“O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração”: Metrópolis e a ascensão do nazi-fascismo

ATENÇÃO: Esse artigo contém spoilers do filme Metrópolis, dirigido por Fritz Lang e lançado em 1927.

Considerado clássico do cinema, Metrópolis é um filme que se destacou pela impressionante técnica na linguagem cinematográfica, mostrando na tela grandes planos e representando uma imagem de cidade futurista que marcaria a visão do cinema de uma sociedade do porvir e de figuras robóticas que, até hoje, são referência para muitos diretores que se adentram no universo da ficção científica.

E, para nós, aficionados pela História, o que Metrópolis poderia nos revelar? Pois bem, como uma fonte para compreender o seu tempo, esse filme traz muito mais do que visões grandiosas de prédios e o imaginário do que poderia ser um centro urbano futurista. A obra nos dá pistas da visão de um grupo social diante de suas preocupações com os conflitos de seu período e evidencia, ainda, os traços da mentalidade de sua época. É possível ver como a sociedade alemã da década de 1920 colocava as angústias de seu tempo dentro de uma película, cujo roteiro foi realizado por Thea von Harbou, escritora conhecida não apenas por essa obra, mas por ter se filiado ao partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista, em 1932.

O filme se passa em 2026, na cidade de Metrópolis, comandada por Joh Fredersen, e que é sustentada pelos trabalhadores, que vivem no subsolo, mantendo as máquinas funcionando dia após dia, sem parar. O herói da película, Freder, filho do “dono” da cidade, num fatídico dia que desfrutava das delícias do Clube dos Filhos, com seus jardins, estádios e imponentes construções. Enquanto se divertia, surge Maria, uma operária que conduz um grupo de crianças até o local, para elas possam ver os “seus irmãos”. Apaixonado pela moça, o personagem principal desce até o mundo dos trabalhadores, onde tem seu primeiro contato com as mazelas daqueles que labutam para manter os privilégios daqueles que habitam Metrópolis.

Chocado com o que presenciou, Freder vai até o pai e relata o que vira, narrando a morte de alguns operários que trabalhavam numa das diversas máquinas que faziam funcionar a grande cidade. Surpreso com o que ouvira, seu pai demite seu funcionário cujo cargo deveria mantê-lo informado dos acontecimentos no subsolo. A partir daí a jornada de Ferder se inicia, tendo como um dos pontos mais importantes o segundo encontro com Maria, que conta, diante de uma plateia de operários, a vinda de um “mediador”, que traria a concórdia e acabaria com o sofrimento dos oprimidos. Acreditando ser ele o tal escolhido, Freder se transforma, ao longo da obra, naquele que mediaria a mente, ou seja, o seu pai e aqueles que comandam a cidade, e os que dedicavam suas horas e esforço físico para transformar Metrópolis de um sonho nascido das cabeças mandantes em realidade material.

Mas, além de ser a mulher que anuncia a chegada desse novo “messias”, Maria é capturada pelo cientista Rotwang que coloca, a pedido de Joh Fredersen, seu rosto numa obra de engenharia que custaria uma mão de seu criador: um homem-máquina, um robô humanoide que deveria convencer os trabalhadores a se rebelarem, dando motivo para que o dono de Metrópolis pudesse retaliar com braço forte.

No final, numa eletrizante luta no alto da catedral, Freder derrota Rotwang, a população queima a falsa Maria e o herói é consegue trazer a tão aguardada união entre seu pai, a cabeça, e os trabalhadores, as mãos. Uma alegoria um tanto perturbadora, já que o filme foi escrito e produzido quando Mussolini governava a Itália há alguns anos e o Partido Nacional-socialista lutava para aumentar a sua influência na Alemanha.

Mas o que um filme pode dizer sobre o seu tempo? Seria pertinente fazer esse tipo de análise?

Para o historiador francês Marc Ferro (1991, p. 19), é possível fazer uma leitura histórica de um filme, bem como uma leitura cinematográfica da história. Para esse autor, um filme pode nos dar sinais dos modos, expressões e traços culturais do tempo em que foi concebido, assistido e consumido pelo público. Dessa forma, as mensagens por trás da trama (intencionais ou não), a forma como atores representam diante da câmera, os movimentos desta, dentre outros aspectos dessa arte fascinante, revelariam aspectos da sociedade naquele recorte cronológico específico. É impossível escrever a história do século XX sem dar atenção à sua produção cinematográfica.

Nesse sentido, Metrópolis se transforma num objeto (uma fonte?) de análise muito interessante para a historiografia das décadas de 1920 a 1940 do século XX. A começar pela representação da grande cidade futurista, inspirada nos arranha-céus de Nova York, centro financeiro símbolo do poderio dos EUA após a Primeira Grande Guerra. Era da mais nova potência que vinha o dinheiro que reconstruía a Europa, bem como muitas inovações no estilo de vida, na música, no cinema etc. Era o país do futuro e das metrópoles que ser erguiam em direção aos céus.

Ao mesmo tempo, a película retrata uma burguesia ociosa, manipuladora, sem interesse algum pelos trabalhadores. O mundo da década chamada de “os Anos Loucos” ainda tentava compreender os acontecimentos na Rússia de 1917. Em diversos países, partidos comunistas surgiam, e o medo de uma sublevação proletária crescia entre as elites industriais e financeiras. Precisamos frisar, ainda, que o cinema soviético, com seu construtivismo, criava uma arte a serviço das necessidades do povo. Assim, a questão laboral pulsava pela Europa e não era mais possível ignorar ou reprimir os que trabalhavam como condenados nas fábricas.

Outro ponto importante que o filme também nos ajuda a compreender o seu tempo está na questão dos avanços científicos e seus usos para a dominação das massas. Recoberta com a face de Maria, a robô humanoide é comparada a besta do Apocalipse, que viria para enganar e mentir. Seu intuito, em Metrópolis, é convencer os trabalhadores a destruir as máquinas, permitindo que Joh Fredersen possa usar a força para conter o povo. Interessante apontar, ainda, que, no final, o herói derrota o cientista louco do alto de uma igreja. Um encerramento simbólico que mostra o lado conservador dessa obra fílmica.

Freder, ao unir mãos e cabeça através do coração, não somente o faz de modo épico, diante da catedral religiosa, mas também após se vestir como um trabalhador e sentir na pele as suas mazelas. Ele seria o mediador, o salvador, aquele que traria ordem e paz à cidade. Tal aspecto poderia passar desapercebido, afinal, muitos filmes abordam esse aspecto messiânico, em que o escolhido aceita o seu destino e luta por um futuro melhor. No entanto, não podemos nos esquecer, que Metrópolis foi lançado em 1927, quando parte da Europa assistia à ascensão do fascismo. O líder esperado seria, então, um Hitler? Um Mussolini? Um Franco?

E, dessa análise, é possível levantar mais algumas questões: o povo realmente precisa de um líder? Seria correto dizer que o coração do mediador seria o único capaz de se colocar entre a cabeça pensante e as mãos que fabricam?

Para nós, no século XXI, quando assistimos ao crescimento de uma extrema-direita neofascista, Metrópolis pode servir como um aviso. Um alerta para que não procuremos em pessoas a mudança que nós devemos construir como sociedade, como povo. Se permitirmos sermos guiados por aqueles que se julgam mediadores entre ricos e pobres, o líder carismático que trará uma ordem e prosperidade, corremos o risco de sermos engolidos por um coração que apenas quer mediar os seus interesses megalomaníacos. Talvez, a verdadeira besta não seja uma máquina disfarçada de Maria, mas um Freder disfarçado de herói.

Referência

FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992.


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