O sabiá

Mateus Roque da Silva


É preciso silêncio, é preciso muita atenção, do contrário se perde. O bicho é pequeno, mas esperto como gente. Ora canta de um lado, ora voa para outro, porém uma coisa é certa: está sempre sobrevoando à beira-rio. O sabiá é ágil, difícil de acompanhar, mas tem um cantar que vai compensando os arranhões deixados pela mata densa ao longo da caminhada. Mal consigo persegui-lo, já não gozo da mesma agilidade do bicho, no entanto conheço bem a mata, por adentrar, desde menino, sei para onde ele vai. O tempo, embora árduo, às vezes passa depressa, vai deixando marcas fundas na gente. Hoje, mal começo a correr e já me vejo a fadigar, mal escuto, mal vejo, mal lembro sem muito me esforçar. Mas esse canto de sabiá...

— Ande logo, tio Vicente, vamos perder o canto do bicho. — Disse o menino Augusto, que, junto de mim, também se encontrava na perseguição da ave.

Precisamos ser rápidos, algumas curvas mais e chegamos ao açude. Já se escuta novamente o sabiá. Esse canto, inconfundivelmente belo, me faz lembrar alguns momentos de quando ainda era garoto, de quando fugíamos, eu e mais uns quatro ou cinco de minha idade, da senzala e corríamos para o interior da mata, logo pela manhã, antes mesmo do Sol apontar. João, pelo que me lembro, o menos ajuizado de nós todos, dizia que corríamos para a mata antes que o trabalho na lavoura nos matasse. A ele realmente matou, ao menos de corpo, o desajuizado.

— Ande logo, tio Vicente! — Apressava-me Augusto, alguns passos logo à frente.

— Vai logo de uma vez, menino! Te alcanço. Não percas ele de vista! — Respondi, já fatigado pela corrida.

Apesar de não ser de seu costume obedecer de imediato, desta vez o fez, saindo galopando à minha frente. Eu o segui, o mais rápido que pude. Porém, ainda de forma lenta e cautelosa, pois chovera muito na noite passada, e a trilha encontrava-se bem úmida e escorregadia. À medida que me aproximava de Augusto, orientado pelo canto do sabiá, não ouvia mais ruído algum. O danado do moleque realmente havia aprendido a se esconder. Precisei de alguns instantes para encontrá-lo. Estava em cima de uma das árvores. Como chegara até lá eu não poderia afirmar, uma vez que o tronco ainda se encontrava pegajoso e úmido.

— Ô menino! Como subiste aí? — Perguntei baixinho, para não afugentar a ave que estávamos a encurralar.

Ele não me respondeu. Olhou-me e, com cara pálida, fez sinal de silêncio. Sem bem entender o motivo da ordem dada, o indaguei gestualmente. O menino Augusto, lá de cima, entre densas folhas d’árvores, continuou sem nada dizer, apenas apontou para o rio detrás de mim. Antes mesmo que eu pudesse me virar, ouvi um estrondoso grito. Um alto grito de mulher. Congelei-me. Fosse bicho feroz, apesar de raros nessas bandas, arma alguma teria a mão, precisaria agir rápido, talvez mais que o sabiá. Desde moleque eu ouvira muitas histórias de homens valentes contra onças e outros bichos ruins da mata. Eu, apesar de vividos muitos anos, nunca cheguei a ver uma dessas, talvez agora me tenha chegado a hora.

Virei-me abruptamente, pronto a avançar sobre a fera maldita que atacava. No entanto, aos olhos se ajustarem à nova paisagem aparente, deparei-me com a referida mulher, não saberia dizer se conhecida, em momento de tanta nervosura não afirmaria nada. Era jovem, cabelos compridos e dourados como o Sol da tarde, uma pele tão branca como eu nunca haveria de ver em igual comparação. Estava nua, banhava-se, sozinha, na água corrente do rio. Encarava-me. Sua feição não demonstrava afeto, raiva, nem mesmo medo. Por alguns instantes ficamos ambos parados, olhando-nos apreensivamente, os corpos não tinham reação. Foi quando, mais uma vez, ela gritou. Desta vez mais alto que anteriormente, talvez houvesse mais alguém junto dela, um pouco mais afastado dentro da mata, em prontidão a socorrê-la. O segundo grito me fez retomar o controle dos meus pés. Afastei-me lentamente, de costas, mirando fixamente a mulher. Quando não era mais possível vê-la, nem ela a mim, embrenhei-me novamente na mata, sem nem olhar para trás, e corri. A fadiga de outrora já não me afetava, dores não sentia mais. Já quase na senzala, d’onde havia saído algumas horas antes, encontrei o pequeno Augusto, que me esperava, visivelmente exausto pela corrida.

