Rainha do Xeque-Mate.

Autor: Vitor dos Santos Cunha. (@vituu_o_flauteiro).

Co-autor: Péricles C. Lopes.(@periclesdacunhalopes).

@contosdesmawn (nossa página de contos).

@arte.laranja ( Artista da capa).

1

Sou invencível. Insuperável. Não existe jogador capaz de me destronar por essas bandas. Pobre infeliz. Esse rapaz que está sentado à minha frente acabou de cometer seu maior erro. Xeque-Mate. Acho que ele nem notou a burrada que fez ao avançar o peão à frente do bispo esquerdo para a posição F3 e o peão ao lado do cavalo para posição F4. Hora de receber meu dinheiro.

-Então, garoto! Você perdeu! Pode ir passando o dinheiro logo, tenho que ir comprar mais cachaça. – disse o velho forçando uma careta cínica e bebericando o último conteúdo da garrafa.

-Mas nem a pau! Essa partida foi muito rápida! Não valeu! Exijo uma revanche! – berrava o homem com um cavanhaque muito bem escanhoado colocando suas mãos na mesa e inclinando o corpo para frente.

- Está bem, está bem! Não vai fazer diferença mesmo. Mas vamos deixar isso mais interessante: quero o dobro ou nada feito.

O velho agora se reclinou, apoiando sua mão esquerda na coxa. O bafo de cachaça já se fazia presente, bochechas rosadas e olhos desfocados. Mas ainda assim aparentava saber o que estava fazendo.

-Ok, mas dessa eu vou começar!

-Não faz diferença se você começa ou não, o resultado sempre será o mesmo.

O desdém do velho era quase palpável. Soluços seguidos sugeriam algum descompasso interno.

-Muito bem, vou montar o tabuleiro. – O homem empina o nariz e faz um gesto como se estivesse convicto da vitória.

Caramba! Esse cara não começa o jogo! Acho que ele está queimando os últimos dois neurônios que sobraram naquela cabeça de bagre dele. Seria muito mais fácil se me pagasse e fosse embora..., mas não! É sempre assim. Não admitem que perderam e depois acabam por ficar sem o dobro do dinheiro apostado inicialmente. Tanto faz também. Só queria comprar mais bebida. Aliás, acho que a última garrafa estava estragada, pois estou sentindo meu peito quente e dando saltinhos. Mas isso vai passar com a próxima dose, certeza!

-Ei, amigo, você vai começar o jogo? Sabia que os bares fecham uma hora? Não tenho tanto tempo assim como você pensa, já está ficando tarde.

Sorria, mas não transpunha o que estava sentindo por dentro.

-Está bem! Não me aprece! Eu sei dos seus horários, seu velho pinguço.

O rapaz deu início a partida movimentando seu cavalo.

Esse cara se movimenta que nem um imbecil, mas acho que vou jogar um pouquinho o jogo dele. Deixar ter a sensação de estar ganhando. Deixe-me ver, acho que agora posso mexer a rainha para...que esquisito, estou sentindo uma dor fluindo pelo meu braço esquerdo e uma certa dificuldade em mover minha mão, parece que está pesada. Chega de bebidas por hoje! Vou acabar isso aqui e ir embora para casa. Cara, parece que estou vendo as peças dobradas. Dessa vez a bebida me pegou de jeito. O que será que tinha naquela bebida? Não...não é possível...compro aquela mesma cachaça todos os dias...só hoje que não está me fazendo bem.

-Ei, velho, você está bem? Parece um pouco pálido e seus olhos estão fundos. Medo de perder?

-Óóó, claro! Estou me tremendo de medo de perder! Vá se lascar lazarento! Ande logo com isso aí, pois quero ir para casa.

-Calma, estou pensando! Não quero perder dessa vez.

Ele está mesmo se esforçando, acho que deveria deixa-lo vencer, afinal. Não preciso desse dinheiro, mas também não quero perder meu posto de rei do xadrez. Já avistei tantas falhas nas jogadas dele, poderia acabar com isso aqui e agora. Mas não, vou dar um pouco mais de corda para o pobre coitado. Acho que ele vai tramar alguma coisa. Está encarando à torre e o bispo fazem minutos. Será que... não...ele não vai fazer isso...seria idiotice. Há! Ele fez. Idiota:

-Xeque-Mate...de novo! Rapaz, como você consegue sempre escolher a pior das jogadas? Manda logo meu dinheiro para cá.

