados. Aquelas peças de ferro estavam pregadas a uma distância um do outro que se assemelhavam ao Cristo preso na cruz. Empolgado, chamou por Gabriel e Andrev.

— O que foi, João? – Questionou Orlínski.

— Aurélio pode não ter sido o primeiro – do solo, João tentou provar que os pregos cravados no tronco podiam estar ali com o propósito de sustentar um corpo, erguendo os braços para simular a sua teoria.

— Talvez você esteja certo – disse Andrev. — Com tudo o que temos até agora, o assassino tem alguma ligação com esse lugar, ou mesmo viveu aqui – tirou um cigarro e o acendeu.

— Sim! – Orlínski se manifestou. — Agora temos nomes e mais suspeitos.

— Temos que saber se o tal Barão e o resto da família ainda estão vivos. Se não estiverem, teremos apenas um suspeito – João começou seu trajeto de volta ao carro.

Regressaram à Sabará, após enfrentarem a sinistra estrada, chegando à pequena cidade no meio da tarde. Precisavam comer, mas evitaram a praça central da cidade, escolhendo um pequeno restaurante próximo à igreja de Nossa Senhora do Carmo, um belíssimo exemplar do barroco mineiro do século XVIII.

Após a refeição, Orlínski foi fumar no adro da igreja, cansado e com olheiras profundas. Para passar o tempo, enquanto esperava por João e Andrev, observava a construção centenária, seus detalhes e imagens. Depois de se cansar de ver tantas figuras barrocas, andou até a entrada do templo religioso. Pregado ao lado da porta entalhada, um quadro de avisos anunciava as missas, as homílias, os velórios e os matrimônios. Dentre os nomes dos casais, Gabriel encontrou mais uma peça para o quebra-cabeça que tentavam montar.

— Vejam isso! – Apontou para o quadro, assim que João e Andrev chegaram, ofegantes, até a igreja

— O que é isso, Orlínski? – Indagou João.

— É o anúncio de um matrimônio. “Maximiliano Nazzari e Eufrásia de Miranda” – Gabriel leu em voz alta. — Vejam a data: 22 de agosto de 1908!

— Eufrásia é a jovem que ele apresentou no almoço do dia sete de setembro – disse Andrev.

— Notem o sobrenome dela. É o mesmo que o de Gregório! – Respondeu Gabriel.

— Talvez ela seja a menina na foto que João encontrou na fazenda – o príncipe conjecturou.

— O Nazzari casado com a filha do “Barão açougueiro”?! – João se deixava levar pelos pensamentos. — Que dia maravilhoso, meus amigos! – Comemorou.

Chegaram em Belo Horizonte no início da noite. João recusou o convite de Andrev para jantar com eles. Até Gabriel preferiu ir para casa dormir. Ambos estavam esgotados após a noite mal dormida e a viagem. João pediu para Andrev deixá-lo próximo à sua casa. Queria andar um pouco antes de entrar para descansar.

João estava contente com o que encontraram em Sabará. Enquanto caminhava, revivia as cenas ocorridas na fazenda Santa Quitéria. Estava claro, para ele, que Maximiliano Nazzari fazia parte do comércio ilegal de pessoas e, ao constatar o que viram na antiga senzala, a violência e a tortura faziam parte da vida do afinador de pianos. Para ficar ainda mais interessante: o suspeito poderia estar casado com a filha do antigo dono do casarão. Na cabeça de João, tudo fazia sentido. Maximiliano era o responsável pelas mortes de Aurélio, Rodolfo e Arthur de Azevedo.

Um pai matando o próprio filho por ódio. Pensar nisso fazia João tremer de raiva. Aliado a isso, lembrava-se do que Amália dissera, no dia anterior, sobre o passado de Andrev. Como uma mãe poderia torturar um filho por ele ser diferente? Enquanto ele refletia sobre o príncipe, imagens do cinto contra a masturbação encontrado no possível quarto de Gregório, apareciam. Era bem provável que os pais de Andrev tivessem obrigado o rapaz, quando adolescente, a usar coisa igual. Terrível! Em algumas famílias, os pais eram o mais nocivo veneno para o desenvolvimento saudável de uma criança.