— Quem era aquela moça, tio Vicente? — Perguntou-me o menino, curvado de cansaço, apoiando-se aos joelhos.

— Não sei, e nem o quero! — Respondi rispidamente enquanto escorava-me em um tronco. — E vosmecê que não me volte mais naquelas bandas. Está a me entender?

— Sim, tio! — Respondeu com desdém.

— Pois acho é bom. A senhora também viu vosmecê? — Indaguei preocupado.

— Não chegou a ver, escondo-me muito bem. Só eu quem ficou a admirar o corpo dela, lá, lá de cima. — Respondeu com um olhar malicioso.

— Pois trate de esquecer tais bobices! Vai-te ocupar de alguma coisa mais proveitosa. Na moenda não há de te faltar serviço.

Antes mesmo que terminasse de dar todas as recomendações, Augusto saiu correndo em direção à lavoura, restando ao vento a função de ouvinte. Quando me dei conta e olhei para o alto, metade da manhã já se tinha passado. Em seguida fui, eu também, para a lavoura. Era época de colheita, muita colheita, muito trabalho e pouco negro, pouco braço. A terra do sinhô Rodrigo era uma das maiores da região, e eu, que muito servi a seu pai, sinhô Rogério, e sendo cabra de boa confiança, fiquei encarregado de vistoriar o duro labor dos outros negros. Os dias de trabalho eram longos e o Sol, nosso verdadeiro algoz, não se cansava de castigar o corpo e a alma da gente. Apesar do muito trabalhar, a cada ceifar me voltava a cena da manhã. Não parava de pensar que diacho de mulher era aquela que saia do meio das águas.

— Por onde anda essa cabeça, tio Vicente? — Perguntou-me a negra Rute, escrava doméstica no casarão do sinhô Rodrigo.

— Como? — Respondi retomando a consciência e percebendo sua chegada. — Pois está onde sempre esteve, por onde mais andaria? — Completei dando de ombros.

— Deixe de grossaria. Me pareceu muito pensativo, preocupa-te algo?

— Pois era só o que havia de me faltar, mulher se ocupando de minha cabeça. Tira logo essas ideias da tua, estou a trabalhar, não vês? — Retruquei impaciente, e, após alguns instantes, ocorreu-me algo. — Vieste às ordens de alguém? Dizer-me alguma coisa? Raras vezes vejo-te fora do casarão, ainda mais durante o dia.

— Sim, vim a mando do sinhô. — Ao dizer essas palavras a negra que falava ganhou minha total atenção. — Pela última noite chegou, de Portugal, alguns parentes distantes do sinhô Rodrigo. Debaixo de chuva, como se sabe, molhou-se toda bagagem, uma pena. Tanta coisa bonita se tinha guardada ali. Estamos todas, negras de casa, a secar as coisas, com muito cuidado, do contrário aumentam-se os estragos ...

— E o que tenho eu com essas chuvas e gente portuguesa? — Interrompi as informações em excesso e que, aparentemente, se prolongariam ainda mais.

— Acalme-se, homem! Hoje está realmente aperriado, estou apenas comentando o ocorrido. — Disse a negra que, já em modo defensivo, escolhia com cautela suas próximas palavras.

— Desculpe, hoje estou encabulado com as coisas da vida. — Encostando a enxada em árvore próxima e coçando a cabeça com olhar de redenção, tentei retomar o motivo de sua vinda. — Mas, como dizias, a que vieste?

