Epílogo

Belo Horizonte, dezembro de 1940

A cidade que João vivera já não era mais a mesma. Arranha-céus cortavam o horizonte, e a população crescia, numa euforia de costumes muito diferentes da que vivera na sua juventude, pautada por valsas e um modo viver ligados ao século passado, num período anterior à Guerra Mundial e que, agora, era chamado de Belle Époque. A capital mineira se aproximava dos seus cinquenta anos, e não podia mais ser chamada de pacata e monótona. Uma vibrante metrópole nascia, trocando o estilo eclético do século XIX, e se vestindo com o art déco, que casava muito bem com o gosto dos novos tempos, vindo dos Estados Unidos. O rádio se popularizou, enquanto nomes que seriam eternizados, tais como os de Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade, andavam por entre os arcos do Viaduto Santa Teresa, ou frequentavam o Cine Brasil, na Praça Sete de Setembro. E, apesar da guerra na Europa, o prefeito Juscelino Kubitschek dava a Belo Horizonte um dos seus momentos mais irradiantes, com a Pampulha em construção, e o Edifício Acaiaca, que logo seria o mais alto prédio do Brasil.

No meio dessa euforia, e já longe da sua juventude, João celebrava a consolidação do seu consultório e do seu trabalho. Casado há mais de dez anos, seus dois filhos cresciam felizes, num mundo de conforto material tão sonhado pelos seus antepassados. Julgava ser feliz, apesar de não amar a esposa. Anos antes, acreditou que Rita seria a mulher da sua vida, mas o tempo logo tratou de levar embora o que sentiu por ela ao pedir sua mão em matrimônio. Agora, resignara-se em cuidar dos filhos e da sua profissão. Relativamente satisfeito com o que conquistara, e tranquilo com a rotina, vivia no mesmo local que sempre habitara em Belo Horizonte, cuidado por Eustáquia que, mesmo passando dos oitenta, ainda era a tia rígida e orgulhosa por ver a casa cheia de vida, com as crianças correndo e brincando com o Oliver, o lindo cachorro peludo que adorava estar no meio da bagunça infantil, alegrando a residência com os seus latidos, sendo a terceria criança que animava a família e o consultório do doutor João Augusto.

Naquela manhã ensolarada, o médico, agora com marcas do tempo no rosto, e já não mais com o corpo forte da sua juventude, terminava de atender a mais um paciente, uma criança oriunda dos diversos bairros operários que surgiam ao redor das fábricas que faziam a cidade crescer muito além do planejado por Aarão Reis, ainda na década de 1890, quando a cidade sonhava em ser uma cópia de Paris.

Enquanto o pai terminava o seu trabalho, na sala, as crianças cantavam “I’m sitting on top of the world”, de Al Jonson, que tocava no rádio, ao mesmo tempo em que brincavam com Oliver. Júlia, sua filha mais velha, estava prestes a comemorar seus dez anos, e Marcos, o caçula, faria oito anos em fevereiro. A sala de visitas, decorada para o Natal, enchia-se com o cheiro do almoço, cuidadosamente preparado por Rita e Eustáquia, as duas responsáveis por manter a ordem e a harmonia da família e do lar.

­— Seus filhos são lindos – A mãe do jovem paciente assistia à cena das crianças cantando em inglês, e brincando com o cachorro. ­— Júlia é muito inteligente e culta.

­— Eles são tudo para mim – João, com as mãos nos bolsos do jaleco, olhava com um sorriso triste no rosto. Não sabia se o que vivia era uma glória, resultado de suas conquistas, ou apenas uma imposição social que todos eram subjugados e obrigados a cumprir para poderem dizer que atingiram a felicidade.

­— Parabéns, doutor! É um excelente médico e um grande pai – a mãe abraçou João e se despediu, que acenou para os dois do alpendre de sua casa.

