HÁBITO DELETE

Mateus Roque da Silva


Ninguém solicita conselhos a alguém que se supõe inexperiente, frustrado ou arruinado. Todos preferem, e nisso há razão, a eloquente e contumaz voz da experiência dos “bem sucedidos”. Garimpar entre os cascalhos e as pedras preciosas é algo sábio, não há dúvidas. A ironia em tudo isso é que nem sempre parte de nós a solicitação das palavras alheias. Às vezes, e isso é quase sempre, as palavras apenas chegam-nos. O que realmente varia é a forma como elas chegam: ora suaves, em uma espécie de toque gentil e educado, ora com força, como os golpes de um lutador experiente. O fato é que, de um jeito ou de outro, as palavras nos chegam. Recentemente, inclusive, chegaram a mim, infelizmente em nocaut.

Havia acabado de terminar uma encomenda de curto prazo, como de costume, e dirigia-me ao local de entrega e pagamento. O contratante marcara por e-mail às dez horas da manhã, e enfatizou a pontualidade. O sujeito era um senhor, já aparentando claros sinais de idade, mal encarado, semblante sombrio, e encontrava-se, exatamente às dez horas, sentado no outro lado da praça, aguardando-me, como é de se supor. Aproximei-me devagar e entreguei-lhe o envelope lacrado. Era branco, imaculado, sem nenhuma mancha ou borrão aparente, expressa exigência sua. O velho tomou-o em mãos e, com igual cuidado, examinou detalhadamente o pacote ao passo que, de baixo para cima, também me examinava descaradamente. O fim de seu percurso foram os meus olhos, dos quais ele fitou mais em demorado. Sentia minha alma despida, completamente exposta. Estava eu nu diante dele.

Não me intimidei de imediato. Encarei-o de volta, mas sem o mesmo efeito. Não tinha o seu poder de penetração. Já coagido, busquei desviar o olhar. Não podia dar as costas ainda, carecia de meu pagamento e, portanto, imóvel permaneci. Ele não parava de me encarar com aqueles olhos longevos. Alguém precisava acabar com todo aquele desconforto e seria eu. Sob a máscara estampada, fiz que abriria a boca, de modo a cumprimentá-lo, como exige a cordialidade, e enfatizar meu pagamento, ansioso para dar as costas e sair. No entanto, antes que conseguisse dizer palavra, seus dedos enrugados me interromperam com um gesto de silêncio sobre a máscara de pano branco. A boca dele, imaginava eu velha e úmida, se abria e, pausadamente, me disse: “O que falta em sua vida, rapaz, é constância. Lhe faltam hábitos mais sólidos. Os crie, certamente eles o farão um homem melhor.” Estarreci com o conselho. Eu não conseguia responder nada. Se minha boca, por consciência ou por vontade própria, ao menos se abrisse. Na verdade, não creio que isso faria alguma diferença, eu não tinha com o que rebater. Então, simplesmente, parei. Eu congelei diante dele. Afinal, como um sujeito completamente alheio a minha trajetória, as minhas escolhas, a minha vida poderia concluir que o que eu realmente necessitava, nesse momento, eram novos hábitos? Digo, como poderia chegar nesta conclusão apenas encarando-me por alguns instantes? Minha reação desconcertada em nada o abalou. Em sua bengala de madeira, ele permanecia firme. Depositou o pagamento em minhas mãos suadas, virou-se, sem despedir ou agradecer, e saiu. Eu fiquei lá, não, ali mesmo, parado.

O percurso de regresso à minha casa foi longo. Eu não andava, arrastava o corpo pelo peso de meus pensamentos. Chegando, atirei-me ao sofá, preenchendo-o completamente de mim. “Será que ele tinha razão?” Bom, talvez o mais prudente fosse ignorá-lo, ele não sabe da minha vida, não poderia sabê-lo. No entanto, a fala pretensiosa me fez por um momento, menos, por um instante, refletir sobre meus últimos dias. Desde que o isolamento social havia começado, em março passado, toda rigidez dos meus horários haviam evaporado. Num dia? acordava às onze, café da manhã pela tarde, almoço às dezessete, jantar à meia-noite. No outro? Desregrado. Acordava às dez, café ao meio-dia, almoço às quinze, jantar às dez. E o trabalho? Abusando da sinceridade que esta caneta me concede, era quando me dava ânimo. Às vezes seis horas por dia, às vezes quatro, muitas vezes nenhuma.

É, o velho tinha mesmo razão. O que me faltava era justamente voltar ao cotidiano, à rotina, enfim, aos hábitos. Esses pensamentos no sofá logo me levaram aos devaneios mais profundos, só me vinha à mente os versos de Chico: “todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode às seis horas da manhã/ me sorri um sorriso pontual/ e me beija com a boca de hortelã ...” É isso! Pontualidade. Preciso novamente de pontualidade, rígidas regras de horário. Às seis da manhã, seria perfeito. Pois então estava decidido: amanhã acordarei às seis. Não importa como foi ontem ou como foi hoje, amanhã será às seis. Seis em ponto. Com essa decisão tomada, no instante seguinte eu já era outro.

