Terra em transe e outras loucuras*




*texto inspirado no Alan, na Thais e no Victor que não tem responsabilidade nas loucuras aqui ditas


São Tomás de Aquino afirmava não ser possível conhecer a essência de Deus, dada a sua grandiosidade que ultrapassava os limites de nossa capacidade mental. Ele propunha como alternativa para essa impossibilidade o uso de analogias. Como gosto de analogias, e considero Terra em transe um grande filme, ainda que muito chato, proponho algumas analogias para tentar entender melhor o filme e o contexto em que este estava inserido.


A analogia que proponho é com o Tractatus lógico-Philosophicus do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. Este livro escrito no início do século XX trazia no prefácio a pequena promessa de resolver todos os problemas da filosofia. A primeira analogia surge daí, o filme de Glauber Rocha tentava fornecer a síntese de todas as aflições que pareciam assolar indefinidamente o contexto da América Latina, criando a figura de um País fictício chamado de Eldorado. Tanto o livro quanto o filme tinham então grandes propósitos.


Quando lançado, o filósofo acusou seus pares de não entenderem o conteúdo do livro, que era realmente confuso. Bertrand Russel, que havia sido uma grande influência de Wittgenstein considerou que a grande contribuição do austríaco estava mais concentrada nos debates anteriores ao lançamento do que propriamente no texto.


Algo semelhante ocorreu com Terra em transe. Embora o filme tenha sido aclamado pela crítica no Festival de Cannes, no Brasil a recepção foi lamentável. Muitas pessoas que haviam criado expectativas após a tentativa do regime militar brasileiro de impedir a apresentação do filme na França saíram do cinema decepcionadas sem entender bulhufas do que havia assistido. Os que haviam entendido, principalmente os vinculados a alguma concepção política, saíram revoltados com a crítica áspera do autor tanto à direita quanto à esquerda.


As críticas contemporâneas às obras tanto de um quanto do outro foram cedendo espaço com o tempo ao reconhecimento da inovação e da síntese presentes nas obras de cada um. No caso de Wittgenstein, milhares de pessoas se debruçaram sobre seu livro posteriormente, retirando dele teorias que nem mesmo o autor poderia imaginar dadas as divergências severas que se criaram no campo da filosofia analítica do século XX, todas elas reclamando de alguma forma a paternidade do filósofo.


Com Glauber Rocha não foi diferente. Mesmo no círculo restrito da elite cultural brasileira, marcado à época do lançamento do filme pela concepção de que a cultura deveria encampar a luta revolucionária conduzindo a massa iletrada, sem perguntar a opinião desta, o diretor passou a figurar como um dos maiores realizadores do cinema nacional, especialmente depois da ineficiência dessa esquerda em mobilizar os trabalhadores contra a imposição do Ato institucional de numero cinco e todo o regime de exceção que se seguiu a este. Terra em transe é hoje visto como a obra que mais representou a proposta do Cinema Novo e a hipocrisia de certa ala esquerdista da época.


Existe ainda outro ponto de semelhança entre as duas obras sendo este ainda o mais interessante. As duas acabam provando com seu próprio conteúdo o objeto de suas críticas. Sendo assim, tanto o livro de Wittgenstein, quanto o filme de Glauber Rocha ao mesmo tempo em que fazem uma crítica a um determinado objeto, também estão inseridos neste objeto criticado. Ao invés de produzirem uma obra que fosse se contrapor aos princípios que estavam criticando, eles preferem a partir deste princípio criar uma obra cheia de contradições.


No caso de Wittgenstein, ele empreende esta obra desta forma: o seu livro é dividido em três partes, sendo a primeira referente à natureza do mundo, a segunda parte referente à natureza das proposições e a terceira parte referente à natureza do que não pode se dizer. No entanto, (e ressalve-se que essa não é a única interpretação possível da obra, mas é a que convém aqui no texto) aquilo que não se pode dizer acaba abarcando toda o livro, limitando-se assim a própria tarefa filosófica de dizer algo relevante do mundo, provando assim que a filosofia não pode cumprir o papel da ciência e deva ser apenas reflexiva. Ou seja, seu próprio livro é uma tarefa empreendida para não se provar nada, e todos os livros de filosofia acabam caindo nessa nova ontologia do que não se pode dizer.


No caso de Glauber Rocha, seu filme tem vários propósitos. Um deles cabe ser ressaltado aqui, a mensagem passada de que a esquerda daquele contexto tinha pavor do povo falando por ser habitada por um certo elitismo intelectual. No entanto, qual o meio que o autor usa para passar essa mensagem? Um filme que é totalmente recortado de maneira não linear e que conta com mais versos de poesia que diálogos. As referências filosóficas e poéticas ao mesmo tempo que mostram a hipocrisia dessa esquerda servem para afastar qualquer pessoa pouco afeita a esse tipo de linguagem, que deveria ser o público alvo da mensagem. Assim o próprio filme acaba se constituindo de uma peça que por mais que carregue elementos de um grande filme, se constitui num tormento para quem está assistindo.


Sabem quem mais faz esse tipo de coisa? Eu mesmo, por isso esse texto está escrito de maneira totalmente horrível, cheio de passagens longas que ninguém consegue entender, pois eu tinha a intenção de fazer referência a essas duas peças que por carregarem grandes mensagens, e serem difíceis de decifrar acabam contando com muita coisa em comum e que não poderiam ser decifradas em um texto por alguém preocupado com o leitor. Se você chegou até aqui, me desculpe.

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