No rádio, a voz do locutor anunciava mais um capítulo da novela, estrelada por Amália Sousa. O grande amor da sua vida se tornara uma estrela do rádio, com sua voz sendo idolatrada em tramas e em músicas, e transmitida para todo o país. Amália chegara ao topo da sua carreira e, agora, escandalizava a sociedade carioca com seus romances com jovens herdeiros de famílias ricas, suas roupas extravagantes, e com as amizades homossexuais que mantinha no seu palacete, outrora residência dos Kinsky, doada pelo príncipe quando retornou à Europa. Sempre que João ouvia a voz dela no rádio, seu coração fisgava, imaginando como sua vida poderia ter sido ao lado dela. Fantasiava momentos com Amália, sonhando com algo que jamais se realizaria. João Augusto sabia que chegara a um ponto da sua existência que apenas construir situações agradáveis na mente já lhe bastava para fugir da realidade, um alívio para ajudá-lo a se esquecer de que deveria cuidar de uma esposa que não amava, dos filhos que precisavam dele, da tia idosa, e do trabalho que nada mais era que uma repetitiva rotina, que lhe dava o dinheiro necessário para fazer com que tudo permanecesse na estabilidade. Sem surpresas, sem sonhos, muito menos esperança de algo além da morte ao lado dos seus parentes.

­— Amor, amor! – A voz doce de Rita o expulsou da melancolia. ­

­— S-sim... estava perdido aqui – João sorriu.

­— Essa carta chegou para você, enquanto estava atendendo – Rita tirou do bolso do vestido o envelope branco e amassado. ­— Vem de um lugar difícil de dizer o nome: Tchecos... Checos...

­— Tchecoslováquia! – João se animou. ­— Quanto tempo!

­João pegou a carta e correu até o consultório. Há muito não recebia alguma notícia de Andrev e ter aquele papel em mãos o enchia de alegria. A última correspondência que trocara com o príncipe foi antes da partida dele para a Europa, e isso já fazia mais de dez anos. Ansioso, abriu o envelope, e assim que se sentou em sua poltrona acendeu um cigarro.

“Querido amigo, doutor João Augusto,

Há muito não lhe envio cartas, e peço desculpas pela negligência. Muitas coisas me aconteceram desde que decidimos deixar Paris para viver em Praga. Minha Anna faleceu no final de 39 e, agora, os alemães voltaram ao nosso país, ditando regras e tomando conta de tudo. Eles querem o dinheiro do banco de minha família, e, além de obrigarem os judeus a usarem estrelas amarelas, pessoas como eu estão sendo forçadas a usar um triângulo rosa, para alertar aos “normais” de que não somos como eles. Muitos desparecem, levados com os judeus para longe de suas casas e famílias...”

João lia com apreensão as frases escritas por Andrev.

“Temo que, muito em breve, todo o dinheiro e história que possuo não serão suficientes para me impedir de ir para o destino que são levados os odiados por Hitler...”

Preocupado com a perigosa situação do amigo, assim que terminou de ler a carta, João pegou papel e caneta e se pôs a escrever. Oferecia à Andrev auxílio, aconselhando-o a vir para o Brasil que, apesar de viver sobre a ditadura varguista, estava longe da Guerra, além de ser um lugar onde os Kinsky ainda tinham negócios e certa influência; aqui, poderia ser um príncipe, vivendo em sua fazenda luxuosa, tendo os jantares ao som da orquestra, vestido com gala e tendo conversas simples, longe dos conflitos que assolavam a Europa, mais uma vez.

Assim que redigiu o texto a ser enviado, selou o envelope e, rapidamente, chamou um dos criados, ordenando-lhe que fosse imediatamente aos Correios para postar a encomenda.

O empregado obedeceu às ordens do seu patrão, enviando a correspondência o mais rápido possível, retornando para confirmar à João que o envelope tinha sido entregue e estava em direção à Europa.

Uma carta que nunca chegou ao seu destinatário...


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