O velho estendeu a mão direita e com a esquerda segurou um enorme soluço.

-Ta bom, seu pinguço, toma logo essa merda aqui e vai se tratar, parece que vai ter um treco!

O homem entregou o dinheiro. Saiu andando com passos pesados e soltando bufadas de quem está frustrado com a própria incapacidade.

2

O velho já estava se preparando para guardar suas coisas e partir quando notou que uma garota o observava. A menina que aparentava ter seus 10 anos, possuía cabelos pretos longos e encaracolados, morena, olhos com tons de mel. Carregava uma boneca abayomi no braço.

- O senhor já está indo embora? Não gostaria de jogar mais uma partida? Sempre passo aqui e vejo o senhor jogando e ganhando de todo mundo! É realmente muito bom!

-Hahahaha! Você, acha menininha? - Recolhia seus parcos pertences num ato ritualístico. O tabuleiro e as peças, como de costume, foram as últimas a entrar na bolsa esgarçada. - E onde estão seus pais?

-Não conheci minha mãe e meu pai foi morar no céu...

-Oh! Err...bem...que coisa, não? E...bem...você está aqui sozinha? – Olhou para ambos os lados a fim de avistar alguém que se responsabilizasse pela garotinha. Não entendia porque, mas apiedou-se daquela pequena criatura.

-Não, não...meu irmão cuida de mim. Desde sempre! É um anjo, ele sabe?

-Ah...claro! Seu irmão! Que bom então! E foi ele quem te deu essa boneca?

-Foi! Disse que me daria sorte!

-Sorte? Bah! Isso não existe, menininha! Ou você é boa em alguma coisa ou não é! Simples assim!

-Então o senhor não ganha por causa da sorte?

-Claro que não! Sou o melhor! O Rei do xadrez! Ninguém aqui na praça ganha de mim!

-Eu poderia ganhar...

-Hahahahaha! Você? Não me faça rir, porque meu peito já tá doendo!

-Humph! Vamos jogar, então!

-Não, para mim já deu, já bebi demais e creio que já ta na hora de eu ir para casa.

-Você tem certeza? Eu tenho dinheiro para apostar e estou disposta a colocar tudo em jogo. –Disse dando um sorriso de canto de boca e mostrando um rolinho de notas amarrado por uma gominha de dentro da boneca abayomi, que aparentemente também servia de bolsa.

-Ten...- Não conseguiu terminar a frase, pois era tanto dinheiro que seria chamado de louco se recusasse a jogar aquela partida.

-E então, o que o senhor me diz? Deixo o senhor começar!!!! Posso ganhar de qualquer um! Até do senhor!

-Há! Sua atrevidinha! Eu até ia embora mais cedo para descansar..., mas está bem! – Olhos fitos no rolinho de notas. - Sente-se, menininha! Vamos jogar!

Sentou. O Velho ficou em pé. Estava certo de sua vitória e que a partida se resolveria em poucos instantes. O dinheiro mais fácil que já ganhou em sua vida. Retirou o material da bolsa e distribuiu, com leve e incontido sorriso no canto da boca, as peças sobre o tabuleiro.

Iniciaram o jogo.

Vamos ver qual movimento ela realizará primeiro. Surpresa. Diferente do cara anterior essa daí parece saber muito bem o que está fazendo. Vamos ver, acho que vou mexer o peão para depois poder movimentar o bispo... não, talvez seja melhor movimentar o cavalo.

- Hey, senhor, você não vai jogar? – Disse a menina enquanto dava um largo sorriso. Os olhos cor de mel arregalados e brilhando.

- Calma, estou pensando...

Acho que consigo capturar a rainha dela se eu tentar induzi-la, ou vai ser muito manjada essa jogada... Bom, não saberei até tentar.

-Então garotinha, o que você vai fazer agora?

-Veja bem, você não reparou que seu bispo está exposto, reparou?

Diacho, ela me pegou nessa, fiquei tão focado em fazer com que ela deixasse uma abertura que esqueci das minhas próprias peças.

-Menos um bispo, senhor, o que vai fazer? - Ela estava tão certa da vitória, que nem se preocupou com os próximos movimentos que o velho realizaria.

Se acalma, se acalma, ainda tem muito jogo pela frente. Deixe-me analisar, se eu mover meu cavalo para lá... não, melhor não. Argh, que queimação maldita é essa no meu peito, não é possível que seja tudo por conta de bebida.