— Ah... Sim, é verdade. Não sei bem o motivo da ordem, porém o sinhô Rodrigo quer que vosmicê reúna os negros da lavoura e voltem para a fazenda neste mesmo instante.

A ordem me causava certa estranheza. Estávamos ainda entrando na tarde e o trabalho parecia não chegar na metade, quiçá ao fim. A única vez que todo o trabalho fora interrompido, pelo que bem posso me lembrar, foi na ocasião da morte do sinhô Rogério e isso já se fazem anos. Se agora estamos sendo chamados novamente, coisa grave há de ter acontecido.

— Voltar com todos os negros? Temos ainda muitos em trabalho. — Questionei em tom preocupado.

— Todos não. — Respondeu ela — Apenas os homens e não carece levar também os muito jovens, esses devem continuar seus afazeres.

Acenei a cabeça, em sinal de haver compreendido as ordens dadas. Chamei Augusto, que estava mais próximo de mim à ocasião, e mandei reunir os demais, seguindo as descrições fornecidas por Rute. Após agrupá-los, descemos em comitiva eu, a negra, que nos guiava à frente, e o bando de negros, em formação desajeitada, ao encontro do sinhô Rodrigo. Eu, por ser o mais velho entre todos, puxava, junto de Rute, lentamente a comitiva, ao passo que escutava, ao pé de mim, os curiosos murmúrios de preocupação por tão estranho chamado. Apesar da grande tensão no ar, embora muitos não se atentassem, na mata, bem ao nosso lado, seguia, de galho em galho, um sabiá de canto estridente. Sua presença marcante acalmava-me.

Ao chegarmos próximos da casa-grande, via-se, ao longe, toda a fidalga família reunida na sacada dianteira da casa. Estavam, à frente, o sinhô Rodrigo e sinhá Lucinda, seguidos de seus muitos agregados, que, para o bem ou para o mal, todos nós já bem conhecíamos. Aos lados do patriarca, duas moças, estranhas a quase todos os negros, porém, a mim, uma delas já não era. Apesar da distância e do pouco enxergar, reconheci, quase que de imediato, uma das mulheres. Sem dúvidas uma delas era a que eu encontrara pela manhã banhando-se no rio. Era a mais velha entre as duas, não muito, mas seu corpo certamente era mais de mulher feita. À medida que chegávamos mais perto, confirmavam-se minhas hipóteses, o coração, já cansado pelo tempo, acelerava-se. As mãos suavam de pingar e os pés, certamente de forma incontrolável, iam se enraizando no chão ao longo da caminhada restante, não permitindo-me avançar, atrasando a marcha, já lenta, da comitiva.

— Algum problema, seu Vicente? — Perguntou-me um dos robustos negros que me seguiam, após esbarrar em mim, por não prever a abrupta mudança de ritmo na caminhada.

Nada respondi. Não conseguia desviar o olhar, ou mesmo o pensamento da imagem que tinha diante de mim e que me remetia, quase que instantaneamente, a um passado ainda muito recente em minha memória. Quando dei por mim, já estávamos todos, em fila, como diante de um pelotão de fuzilamento, ao pé da escadaria que levava a sacada, onde encontravam-se todos a nos olhar fixamente, com grande ar de superioridade. A negra Rute, tal como o próprio judas ao entregar nosso senhor com um gesto de afeto, afastou-se do grupo, já indefeso e cabisbaixo, e subiu as escadas, entrando, de igual modo, para dentro da casa, desaparecendo à vista de todos. Após um instante de silêncio, o sinhô Rodrigo, de braços dados as moças estrangeiras, desceu lentamente as escadas, fitando-nos com um olhar severo, parecia-nos que a própria personificação do mal se apossara de seus olhos claros.

Ao descer a grande escadaria, quase todos os degraus, faltando apenas dois ou três, de modo que ainda se mantinham superiores a nós outros, e, observados por todos os demais, logo acima, preparou-se para se dirigir à sua propriedade. Contudo, antes mesmo que pudesse pronunciar a primeira palavra, a moça, mesma que havia eu encontrado pela manhã, soltou-se de seu braço direito e, apontando enfurecidamente em minha direção, disse:

— Foi este! Este é o maldito negro que estava a me espiar enquanto banhava no rio.