Dito e feito. De fato, no dia seguinte, me levantei às seis. Estava animado, era um novo homem que despertava junto ao Sol. Tomei meu café com adoçante, retirei o pijama, já acostumado ao calor do corpo, tomei um banho quente e sentei-me, às sete e quarenta e três, no escritório. O dia seria produtivo, eu tinha certeza, o procrastinador habituado sempre ao amanhã já não mais existia, agora era o agora. Organizei a mesa, liguei o computador, que lentamente se acendeu, e abri a pasta “inconclusos”, localizada no centro da tela inicial. Nesta havia exatos vinte arquivos, entre grandes e pequenos, e comecei a trabalhar. Freneticamente concentrado. Ao final do dia, saldo dos “inconclusos”: vinte e um.

Fracasso. Uma vez mais fracassei. No dia seguinte, o despertador tocou novamente às seis. Acordei e desliguei. Não voltei a dormir, mas permaneci na cama. Imaginando se seria realmente este o ofício a que deveria me dedicar. O mundo em desordem, a recompensa pouca, a frustração muita. O velho era mesmo um tolo. Os hábitos não me farão melhor, me farão apenas persistente. Não raramente os homens persistem no erro, e errar diariamente pode constituir-se também em hábito. É isto: o hábito de errar. Esse pensamento derradeiro me fez levantar. Fui ao banheiro, escovei os dentes, tomei café, com açúcar, e me sentei, às nove, no escritório para trabalhar. Abri a referida pasta dos “inconclusos”, agora com exatos vinte e um arquivos, e recomecei. Ao final do dia, saldo dos “inconclusos”: vinte e dois.

A frustração só aumentava. Os números me machucavam. Acostumado ao fracasso qualitativo não sofria tanto, mas agora também o quantitativo? A matemática não é piedosa, não engana. Por mais que não gostemos dos números, eles não mentem. Não mentem jamais. Tinha eu agora a consciência de que não era capaz de criar este maldito hábito social de produção. Foi neste momento que pensei: nenhum hábito se construiu em apenas dois dias, portanto, devo persistir. Nos dias que se seguiram os saldos da pasta "inconclusos" foram, respectivamente: vinte e três, vinte e quatro, vinte e quatro, vinte e cinco e vinte e seis. Uma semana já havia se passado e os “inconclusos” nenhuma vez sequer diminuído. Estava farto de tudo isso. Decidi que, no dia seguinte, estaria tudo acabado, não há tempo a perder. Desliguei o despertador, nada mais me condicionaria.

No oitavo dia, acordei às dez e vinte. Enrolei na cama, me recusava levantar para mais um dia desastroso. Por volta das onze, rendido pelo estômago, tive de me levantar. Sem escovar os dentes preparei meu café, desta vez amargo, e tomei-o acompanhando o noticiário da televisão. Apresentava-se, ainda pela manhã, o saldo final do último dia: 307 mil mortos no Brasil pelo novo coronavírus. Não me lembro de ter sentido calor ou amargor, apenas tomei, sem degustar, engoli calado. Degluti tudo. A informação era forte, abalava-me profundamente, fazia tempos que, propositadamente, eu não ligava o noticiário. Alienava-me em meu trabalho que, para meu pesar, não produzia resultados práticos, não ajudava em absolutamente nada. O abalo não poderia desviar meu foco em concretizar a decisão da véspera. Hoje seria o fim desse sofrimento.

Levantei-me da mesa, desliguei o aparelho, que agora expunha alguma podridão política, e fui ao banheiro. Selecionei minha playlist “aleatórias”, no spotify, e tomei um banho quente. Nele pensei e sabia que, assim que saísse, resolveria definitivamente meu problema com os “inconclusos”. Demorei. Demorei o máximo que pude, buscando coragem, e, sem ter para onde ir, saí. Saí determinado, pois era de novo o agora. Coloquei novamente meu pijama e, meio molhado, fui ao escritório. Sentei-me, ao meio-dia, liguei o computador e abri a pasta “inconclusos”. Dentro dela havia duas subpastas. A primeira, “poemas”, com os seguintes arquivos: Amor de ontem; Paixão ardente; Você & eu; Sozinho; Dois para um; Triste fim; Solidão no quarto; Tagarela; Mulher acima; George Floyd; Sorriso oculto; Olhar perdido; Dizem sim; Outro dia e Esperança. Selecionei tudo e cliquei rígido: “delete”. A segunda pasta, “contos”, com os seguintes arquivos: Pela janela do quarto; Luzes na cortina; Vitamina D; Casa de idosos; Repouso; O ônibus lotado; Justiceiros; Corredor imóvel; Decodificador de notícias; Incidente no Rio e Moleque de rua. Selecionei tudo e cliquei: “delete”.

Estava feito. Eu já não era um escritor, agora, oficialmente, me tornara menos inútil.

50 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo