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O QUE A HISTÓRIA TEM A VER COM “A ESCUTA”?


Em um recente Podcast gravado por nós, o historiador José d’assunção Barros apontava novas formas de interdisciplinaridade que deveriam se tornar objetos de atenção da teoria da História no século XXI, destacando dentre elas o cinema e o audiovisual. A relação entre a História e o cinema já foi consolidada de diversas formas. O cinema como fonte, como representação ou como próprio objeto de estudo já foi abordado por diversos trabalhos. O que o historiador dizia ser uma nova demanda era a apropriação das metodologias específicas da narrativa cinematográfica para remodelar a forma com que a narrativa da História era feita. Esta tarefa poderia ser menos árdua, se, ao invés de tentarmos inventar um jeito completamente novo de nos apropriar desses métodos nos olhássemos mais atentamente para o que já se foi produzido no campo audiovisual e absorvêssemos daí a experiência necessária para inovar em nosso campo de estudos.


Tomemos por exemplo a série “A Escuta” que foi ao ar entre os anos de 2002 e 2008. Essa série gira em torno do confronto entre o departamento de polícia da cidade de Baltimore nos Estados Unidos e o tráfico de drogas. Mas, ao contrário de outras séries com maior sucesso de público e boa qualidade como Breaking Bad (2008 – 2013) ou The Sopranos (1999 – 2007), o argumento inicial da série não se baseia numa circunstância excepcional que assola a vida dos personagens como um câncer, no caso do primeiro, ou o fato de pertencer a uma família de mafiosos e ter que recorrer a uma psicóloga, no caso da segunda. A Escuta é uma série que procura retratar o cotidiano quase cíclico de uma cidade, que desde tempos imemoriáveis para seus cidadãos, sofre com a violência institucional, como se ela fosse um dado da natureza. O autor da série tenta a todo modo nos mostrar que aquela realidade é imutável, que existia antes do período retratado na série, e que continuará existindo após o seu final. E isso não é por acaso. David Simon, o criador do show, foi por muito tempo repórter de um jornal em Baltimore, acompanhando de perto aquela realidade que foi, quase transportada ao vivo e a cores para as telas, dotada de um realismo poucas vezes alcançado na História da televisão.


Esse argumento inicial da série já oferece semelhanças claras com a disciplina da História, afinal, o que significaria a virada que acometeu a disciplina protagonizada pelos annales se não a tentativa de deixar de lado os grandes personagens para narrar os elementos da vida cotidiana, que eram assimilados como naturais pelos personagens alvos da narrativa. A História Política, que tratava com maior afinco os eventos, as guerras, as revoluções e seus protagonistas, foi cedendo espaço para a cultura, o cotidiano, os costumes e as representações. Com a História se aprende que o ser humano é muito mais fruto de seu contexto que um produto de sua genialidade. Que as escolhas que se tomam são muitas vezes determinadas por circunstâncias objetivas. Que o impacto das estruturas políticas, econômicas e culturais são muito fortes nas decisões individuais, e que o estudo dessas é mais elucidativo que o foco na biografia de um grande líder, ou de um pequeno personagem. De certa forma, A Escuta também parte dessa mesma premissa em sua narrativa, com um foco maior nessas estruturas culturais, econômicas e políticas e com os personagens tendo que a todo tempo se adaptar a estas para sobreviver.


Outro ponto interessante a ser analisado na série tem a ver com a questão das mentalidades. Um exemplo de mentalidade pode ser entendido pela relação entre o senhor e o escravo. Na sociedade escravagista eles não existiam apenas por uma questão jurídica que determinava a reificação do segundo e a posse do primeiro. Eles existiam por que, de certa forma, compartilhavam uma mentalidade comum. Exemplo disso, são os casos de ex escravos que após conseguirem a alforria adquiriam os seus próprios escravos. Em A Escuta, essa questão é abordada por meio da instituição “o jogo”. O “jogo” nada mais é que o próprio tráfico de drogas e a estrutura que ele assume na cultura da cidade de Baltimore. Essa cultura é apresentada aos poucos ao telespectador. Ela tem regras próprias e todos os participantes tem noção da função que devem exercer dada a posição que ocupam na sua hierarquia. E essa estrutura é apresentada na série como se fosse um espelho entre o departamento de polícia e os traficantes. Tanto em um como no outro o que define o sucesso é o grau de coesão interno em que se encontram as equipes. Quando um traficante é preso ele tem a exata noção da função que se espera ser exercida por ele e essa visão é absolutamente compartilhada pela polícia. Ele sabe que a polícia cumpre a função de tentar fazê-lo delatar os outros. A polícia sabe que se ele fizer isso ele corre risco de vida, pois os traficantes automaticamente o elegerão como traidor. Mesmo assim, todos os protocolos são seguidos à risca, fazendo com que o ritual institucional seja cumprido.


Outro acerto da série é exatamente esse de apresentar o tráfico de drogas como uma instituição daquela sociedade de Baltimore. O ponto desta apresentação é que enquanto o foco das políticas do estado, mesmo que essas fossem as mais geniais possíveis, eram nos personagens e nos crimes, mesmo que estes fossem os mais bárbaros possíveis, a efetividade dessas políticas eram muito baixas. Isso por que enquanto instituição cultural, econômica e política ela tinha muito mais força que simples personagens. Estes eram prontamente substituídos, ora por um traficante mais bárbaro, ora por um mais inteligente, ora por um mais ambicioso. Exatamente por apresentar como uma questão estrutural, a demanda necessária era por uma solução estrutural. Mas essa não poderia vir por parte do sistema político, pois este era também um componente mais geral dessa mesma estrutura calcada na mentalidade do “jogo”. O sistema político tinha além dessa estrutura uma outra, pautada na necessidade de soluções a curto prazo, que no longo prazo se mostravam menos como solução, e mais como problema. De alguma forma, toda essa argumentação pode ser universalizada, tomadas as devidas precauções do contexto, afinal o tráfico de drogas é uma dessas instituições que existem em quase todo o mundo e que ainda sim é vista como se fosse uma mazela social exógena da sociedade.


Por fim, cabe fazer uma ressalva, tão importante para a série, quanto para a disciplina da História. Por mais que existam estruturas e instituições que pareçam enjaular o indivíduo em uma cela, o ser humano ainda é capaz de reinterpretar essas estruturas e atuar em suas brechas. É possível que mesmo com todas as determinações, os estudos das estruturas econômicas, sociais, e culturais ainda assim não seja prever com clareza o destino humano. O escravo por vezes fugia. Até chegar ao ponto de fundar sua própria instituição: o quilombo. As estruturas são capazes de serem mudadas. Novas instituições podem ser fundadas. Instituições que são falidas podem ser destruídas (Não acabou, tem que acabar... etc.). Assim, cabe apontar o personagem que melhor exemplifica essa questão na História de qualquer série, e que provavelmente é o melhor personagem já construído na História da televisão: Omar. Peço encarecidamente que assistam a esta série para terem o privilégio de conhecerem Omar, um homem livre.


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