-Senhor, sua vez, não vai jogar? Você está pálido! E suando muito! Está bem? Quer parar?

-Não! Não é nada! Apenas foque-se no jogo.

Droga! Eu acho que não estou nada bem para continuar...não estou nem conseguindo decidir o que devo fazer. Mas não posso desistir agora. Moverei meu cavalo para cá. Bom, ela moveu o bispo. Dá para eu capturar se eu usar minha torre, mas antes vou ter que tirar meu peão do caminho...vou sacrificá-lo. Muito bem! Deu certo. Agora, vamos lá! Certeza que conseguirei chegar mais próximo dela com minha rainha. Perfeito. Está tudo sobre controle...mas essa dor miserável que estou sentido...Acho até que ela não está sabendo como reagir, creio que deve ter sido apenas sorte.

-E aí, menininha, você está ficando sem caminhos, o que houve? Você não seria aquela que me destronaria? –Disse com um tom intenso de soberba.

-Olha só, parece que alguém está de bom humor agora, mas lembre-se que antes de pegar o rato, o gato brinca com ele. -Piscou para o velho.

Não se sabe se foi o acaso ou a situação inusitada, mas aquela piscadela despertou o velho do transe. E percebeu que alguns passantes pararam para apreciar a cena que se principiava. Aos poucos um amontoado de pessoas rodeava a mesinha de pedra que os jogadores usavam para sua partida. Ouviu uns cochichando: “Velho safado! Aproveitando-se da inocência da criança!” Outros, achavam a situação engraçada e se divertiam com seu embaraço e hesitação diante das jogadas e sacadas da menina. Reconheceu ainda aqueles que, em outras ocasiões, já estiveram no mesmo lugar da menininha. Desses ouviu: “Tomara que seja uma dessas competidoras mirins...vai acabar com o papo do velhote!”. Ficou irritado com a situação. E voltou a sentir dor no corpo. Arrrgh! Essa menina sempre tem uma boa resposta para tudo! Está tentando me irritar! Essa é a estratégia dela! E agora isso: plateia! Bando de urubus! Estão achando que vou perder para essa...essa...menininha? Que vão se refestelar com minha carcaça? Carniceiros idiotas! Mas não importa! Não vai funcionar! Vou mostrar para ela...pra todos aqui...quem é o gato e quem é o rato! Só preciso achegar meu bispo na extrema esquerda... depois com a rainha na extrema direita...e realizarei o Xeque-Mate! Pode ser muito arriscado, pois deixarei o rei sozinho, porém tenho certeza de que se criar uma distração antes, ela não vai conseguir refutar essa jogada. Humm...já sei! Entregarei de bandeja minha torre!

-Você viu o que fez? Sua torre está muito exposta, esperava mais de você. –Levantou um dos dedos em sinal de esperteza.

-Droga, como pude ser tão descuidado. – Dissimulava tentando conter a ansiedade. –Ela caiu direit...

-Pena que você não disfarçou tão bem o que iria fazer... deixou tão explicita sua intenção... erro típico de um iniciante!

Merda! Mas que droga...o que farei agora...não tenho para onde sair. ARRRRRGH. Meu peito está fumegando...

-E assim, cerco seu rei com minha rainha e é o FIM DO JOGO PARA VOCÊ...XEQUE-MATE, VELHO!

3

-O que aconteceu aqui? – Perguntou uma moça bonita, daquelas com corpo curvilíneo de parar passeata, para o moço de cavanhaque que se encontrava na parte mais externa do aglomerado de pessoas que se formou em volta da mesinha de pedra. A mesma mesa em que ele mesmo jogara (e perdera!) duas partidas de xadrez para o velho pinguço.

-Eu não sei. Joguei com esse velho mais cedo. Perdi. Fui tomar um café na lanchonete ali na esquina e vi o velho falando sozinho...parecia alucinar...olhava para os lados, proferia xingamentos para o ar e movia as peças sobre o tabuleiro...como se estivesse jogando com alguém...de repente deu um grito e caiu no chão, morto. Deve ter ficado louco.

-Coitado...deve ter sido a bebida...

Enquanto conversavam, ouviram alguém tecer comentários jocosos ao reparar que entre os pertences do defunto havia, jogada no chão e um tanto encardida, uma boneca abayomi com alguns alfinetes no peito...

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