Diante de tal acusação, minhas pernas se estremeceram de imediato, quase cai diante de seus pés, porém, o mesmo negro que havia esbarrado em mim anteriormente, agora me mantinha de pé. Outros tremores foram se sucedendo em sequência, sendo interrompidos pelo instinto mais primitivo de sobrevivência, que me fez ameaçar dizer algumas palavras defensivas ou de explicação, nunca poderei afirmar, pois antes mesmo que eu conseguisse pronunciá-las, continuou a portuguesa:

— Rodrigo, este negro desgraçado espiou-me no rio, só não me tomou a honra pois gritei por socorro. — Disse a mulher, já com lágrimas de desespero em seus olhos. — Vosmicê deve zelar, antes de mais nada, por minha honra. Coloque-o no tronco e fure os pervertidos olhos do negro! — Concluiu seu pedido em forte sotaque lusitano.

Assustados com tamanha sentença proferida, os negros se inquietaram. Murmúrios começaram a ser ouvidos, um deles quase jogou-se ao chão em súplica pela minha pobre vida. Rodrigo, enfurecido com tamanha anarquia, deu ordens aos seus capangas que atirassem para o alto, controlando toda a multidão. Foi neste momento que, sem mais me conter, me dirigi à jovem mulher, na esperança que revogasse tal sentença:

— Se a dona banhava-se, eu não estava lá. — Atirando-me ao chão, em ar de desespero, prossegui — Saí pela manhã, em busca do sabiá, não queria eu encontrar outra coisa além de seu cantar vagueando pelo arvoredo. Para que a dona quer me cegar? Eu juro a vosmicê, eu não espreitava a sinhá. Pra quê que vosmicê quer me pôr em escuridão?

Em turva visão, intensificada pelo ódio, sinhô Rodrigo interrompeu minhas súplicas, ordenando aos seus capangas que me amarrassem ao pelourinho e me aplicassem cinquenta chibatadas. Após o castigo debutante, viria ele, pela noite, cegar-me. E assim foi feito. Lembro-me das primeiras chicotadas, lembro-me até mesmo do som que fazia o chicote antes de encontrar meu corpo, há muito débil. Das últimas não sei, nem posso afirmar se todas foram aplicadas, pois a morte apareceu-me antes do fim, mais de uma vez, mas enfrentei-a por instinto.

Ao anoitecer, jogaram-me água ao rosto, também nas feridas, para que, mesmo à beira morte, como nosso senhor, terminasse minha penitência. Quando, com a cabeça embaralhada, consegui abrir meus olhos, pude ver, ao longe, as luzes das fogueiras que iluminavam o quintal. À minha volta, como sempre estiveram, todos os negros assistiam, em silêncio uníssono, o prelúdio da cena anteriormente anunciada. Ao mover a cabeça de forma panorâmica, pude ver, pela última vez, ao longe, o menino Augusto, que ensandecido me fitava, impedido por muitos de avançar e ajudar-me. Enquanto o mirava com carinho, senti uma mão forte puxar minha cabeça para trás, era o sinhô Rodrigo, com grande prego em mãos. Antes de um piscar, furou-me. Sob tal castigo padeci, profundas marcas físicas ainda existem.

Quando, luas depois, acordei desorientado na senzala, uma doce voz de mulher veio acolher-me. Era a negra Rute, minha curandeira. Ao recobrar meu estado de espírito, há muito adormecido, e, antes mesmo que ela pudesse concluir suas palavras receptivas, indaguei:

— E o menino Augusto? Está bem o moleque? — Perguntei preocupado, caso descobrissem que ele, tal como a ovelha desgarrada, também encontrava-se no cenário maculado.

Rute, com exímia ternura, respondeu-me:

— O menino está bem. Corre todas as manhãs pela mata, caçando sabiás. — Disse-me, enquanto olhava para fora, por uma fenda na parede da senzala — Ele acredita que o canto deles podem lhe trazer de volta a luz.

O menino ainda não sabia, mas realmente podiam.

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