Com essas ponderações na cabeça, João virou a esquina para pegar a sua rua e entrar em casa. Diante do seu portão, três policiais o aguardavam. Conseguiu ver, dali, o bigode pomposo do delegado. Seu coração gelou. Será que outro assassinato ocorrera enquanto estavam em Sabará? Sentiu as suas pernas tremerem e ficou apreensivo. Não tinha condições físicas para lidar com um novo corpo naquela noite.

— Boa noite, doutor! – O delegado segurava um cigarro entre os dedos enluvados. — Se divertiu muito com o príncipe e aquele polaco hoje? – Fez uma expressão maliciosa no rosto.

— Boa noite, delegado – João tentava esconder a tensão. — Aconteceu alguma coisa?

— Não! – O delegado tragou e olhou para os dois outros policiais que o aguardavam a uma certa distância. — Vim para lhe agradecer por ontem.

— Não há de quê – João foi seco com o oficial. Continuando a caminhar em direção à sua casa.

— Também vim lhe dar um aviso, doutor – A voz do delegado saiu séria e medonha. João congelou diante dele.

— O que o senhor quer, delegado? – Perguntou João.

— Você não é policial, doutor! – Lançou fumaça para o alto e voltou a fitar João Augusto. — Nem você, nem aqueles dois. Parem com isso e volte a se dedicar à sua carreira!

— Estou me dedicando, delegado – João não se intimidou. — Se a polícia não tentasse acobertar assassinatos macabros que têm ocorrido na cidade, talvez eu nem precisasse estar envolvido nisso – João mantinha a postura firme.

— Não há assassinatos macabros nesta cidade – o delegado pronunciava cada palavra com uma frieza assustadora. — Infelizmente, alguns jovens de reputação duvidosa estão tirando as suas próprias vidas.

— Reputação duvidosa? Como o seu ousa dizer algo desse tipo? – João se segurava para não berrar aquelas perguntas no ouvido do delegado.

— Apenas parem com o que estão fazendo. Agora é apenas um aviso. Lembre-se de que a corrente sempre quebra no seu ponto mais fraco – sorriu malvadamente para João.

— Por que o senhor não vai atrás desse criminoso? – João se alterou com aquela ameaça. — Seja policial e faça o seu trabalho!

— Estou fazendo o meu trabalho, doutor João Augusto. Você quem não está fazendo o seu!

— Não vou parar até achar quem está fazendo isso! Minha vida também está em perigo e não vou ficar em casa esperando a minha vez de morrer daquela forma – João sentia sua cabeça pulsar de raiva enquanto apertava as mãos, ansiosas para desferirem um soco na cara daquele delegado cretino.

— Só estará em risco se você for um deles – sorriu de modo malévolo. — Esse assassino está limpando a cidade desses maricas do demônio – deu a última tragada no cigarro e o jogou no chão.

— Como? – João não escondia o ódio e o ranço que sentia por aquela criatura uniformizada à sua frente.

— Eles pensam que ninguém sabe. Mas a turminha desse príncipe aí só está pagando pelos pecados que cometem. Sodomitas sujos! – O delegado começou a caminhar em direção aos outros policiais. — Deus escreve certo por linhas tortas, doutor. Se você não quer acabar como eles, sugiro parar de brincar de detetive.

João assistiu aos policiais deixando a sua rua. Não acreditava no que acabara de ouvir e aquilo lhe causava náuseas. O comportamento execrável do delegado era um recado claro de que o que ele, Andrev e Gabriel faziam começava a incomodar alguém muito importante. Não podia se acovardar diante daquela ameaça. João sabia que precisaria ser forte para enfrentar o que fosse preciso para pegar aquele assassino e, ainda, desmoralizar aquele policial corrupto.


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